
(imagem de Henrique Matos)
Abril, Abril. Dia 25. Zero Nove.
Sinto uma estranha necessidade de escrever algo neste dia. Previsivelmente.
Sinto, também, a obrigação de celebrar este trigésimo quinto aniversário dizendo aquilo que me apetecer. Livremente.
Mas, acima de tudo, sinto uma enorme incapacidade de me expressar devidamente, tendo em conta a importância da histórica data e a minha parca experiência de todo o movimento que antecedeu a parada dos cravos.
Vivo, hoje, sob um delicioso fascínio de duas épocas distintas: Adorava ter testemunhado parte dos períodos monárquicos que enaltecem a amada história portuguesa – Assim de relance, era capaz de me imaginar sob cavalos, de espada em riste, soltando um corajoso grito patriótico, ou até a sudoeste, debatendo a estratégia além-mares com o nosso querido Infante, em busca de novos horizontes. No fundo, no fundo, sou apenas um turista com picos de imaginação. E demasiado ‘caguinchas’ até para montar a cavalo.
Contudo sinto-me muito mais perto de outro período, que igualmente me fascina. Os idos sessenta, a geração beat, a vontade de mudar, de assumir, de libertar. Movimentos estudantis, culturais, sociais. Inconformismo. Em Portugal, o espaço que antecedeu ‘74. Considero essa geração os heróis dos nossos dias. Foi uma luta diferente. A conquista do bom senso. A vitória dos nossos direitos. ‘Somos humanos ou somos dançarinos’, já diria o outro (creio que é a 2ª vez que parafraseio “os assassinos“ aqui no café).
Quero com isto dizer que, apesar de não me sentir à vontade para elaborar qualquer tipo de crónica referente à conquista dos cravos, dado não ter sentido nunca as alterações derivadas (eu nasci em ‘85), sinto que não devo deixar passar a data em vão, sem soltar um ‘viva!’ que seja. Quanto muito seja porque sou autor de um blog. E não consigo imaginar um blog em regime de censura. Aliás, questiono-me, será possível a existência de uma ditadura num país fortemente adaptado ao uso de internet?

(mais uma imagem de Henrique Matos)
Seja como for, eu acho que hoje, dia 25 de Abril de ‘09, nós, portugueses, devemos celebrar fortemente. Olhando para o nosso umbigo e perceber a nossa identidade. Com o devido orgulho. Porque há 35 anos efectuámos uma revolução onde imperou totalmente o Bom Senso. Soubemos alterar o cenário com compreensão total e mútua (ou pelo menos quase). Soubemos ter a liberdade de dar um passo em frente. Soubemos gostar de nós enquanto pátria, enquanto cidadãos e, acima de tudo, enquanto humanos. Não desrespeitámos o direito à vida, armados com cravos. E isso, esse episódio, essa diferença, essa vitória, digo-vos, foi absolutamente louvável e única.
Posto isto e porque é dia de nos sentirmos bem portugueses, reflectindo sobre aquilo que faz de nós um povo único e tão especial, sinto-me, sim, na obrigação de partilhar produtos nacionais. Ou pelo menos alertar para eles. Porque merecem a devida atenção. E porque, perante eles, sinto orgulho em ser português. Tal como um puto ‘tuga perante o histórico dia de ‘74.
E assim, hoje, vinte-cinco do quatro de zero nove, recomendo:
- O mega-projecto de Nuno Gonçalves, Fernando Ribeiro, Sónia Tavares e Paulo Praça – “Amália Hoje” – que apaixonadamente revisita alguns temas do legado de Amália Rodrigues, actualizando-os numa modernidade denotadamente POP. Os arranjos de Nuno são fantásticos, a voz de Sónia inconfundível como sempre e o facto de observar o vocalista de Moonspell a cantar bossanova denuncia uma certa aura que não consigo explicar. Deixo-vos o vídeo do primeiro single “Gaivota”:
O vídeo está igualmente muito interessante. Mais ainda se torna quando visto neste dia emblemático de Abril (descobri agora, acidentalmente, que a palavra Abril pode rapidamente tornar-se num trocadilho – “Baril” – conquistas de uma dislexia manual temporária). Para os mais interessados, podem ver um making of do álbum aqui.
O álbum chega às lojas no dia 27 de Abril (2ª feira).
- O projecto de Bernardo Fachada (B Fachada) dá à luz no próximo dia 30 o seu primeiro longa-duração – “Um fim de semana no pónei dourado” – e, pelas músicas disponíveis no seu myspace antevejo um álbum muito interessante. Eu já sigo a música de Bernardo desde os seus experimentais Ep’s caseiros e reconheço o grande passo em frente dado nestes novos temas. Ele é, muito provavelmente, o mais interessante cantautor nacional desta nova geração. Aguardo, assim, ansiosamente pelo álbum.
- Sean Riley & The Slowriders também têm um álbum novo. E o seu primeiro single avançado, “Houses and Wives”, estreou ontem no programa da Antena 3 “A Primeira Vez”. Eu não consegui ouvir, infelizmente, mas espero fazê-lo o mais breve possível. O seu álbum de estreia “Farewell” agradou-me bastante e fez-me companhia ao longo de todo o ano transacto. Vão estando atentos ao myspace deles, que o single deve estar a aparecer.
- No cinema, uma palavra para a estreia em solo nacional, mais concretamente no INDIE LISBOA ‘09, do novo filme de Ivo Ferreira – “Águas Mil”. Trata-se de um road movie português em torno da histórica data de ‘74. A sinopse entusiasma. O trailer também. Espero vê-lo em breve.
E assim se passa mais um aniversário.
Parabéns portugueses.
Parabéns Portugal.
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