DA INDÚSTRIA
I
Mário está desconfortável. Não que o sofá onde pela primeira vez se senta seja a causa desse desconforto. Bem pelo contrário, até porque apenas agora compreende que talvez seja este género de pormenores que estabelece a diferença: A qualidade da pele, como é que nunca pensei nisso? Se há ponto que coincide, entre o cá e o lá, é o de que alguém, num determinado momento, irá experimentar um destes sofás, os de sala de espera; e eu nunca pensei nisso. É praticamente o primeiro contacto do cliente, do visitante, do mecenas ou do ladrão, mais ou menos fidalgo, com o conteúdo da empresa, instituição ou lugar; e eu nunca lhe dei o devido valor. É aí que, pela primeira vez, se sente o conforto que a coisa tem para nos dar; e eu, vulgo idiota, optei por desprezá-lo ao invés de explorá-lo. Sentimo-lo, ainda que inconscientemente, e estes gajos sabem disso; e não o desprezam, como nós lá o fazemos, nem se permitem a qualidade inferior à desta. Veludo, talvez. Nunca fui muito bom em pormenores de tecidos e materiais – a minha Lúcia sim, é exímia nisso – mas, agora que aqui estou, é inevitável pensá-lo: Como é que não previ, num plano de negócios tão extenso e tão elaborado e tão complexo e que me durou meses de pesquisas e de estudos e de concepção, como é que não previ a inclusão de um sofá destes? Pensei nos quadros, do Paulo Maldenim, que com certeza virão a valer bem mais do que o que dei por eles e até do que este sofá – o Paulo é a nova coqueluche da pintura digital portuguesa e Maldenim é o seu misterioso nome artístico – mas passei ao lado do supra-sumo da sapiência. O Paulo caminha a passos largos pelas longas horas que antecedem os seus 5 minutos de fama e, inclusive, até teve aquele episódio do russo que lhe comprou os outros quadros por uma quantia bem mais interessante. Foi a sorte da Nonô nos ter apresentado, talvez. Amigo não empata amigo e ele se calhar pensou que sairia a ganhar mais comigo do que eu com ele. É possível, toda a gente olha para o mundo do cinema como sendo a distância que separa a realidade do sonho. Os parvos, mas o Paulo não é parvo nenhum. Se calhar a cena dele nem é a de fazer dinheiro com os quadros. Ele pinta porque gosta. Dois mil euros por dois quadros já é um bom valor, em qualquer parte do mundo. Foi por isso que me apressei a falar com o Paulo para saber por quanto mos vendia. No entanto, para tudo o resto, dei-me por satisfeito com a panóplia dos suecos. Fui rigoroso com os quadros e um banana com os sofás. Jogada de cepo, puro exemplo do estado embrionário que carrego nesta indústria de tubarões. Não que menospreze os suecos. Nenhum empreendedor o poderá, é coisa de manuais. Mas veludo é veludo. Classe é classe. Conforto é conforto. Negócio é negócio. E conhaque é conhaque. Esta é a indústria em que, acima de tudo, se torna mais importante a pele do sofá em que o prospector se senta do que a integridade das obras que lhe são apresentadas – a estética do conforto é imediata; a da obra é contexto. E tudo o resto é conversa. Estes gajos não são parvos, não.
Mário está desconfortável. Não que o fato que hoje, neste dia tão especial, decidiu vestir, seja a causa desse desconforto. É o melhor fato da sua colecção. O mesmo que usou no dia do seu casamento, por sinal. A Lúcia é que o escolheu – ela não falha nessas coisas e, sinceramente, nunca eu gostei tanto de me rever em fotografias como naquelas do dia do casamento. Sinto calor e ajeito o colarinho de novo. Já senti mais vezes a transpirada gola da camisa grená durante esta hora do que em todo o dia da união matrimonial. Com o peso de todos os celestialíssimos votos que, então, acedi em aceitar. Nunca foi minha ideia envolver as palavras Dele na nossa relação. Não é que eu não acredite Nele, só não O vi muitas vezes. E, aliás, da última vez que O vi nem estava com a Lúcia, naquela tarde-noite de Verão no Hyde Park, em 2009. Foi naquela excursão da malta do Birras – o café de dia, bar de noite que eu e os meus amigos de Castelo Branco adoptámos enquanto segundo lar pelos largos anos de adolescência – às terras de sua majestade, de príncipes mediáticos e de autocarros vermelhos. Já a roçar o lusco-fusco, o Boss anunciou-O, como bom pastor que é. Depois disso foi vê-Lo insurgir-se, no clímax da Racing In The Street. Aí sim, transpirei bem. Mas não foi com esta camisa. Foi com aquela velhinha t-shirt dos Clash; eu sabia que o Boss puxaria a London Calling algures naquele dia e o Boss não falha. Foi aí a última vez que nos presenciei, a nós, resquícios da Humanidade contemporânea, em conjunção com o acto celeste. De mãos dadas e casa construída, como o grande Bruce minutos antes anunciara. A nossa casa, erguida nos alicerces do amor, na batuta da guarnição humana. Foi por isso que não me opus à Sua intromissão na minha cena com a Lúcia – é que a presença Dele, quando a mesma se confirma, é bela demais para se menosprezar. Bastou lembrar-me da primeira vez que O vi; bastou lembrar-me daquele final de tarde de Abril, em Santos, mil novecentos e setenta e quatro. Aquele momento em que finalmente, já o sol ia na sua rota descendente, o meu Pai nos deixou sair ao largo e celebrar – inocência a minha, de celebrar liberdade sem contextualização possível – mas foi no sorriso puro e na alegria daquelas pessoas que vi estender-se o manto pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente do processo, apesar de garoto. E do par de anos a mais da minha Irmã que, com as suas sábias palavras, completou o iluminismo: «Marinho, Ele existe.» Bastou lembrar-me de um ponto nos meus já cada vez mais longínquos 6 anos de idade, para ceder nas intenções da Lúcia. Só podia ser boa, tal transcendência a pontuar a nossa relação.
Mário tenta recuperar do calor que sentiu enquanto vinha a caminho do Thirty Thirty Hotel, na 29 East da 29th Street. Foi uma sorte encontrar este hotel a este preço. Estava a cinquenta por cento do preço habitual. Nunca pensei pagar tão pouco por um quarto em Nova Iorque. Os dólares continuam atractivos e por cerca de quarenta euros é difícil hoje em dia dormir em Lisboa. Quanto mais em Nova Iorque – onde a desvalorização do dólar parece ser mito – num belo hotel a apenas um quarteirão de distância da produtora do Ed. A cerca de 15 minutos, com passagem pelo Starbucks incluída, do lendário Ed. O homem que se tornou lenda pela capacidade invulgar de escolher peles de sofás. Sem dúvida. Os filmes são apenas um epílogo, no processo. É tudo uma questão de tacto. Como é que nunca pensei nisto antes? Valorizei sentidos inoperantes, nesta indústria. O ser humano quer é conforto, não é arte. Sou muito ingénuo, cada vez o sei mais. O dinheiro vem de quem tem poder. E quem tem poder gosta de conforto. Cada vez menos gosta de arte. Como é que eu nunca pensei nisto, de tão óbvio que é? Como é que eu pude sentir qualquer ímpeto de empreendedorismo sem primeiro ser mestre neste tipo de tópicos – o básico dos básicos. O ser humano é ingrato. Menospreza a visão, prefere o tacto. Depois fica cego e chora. O início do ciclo. E eu nunca pensei nisto.
Mário olha em redor. Alguns gabinetes envidraçados, transparentes, constituem a paisagem que o rodeia. É um escritório iluminado, graças ao brilho que reflecte da invulgarmente imensa quantidade de vidros. Não é muito grande, enquanto escritório, mas tudo está exageradamente limpo e é capaz de fazer justiça ao charme dos lucros dos avolumados negócios que aqui são processados. É igualmente capaz, ao mesmo tempo, de se traduzir na perfeita analogia dos intervenientes dos mesmos processos – a limpeza e o talento e a qualidade dos ocupantes. Tudo é exímio; tudo é parte do plano. Brilhante. Se a fama que temos desta gente é a de seres sobre-humanos, com uma sensibilidade e uma aptidão para o negócio tão incrivelmente ofuscantes, é na observação desse encandeamento que entendemos a metáfora. Tudo aqui é grandioso, pela transparência com que nos é exposto. Qual Feng-Shui. Muito mais à frente. Arquitectos paisagistas, psicólogos, videntes – um bom executivo, nesta indústria, tem que ser excepcional nos capítulos todos. Os Clark Kents. Os Clark Gables. E, paralelamente, os Larry Clarks do negócio. Fortes, bonitos e sem pudor. Aqui percebemos, enquanto aguardamos neste fabuloso sofá, que não somos um mero cliente. Percebemo-nos, desde logo, parte do processo. Parte do negócio: um pawn, um membro do tabuleiro. Somos o número 10 da equipa, um diamante por lapidar – e é a pele do sofá em que nos sentamos que nos diz isso. Faz toda a diferença e eles sabem-no. Sentir, também nós, o requinte. Um cheirinho do jogo que eles jogam. Metem-nos a bola nos pés, desde logo. Como um treinador confiante, que nos tira da Marisqueira dos Pobres e nos atira para o El Bulli, o laboratório do Ferrão. Não é só a comida que conta, no fundo. É a experiência. O requinte. O conforto. O segredo está na psicologia e no operar dela. No entrar a receio ou no participar enquanto convidado. Andamos nós por lá, meros operários, a tentar singrar na indústria dos tubarões, procurando mostrar-nos num degrau muito acima daquele que realmente pisamos e a esconder a real pele do cordeiro. Eles, cá, sentido inverso: metem-nos as cartas desde logo em cima da mesa, viradas para cima. Mostram o que são, logo desde o primeiro contacto, logo desde o sofá. As nossas decisões são todas fúteis, erradas, contrárias à lógica da coisa. Não percebemos nada do jogo, mas fingimos que percebemos e ignoramos o benefício da humildade. O Ed é um lobo-do-mar; navega estes mares como poucos. Só pode ser judeu. Lobby famoso, esse. Até nós, tão pequeninos que somos, sabemos que os americanos dominam esta indústria porque levam anos de operações judaicas em cima da matéria. Nasceu neles o sonho americano. Foram eles que o exploraram e são eles que o usufruem. Pode andar moribundo, o termo, mas é sentimento que sobrevive. A definição do americano é hoje tão dispersa que o legado mais visível é o da prepotência que essa sagacidade judaica ajudou a fundamentar. Se a América é hoje uma nação, são eles os seus sustentáculos. Os que souberam montar uma estrutura sobre esse sonho, sobre esse conceito, sobre esse ideal. Os que souberam vestir o fato-macaco e arregaçá-las para as glórias yankees pairarem omnipresentes. Eles, os que têm a mestria da manipulação na psicologia do comércio. De escolher peles de sofás e de erguer universos capitalistas com base no brilhantismo do seu proletariado. Mark Sandman, por exemplo. Um judeu de Massachusetts, que nunca teve problemas em sujar as mãos. Trabalhou nas obras, conduziu táxis e até chegou a pescador. Pouco depois tornou-se lenda. O senhor Morphine, essa banda icónica, que acabou convalescendo em palco. Derradeiro passo para o trademark, que a coisa é pensada do início ao fim, nesta máquina industrial. Lutador digno, merecia outro destino. Uma vida mais longa, talvez. O poder de optar entre uns anos mais de sorrisos e de emoções a troco da imortalidade post-mortem. Será esse o preço que se paga, o da inevitável tragédia? Talvez seja altura de darmos mais atenção aos nichos judaicos, lá em Portugal, antes que o presente passe a passado e para a eternidade só fique a memória. De indústria percebem eles e nós temos um PIB e um abominável défice das neves para resolver. Se os gajos fizeram disto o que isto hoje é, qual seria o limite num retículo como o nosso? Era vê-los a disparar por essa ZEE fora, cada vez mais diminuta. Três galeões por cada metro quadrado; três zilhões por cada cardume. Era vê-los a sujar as mãos. A levantar barreiras. A marcar posições. A negociar. A produzir e a negociar ainda mais. A içar bandeiras e a contar os reis – mas os impressos. Falta-nos um líder, é o que é. País e pátria temos. Venha de lá um judeu, que eu não me importo. O que eu quero é sair desta asfixia. Já canta o Fachada, que não quer ser mais que pai babado; também eu, mas hoje em dia ‘tá difícil. Até podia vir lá o Ed, a governar aquilo e a promover desde logo uma remodelação interna dos sofás das salas de espera, nas urgências de norte a sul. Imagino o povo, ao ler tal notícia nos jornais. O 5 de Outubro passava a ter um irmão maior. Não somos muito dados ao out of the box, como bons plebeus que somos. Apesar de termos tantos e tão bem formados, sem sítio onde poisar, custa-nos a entender certas coisas. Tipo os pombos do Rossio. Mas esses ainda recebem umas migalhas dos nossos pensionistas – essa classe quase extinta. Os outros não recebem nada. Venha de lá um judeu, que pode muito bem ser o que precisamos. Nem que seja por retribuição ao Aristides, que bem merecia outra glória no legado português. Não foi esta a sua pátria, seguramente. Ajudou-vos e inseriu-vos, sem do vosso talento beneficiar? Onde estão vocês, nosso judeus, e que país me saíste, Portugal? Que bandido te tornaste, quando aos nossos burgos roubas toda a integridade para te manteres no país singular que és, de espiral melancolia? Onde está essa História, gloriosa, que um dia criaste? Onde estão essas gentes que outrora apadrinhaste e, nas penas de Camões, imortalizaste? Esses igrejos avós que, contra os canhões, marcharam, marcharam? Hoje o mundo tem fado, mas sumiram-se os heróis e os pretextos para o cantar. Continuam os que ficam; os saudosos que orgulhosamente apregoam a única palavra inteiramente nossa: Saudade – tão nossa, literalmente. E depois há os que vão e os que lutam. Mas por si próprios, apenas e só, que Pátria já vai longe. Nem a Europa, em toda a sua multicultural unicidade, é hoje mais do que um solo infértil. Ainda que invariavelmente procure contrastar as ferrugens dos caixilhos renascentistas com os néons dos modernistas. O reino dos déspotas. Os mamões que há anos subjugam o mundo a seu bel-prazer. Séculos de luxúria e de mercenarismo. Fizeram mais os alemães nos últimos 50 anos do que nós nos últimos 500. E fizeram-no depois de abdicar das qualidades comerciais da maioria dos judeus. Após um mea culpa horrendo de não de uma, mas de várias gerações; esse fantasma, esse estigma que os perseguirá até ao fim dos seus dias. E nós somos isto. Nem uma coisa, nem outra. Somos aquele pedaço de terra que fica a meio caminho. Demasiado perto do fora da Europa e demasiado longe da afiliação enquanto 49º Estado Unido. Não somos uma coisa, nem outra. Eu até sou bastante patriótico, mas não me dão ninguém em quem acreditar, para além da bandeira. Acreditar na Pátria, por si só, já não chega. Não quando tudo está em desuso, em constante cadência identitária. O Cristiano Ronaldo não é o Dom Sebastião. Nem o Berardo, o Belmiro, ou o operário Amorim. Deixem-se de ilusões e deixem-nos em paz que a cada macaco o seu galho e macaco velho não se senta em ramada seca. Precisávamos era de um judeu a mandar naquilo! E ponto final.
Em todo o escritório, apenas um gabinete tem paredes revestidas de cimento. Mário está sentado na direcção da porta que separa esse gabinete do restante espaço e observa-a, em silêncio. Um forte, pensa. As muralhas e o portão do castelo. Ainda que uma fortaleza simples, esta não perde o seu esplendor quando confrontada com toda a glória conotada – lá dentro está o Ed. É o que se ganha quando se atinge este estatuto. Protecção. Invulnerabilidade. Um dia serei eu. Embora trocasse tudo isso pelo reaparecimento do Dom Sebastião. Ainda que, afinal, ele até fosse o Cristiano Ronaldo.
O ambiente envolto contrasta com a actividade expressa por Mário, que aguarda com aparente nervosismo. Boceja repetidas vezes, enquanto observa o ambiente. Apesar de sempre ter idealizado este tipo de ambiente para a sua carreira profissional, agora que o vive sente-se inquieto. Como um peixe fora de água, quando sempre pensou que este seria o seu habitat natural. Duvida se a origem dos bocejos se deve aos nervos que carrega – não sendo mais do que aquele gesto que se habituou a adoptar como comportamento de segurança -, ou se será apenas decorrente do processo lógico do jet lag que o incomoda há meia-dúzia de horas. Cá passam poucos minutos das nove. Muita desta gente ainda nem sequer tomou o pequeno-almoço. Em Portugal já se come no Guedes. O que aumenta as hipóteses para três. Se calhar os bocejos são mesmo por sentir a falta dessas refeições incomparáveis. Já lá vão cerca de três anos, de 2ª a 6ª, praticamente sem excepção.
Mário olha em redor e observa a concentração com que os executivos analisam os daily issues nos seus netbooks. Acho que é esse o termo que cá utilizam – daily issues. O termo politicamente correcto para as centenas de emails que eliminam enquanto respondem com templates a dizer que, por motivos de segurança, terão de apagar os guiões não solicitados que centenas de pobres coitados enviam. Esses sim – argumentistas, essa classe que um dia fez greve e parou o mundo – os sonhadores, os amantes e os entusiastas do género. Esse verdadeiro proletariado do cinema, que se desunha para ter um tiro de sorte e que no fundo, neste meio, conta pouco mais do que merda. Nós, lá, contamos sempre com pelo menos quinze minutos de zapping cibernauta ao começar do dia. A Bola, o Record, o Público e mais um ou dois blogues de nomeada. Pelo menos eu e o Diogo somos assim. Sendo que há sempre mais um ou dois minutos para picardias. O lampião e o lagarto. Eles cá de certeza que não perdem tempo nessas merdas. Nem ligam ao futebol, sequer. Soccer, chamam-lhe eles. Ridículas, ambas as coisas. Ou talvez não, bem vistas as coisas, porque em quinze minutos conseguem-se negócios. Em quinze minutos descobre-se o guião que mudará o rumo da história do cinema. Em quinze minutos vêem-se 3 curtas no Vimeo e descobre-se um novo talento. Em quinze minutos convence-se um Brad Pitt ou um Tom Cruise a assinar um contrato. Quinze minutos é muito tempo. Já aqui estou há cinco e ainda só vou a um terço. Segundo o Paulo Coelho, a Maria levava 11 minutos. Tempo é dinheiro, sem dúvida. E eles aqui sabem disso – é o legado judaico. Mas o football até foi inventado em Inglaterra. É a natureza destes gajos. Apoderam-se de tudo. Dão-lhes nomes, conceitos e ainda operam na unificação global do desporto em causa. Ainda que não dispensem tempo na sua apreciação, capitalizam-no. Hoje o futebol é Nike, na sua larga escala global. Essa label de Oregon, um dos pulmões do Tio Sam. Eles aqui não brincam e o nosso Dom Sebastião alinha na estratégia – que o digam as suas novas Mercurial, chuteiras irrepreensivelmente projectadas para serem vistas em alta velocidade. CR7 é dinheiro e ironia é isto – o rapaz é madeirense. Tudo isto é cinema, para nós. Tudo isto é media, para eles. A função fática da 7ª arte; uma via para as suas expressões políticas. Fazem das galas, assembleias. Parlamentos universais, com transmissões em directo. As celebridades são os políticos. As passadeiras vermelhas e as estatuetas douradas. Todo o mundo assiste em directo. Estes gajos são máquinas e têm plena consciência disso. Mudam o curso da história em cerimónias de 3 horas, com tendência a diminuir. Aliassem eles essa qualidade ao solo africano e à disciplina oriental e poderíamos todos ser já hoje um Estado Único da América. Pode ser que agora as coisas mudem, entretanto. Não que dedique muito do meu tempo a essa consciencialização social metafísica. Mas hoje, aqui, está nas minhas mãos a mudança do rumo da Mentecapta Filmes. Ainda hoje não estou muito certo do nome que o Diogo escolheu para a nossa empresa. Mas eu também não arranjei alternativa melhor. E temos que concordar que até é de uma ambiguidade engraçada. O lendário Ed não permitiria outro nome à sua empresa que não fosse Ed Films. Tudo bem que antes de ser lenda nunca haveria espaço para uma companhia com a bandeira do seu nome. Mas o Ed, de facto, é um gajo que esteve ligado aos grandes nomes dos anos 70 e dos anos 80 e, por fim, estabeleceu a sua multipremiada companhia nos 90. Cerca de 20 anos depois de ter começado a conquistar sucessos, cerca de 20 anos a ajudar a estabelecer a história do cinema recente – a história do cinema que nós nos habituámos a acompanhar desde putos. Hoje em dia só existem os Spielbergs e os Scorseses porque por trás do pano existiram gajos como o Ed a permitir que as coisas acontecessem. Ainda nem sei bem como consegui este convite. A mim, um produtor português – pequeno até em Portugal – que até à data apenas conseguiu levar uma semi-amadora longa aos cinemas e a uma dúzia de salas nacionais, por sinal, todas elas em Lisboa. Ainda nem sei como conseguiu este convite a Mentecapta Filmes, cuja ambiguidade do título ao Ed não diz rigorosamente nada. Mas este guião é bom. O puto fez mesmo um bom trabalho. Só a premissa cativa logo. E tão rápido fomos convencidos a pegar neste projecto como o lendário Ed o foi a chamar-me cá. Se bem que eu não passo de um mero peão nisto tudo; e tenho plena consciência disso. Tanto eu como o puto. É um jogo a dois, entre o Ed e o guião, apesar deste sofá me fazer sentir como interveniente no processo. Mas a verdade é que ou o Ed decide mesmo pegar no jogo ou tudo isto fica no limbo do costume. Porque é um filme para meia-dúzia de milhões. E ninguém em Portugal, e até mesmo na Europa, consegue bancar tanto dinheiro para um filme. Referindo-me aos programas de subsídios, claro. Que mecenas já os não há. Nem eles nem as leis que os incentivem. Conseguirmos sacar duzentos mil euros a fundos da união europeia, na altura, para esse primeiro filme, foi uma espécie de milagre pós-apocalíptico. E, sinceramente, acho que depois de saberem que apenas levámos duas mil pessoas às salas, fechou-se a porta que ainda mal se abrira. Nem as menções honrosas que recebemos em alguns festivais alteram esse cenário. O que é um facto é que caiu do céu, este convite do Ed. Tão rápido como o nosso nome caiu em desuso nas lides cinematográficas dos últimos tempos. É esse o poder de um bom guião – até os mortos levanta. Steve Haynes, é esse o nome do santo milagreiro; o braço-direito do lendário Ed que pegou na premissa e que a considerou interessante. Foi ele que nos requisitou o guião e que, num par de horas depois, nos respondeu a dizer que o Ed queria pegar no projecto. Um verdadeiro fenómeno, pelo que li sobre ele. É googlar o nome dele e ficar impressionado. Capa da Variety e tudo – um dos 10 next big things na indústria cinematográfica. Um puto de 27 anos que o Ed descobriu; em Columbia, acho. Fresquinho, saiu do anonimato graças a uma pergunta que colocou, ainda enquanto aluno, numa das concorridas palestras do Ed. Não sei exactamente qual a pergunta. Mas não deixa de ser curioso que inúmera gente boa procure e batalhe toda uma vida por essa oportunidade, sem sucesso, e o Steve conseguiu-a à primeira, quase por acaso. No mês seguinte já aqui estava ele, sentado numa destas secretárias. Diz-se que, por semana – em horário de trabalho – o Steve lê 5 livros, 20 guiões de longas e ainda consegue ter tempo para se envolver na produção de outros projectos: a escrita de artigos para a Empire e de crónicas para o NY Times. É um agente, um director criativo, um development executive ou o chamado canivete suíço, daqueles que em Portugal não alcançam mais do que estágios curriculares, sem qualquer tipo de remuneração. É um faz-tudo aqui da casa e é o principal responsável pelos maiores e melhores projectos levados a cabo na indústria cinematográfica recente. Foi ele que revitalizou autores como o Malick, o PT Anderson e o Andrew Dominik, quando o resto dos grandes estúdios os considerava inaptos por riscos de box office. Foi o génio do Haynes e o dinheiro de uma jovem herdeira de uma das maiores fortunas norte-americanas. Felizmente, a visionária decidiu apostá-la em cinema. Em bom cinema, com a palavra do Ed. Equipa de sucesso, ímpar neste meio, e é uma honra para nós, e especialmente para o puto, atrair o interesse de alguém como o Steve Haynes. Ele é aquele tipo de gajo que tem o poder de mudar as coisas de um dia para o outro. Tem tudo aquilo que é preciso para vir a ser uma lenda. Para ser o próximo Ed. Ambos sabem disso e ambos se divertem enquanto ditam as regras e as modas do cinema contemporâneo. Maior elogio nos é devido quando desde a resposta do Steve até o eu estar aqui sentado neste maravilhoso sofá de pele passaram-se apenas 72 horas. Por isso é também ainda mais admirável o preço a que consegui o hotel, a apenas um quarteirão da Ed Films. Ainda nem tive tempo para visitar a Times Square, ou o Central Park, apesar de já ter visto a Estátua da Liberdade, ao longe, e uma manada de táxis amarelos, ao perto. Deu também para dormir umas horas, que não foram muitas. A maioria foi no avião. O puto devia ter vindo também. Ele tem mais jeito para falar sobre o guião do que eu. Mas eu tenho mais jeito para o negócio. Ele por vezes, como artista que é, divaga demasiado e a Mentecapta não pode vacilar nesta chance. A partir do momento em que entrar naquela porta, a nossa vida vai mudar. O jogo pode ser entre eles, mas o árbitro sou eu e vou tratar de certificar-me que daqui em diante o árbitro é quem manda. Não vai ser fácil, tentar dizer ou contrariar o que quer que o lendário diga. Mas se eu soubesse que seria fácil não me tinha aventurado nesta área, logo de antemão. Afinal, o passo principal está dado. Já sobrevoámos o Atlântico, como sempre quisemos. A indústria é aqui, deste lado. O principal objectivo de qualquer empreendedor que se preze nesta área é estar aqui nestes jogos – nunca eu pensei, ao fazer tal plano de negócios, que chegaria aqui tão rápido. E, agora, não pode haver passo atrás. Não são mais nem menos do que o lendário Ed e o iluminado Steve Haynes que estão dentro daquele gabinete. Eles mesmo; o presente e o futuro da indústria cinematográfica tal qual a conhecemos. Ali dentro, neste forte. Mas a última palavra será minha. Estes gajos podem ser tudo isso e muito mais. Podem ser mundos e fundos, sultões e barões. Podem ter sofás de pele, escritórios brilhantes, ferros e fogos. Mas eu, como bom português que sou, tenho a faca e o queijo nas mãos. Um queijo da serra. E chega.
Gosto da satira que golpeia certas ideas como do humor que se faz sentir aqui e ali. Cito um dos meus paragrafos preferidos:
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