O Almocreve

DA INDÚSTRIA

I

Mário está desconfortável. Não que o sofá onde pela primeira vez se senta seja a causa desse desconforto. Bem pelo contrário, até porque apenas agora compreende que talvez seja este género de pormenores que estabelece a diferença: A qualidade da pele, como é que nunca pensei nisso? Se há ponto que coincide, entre o cá e o lá, é o de que alguém, num determinado momento, irá experimentar um destes sofás, os de sala de espera; e eu nunca pensei nisso. É praticamente o primeiro contacto do cliente, do visitante, do mecenas ou do ladrão, mais ou menos fidalgo, com o conteúdo da empresa, instituição ou lugar; e eu nunca lhe dei o devido valor. É aí que, pela primeira vez, se sente o conforto que a coisa tem para nos dar; e eu, vulgo idiota, optei por desprezá-lo ao invés de explorá-lo. Sentimo-lo, ainda que inconscientemente, e estes gajos sabem disso; e não o desprezam, como nós lá o fazemos, nem se permitem a qualidade inferior à desta. Veludo, talvez. Nunca fui muito bom em pormenores de tecidos e materiais – a minha Lúcia sim, é exímia nisso – mas, agora que aqui estou, é inevitável pensá-lo: Como é que não previ, num plano de negócios tão extenso e tão elaborado e tão complexo e que me durou meses de pesquisas e de estudos e de concepção, como é que não previ a inclusão de um sofá destes? Pensei nos quadros, do Paulo Maldenim, que com certeza virão a valer bem mais do que o que dei por eles e até do que este sofá – o Paulo é a nova coqueluche da pintura digital portuguesa e Maldenim é o seu misterioso nome artístico – mas passei ao lado do supra-sumo da sapiência. O Paulo caminha a passos largos pelas longas horas que antecedem os seus 5 minutos de fama e, inclusive, até teve aquele episódio do russo que lhe comprou os outros quadros por uma quantia bem mais interessante. Foi a sorte da Nonô nos ter apresentado, talvez. Amigo não empata amigo e ele se calhar pensou que sairia a ganhar mais comigo do que eu com ele. É possível, toda a gente olha para o mundo do cinema como sendo a distância que separa a realidade do sonho. Os parvos, mas o Paulo não é parvo nenhum. Se calhar a cena dele nem é a de fazer dinheiro com os quadros. Ele pinta porque gosta. Dois mil euros por dois quadros já é um bom valor, em qualquer parte do mundo. Foi por isso que me apressei a falar com o Paulo para saber por quanto mos vendia. No entanto, para tudo o resto, dei-me por satisfeito com a panóplia dos suecos. Fui rigoroso com os quadros e um banana com os sofás. Jogada de cepo, puro exemplo do estado embrionário que carrego nesta indústria de tubarões. Não que menospreze os suecos. Nenhum empreendedor o poderá, é coisa de manuais. Mas veludo é veludo. Classe é classe. Conforto é conforto. Negócio é negócio. E conhaque é conhaque. Esta é a indústria em que, acima de tudo, se torna mais importante a pele do sofá em que o prospector se senta do que a integridade das obras que lhe são apresentadas – a estética do conforto é imediata; a da obra é contexto. E tudo o resto é conversa. Estes gajos não são parvos, não.

Mário está desconfortável. Não que o fato que hoje, neste dia tão especial, decidiu vestir, seja a causa desse desconforto. É o melhor fato da sua colecção. O mesmo que usou no dia do seu casamento, por sinal. A Lúcia é que o escolheu – ela não falha nessas coisas e, sinceramente, nunca eu gostei tanto de me rever em fotografias como naquelas do dia do casamento. Sinto calor e ajeito o colarinho de novo. Já senti mais vezes a transpirada gola da camisa grená durante esta hora do que em todo o dia da união matrimonial. Com o peso de todos os celestialíssimos votos que, então, acedi em aceitar. Nunca foi minha ideia envolver as palavras Dele na nossa relação. Não é que eu não acredite Nele, só não O vi muitas vezes. E, aliás, da última vez que O vi nem estava com a Lúcia, naquela tarde-noite de Verão no Hyde Park, em 2009. Foi naquela excursão da malta do Birras – o café de dia, bar de noite que eu e os meus amigos de Castelo Branco adoptámos enquanto segundo lar pelos largos anos de adolescência – às terras de sua majestade, de príncipes mediáticos e de autocarros vermelhos. Já a roçar o lusco-fusco, o Boss anunciou-O, como bom pastor que é. Depois disso foi vê-Lo insurgir-se, no clímax da Racing In The Street. Aí sim, transpirei bem. Mas não foi com esta camisa. Foi com aquela velhinha t-shirt dos Clash; eu sabia que o Boss puxaria a London Calling algures naquele dia e o Boss não falha. Foi aí a última vez que nos presenciei, a nós, resquícios da Humanidade contemporânea, em conjunção com o acto celeste. De mãos dadas e casa construída, como o grande Bruce minutos antes anunciara. A nossa casa, erguida nos alicerces do amor, na batuta da guarnição humana. Foi por isso não me opus à Sua intromissão na minha cena com a Lúcia – é que a presença Dele, quando a mesma se confirma, é bela demais para se menosprezar. Bastou lembrar-me da primeira vez que O vi; bastou lembrar-me daquele final de tarde de Abril, em Santos, mil novecentos e setenta e quatro. Aquele momento em que finalmente, já o sol ia na sua rota descendente, o meu Pai nos deixou sair ao largo e celebrar – inocência a minha, de celebrar liberdade sem contextualização possível – mas foi no sorriso puro e na alegria daquelas pessoas que vi estender-se o manto pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente do processo, apesar de garoto. E do par de anos a mais da minha Irmã que, com as suas sábias palavras, completou o iluminismo: «Marinho, Ele existe.» Bastou lembrar-me de um ponto nos meus já cada vez mais longínquos 6 anos de idade, para ceder nas intenções da Lúcia. Só podia ser boa, tal transcendência a pontuar a nossa relação.

Mário tenta recuperar do calor que sentiu enquanto vinha a caminho do Thirty Thirty Hotel, na 29 East da 29th Street. Foi uma sorte encontrar este hotel a este preço. Estava a cinquenta por cento do preço habitual. Nunca pensei pagar tão pouco por um quarto em Nova Iorque. Os dólares continuam atractivos e por cerca de quarenta euros é difícil hoje em dia dormir em Lisboa. Quanto mais em Nova Iorque – onde a desvalorização do dólar parece ser mito – num belo hotel a apenas um quarteirão de distância da produtora do Ed. A cerca de 15 minutos, com passagem pelo Starbucks incluída, do lendário Ed. O homem que se tornou lenda pela capacidade invulgar de escolher peles de sofás. Sem dúvida. Os filmes são apenas um epílogo, no processo. É tudo uma questão de tacto. Como é que nunca pensei nisto antes? Valorizei sentidos inoperantes, nesta indústria. O ser humano quer é conforto, não é arte. Sou muito ingénuo, cada vez o sei mais. O dinheiro vem de quem tem poder. E quem tem poder gosta de conforto. Cada vez menos gosta de arte. Como é que eu nunca pensei nisto, de tão óbvio que é? Como é que eu pude sentir qualquer ímpeto de empreendedorismo sem primeiro ser mestre neste tipo de tópicos – o básico dos básicos. O ser humano é ingrato. Menospreza a visão, prefere o tacto. Depois fica cego e chora. O início do ciclo. E eu nunca pensei nisto.

Mário olha em redor. Alguns gabinetes envidraçados, transparentes, constituem a paisagem que o rodeia. É um escritório iluminado, graças ao brilho que reflecte da invulgarmente imensa quantidade de vidros. Não é muito grande, enquanto escritório, mas tudo está exageradamente limpo e é capaz de fazer justiça ao charme dos lucros dos avolumados negócios que aqui são processados. É igualmente capaz, ao mesmo tempo, de se traduzir na perfeita analogia dos intervenientes dos mesmos processos – a limpeza e o talento e a qualidade dos ocupantes. Tudo é exímio; tudo é parte do plano. Brilhante. Se a fama que temos desta gente é a de seres sobre-humanos, com uma sensibilidade e uma aptidão para o negócio tão incrivelmente ofuscantes, é na observação desse encandeamento que entendemos a metáfora. Tudo aqui é grandioso, pela transparência com que nos é exposto. Qual Feng-Shui. Muito mais à frente. Arquitectos paisagistas, psicólogos, videntes – um bom executivo, nesta indústria, tem que ser excepcional nos capítulos todos. Os Clark Kents. Os Clark Gables. E, paralelamente, os Larry Clarks do negócio. Fortes, bonitos e sem pudor. Aqui percebemos, enquanto aguardamos neste fabuloso sofá, que não somos um mero cliente. Percebemo-nos, desde logo, parte do processo. Parte do negócio: um pawn, um membro do tabuleiro. Somos o número 10 da equipa, um diamante por lapidar – e é a pele do sofá em que nos sentamos que nos diz isso. Faz toda a diferença e eles sabem-no. Sentir, também nós, o requinte. Um cheirinho do jogo que eles jogam. Metem-nos a bola nos pés, desde logo. Como um treinador confiante, que nos tira da Marisqueira dos Pobres e nos atira para o El Bulli, o laboratório do Ferrão. Não é só a comida que conta, no fundo. É a experiência. O requinte. O conforto. O segredo está na psicologia e no operar dela. No entrar a receio ou no participar enquanto convidado. Andamos nós por lá, meros operários, a tentar singrar na indústria dos tubarões, procurando mostrar-nos num degrau muito acima daquele que realmente pisamos e a esconder a real pele do cordeiro. Eles, cá, sentido inverso: metem-nos as cartas desde logo em cima da mesa, viradas para cima. Mostram o que são, logo desde o primeiro contacto, logo desde o sofá. As nossas decisões são todas fúteis, erradas, contrárias à lógica da coisa. Não percebemos nada do jogo, mas fingimos que percebemos e ignoramos o benefício da humildade. O Ed é um lobo-do-mar; navega estes mares como poucos. Só pode ser judeu. Lobby famoso, esse. Até nós, tão pequeninos que somos, sabemos que os americanos dominam esta indústria porque levam anos de operações judaicas em cima da matéria. Nasceu neles o sonho americano. Foram eles que o exploraram e são eles que o usufruem. Pode andar moribundo, o termo, mas é sentimento que sobrevive. A definição do americano é hoje tão dispersa que o legado mais visível é o da prepotência que essa sagacidade judaica ajudou a fundamentar. Se a América é hoje uma nação, são eles os seus sustentáculos. Os que souberam montar uma estrutura sobre esse sonho, sobre esse conceito, sobre esse ideal. Os que souberam vestir o fato-macaco e arregaçá-las para as glórias yankees pairarem omnipresentes. Eles, os que têm a mestria da manipulação na psicologia do comércio. De escolher peles de sofás e de erguer universos capitalistas com base no brilhantismo do seu proletariado. Mark Sandman, por exemplo. Um judeu de Massachusetts, que nunca teve problemas em sujar as mãos. Trabalhou nas obras, conduziu táxis e até chegou a pescador. Pouco depois tornou-se lenda. O senhor Morphine, essa banda icónica, que acabou convalescendo em palco. Derradeiro passo para o trademark, que a coisa é pensada do início ao fim, nesta máquina industrial. Lutador digno, merecia outro destino. Uma vida mais longa, talvez. O poder de optar entre uns anos mais de sorrisos e de emoções a troco da imortalidade post-mortem. Será esse o preço que se paga, o da inevitável tragédia? Talvez seja altura de darmos mais atenção aos nichos judaicos, lá em Portugal, antes que o presente passe a passado e para a eternidade só fique a memória. De indústria percebem eles e nós temos um PIB e um abominável défice das neves para resolver. Se os gajos fizeram disto o que isto hoje é, qual seria o limite num retículo como o nosso? Era vê-los a disparar por essa ZEE fora, cada vez mais diminuta. Três galeões por cada metro quadrado; três zilhões por cada cardume. Era vê-los a sujar as mãos. A levantar barreiras. A marcar posições. A negociar. A produzir e a negociar ainda mais. A içar bandeiras e a contar os reis – mas os impressos. Falta-nos um líder, é o que é. País e pátria temos. Venha de lá um judeu, que eu não me importo. O que eu quero é sair desta asfixia. Já canta o Fachada, que não quer ser mais que pai babado; também eu, mas hoje em dia ‘tá difícil. Até podia vir lá o Ed, a governar aquilo e a promover desde logo uma remodelação interna dos sofás das salas de espera, nas urgências de norte a sul. Imagino o povo, ao ler tal notícia nos jornais. O 5 de Outubro passava a ter um irmão maior. Não somos muito dados ao out of the box, como bons plebeus que somos. Apesar de termos tantos e tão bem formados, sem sítio onde poisar, custa-nos a entender certas coisas. Tipo os pombos do Rossio. Mas esses ainda recebem umas migalhas dos nossos pensionistas – essa classe quase extinta. Os outros não recebem nada. Venha de lá um judeu, que pode muito bem ser o que precisamos. Nem que seja por retribuição ao Aristides, que bem merecia outra glória no legado português. Não foi esta a sua pátria, seguramente. Ajudou-vos e inseriu-vos, sem do vosso talento beneficiar? Onde estão vocês, nosso judeus, e que país me saíste, Portugal? Que bandido te tornaste, quando aos nossos burgos roubas toda a integridade para te manteres no país singular que és, de espiral melancolia? Onde está essa História, gloriosa, que um dia criaste? Onde estão essas gentes que outrora apadrinhaste e, nas penas de Camões, imortalizaste? Esses igrejos avós que, contra os canhões, marcharam, marcharam? Hoje o mundo tem fado, mas sumiram-se os heróis e os pretextos para o cantar. Continuam os que ficam; os saudosos que orgulhosamente apregoam a única palavra inteiramente nossa. Tão nossa, literalmente. E depois há os que vão e os que lutam. Mas por si próprios, apenas e só, que Pátria já vai longe. Nem a Europa, em toda a sua multicultural unicidade, é hoje mais do que um solo infértil. Ainda que invariavelmente procure contrastar as ferrugens dos caixilhos renascentistas com os néons dos modernistas. O reino dos déspotas. Os mamões que há anos subjugam o mundo a seu bel-prazer. Séculos de luxúria e de mercenarismo. Fizeram mais os alemães nos últimos 50 anos do que nós nos últimos 500. E fizeram-no depois de abdicar das qualidades comerciais da maioria dos judeus. Após um mea culpa horrendo de não de uma, mas de várias gerações; esse fantasma, esse estigma que os perseguirá até ao fim dos seus dias. E nós somos isto. Nem uma coisa, nem outra. Somos aquele pedaço de terra que fica a meio caminho. Demasiado perto do fora da Europa e demasiado longe da afiliação enquanto 49º Estado Unido. Não somos uma coisa, nem outra. Eu até sou bastante patriótico, mas não me dão ninguém em quem acreditar, para além da bandeira. Acreditar na Pátria, por si só, já não chega. Não quando tudo está em desuso, em constante cadência identitária. O Cristiano Ronaldo não é o Dom Sebastião. Nem o Berardo, o Belmiro, ou o operário Amorim. Deixem-se de ilusões e deixem-nos em paz que a cada macaco o seu galho e macaco velho não se senta em ramada seca. Precisávamos era de um judeu a mandar naquilo! E ponto final.

Em todo o escritório, apenas um gabinete tem paredes revestidas de cimento. Mário está sentado na direcção da porta que separa esse gabinete do restante espaço e observa-a, em silêncio. Um forte, pensa. As muralhas e o portão do castelo. Ainda que uma fortaleza simples, esta não perde o seu esplendor quando confrontada com toda a glória conotada – lá dentro está o Ed. É o que se ganha quando se atinge este estatuto. Protecção. Invulnerabilidade. Um dia serei eu. Embora trocasse tudo isso pelo reaparecimento do Dom Sebastião. Ainda que, afinal, ele até fosse o Cristiano Ronaldo.

O ambiente envolto contrasta com a actividade expressa por Mário, que aguarda com aparente nervosismo. Boceja repetidas vezes, enquanto observa o ambiente. Apesar de sempre ter idealizado este tipo de ambiente para a sua carreira profissional, agora que o vive sente-se inquieto. Como um peixe fora de água, quando sempre pensou que este seria o seu habitat natural. Duvida se a origem dos bocejos se deve aos nervos que carrega – não sendo mais do que aquele gesto que se habituou a adoptar como comportamento de segurança. Ou se é apenas decorrente do processo lógico do jet lag que o incomoda há meia-dúzia de horas. Cá passam poucos minutos das nove. Muita deste gente ainda nem sequer tomou o pequeno-almoço. Em Portugal já se come no Guedes. O que aumenta as hipóteses para três. Se calhar os bocejos são mesmo por sentir a falta dessas refeições incomparáveis. Já lá vão cerca de três anos, de 2ª a 6ª, praticamente sem excepção.

Mário olha em redor e observa a concentração com que os executivos analisam os daily issues nos seus netbooks. Acho que é esse o termo que cá utilizam – daily issues. O termo politicamente correcto para as centenas de emails que eliminam enquanto respondem com templates a dizer que, por motivos de segurança, terão de apagar os guiões não solicitados que centenas de pobres coitados pretendentes enviam. Esses sim – argumentistas, essa classe que um dia fez greve e parou o mundo – os sonhadores, os amantes e os entusiastas do género. Esse verdadeiro proletariado do cinema, que se desunha para ter um tiro de sorte e que no fundo, neste meio, conta pouco mais do que merda. Nós, lá, contamos sempre com pelo menos quinze minutos de zapping cibernauta ao começar do dia. A Bola, o Record, o Público e mais um ou dois blogues de nomeada. Pelo menos eu e o Diogo somos assim. Sendo que há sempre mais um ou dois minutos para picardias. O lampião e o lagarto. Eles cá de certeza que não perdem tempo nessas merdas. Nem ligam ao futebol, sequer. Soccer, chamam-lhe eles. Ridículas, ambas as coisas. Ou talvez não, bem vistas as coisas, porque em quinze minutos conseguem-se negócios. Em quinze minutos descobre-se o guião que mudará o rumo da história do cinema. Em quinze minutos vêem-se 3 curtas no Vimeo e descobre-se um novo talento. Em quinze minutos convence-se um Brad Pitt ou um Tom Cruise a assinar um contrato. Quinze minutos é muito tempo. Já aqui estou há cinco e ainda só vou a um terço. Segundo o Paulo Coelho, a Maria levava 11 minutos. Tempo é dinheiro, sem dúvida. E eles aqui sabem disso – é o legado judaico. Mas o football até foi inventado em Inglaterra. É a natureza destes gajos. Apoderam-se de tudo. Dão-lhes nomes, conceitos e ainda operam na unificação global do desporto em causa. Ainda que não dispensem tempo na sua apreciação, capitalizam-no. Hoje o futebol é Nike, na sua larga escala global. Essa label de Oregon, um dos pulmões do Tio Sam. Eles aqui não brincam e o nosso Dom Sebastião alinha na estratégia – que o digam as suas novas Mercurial, chuteiras irrepreensivelmente projectadas para serem vistas em alta velocidade. CR7 é dinheiro e ironia é isto – o rapaz é madeirense. Tudo isto é cinema, para nós. Tudo isto é media, para eles. A função fática da 7ª arte; uma via para as suas expressões políticas. Fazem das galas, assembleias. Parlamentos universais, com transmissões em directo. As celebridades são os políticos. As passadeiras vermelhas e as estatuetas douradas. Todo o mundo assiste em directo. Estes gajos são máquinas e têm plena consciência disso. Mudam o curso da história em cerimónias de 3 horas, com tendência a diminuir. Aliassem eles essa qualidade ao solo africano e à disciplina oriental e poderíamos todos ser já hoje um Estado Único da América. Pode ser que agora as coisas mudem, entretanto. Não que dedique muito do meu tempo a essa consciencialização social metafísica. Mas hoje, aqui, está nas minhas mãos a mudança do rumo da Mentecapta Filmes. Ainda hoje não estou muito certo do nome que o Diogo escolheu para a nossa empresa. Mas eu também não arranjei alternativa melhor. E temos que concordar que até é de uma ambiguidade engraçada. O lendário Ed não permitiria outro nome à sua empresa que não fosse Ed Films. Tudo bem que antes de ser lenda nunca haveria espaço para uma companhia com a bandeira do seu nome. Mas o Ed, de facto, é um gajo que esteve ligado aos grandes nomes dos anos 70 e dos anos 80 e, por fim, estabeleceu a sua multipremiada companhia nos 90. Cerca de 20 anos depois de ter começado a conquistar sucessos, cerca de 20 anos a ajudar a estabelecer a história do cinema recente – a história do cinema que nós nos habituámos a acompanhar desde putos. Hoje em dia só existem os Spielbergs e os Scorseses porque por trás do pano existiram gajos como o Ed a permitir que as coisas acontecessem. Ainda nem sei bem como consegui este convite. A mim, um produtor português – pequeno até em Portugal – que até à data apenas conseguiu levar uma semi-amadora longa aos cinemas e a uma dúzia de salas nacionais, por sinal, todas elas em Lisboa. Ainda nem sei como conseguiu este convite a Mentecapta Filmes, cuja ambiguidade do título ao Ed não diz rigorosamente nada. Mas este guião é bom. O puto fez mesmo um bom trabalho. Só a premissa cativa logo. E tão rápido fomos convencidos a pegar neste projecto como o lendário Ed o foi a chamar-me cá. Se bem que eu não passo de um mero peão nisto tudo; e tenho plena consciência disso. Tanto eu como o puto. É um jogo a dois, entre o Ed e o guião, apesar deste sofá me fazer sentir como interveniente no processo. Mas a verdade é que ou o Ed decide mesmo pegar no jogo ou tudo isto fica no limbo do costume. Porque é um filme para meia-dúzia de milhões. E ninguém em Portugal, e até mesmo na Europa, consegue bancar tanto dinheiro para um filme. Referindo-me aos programas de subsídios, claro. Que mecenas já os não há. Nem eles nem as leis que os incentivem. Conseguirmos sacar duzentos mil euros a fundos da união europeia, na altura, para esse primeiro filme, foi uma espécie de milagre pós-apocalíptico. E, sinceramente, acho que depois de saberem que apenas levámos duas mil pessoas às salas, fechou-se a porta que ainda mal se abrira. Nem as menções honrosas que recebemos em alguns festivais alteram esse cenário. O que é um facto é que caiu do céu, este convite do Ed. Tão rápido como o nosso nome caiu em desuso nas lides cinematográficas dos últimos tempos. É esse o poder de um bom guião – até os mortos levanta. Steve Haynes, é esse o nome do santo milagreiro; o braço-direito do lendário Ed que pegou na premissa e que a considerou interessante. Foi ele que nos requisitou o guião e que, num par de horas depois, nos respondeu a dizer que o Ed queria pegar no projecto. Um verdadeiro fenómeno, pelo que li sobre ele. É googlar o nome dele e ficar impressionado. Capa da Variety e tudo – um dos 10 next big things na indústria cinematográfica. Um puto de 27 anos que o Ed descobriu; em Columbia, acho. Fresquinho, saiu do anonimato graças a uma pergunta que colocou, ainda enquanto aluno, numa das concorridas palestras do Ed. Não sei exactamente qual a pergunta. Mas não deixa de ser curioso que inúmera gente boa procura e batalha toda uma vida por essa oportunidade, sem sucesso e o Steve conseguiu-a, à primeira, quase por acaso. No mês seguinte já aqui estava, sentado numa destas secretárias, mais de cinquenta por cento da metáfora. Diz-se que, por semana – em horário de trabalho – o Steve lê 5 livros, 20 guiões de longas e ainda consegue ter tempo para se envolver na produção de outros projectos: a escrita de artigos para a Empire e de crónicas para o NY Times. É um agente, um director criativo, um development executive ou o chamado canivete suíço, daqueles que em Portugal não alcançam mais do que estágios curriculares, e sem remuneração. É um faz-tudo aqui da casa e é o principal responsável pelos maiores e melhores projectos levados a cabo na indústria cinematográfica recente. Foi ele que revitalizou autores como o Malick, o PT Anderson e o Andrew Dominik, quando o resto dos grandes estúdios os considerava inaptos por riscos de box office. Foi o génio do Haynes e o dinheiro da Megan Ellison, jovem herdeira visionária de uma das maiores fortunas norte-americanas. Felizmente, decidiu apostá-la em cinema. Em bom cinema, com a palavra do Ed. Equipa de sucesso, ímpar neste meio, e é uma honra para nós, e especialmente para o puto, atrair o interesse de alguém como o Steve Haynes. Ele é aquele tipo de gajo que tem o poder de mudar as coisas de um dia para o outro. Tem tudo aquilo que é preciso para vir a ser uma lenda. Para ser o próximo Ed. E ambos sabem disso e ambos se divertem enquanto ditam as regras e as modas do cinema contemporâneo. Maior elogio nos é devido quando desde a resposta do Steve até o eu estar aqui sentado neste maravilhoso sofá de pele passaram-se apenas 72 horas. Por isso é também ainda mais admirável o preço a que consegui o hotel, a apenas um quarteirão da Ed Films. Ainda nem tive tempo para visitar a Times Square, ou o Central Park, apesar de já ter visto a Estátua da Liberdade, ao longe e uma manada de táxis amarelos, ao perto. Deu também para dormir umas horas, que não foram muitas. A maioria foi no avião. O puto devia ter vindo também. Ele tem mais jeito para falar sobre o guião do que eu. Mas eu tenho mais jeito para o negócio. Ele por vezes, como artista que é, divaga demasiado e a Mentecapta não pode vacilar nesta chance. A partir do momento em que entrar naquela porta, a nossa vida vai mudar. O jogo pode ser entre eles, mas o árbitro sou eu e vou tratar de certificar-me que daqui em diante o árbitro é quem manda. Não vai ser fácil, tentar dizer ou contrariar o que quer que o lendário diga. Mas se eu soubesse que seria fácil não me tinha aventurado nesta área, logo de antemão. Afinal, o passo principal está dado. Já sobrevoámos o Atlântico, como sempre quisemos. A indústria é aqui, deste lado. O principal objectivo de qualquer empreendedor que se preze nesta área é estar aqui nestes jogos – nunca eu pensei, ao fazer tal plano de negócios, que chegaria aqui tão rápido. E, agora, não pode haver passo atrás. Não são mais nem menos do que o lendário Ed e o iluminado Steve Haynes que estão dentro daquele gabinete. Eles mesmo; o presente e o futuro da indústria cinematográfica tal qual a conhecemos. Ali dentro, neste forte. Mas a última palavra será minha. Estes gajos podem ser tudo isso e muito mais. Podem ser mundos e fundos, sultões e barões. Podem ter sofás de pele, escritórios brilhantes, ferros e fogos. Mas eu, como bom português que sou, tenho a faca e o queijo nas mãos. Um queijo da serra. E chega.

Dois Mil e Onze

Foi um bom ano, a nível musical. Recheado, pelo menos.

Direi que me marcaram, essencialmente, as reconquistas. Tal epíteto, estóico, paira associado a capítulos gloriosos.

Posso hoje crer que, 2011, quando instalado na história e olhado pelo retrovisor, viverá nesse espectro de poderes das reconquistas – tão ou mais gloriosas que aquelas de primeiro acto ou de primeiro impacto.

Assim o será. Na minha memória, pelo menos.

O facto ainda mais se adensa quando nesse jogo paira o tradicional assombro do segundo álbum. O segundo passo desse tal primeiro acto ou impacto que chegou, viu e venceu. Mas, e depois? Que fibra esconde o herói para lá das visíveis cicatrizes? Com que mais argumentos se superioriza o esteta às firmes leis da física?

De reconquistas rezam poucas memórias, até porque só os realmente virtuosos se permitem a tal título.  Nem na História Portuguesa houve espaço para um Reconquistador. Tivemos o primeiro, Conquistador, Pai de uma Pátria, que chegou, viu, venceu e deu espaço aos demais. Houve também, pelo caminho, um Restaurador (cuja glória e dignidade implícitas à personagem e ao acto que a imortalizou certamente se assumiram como protagonistas no, porventura, maior duelo que o romantismo lírico e a consciência política de Saramago travaram ao longo dos seus 88 anos de vida). Mas não houve um Reconquistador. Não é fácil obter tal estatuto. Tal luta tão arriscada que nem o nosso dicionário “oficializou” o termo.

Podemos, por isso, perceber a dimensão (ou apenas aderir à metáfora) que o semblante dos três álbuns musicais que mais me marcaram ao longo deste ano carrega nesta reflexão. Ouro, prata e bronze para os Reconquistadores.

Três casos tão distintos e tão semelhantes, que à primeira glória falaram bem alto, mas a mim pouco de significativo me disseram. E, este ano que findou, em novas expressões, atingiram o objectivo. O nosso espaço foi deles, este ano. Materializaram-se as reconquistas. Bon Iver e Justice, à segunda. Black Keys à nona. Mas, ainda seguindo pela analogia, neste último caso pode-se considerar que o “Brothers” foi a primeira vez que os Black Keys falaram bem alto. Tal como o “For Emma, Forever Ago” e o “Cross”, foram álbuns que falaram bem alto, mas aqui no Royal não se conseguiram assumir como esperado. Não me perguntem porquê, que muitas oportunidades tiveram. Dessa vez, houve simpatia. Desta feita, relação. O poder da música no seu pleno. As Reconquistas dos virtuosos.

OURO

PRATA

BRONZE

Menções Honrosas

 

 

  

 

 

Foi esta a banda sonora de 2011. O ano em que pela primeira vez um álbum de Radiohead não me conseguiu convencer. E o ano em que, apesar da minha teimosia em não querer aceitá-lo, o “Mylo Xyloto” tão rápido chegou como igualmente depressa saiu. É que a “Hurts Like Heaven” conquista. Mas o resto não.

Este ano selecciono apenas uma música como a música do ano. Não podia ser outra.

E dos filmes que vi (que não foram muitos), apenas uma menção para os seguintes.

BLACK SWAN

DRIVE

TREE OF LIFE

MIDNIGHT IN PARIS

MONEYBALL

SUBMARINE

THE KING SPEECH

E para 2012, uma novidade.

O Royal Cafe vai-se transformar, apenas durante este ano, numa plataforma de publicação de um livro. Diz-se que 2012 é o ano do fim do mundo e eu não quero que isto acabe sem ter um livro publicado.

Posto isto, auto propus-me a este desafio. Cada mês vou publicar um capítulo do livro. O livro será composto por 12 capítulos e o 1º capítulo será publicado no dia 20 de Janeiro.

Segundo o calendário Maia que previu o fim do mundo, o dia do juízo final está agendado para 21 de Dezembro de 2012. Como tal, o último capítulo do meu livro será publicado no dia 20 de Dezembro de 2012 e, mesmo que o mundo não acabe no dia seguinte, poderão ir sempre a tempo de considerar este meu projecto como a vossa prenda de natal do próximo ano.

O livro intitula-se “O Almocreve” e a partir do próximo dia 20 vão poder começar a acompanhar esta aventura.

Como tal, o Royal Cafe dedicará 99% da sua actividade à escrita e publicação mensal dos respectivos capítulos (ocasionalmente iremos continuar a contar com a presença de alguns convidados, como aliás já é hábito aqui no Royal). Vai ser um enorme desafio, esta mudança temporária de conceito. Mas de outra forma corro o risco de o mundo acabar e de não cumprir este objectivo pessoal.

Espero que gostem.

Ano novo, vida nova.

Royal Cafe Convida: Jorge Cruz

O Royal Cafe tem a honra e o entusiasmo de vos brindar com a visita de um dos mais interessantes músicos/autores da actualidade portuguesa ao nosso ilustre espaço.

Por muito que eu me quisesse esforçar em encontrar as palavras que ajudassem a descrever adequadamente a vida e obra do Jorge, nada se encaixaria melhor do que a auto-descrição que o próprio disponibilizou na sua página de Facebook.

Passo a transcrevê-la:

«Nasci na Praia da Barra, no seio de uma família descendente de padeiros e guardas fiscais. O meu pai era treinador de futebol e a minha mãe cozinheira de chanfanas. Fiz a escola primária num colégio de freiras onde fui introduzido à fé e à religião. Aos fins-de-semana visitava militantes do PRP na prisão de Custóias. Com 10 anos, parti para Angola. Estudei na Escola dos Flamingos Cor-de-Rosa, Lobito, Benguela. Fui aprendiz de pesca em mar-alto sob vigilância de militares cubanos. Iniciei o treino em ginástica desportiva com o campeão mundial russo Lev Smedianov, embora a composição de refrões pop tenha afectado o meu rendimento. De regresso a Portugal, e já depois da morte de José Afonso, vivi na Charneca da Caparica, escrevi letras de hip-hop e formei um duo com o guitarrista Rui Jorge Abreu. Aos 15 anos, voltei à Praia da Barra onde celebrei casamento com uma jovem fotógrafa praticante de body-board. Fui basquetebolista. Li os existencialistas e formei o power-trio Superego que gravou em 1998 o disco “Quem Concebeu o Mundo Não Lia Romances” aclamado pela crítica por ter capa sépia. Ao vivo os Superego abriram para Sérgio Godinho e Jorge Palma e podem ser acusados de ter interrompido músicas para baixar do palco e participar em rixas. Com o segundo disco “A Lenda da Irresponsabilidade do Poeta” (2001) fecharam a sua história inscrita num manifesto cómico-radical que não lhes granjeou amizades. Pelo meio editei 300 exemplares de canções acústicas gravadas em cassete baptizadas de “O Pequeno Aquiles”. Licenciei-me em psicologia. Assinei os papéis de divórcio e fui tocar nas ruas de Barcelona e Santiago de Compostela. Estagiei com o músico guineense Oli Silva. Formei uma Fanfarra de música tradicional portuguesa de fusão. Dormi na Lagoa do Fogo e ouvi o “Time Out Of Mind”. Fui investigador na Universidade do Porto, àrea de feminismo e psicologia política. Em 2003, gravei o álbum “Sede” que viria a ser editado pela NorteSul. Dediquei-me à escrita de short-stories e romances de amor. Na primavera de 2006, formei 4 bandas e fui para a Sra. da Hora gravar “Poeira” com músicos portuenses do rock, do jazz, do reggae e da música tradicional. Esperei pelo S. João para me despedir do Hospital de Sto. António e mudei-me para Lisboa onde aprendi as profissões de bartender, porteiro e ensaísta. Em 2007, fui apresentado ao Tiago Guillul e ao Samuel Úria, fomos até Sesimbra gravar o primeiro disco do João Coração que acabei por co-produzir, e habituei-me a comer japonês em centros comerciais e a ler passagens da bíblia criteriosamente aconselhadas. O Manuel Fúria aproveitou para me ir oferecendo grades de minis até eu estar convencido a produzir Os Golpes. Gosto adquirido, comecei o ano de 2009 a produzir o João Só e Os (seus) Abandonados. Ainda em 2008, formei em Oeiras a banda de tráde-roque Diabo Na Cruz com o Bernardo Barata (Feromona) e o João Pinheiro (Tv Rural), à qual se juntam B(Fachada) e João Gil (V. Economics). Primeiro álbum para a FlorCaveira é gravado em Maio. Com a Helena Madeira (Dazkarieh e Mú) formo o duo niú-folque Os Vígaros. Chamo-me Jorge Cruz. Outra vez a mudar de casa.»

O Jorge editou recentemente o seu novo álbum – Barra 90 - que consiste numa reciclagem de canções que escreveu na década de 90, na Praia da Barra – Aveiro – e que avançou como primeiro single o tema “Entre Iguais”.

Obviamente que não pudemos deixá-lo ir embora sem lhe lançar uma mão cheia de questões.

Royal Cafe: Descreve a tua música numa frase.
Jorge Cruz: Música para carteiros ouvirem no ipod enquanto distribuem correio.

RC: Acho muito interessante a tua história de vida e a tua relação com a música. Especialmente no ponto em que referes que a tua iniciação à música se deveu à imaginação de tentar conceber canções para os títulos dos discos que te chegavam em Angola. Acho isso altamente valioso do ponto de vista de narrativa literária ou cinematográfica. É algo que, no momento em que nos é comunicado, te revela logo como uma personagem incrível e que, de certa forma, nos cativa para o teu universo criativo. Mas, uma questão: ao escutares as verdadeiras músicas desses títulos, após teres criado as tuas abordagens aos mesmos, que reacções tiveste? De que forma olhaste para os seus autores, depois disso? Porque, inevitavelmente, havendo 2 versões diferentes dos mesmos títulos, apareceram graus comparativos. Há versões (das tuas) que continuarias a preferir em relação aos originais?
JC: Lembro-me em particular do álbum This Is The Sea ter estado em primeiro lugar do top semanas a fio e eu ter na cabeça uma melodia que me parecia gloriosa. Quando voltei a Portugal conheci a canção The Whole of The Moon e descobri que This Is The Sea não se pronunciava This is the Cia como eu imaginava (por ter feito o 1º ano do ciclo preparatório no Lobito tinha perdido o primeiro ano de instrução em língua inglesa). Isso representou uma espécie de desilusão. Aquela música tinha estado muito tempo na minha cabeça. Não fiquei muito interessado em conhecer os Waterboys a fundo a partir daí.

RC: Aveiro (e a Praia da Barra, mais concretamente) marcou-te imenso enquanto pessoa e autor, ao ponto de apelidares este teu último álbum a solo como “Barra 90” (e que consiste essencialmente na recuperação de temas originais teus, criados na década de 90). Imaginas-te a viver novamente na Praia da Barra? E a teres a tua família ao teu redor? Os netos a brincar no vasto areal, uma residência mensal tua num bar entretanto criado nas “palhotas” típicas da “ilha”?
JC: Essa descrição tem aspectos bastante apelativos, na verdade, não sei se seria capaz de voltar a viver ali. É um sítio onde se pode ter uma vida simples e pacata, rodeada de lugares bonitos. Seria com certeza um bom lugar para o meu filho crescer e estar mais próximo da sua família alargada. De qualquer modo, por agora não consigo deixar de ver a Barra como um lugar de origem e de passado. Imagino que vá parar a um sítio diferente, formar outro tipo de raízes, ao jeito dos velhos pioneiros.

RC: És um dos porta-estandartes da música contemporânea portuguesa e, inevitavelmente, um dos mais interessantes cantautores nacionais. Achas que existe algum tipo de movimento criativo na música contemporânea portuguesa? Achas que a Flor Caveira (e seus colaboradores habituais) revolucionaram de alguma forma a música actual nacional?
JC: É pá, estas perguntas têm palavras grandes demais para serem boné que assente. As características de um movimento a avançar julgo que foram vividas de 2007 a 2008, e eram legitimadas pela hostilidade e vazio do que nos rodeava. A partir do momento em que as coisas ganharam atenção e notoriedade, trata-se apenas de um mapa de gente que tem a oportunidade de apresentar trabalho, que o tenta desenvolver o melhor que consegue e que para revolucionar o que quer que seja tem umas milhas para andar. Não quer dizer que não as esteja a caminhar, acredito é que as revoluções não se encontram nas reacções imediatas ao trabalho, nem às portas que se entreabrem nos lugares onde a criatividade não mora. As revoluções a existirem morarão dentro das obras e estão comprometidas com o que delas se puder retirar com o andar dos tempos.

RC: Faz-nos uma breve análise à História dos Cantautores Portugueses. Quais aqueles que te influenciaram e influenciam mais?
JC: A meu ver, o pai da canção portuguesa é o Zeca Afonso, ninguém se aproximou dos seus calcanhares nem antes nem entretanto: quer em acuidade, quer em pertinência, quer em rasgo, quer em liberdade. A meu ver, o grande álbum da música portuguesa é o “Por Este Rio Acima” do Fausto, tem as canções, a música e a ambição sem vislumbre de fracasso. Vejo o Sérgio Godinho como o escritor mais versátil e depurado. O José Mário Branco como o ideólogo musical mais importante. O Jorge Palma como a principal figura na performance de canções apoiadas num centro vivencial, o cantor de palco por excelência e um dos escritores de canções mais generosos pelo seu empenho em oferecer algo que venha de si próprio. O Vitorino é o dono da pinta. O Carlos Paião da dignidade na pop imediata. E o António Variações a grande figura da ponte entre a identidade e a modernidade. Dos tempos mais recentes, impressionam-me especialmente o Sam The Kid, o Manuel Cruz e o B Fachada.

RC: Com quem, do mundo inteiro e de todas as áreas de actividade, gostarias mais de colaborar num projecto futuro?
JC: Se pusermos de lado a hipótese Scarlett Johansson, não me importava de colaborar com o Tom Waits num projecto de pesca de fim-de-semana.

RC: Sei que um álbum novo dos “Diabo na Cruz” está a caminho. Fala-nos um pouco sobre o processo criativo do projecto. Existe alguma espécie de pesquisa pelos caminhos de Portugal, no sentido da recuperação da tradicionalidade musical popular para a abordagem revolucionária que vos caracteriza.
JC: Tirei meia hora desse assunto para responder às perguntas, de modo que estou tão mergulhado no raio do trabalho que mal consigo falar dele. Posso dizer que não é um trabalho de tipo académico, não temos pretensões de sermos representativos de outra coisa que não de nós próprios, por outro lado, pelo facto de a identidade e a localização da nossa música responder tão directamente ao país, talvez nos sintamos obrigados a interpelá-lo e a procurar reflecti-lo de alguma maneira. Leituras, sons e imagens são sempre bem vindos. Obras como as do Aquilino, do Giacometti, do Mattoso, do Pessoa, do Zeca, andam por perto. Mas não mais perto que o Springsteen, os Clash, a PJ Harvey, o Walt Whitman, o Rimbaud, o Lynch ou o Mallick, só para dar alguns exemplos. Sendo que em última análise, prevalecem sempre os lugares que conhecemos e as pessoas com que nos cruzámos. O facto de termos passado os últimos dois anos a tocar pelo país, terá a sua influência.

RC: Esse projecto é algum tipo de conotação ao vosso sentimento para com o estado actual do nosso país?
JC: O estado actual do nosso país é o nosso estado e naturalmente aquilo que fazemos vai ter algo que ver com aquilo que somos.

RC: Terias interesse em compor para cinema, se para isso te convidassem?
JC: Num filme adequado, sem dúvida. Gosto em particular de bandas sonoras de guitarras como as que fizeram o Neil Young (Dead Man), o Ry Cooder (Paris, Texas), o Richard Thompson (Grizzly Man) ou o Johnny Greenwood (There Will Be Blood), mas estão apoiadas em grandes filmes, isso é o factor mais importante.

RC: Para que realizador mais gostarias de trabalhar nesse sentido?
JC: Algum realizador português que tivesse uma grande história que captasse de uma maneira inteligente e eficaz elementos da alma viva do nosso povo. Se a história fosse desoladora então seria ainda mais fácil que eu para fazer música alegre tenho de trabalhar muito mais horas.

RC: Quais as tuas metas, enquanto músico? Tens objectivos profissionais definidos?
JC: Manter-me relevante criativamente, para os meus parâmetros, durante mais um tempo. Procurar deixar feitas coisas de que possa orgulhar-me e conseguir fazer isso ganhando o suficiente para ter uma vida digna.

RC: De que forma Angola, e mais concretamente o Lobito, marcou a tua vida? (A minha mãe é Angolana, nascida no Lobito, e indirectamente cresci sobre influências angolanas muito presentes – a Restinga do Lobito que, apesar de nunca ter presenciado, é para mim uma imagem quase tão forte como a casa onde vivi a minha infância na Covilhã)
JC: Foi um marco porque implicou uma ruptura drástica com o paradigma vivencial que eu tinha até aí e esse jogo de cintura foi muito importante para enfrentar tudo o que se foi e vai seguindo.

RC: Que tens ouvido, ultimamente? Que álbuns mais te marcaram nos últimos anos?
JC: Ouço sempre o Dylan, o Elvis Costello, o Zeca, o Springsteen, os Clash. Depois, ouço soul, jazz, música africana, tropicalismo. Projectos recentes, gosto dos Fleet Foxes, dos Black Keys, dos Fool’s Gold, da Likke Li, entre outros.

RC: Qual o momento mais marcante da tua carreira musical, até agora? Que se passou exactamente naquela famosa “revolta popular” na Semana Académica de Lisboa, com os Diabo na Cruz?
JC: Dificil de responder à primeira, ainda não estou em fase de balanços. A segunda não foi nenhuma revolta popular, cortaram-nos o som, o que significa interromperem o nosso trabalho, e nós não vamos permitir que esse tipo de coisas aconteçam. Ninguém deve ser interrompido se estiver a trabalhar afincadamente. Muito menos neste país.

RC: A música já provou, ao longo dos tempos, ter um carácter impulsionador quase tão forte como a religião. Interessa-te explorá-la sobre esse ponto de vista?
JC: A música faz sonhar, é um mundo por si só para quem vive nela e para ela, de modo que com a música tudo é possível e tudo o que for possível fazer nela me parece interessante.

RC: Gosto da designação e do desafio a que te auto-remetes: o rock popular português. Achas que é essa cultura popular (ou a criação dela) que tem faltado na cultura portuguesa? Fazendo a ponte para o cinema, achas que há uma carência de cinema popular português?
JC: Se calhar, começam a aparecer manifestações no cinema desse tipo de linguagem o Querido Mês de Agosto foi um exemplo disso. Ainda não vi, mas pelo que me chegou, o novo filme do Canijo (Tal como o Fantasia Lusitana) tem algo a ver com isso. Penso que no cinema a identidade é também o tema que pode inspirar as obras mais relevantes.

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MBari

Obrigado Jorge!
Continuação de bom trabalho. Pelo bem da música e da cultura portuguesa.
Um abraço!
Obrigado MBari pela “ponte”. Abraço para vocês também.

2.0

4 anos desde a sua criação, um rebrand do Royal Cafe.

Os tempos mudam e também o nosso espaço tenta acompanhar o progresso (porque a luta continua).

Novo design,  o mesmo conceito.

O bem-estar habitual. O conforto do costume.

Sejam bem-vindos de novo.

Explorem o espaço, que conta com algumas (ainda que poucas) novidades. Este upgrade irá trazer mais dinâmica aos eventos por cá promovidos e à interacção do visitante. E contribuirá para uma cada vez maior afirmação do nosso espaço enquanto agente cultural das artes globais (com especial enfoque na Música e no Cinema, como já vem sendo hábito na nossa agenda), destinado às comunidades da língua portuguesa.

Será sempre esse o propósito do espaço, ainda que não prioritário nem específico – o papel de divulgação de talento artístico e da criatividade em língua portuguesa (com vertente mais activa na divulgação da criação em Portugal, pátria), mas não só.

O Royal Cafe é, essencialmente, um veículo de expressão do seu proprietário. E todo o talento, promoção, divulgação, qualificação ou toda a crítica ou análise expressa neste espaço terá sempre o inerente valor relativo de se basear em mera opinião pessoal.

Ainda assim, é com base na crença de que, através deste espaço, o proprietário contribui de certa forma para um importante serviço cultural comunitário, que o Royal Cafe persiste.

Aumentam os impostos, a coisa torna-se mais difícil de manter. Ainda que as políticas vigentes em solos lusos se movam no sentido de asfixia à já pouca actividade criativa existente, o produto nacional de qualidade suprirá sempre essa barreira inimiga de vinte e três por centos.

Quem corre por gosto, não se cansa.

E é por saber que por este Mundo fora existe muito boa gente a correr maratonas no sentido da criação artística que o Royal Cafe responde com uma nova apresentação.

Mais limpa. Mais moderna. Espero que mais cativante.

De resto, já sabem. O espaço é vosso, como sempre.

Entrem. Desfrutem. Com um sorriso.

 

 

Royal Cafe Convida: The Lines

Hoje sobem ao palco do Royal Cafe os britânicos The Lines.

Oriundos de Wolverhampton, os The Lines formaram-se em 2006 e em 2008 atingiram o Top 10 Britânico com o single “Domino Effect”.

Desde então já partilharam palcos com os The Killers, os Babyshambles ou os Supergrass e apresentam-se como uma das mais promissoras bandas britânicas.

Estão neste momento a preparar o segundo álbum e é com enorme prazer que hoje os apresentamos no nosso ilustre espaço. Aproveitámos a visita para lhes colocar algumas questões.

Royal Cafe: Descrevam-nos a vossa música numa frase.

The Lines: Uma banda-sonora para a vossa vida.

R.C.: O vosso projecto tem agora 5 anos. Que tal foi atingir o Top 10 Britânico logo com o vosso primeiro single?

T.L.: Atingir o Top 10 Indie da BBC foi um sentimento muito humilde, para nós, uma vez que partilhávamos as escolhas de nomes como Thom Yorke ou Band of Horses.

R.C.: Quanto tempo dedicaram à gravação do vosso primeiro álbum (de seu título “The Lines”)?

T.L.: Gravámos esse álbum há um par de anos atrás. Foi curioso porque tivemos várias formações durante o nosso percurso e, graças a isso, permitiu-nos debruçar várias vezes sobre o nosso material e recomeçar processos. Esse álbum contém material do nosso início, bem como coisas novas que foram surgindo.

R.C.: Wolverhampton tem sido um obstáculo para a vossa carreira, no sentido em que uma localização em Londres poderia ter benefícios?

T.L.: “Para te safares na indústria musical tens de viver em Londres” é uma expressão que se ouve muito, mas que consideramos uma espécie de mito. Obviamente que a existência de inúmeras editoras, managers, imprensa, etc, é sempre uma ajuda, mas também conhecemos bandas que apostaram tudo numa ida para Londres e o percurso deles tem sido numa espiral negativa desde então. Com a quantidade de redes sociais hoje em dia, torna-se fácil estar localizado em qualquer parte e atingir os objectivos com dedicação. Wolverhampton tem sido muito positivo para nós e temos construído uma enorme base de fãs locais que esperemos que continue em crescimento.

R.C: O vosso projecto tem sido várias vezes comparado aos The Verve. Que têm a dizer sobre isso?

T.L.: Obrigado? É uma óptima comparação, mas acho que não somos tanto “souly” como os The Verve. Temos várias influências distintas e procuramos expressá-las nas nossas músicas. Gostamos que quem oiça as nossas músicas as encaminhe para o universo que deseja.

R.C.: Que bandas vos influenciam mais?

T.L.: Como disse, temos várias influências distintas. Acho que depende dos diversos estados de espírito e da forma como nos sentimos em determinados dias. Musicalmente somos influenciados por bandas como os The Beatles, os Stones, Radiohead, The Verve, Super Furry Animals, UNKLE, 2 Many Dj’s e por estilos desde o Northern Soul, Motown, o Hip-Hop ao Country… Somos bastante “open-minded”e acreditamos que é importante sê-lo.

R.C.: Conseguem nomear o vosso melhor GIG até ao momento?

T.L.: Essa é difícil. Perguntam-nos isso várias vezes e nunca sabemos bem o que responder, uma vez que já tivemos vários GIG’s fantásticos… todos fantásticos por diferentes razões. Talvez aquele que para mim tenha sido mais emocional e que mais me tenha preenchido tenha sido quando esgotámos o Wulfrun Hall em Wolverhampton no ano passado para o lançamento do álbum. Grande ambiente, audiência incrível e foi uma percepção do que poderia ser atingido.

R.C.: E em que cartaz/festival/local gostariam de ter o nome?

T.L.: Festival teria de ser Glastonbury. Estive lá no último par de anos e é simplesmente mágico. Fazer parte desse line-up seria um privilégio. Nomear um local é mais complicado. Há vários bons. O Roundhouse em Londres é único, seria muito bom.

R.C.: Se tivessem a possibilidade de escolher um artista para uma colaboração, quem seria?

T.L.: Mais uma boa questão. Haveria várias respostas boas para esta. Os Chemical Brothers ou os UNKLE seria bom. São enormes influências em vários aspectos da nossa música e acho que poderia resultar em algo muito interessante. Também gostaria de gravar com o David Burn (Detroit Social Club), para ver o que ele conseguiria fazer connosco.

R.C.: Alguma vez visitaram Portugal?

T.L.: Eu ainda não. Gostava de visitar Portugal porque tenho ouvido que o pessoal é muito simpático e que há sempre muita hospitalidade. O nosso baixista Danny garante-me que é verdade. Talvez um dia possamos ir tocar a Portugal e apreciar por nós próprios.

R.C.: Se pudessem fazer uma banda-sonora para um filme, que filme seria?

T.L.: Um filme mudo? (risos)  Falando a sério, acho que escolheria um filme do Tarantino. Gosto bastante dos temas que ele utiliza nos filmes dele. São uma grande inspiração para criar música, uma vez que se vêem as imagens de onde ele vai buscar essa sua inspiração.

R.C.: Planos para o futuro?

T.L.: Estamos de momento a preparar o segundo álbum. Esperamos voltar à estrada em breve, tentando uma tour pelo Reino Unido, pelos EUA e talvez Europa. Queremos passar a palavra o máximo possível, porque acredito que ainda estará muito para vir.

Deixamos aqui um dos temas do primeiro álbum, “El Matador”.

O Royal Cafe agradece a visita. Foi uma honra poder recebê-los no nosso espaço. As portas ficam abertas para um regresso, atentos ao vosso percurso.

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Kharaktêr

Sempre fui mais pró-Buster Keaton, eu.

Não que o Chaplin não me agradasse. Bem pelo contrário. Fragmentos da sua obra têm acompanhado as mais distintas gerações de há mais de 60 anos para cá. E sempre foram uma excelente companhia.

Personagem singular, essa do Charlot, quase tão icónica no imaginário contemporâneo como a figura de Jesus Cristo. Não que se diga que é ou tenha sido maior que Cristo. Ou inclusive maior que os Beatles, que por sua vez carregaram o rótulo de ser maiores que Cristo… Que pirâmide esta, hem?

Mas, sei lá, desde que conheci o simpático Buster, sempre o achei de trabalho mais elaborado. Talvez por narrativas mais complexas e desenvolvidas, não sei, digamos. Porém, algo em mim tornou as fitas do Buster mais atractivas do que as boas do Chaplin.

Um pouco como a situação dos Beatles, comigo. Sempre havia sido mais pró-Doors. Mas, investigando a obra completa do quarteto de Liverpool, assume-se o brilhantismo da obra. A transcendência implícita que obriga a perpetuar a genialidade dos protagonistas.

Com o Chaplin, igual. Investigada a obra, resta o reconhecimento. Pode muito bem ser o maior personagem da história do cinema. Muitos houve, também eles brilhantes. O Buster, por óbvios parâmetros de comparação, foi um deles.

Reparemos, porém, na amplitude que Chaplin desenvolveu com o seu personagem – essa figura ora simpática, ora melancólica de bigode engraçado; roupagem popular e simplista; e, o trademark mais memorável, seu andar burlesco.

Britânico de origem e família humilde, Chaplin mudou-se para os EUA a bordo de uma companhia de teatro ambulante (sendo ele uma espécie de animador cultural – o que hoje podemos paralelizar com humorista de stand-up). Aí colaborou com vários agentes culturais. Encenadores, humoristas, promotores. Tornou-se, lá, parte essencial do espectáculo. Era, ele, uma figura que desempenhava com categoria o caricato do alcoolismo. Dito assim de uma forma muito resumida.

Aos poucos, começou a envolver-se com produtores cinematográficos. Visionários, ou talvez não, que pretendiam explorar o formato com o recurso à comédia de pantomina. Meliès havia provado que era possível o formato ir além do retrato do real. Griffith havia dado o mote para uma técnica distinta, mais elaborada, mais em função da narrativa.

E Chaplin apaixonou-se pelo formato. Mais: aprofundou-se na exploração do formato, em função da sua personagem. Esse castiço de andar tipo pinguim, com chapéu de coco na cabeça e bengala atrás. Mas mais do que um artista de inegável talento representativo – que incorporou como poucos a personalidade do seu “character” (personagem) – Chaplin veio a confirmar-se como um cineasta genial.

Se no imediato era o desempenho das suas acções, dentro do plano, que assumia o total protagonismo da obra, foi, com o passar do tempo, a sua voz artística que atrás da lente confirmou o seu talento.

Charlot, o personagem de Chaplin, não falava. Pelo menos nós, espectadores, não o podíamos ouvir. Chaplin acompanhou a transição do cinema mudo para o cinema sonoro. Mas não foi isso que o estimulou a “dar voz” ao seu personagem. Estimulou-o, sim, a criar bandas-sonoras para os seus filmes. Facto que comprova o incansável talento e compromisso perante os seus projectos.

Mas, para mim, o que fez do “character” de Chaplin um personagem singular na história do cinema foi o perfeito balanço do seu carácter. Charlot, na tela, era um de nós. Curioso como nós. Trapalhão como qualquer ser humano. Humilde. Romântico. Por vezes corajoso. Por vezes receoso. Desenrascado. Engraçado. Simples. Pobre. Mas honesto. E mesmo quando tentava ludibriar algo, ou alguém, nós, espectadores, estávamos a par da sua honestidade. Do seu compromisso moral. Do seu bom senso. E era isso que procurávamos nos seus filmes. Esse reflexo social do que somos, o povo. Por vezes alegres, por vezes melancólicos. Mas o moralismo ninguém nos tira. E, embora no dia-a-dia sejamos bombardeados pela ausência dele, nos vários cantos do mundo e da humanidade, sabemos que há um bem e um mal. Esse bem que, ainda que por vezes ofuscado, Chaplin e os seus filmes representam e ilustram.

Contudo, o momento em que me rendo completamente à genialidade de Chaplin é quando este, o criador, decide dar pela primeira vez voz ao seu personagem. No singular filme “O Grande Ditador”. Aqui, no célebre discurso de Charlot vestido à Hitler (por alturas em que Hitler era ameaça real ao conforto da humanidade), o personagem diz isto:

(O vídeo não é do respectivo filme, na íntegra. Mas achei conveniente colocar aqui esta montagem, muito adequada à mensagem que passa e ao estado caótico a que chegámos globalmente).

Foi Chaplin a ascender ao Olimpo da arte. Foi Chaplin a tornar-se eterno. Foi Charlot a sagrar-se das maiores personagens da História do Cinema e da Humanidade.

Mais há, e vale mesmo a pena aprofundar sobre a sua obra. Como o momento em que Chaplin regressa e convida Buster Keaton para ambos participarem num filme. Ambos em fase descendente nas suas carreiras. Ambos a fazerem de pantominas esquecidas. Ilustrando o declínio de um fantasma que perseguiu Chaplin em toda a sua vida – o do insucesso.

Chaplin foi GRANDE.

E revelou-se grande pelo seu carácter.

É o carácter que mede o valor de uma personagem.

É o carácter que define o valor de um líder.

E é nestes momentos de crise, de recessão, que mais sinto falta do génio de Chaplin. E dessas inegáveis doses de carácter.

Porque nos líderes de hoje em dia é difícil encontrá-las.

Royal Cafe Convida: Code Pie

Os convidados desta noite vêm de Montreal aqui ao Royal Cafe para promover o seu mais recente trabalho, “Love Meets Rage”, o terceiro longa-duração deste peculiar projecto de contornos Indie Rock/Pop que já vai a caminho do 10º aniversário.

Ilustres espectadores, convosco esta noite: CODE PIE

“Muddy Shoes” é o single de avanço de “Love Meets Rage”, álbum que tem sido bastante elogiado pela crítica e muito falado e escutado um pouco por toda a blogosfera. Aproveitámos a visita para conversar com eles.

E quão bem sabe voltar a ter convidados no Royal Cafe!

Royal Cafe: Descrevam-nos os Code Pie numa frase.

Code Pie: Um grupo de pessoas que anda a tocar junto há cerca de 9 anos.

R.C.: Que se passa em Montréal? Que boom foi este que nos últimos 5/6 anos tantas bandas talentosas e interessantes surgiram de Montreal para o Mundo?

C.P.: Deve ser qualquer coisa com a água. A água da torneira de Montreal é também o segredo para os bagels.

R.C.: Vocês já têm cerca de 9 anos juntos. Quão diferentes se sentem agora, comparando com os primeiros tempos? Onde se sentiram mais influenciados nos últimos anos?

C.P.: Nos primeiros anos ainda estávamos em formação e a maioria das canções do primeiro álbum foram escritas apenas pelo Enzo, ou pelo Enzo e o Sal, os dois primeiros membros da banda a juntarem-se. Tudo o que lançámos depois disso já foi escrito de uma forma muito mais colaborativa e o nosso processo de composição continua a evoluir ao longo dos anos. Para o último álbum, escolhemos uma espécie de jam sessions que tínhamos gravado e criámos as músicas tendo como base alguns dos pequenos elementos que gostávamos dessas gravações. Resultou num álbum muito ecléctico que mostra vários estilos e várias versões dos Code Pie. Aliás, isso tem sido muito comentado nas críticas e revisões ao álbum…

R.C.: E que género de música ou bandas vos influenciam mais?

C.P.: Todos nós vimos de diferentes registos musicais, desde a música clássica ao heavy metal, e todos nós crescemos em épocas distintas – a diferença de idade entre o mais velho e o mais novo da banda é de mais de 10 anos! – e como temos tantas influências, não conseguimos nomear ou apontar exactamente algumas delas. Até é engraçado quando em algumas críticas ou revisões somos comparados a bandas que nenhum de nós ouviu falar!

R.C.: Arcade Fire são um óbvio ícone de Montreal. Algumas vez colaboraram ou partilharam palco com eles?

C.P.: Nós ♥ os Arcade Fire.

R.C.: Conseguem nomear o melhor Gig que tiveram até agora?

C.P.: Este talvez não seja o nosso maior Gig, mas é um curioso: Em 2008, abrimos para a banda canadiana Holy Fuck. Quando saímos do palco e observávamos o concerto deles, nos bastidores, uma jornalista local perguntou se nos podia entrevistar. Fomos para uma sala tranquila e ela perguntou, “Então, que tal é tocar nos Holy Fuck?”…

R.C.: E em que festival mais gostariam de actuar?

C.P.: Woodstock, ainda por aí anda?

R.C.: Se tivessem a possibilidade de colaborar com um artista, qual escolheriam?

C.P.: Jan Teri.

R.C.: Alguma vez visitaram Portugal? O que vos atrai mais no nosso país?

C.P.: 3 membros da banda são, na verdade, italianos e fomos a Itália algumas vezes. Alguns de nós também já foram a Espanha mas nenhum de nós alguma vez foi a Portugal… Mas adoraríamos ir! Ouvimos dizer que é lindo. Todos nós adoramos comida portuguesa.

R.C.: Se pudessem fazer uma banda-sonora para um filme, que realizador ou estilo de filme escolheriam?

C.P.: Definitivamente Tommy Wiseau. Ou Amir Shervan.

R.C.: Para terminar, uma reflexão política. Porque consideram que existem tantas bandas a aparecer em Montreal? Existe alguma plataforma local de apoio à promoção e divulgação de novas bandas? Existem alguns esforços políticos visíveis na promoção e encorajamento de música nova em Montreal?

C.P.: O custo de vida em Montreal ainda é bastante razoável, quando comparado com outras grandes cidades, o que permite dedicar mais tempo livre à criação de arte ou música, em vez de ter o tempo todo ocupado a corresponder às finalidades de sustento. Existem imensos óptimos espaços, promotores e festivais, o que é saudável para a cena e comunidade musical. Existem também várias bolsas para artes que ajudam, entre outras coisas, na gravação, promoção e nas tournées… Infelizmente, o actual Primeiro-Ministro Stephen Harper tem feito cortes significativos nesses programas.

Com “North Side City View”, outros dos temas de “Love Meets Rage”, os Code Pie despedem-se de nós.

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Foi uma honra.

O Royal Cafe agradece.

É deixar o cabrão morrer.

“You know somethin’, Utivich? I think this just might be my masterpiece.” 

Em Inglorious Basterds, Quentin Tarantino deixou expressa aquela que porventura será uma das maiores quotes da história do cinema. Fê-lo via Lieutenant Aldo Raine, personagem maravilhosamente interpretada por Brad Pitt, e através deste quadro imagético memorável que por si só poderá sintetizar toda a irreverência e consequente magnitude do respectivo filme.

Em causa estava um obsessivo fascínio por escalpes de nazis e uma reversão do simbolismo legado pelos anais da história – o registo, via marca cicatrizada da cruz suástica, das atrocidades e de todo um desígnio popular de magnânimes proporções catastróficas, conjuntamente ostentadas por uma bandeira fascista e por esse símbolo rectilíneo capaz de se fazer valer enquanto maior símbolo vilão de todos os tempos.

Quem o diz é Aldo Raine, a propósito do seu fetiche pessoal. Mas do que nós, espectadores, nos recordaremos para a posteridade é do contexto em que a expressão se insere – o reconhecimento de Tarantino daquela que poderá muito bem ser a sua obra-prima. É Aldo quem o diz, mas é Tarantino que o reconhece. No seu devido contexto, seja feita a justiça.

Não deixa de ser curioso o facto de B Fachada, um dos mais interessantes cantautores da nova geração portuguesa (desígnio que, em si, já não augura nada de novo), recorrer também ele a uma das mais significantes bandeiras do ideal do regime salazarista para o título do seu mais recente disco – “Deus, Pátria e Família”.

Não deixa também de ser curiosa a data de lançamento do álbum em formato digital. Que originalmente estaria prevista para Sábado, dia 4 de Junho e, por força das eleições legislativas que ocuparam o pensamento e o imaginário nacional no fim de semana decisivo, acabaria adiada para Segunda-feira, dia 6 de Junho. O dia de ressaca das eleições. O 1º dia de um novo ciclo.

Muito menos o será o facto de em tal obra serem expressos versos como “Faz sinal ao galo vencedor, Que esta dança é arriscada”, ou “Portugal está para acabar, É deixar o cabrão morrer”, como também “Partiste a cama, Gostas mais do chão” ou ainda “Eu não sou português, E que se foda Portugal… Eu canto em fachadês, A minha língua paternal”.

Ou ainda o factor físico de formatação do álbum, uma canção única de 20 minutos exactos, que se inicia com sons de galinhas e termina com aquilo que parece ser uma sonoridade marítima. Tal composição musical ao bom jeito de um soneto capaz de englobar em si mesmo os mais distintos estilos, ritmos, euforias, melancolias, melodias e compassos.

Tudo neste disco será curioso.

Aqueles haverá que questionarão o conteúdo político do poema, enquanto arma crítica à situação actual do país. Outros haverá, imagino professores de literatura repletos de entusiasmo pelo carácter estilístico da poesia veiculada, que usarão a obra enquanto objecto de estudo nas suas ainda mais entusiasmantes aulas de Português. Aqueles outros tantos, que reforçarão, com todas as suas forças,  o facto de estarmos perante um predestinado artista sem igual no panorama da música e da literatura portuguesa. Um novo Camões ou um novo Godinho, talvez dirão. Talvez até um novo Zé Mário. Ou um novo Pessoa, em directa comparação com “A Mensagem”, a maior das emblemáticas obras dessa personalidade singular, seguramente afirmarão. Também estou certo que os haverá aqueles a quem tudo passará indiferente. Que a maior coisa que o Fachada tem será porventura a sua própria Fachada.

Tudo nesta obra será avaliado.

Para mim, B Fachada atingiu o seu limiar da amargura. Expressa-se enquanto membro de uma geração com pouca ou nenhuma esperança. Enquanto membro de um movimento inexistente. Enquanto parte integrante de um país a caminho da morte e da ruína. E constrói esta ode em jeito de renúncia. Enquanto membro dessa segunda geração com maior índice de emigração da história portuguesa. Dessa famosa “geração à rasca”. A nossa geração.

Bernardo Fachada não procura ilustrar um ideal fascista, como sugere o título da obra. Não se limita a extravasar o seu estado de espírito à crítica de uma certa ou de uma outra mais certeira via política. Também o faz, e bem. Mas não entendo que seja esse o propósito do poema que veste este disco. Entendo-o, sim, num sentido emocional, simbolista dessa geração que nós constituímos. Num desabafo pessoal retrospectivo, de inconformidade e de incapacidade. Perante o estado do nosso país. Da nossa pátria. Da nossa casa.

É preciso contextualizar, também. E saber que B Fachada, aquele autor que ganhou o seu espaço graças às composições musicais sobre temas do imaginário popular português – o “Zé”, o “Joana Transmontana”, entre tantos outros – expressava desejo pelo que lá fora se consegue fazer e cá não. Pelo quão bem soava o disco de John Grant, comparado com os seus. Pela produção que lá fora se conseguiria dar a determinado registo que cá, com os nossos meios, seria impossível.

Transparecendo essa posição, entendamos este disco enquanto consequência natural do seu processo pessoal. B Fachada está descrente com aquilo que Portugal propicia. Com aquilo que Portugal, enquanto albergue, poderá potenciar. Mas, e é neste ponto que considero a maior sublimidade da obra, ao contrário do que poderá transparecer pelo poema, não se sente capaz de o abandonar. “Não quero mais que ser um pai babado”, lamenta repetidas vezes em jeito de epílogo da obra. E, com isto, toca o sentido de compromisso de toda esta geração da qual, orgulhosamente, também eu faço parte. Este sentimento de amargura que nos preenche, enquanto cidadãos de Portugal e jovens “à rasca”. Puro patriotismo que, desesperadamente, nos identifica. Todos queremos ser pais babados, inequivocamente. Todos queremos ser pais deste e neste país que teimosamente nos orgulha. E, unidos enquanto geração (a única característica realmente comum a todos nós, seus membros), não podemos perder a esperança que os nossos “filhos” encontre correspondência com o seu rumo.

Com “Deus, Pátria e Família”, B Fachada vai das suas galinhas aos mares desconhecidos. Nessa viagem de 20 minutos, expressa o seu estado de espírito. Não diz que desiste. Mas que vai e volta. Porque esse sentimento ninguém nos consegue tirar, enquanto portugueses, por muito até que por vezes assim o desejássemos – nunca abandonaremos Portugal à sua própria condenação.

Eu também fui, por duas vezes. E voltei.

Também sou desta geração perdida. Também eu sinto a amargura.

Também não pode deixar de ser curioso o facto de ter decidido voltar no preciso dia em que o anúncio de regate europeu foi feito. Não o fiz enquanto resposta às necessidades do país. Não o fiz por sentido de oportunidade, porque a área que escolhi e na qual me movimento está de uma forma inconcebível ligada às máquinas do estado português. Não tenho, hoje, perspectivas de mudança significantes (assinalemos o dia de hoje enquanto certidão de óbito antecipado ao já precário Ministério da Cultura). Mas a vontade de fazer, cá, aquilo que persigo tem de ser superior a tudo isso. Porque é cá que pertencemos. E se é coisa que português não consegue ser é pai bastardo. Juntos, temos este filho para criar. E todos desejamos que, um dia, sejamos nós, vulgares antigos membros da geração à rasca, que um dia sejamos nós os pais babados.

Por fim, também não posso deixar de referir que, enquanto personagem deste universo que B Fachada cria em “Deus, Pátria e Família”, também eu um soldado com esta obsessão fetichista de seu nome Royal Cafe, também eu um Aldo Rainesinto necessidade de me expressar perante a obra que fiz com este post:

“Sabes uma coisa, Bernardo? Acho que esta pode bem ser a minha obra-prima.”

Sou eu que o digo. Mas és tu que o reconheces. No seu devido contexto, seja feita a justiça.

Para ouvir, clicar na imagem da capa do disco.

O resto é história. E o tempo que a julgue.

S.C.I.E.N.C.E.

‘You make movies because you need to make movies. Everything else is unimportant. If you wait to get the money to make a movie then you shouldn’t make the movie. If you need distribution in place before you have the courage to make a movie then it’s not a movie worth making. There are many other ways to make money than making movies. If you need to make money, please find some other way to do it. You make movies to lose your money. That is the purpose of making a movie—to put your life into something—not get something out of it.’

John Cassavetes

A Nobre Máxima

Disse-a o Carioca Saraceni, em anos idos, e com razão.

«Idéia na cabeça e câmara na mão.»

Não vem dele, a regra. Que a mesma é máxima desde sempre, já o Griffith e o Meliès o sabiam.

Mas, pontualmente, surgem Gareth’s Edwards’ que elevam a máxima a um estado de nobreza ímpar.

“Monsters” fala por si.

E o nobre explica.

http://www.kaltura.com/index.php/kwidget/wid/1_mk4prnfc/uiconf_id/1310222

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