Crónica do Proprietário

Foi uma semana de aplausos.

António Lobo Antunes, na cada vez mais “sua” terra, foi longamente aplaudido no 7º Festival Internacional de Literatura de Berlim. A leitura de excertos das suas obras, em português e alemão, e a consequente ovação emocionaram o escritor português, que evocou as suas raízes germânicas. O seu pai sempre considerou a Alemanha como a sua terra, até à data da sua morte. E, na cerimónia em que foi apresentado como o maior escritor lusitano da actualidade, Lobo Antunes retribuiu o carinho ao afirmar que era 25% alemão. Mas não foram as suas raízes que o levaram ali. Nem elas o motivo das palmas.

José Mourinho, jogando noutro campo, chegou a acordo de rescisão amigável com o Chelsea. O treinador português, que levou o clube londrino a uma glória que desconhecia até então, colocando-o como um dos maiores clubes do mundo, saiu do clube pela porta grande. Foi uma decisão por muitos inesperada, mas compreendida. A relação entre Mourinho e a direcção já não era a mesma de tempos idos e a sua saída pode ter sido lógica. Mas, mais lógico do que tudo isso é o sinal de reconhecimento do seu trabalho. Os tablóides britânicos vão sentir a sua falta, Ferguson e Wenger lamentarão a saída do mais forte “rival” de profissão e os adeptos do Chelsea terão que sobreviver ao “fantasma” Mourinho, como as Antas sofreram após a sua saída do Porto. É quase impossível um trabalho tão digno e próximo da perfeição encontrar substituto num futuro próximo. Mourinho deixou a sua marca. E foi aplaudido.

“Os Sopranos” voltaram a conquistar os principais Emmys – melhor série dramática, melhor realizador e melhor cenário. Apesar de nenhum dos actores da série terem recebido os devidos prémios, David Chase, o criador de “Os Sopranos”, ao receber a estatueta de melhor série foi peremptório nas suas declarações: “Eu já disse isto muitas vezes, mas volto a dizer, que a melhor coisa nisto tudo é poder trabalhar com todos estes actores. Eles são formidáveis”. E, assim, retribui os aplausos com os rostos que dão sucesso à série. É impossível não lhes reconhecer o mérito.

A nossa selecção AMADORA de rugby ainda não venceu nehum jogo, na sua histórica primeira participação no Mundial de Rugby. Desafiando as principais selecções do mundo, “Os Lobos” deixaram a sua marca em cada um dos jogos disputados até agora. A garra, vontade e entrega devem servir de exemplo não só para quem pratica desporto, mas como filosofia de vida a todos nós. É preciso lutar contra as adversidades com tudo aquilo que temos. Sem dúvida um exemplo máximo de coragem, determinação e persistência. Um orgulhoso aplauso. De Portugal.

Jorge Sampaio podia ter optado por gozar o período pós-Belém em férias, num qualquer pacato local, isento de preocupações ou inseguranças. Podia ter optado pela indiferença. Mas determinadas pessoas nasceram para lutar. Por causas, princípios, pela humanidade. Jorge Sampaio afirmou hoje, no Conselho Informal dos Ministros do Desenvolvimento da União Europeia, que é indispensável a realização da Cimeira Europa-África. Podia estar neste momento num qualquer lago isolado, contando os peixes que lhe faltariam para equilibrar o saldo pescatório com que o seu neto ia vencendo a “competição”. Mas não. Por sua vez, prefere contar a percentagem de casos de Sida em África (63% dos Mundiais) e respectiva percentagem de mortes ocorridas no ano passado (72% das mortes ocorridas em todo o Mundo em 2006). Não abdica do lago. Da vida com os seus. Mas também não renuncia o seu papel humanitário. De lutar por causas por muitos consideradas perdidas. Ao nosso “querido” ex-Presidente da República, um aplauso.

Mas o maior aplauso é o inaudível. É o reconhecimento. Aquele que nos confere o seu devido valor. O aplauso que prevalece. Imaginemos Mourinho a sair do balneário do seu Chelsea (seu, porque tal saga terminou nesse preciso momento), tal qual John Keating a abandonar a sua sala no magnífico filme “Clube dos Poetas Mortos”, e todos os jogadores transmitindo-lhe todo o seu apreço pelo seu trabalho. Porque mais valioso do que o que a obra deixa, é o reconhecimento pessoal dos seus próximos. E, quiçá originado pela força do momento, de uma despedida indesejada, hoje Lampard admitiu querer abandonar o Chelsea, seguindo os passos do seu ex-treinador, capitão, líder, ou aquilo que quisermos chamar para definir o papel de Mourinho na formação deste jogadores. Além de Lampard, também Drogba, Ricardo Carvalho, entre outros, já afirmaram estar igualmente de saída. Noutro campo, imagino Lobo Antunes tal qual John Nash, no final do esplendoroso “Uma Mente Brilhante”, a receber as canetas dos seus colegas de profissão. Lobo Antunes foi acarinhado na terra que cada vez mais considera sua, por colegas de profissão e amantes de literatura. E Sampaio a contemplar o olhar de um jovem angolano, filho de pais seropositivos, a formar-se em Direito, por exemplo, agradecendo as campanhas humanitárias que, em pequeno, o salvaram, impedindo o seu contágio. David Chase reconheceu o valor dos seus actores, uma vez mais. O que é bom, nunca é demais. Reconheceu que o sucesso da sua obra não é só seu. Ficou-lhe bem. Esse gesto foi mais forte que os aplausos. Imagino também a selecção de Rugby a regressar a Portugal com plena consciência de que cumpriram a missão. Mal sabem eles a lição de vida que deram com a sua filosofia de jogo. Um dia saberão. E aí sim, sentir-se-ão reconhecidos.

E assim, deixo o meu aplauso. Até Sábado.

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