Crónica do Proprietário

Ando meio obcecado.

Pelo que foi e já só raramente o é. Logo, pelos que teimam em que seja.

Houve tempos em que tudo era diferente. Adufes, bombos ou acordeões; Violinos, trompetes e campeões. Hoje, computadores, playstations e mandriões.

Não me oponho à modernidade. Mas admiro a tradicionalidade. Pela sua simplicidade, inocência e fraternidade.

E tenho corrido atrás do arcaico, dentro das minhas possibilidades. Interessam-me as raízes. Dos hábitos, das gentes, do afável, do delicado, da música, do cinema, da literatura, dos objectos, das tradições. Interessam-me os locais. O rural, o natural e a sua integridade.

Não desprezo os samples, os sintetizadores, nem tão pouco a electricidade. Faz parte da actualidade e gosto de viver com ela. Mas adoro viajar ao passado. Adoro sentir a escassez de meios e vanglorizar-me com a potencialidade do ser humano.

Tenho tido a felicidade de conviver com pessoas do meio rural, (para um exercício fílmico que tenho desenvolvido) e acompanhar alguns dos hábitos de outrora (recriados especificamente para o mesmo). Mas, contrariamente ao que possam pensar, recriar não é simular. E, perante tal dedicação das pessoas envolvidas, não consigo distinguir o actor do agricultor/artesão. Pelo contrário, distingo bem o prazer do “frete” usual em exercícios semelhantes. O prazer de voltar atrás no tempo. De recuperar os hábitos cada vez mais perdidos. De vestir a farda que havia sido do antepassado e de tocar no adufe que havia encantado os serões da sua juventude. O prazer da vindima. O prazer do convívio. O amor fraterno pelos seus. E tal simplicidade de processos obceca-me.

Anda na moda o termo Folk. E eu gosto que esteja. E de fazer parte dela.

Gosto de saber que há pessoas que teimam em recuperar o património. Em manter os seus hábitos e materializá-los como podem e melhor sabem. Que há bandas a relembrar a música balcânica, flamenca ou mirandesa. Que o fado volta a ser notícia principal, que o samba continua a encantar. Que a tradição é para se manter. Porque é património. E um orgulho.

Compreendo a vontade da criança que pede uma consola no seu 6º aniversário. E aceito-a. Mas entristece-me que nada façam para alargar os seus horizontes. Que o Domingo não seja passado a visitar o castelo mais próximo. Mas sim no sofá.

E concordo com o Dr. Santana Lopes. Não é essa a evolução que interessa. Não é essa “loucura” que se quer para o nosso país. É preciso reflectir sobre as nossas prioridades enquanto seres humanos; enquanto comunidade. E a melhor maneira de o fazermos é deitando um olhar ao que outrora foi e já raramente o é.

E esse receio de um futuro cada vez mais presente, deixa-me algo apreensivo. E meio obcecado.

Por voltar atrás no tempo.

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4 thoughts on “Crónica do Proprietário

  1. Cartaxo diz:

    Concordo, mas queria um parecer:
    é na denominação “Folk” que incluimos toda a panoplia de sons diversos, estilos ou correntes que provém dos mais diversos cantos do mundo e que muito insistem em apelidar de tradicional? ou será no “World”, esse lugar que, por tão comum, deixa despido de identidade qualquer movimento cultural?
    Discordo desta apelidação… aliás, não gosto de apelidos. acabam sempre a resumir…
    opniniões…?

  2. theroyalowner diz:

    Eu também não gosto de apelidar géneros musicais… Prefiro sempre dar uma noção mais geral, unicamente que sirva como meio de identificação. Ou seja, concordo com a classificação de géneros e discordo com a de sub-géneros.
    Como no cinema. Um filme é comédia. Pronto. Definido. Evito questionar que tipo de comédia é.
    Relativamente à questão Folk/World Music, acho que ambas podem ser usadas com a mesma finalidade. Se o género World Music pode englobar todo o tipo de música, acho que no senso-comum é mais recorrente utilizar o termo quando se tenciona apelidar um tipo de música de cariz mais tradicional. Tal como o Folk, que também encaixa nesse conceito.
    Ao referir-me ao termo Folk, na crónica, pretendia remetê-lo ao movimento que se tem observado, a nível global, de recuperação de sons e instrumentos mais tradicionais. Acho que se está a desenvolver uma “moda” saudável de exploração musical das raízes de todos os cantos do mundo, cujas bandas como Gogol Bordello, Beirut, A Hawk and a Hacksaw, entre outros, se apresentam como expoentes máximos da mesma, através da “globalização” da sua música e dos muitos discos vendidos.

  3. Tanto faz o que se chame… Para quem a pratica, isso é o menos. Importa essa experiência, a consciência dela! Um abraço de cumplicidade

  4. bondginha +lindinha diz:

    tens razao a tradiçao ja n e o q era mas como hoje ja nada e o q era vamos estar atentos a tudo o q ainda existe e nos pode transportar p um mundo diferente.beijinhos

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