Devendra Banhart: “Smokey Rolls Down Thunder Canyon”

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No dia em que chega às lojas o novo álbum dos “Clã”, “Cintura” (álbum que espero comentar aqui brevemente), o destaque do Royal Cafe vai para um álbum que foi lançado no passado dia 25 de Setembro.

“Smokey Rolls Down Thunder Canyon” é o mais recente álbum de Devendra Banhart. E um dos melhores de 2007.

O álbum mais trabalhado e mais aventureiro de Devendra até à data vinga como um trunfo, no que diz respeito à afirmação do seu talento musical. Se até “Smokey Rolls Down Thunder Canyon”, Devendra era anunciado como um dos mais promissores artistas do panorama musical neste início de século; se nos registos anteriores se antevia um Jeff Buckley pós mudança do milénio, neste último álbum confirma-se o multi-talentoso Devendra Banhart.

O texano de 26 anos, que viveu a sua infância na Venezuela, apresenta-nos aqui um extenso álbum de 16 músicas e cerca de 70 minutos de viagem. Uma viagem pelo canyon. Mas imaginemos um canyon que atravesse grande parte da América e que, a espaços, uma ou outra povoação europeia, apreendendo o melhor de todas as culturas musicais com que se cruza. Porque “Smokey Rolls Down Thunder Canyon” é country, é rock, é blues, é soul, é gospel, é reggae e algo mais. Devendra explora diversos territórios musicais, emprestando-lhes o seu talento em mais de uma hora de música. De boa música.

E a viagem começa em “Cristobal” e no desejo de descoberta. Na vontade em conhecer o desconhecido. O “além-fronteiras”. E, conjuntamente com Gael García Bernal (sim, o actor), Devendra faz uma “ode” à aventura. Ao espírito de mudança. Mudar de país, de vida, ambicionando outro mundo. E assim começa “Smokey Rolls Down Thunder Canyon”. Com o início da aventura. Justificando o seu porquê.

“So Long Old Bean” revisita o lado romântico de Elvis Presley, quase que nos transportando para uma velha Jukebox, perdida algures numa remota área-de-serviço texana. E Devendra recupera esse “mood” com a sua voz radiofónica, à la anos 50, magistralmente circundada por um piano e secção de cordas discretos, mas funcionais. “Samba Vexillographica”, por sua vez, encontra-se num baile algures pelo sul duma Itália remota, com Chris Robinson dos The Black Crowes a pisar o palco. É o momento mais latino do álbum. E, se o baile proporciona uma dança amigável, por ora apaixonada, no interior dum salão de festas à antiga, no seu clímax abrem-se as portas para uma rua cubana, em tempo de festa. Percussão latina, balões e muita festa. Um tema sobre bandeiras, amor e felicidade. E Chris Robinson afirma a determinado momento, para o público que dança ao som da sua música: Y aunque la gente es pobre. Saben vivir feliz, saben vivir feliz.

“Seahorse” é o hino do álbum. Talvez o melhor tema de Devendra até à data. Talvez porque nele recupere o melhor de Buckley, Morrison, Albarn ou Hendrix. Parece exagerado, mas não é. A música é mesmo excelente. Um tema que começa algures num extinto Drive-In norte-americano, num Texas cada vez mais solitário. E se Jim Morrison, perante tal cenário, há 30 anos atrás, encontrava o pseudónimo de Rei Lagarto, como meio de fuga ao que os seus olhos viam e ao mundo que conhecia, Devendra, em 2007, na mesma região, transforma-se em Cavalo Marinho. Questionando o passado. Viajando a um “presente” paralelo. Distante, mas alcançável. E se o tema começa num registo Country, revivendo uma trip eterna do tom “Buckleyriano”, é nos momentos em que se permuta em trechos Rock/Blues, que Devendra encontra o seu Cavalo Marinho. Através do órgão à la The Good, The Bad & The Queen, dos devaneios guitarrísticos ao bom estilo de Jimi Hendrix, da tímida flauta que por vezes espreita e de um trabalho notável de percussão mutável consoante os altos e baixos de intensidade musical. Um tema que ficará para a história. Porque todo ele é história.

“Bad Girl” continua essa viagem pelo Texas, como que recuperando do estado de Cavalo Marinho, cantando à sua mãe e afirmando-se como a “má menina” que diz ter sido. Música triste, de ressaca, de partidas, de saudade. Talvez estado pós-eufórico, pós-cavalo marinho. Abandonando o interior do seu país rumo à beira-mar, porque é tempo de seguir viagem, de procurar um local onde se consiga respirar felicidade, de levar o cavalo marinho a casa. Onde este se sinta em casa. Porque a música seguinte é “Seaside” e Devendra passeia à beira-mar. Perto do lar que almeja. Devendra fecha os olhos e sente a maresia. A sua tranquilidade. O seu conforto. Toca o sino e a música seguinte é “Shabop Shalom”, onde Nick Valensi conta uma história. Voltamos aos anos 50. A dançar um slow de época. E vestimos um fato preto e branco a Nick Valensi, colocamo-lo a cantar num microfone antigo, brilhantina no seu cabelo, muita brilhantina e ouvimos a história que ele tem para nos cantar, colados ao rádio como quem hoje cola na televisão a ver um jogo de futebol. E Nick permuta-se em Buckley, em Kapranos (líder dos Franz Ferdinand) e com o apoio dos back vocals presentes, apaixona toda a sua audiência, nesta noite de verão. Imaginamos o “ice cream”, os carrosséis, os carros de época e o passeio à beira-mar. E os altifalantes expostos ao longo de todo o passeio, “rugindo” para todo o povo a história que Valensi orgulhosamente canta.

“Tonada Yanomaninista” avança alguns anos na história. E é o momento mais rock do álbum. Mais selvagem. Lado “wild” de Jim Morrison. E incendeia a plateia. É Devendra de cabeça de fora do carro a alta velocidade. De regresso ao estado eufórico. Prosseguindo a viagem.

“Rose” é talvez o momento mais lindo do álbum. Com a participação da voz de Rodrigo Amarante, da banda brasileira Los Hermanos, este tema é todo ele Caetano Veloso. A sua simplicidade. A sua beleza. O charme de um disco de música francesa antiga, a sobriedade do contemporâneo brasileiro. É uma “estranha rosa” que se entranha.

“Saved” é a redenção de Devendra. Entra na igreja, participa na sua festa e redime-se espiritualmente. Toda ela é Gospel. Mãos no ar, gargantas afinadas e muito espírito. Grande momento. E, ao sair à rua, Devendra entra no seu carro e liga o rádio. Estamos nos anos 80 e na rádio o tempo é de Dance Music. “Lover” é Bowie e é Gaye; é pop e é soul music. A música é alegre. Momento Marijuana. A linha de baixo é estimulante e Devendra, com um sorriso, continua a viagem.

E a próxima paragem é na Argentina. É tempo de Tango. De dança. Congas, cha cha cha. É a continuação da aventura de Devendra. A explorar novos territórios. E a prescrever a sua cultura musical. “The Other Woman”, por sua vez, é uma fusão de reggae simples, com um coro britânico ao bom estilo de Beatles. Em “Freely” Devendra regressa ao slow. Questiona a liberdade. E o momento musical é bonito.

Em “Remember” senta-se ao piano. À imagem de Cat Power, ou de recentemente PJ Harvey, e recorda uma terra longínqua. Saudades e muita nostalgia. A viagem está quase a terminar.

E “My Dearest Friend” é a sua despedida. Devendra despede-se desta viagem. Inconformado. Temendo a solidão.

“Smokey Rolls Down Thunder Canyon” é uma viagem de altos e baixos. De diversos estados emocionais. Devendra experiencia várias personalidades ao descer o canyon, ora dominadas por uma ténue euforia, ora devastadas por uma sobriedade receosa. Faz parte da interacção cultural, da descoberta, da sua aventura. E o seu brilhantismo é que, apesar das diversas identidades vestidas ao longo da viagem – e de nem sempre encontrar o desejado Cavalo Marinho – Devendra é sempre fantástico a incorporar as diversas culturas com que se cruza.

Musicalmente maravilhoso, “Smokey Rolls Down Thunder Canyon” é uma viagem a fazer. A esse mundo paralelo. Distante, mas alcançável. É um alerta à necessidade de descoberta. Uma apologia à aventura. Com muita qualidade.

WEBSITE 

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“Samba Vexillografica” (MP3)

“Seahorse” (MP3)

“Lover” (MP3)

As faixas disponíveis para download são unicamente usadas com a finalidade de divulgação de música de qualidade. Apoiem os vossos artistas preferidos, comprando o seu álbum. 

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One thought on “Devendra Banhart: “Smokey Rolls Down Thunder Canyon”

  1. Muito bom teu texto… só faltou comentar a melhor música do álbum: Carmencita…

    um abraço!

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