Royal Cafe Convida: Manuel Paulo

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Manuel Paulo é um dos melhores músicos portugueses.

Talvez mais conhecido como co-fundador do grupo “Ala dos Namorados”, este “nosso” génio musical acompanhou Jorge Palma e Rui Veloso durante largos anos, produziu inúmeros discos, foi director musical de vários projectos e criou várias bandas-sonoras. E em tudo o que participou, “emprestou-lhe” a sua qualidade musical singular.

Fã incondicional de Jazz e Blues, foi, a par dos seus amigos de então (anos 70), presença assídua no Hot Clube de Portugal, mesmo antes desta instituição se tornar uma escola musical.

Em 1982 conhece o Jorge Palma e com ele grava o álbum “Acto Contínuo”. A partir do ano seguinte junta-se a Rui Veloso e acompanha-o por uma década, gravando 7 álbuns conjuntamente. Paralelamente, ainda em 1984, faz parte do grupo “Bit”, que explorava a vertente de jazz fusão e lançam um álbum homónimo.

Em 1994, com João Gil, João Monge (como letrista), Nuno Guerreiro e Moz Carrapa, cria o grupo “Ala dos Namorados”. Até hoje editaram 7 álbuns e realizaram centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro.

Apesar da sua inquestionável dedicação ao projecto “Ala dos Namorados”, dirigiu e participou em inúmeros projectos musicais paralelos (como os “Rio Grande”, “Cabeças no Ar”, entre outros), produziu vários álbuns para outros artistas (Mísia, Mafalda Veiga, entre outros) e compôs algumas bandas-sonoras.

Em 2003 editou o seu único álbum a solo até à data, “O Assobio da Cobra”, com a participação de artistas como Manuela Azevedo, Jorge Palma, Zeca Baleiro, Manuel Cruz, entre outros.

E esperemos que não se fique por aqui.

Aproveitámos a sua presença no Royal Cafe para lhe colocar as seguintes questões:

Royal Café: Descreve sucintamente a tua entrada no mundo da música.

Manuel Paulo: O gosto por tocar com os amigos. No final dos anos 70 a minha segunda casa era o hot clube, onde na realidade me iniciei. Foi para mim uma grande escola.

R.C.: Jorge Palma, Rui Veloso e posteriormente, Ala dos Namorados. Quando sentiste a necessidade de criar um álbum a solo?

M.P.: O universo das canções sempre me fascinou. A canção é talvez a forma mais interessante, ou mesmo sublime de contares uma história. Na vida da maioria das pessoas, há geralmente canções ligadas a épocas ou ocasiões que foram marcantes. Há uma série de músicos e compositores que fizeram e fazem parte da banda sonora da minha vida. Na minha adolescência e pós- adolescência, eu ouvia sobretudo música inglesa e americana.

Descobri mais tarde o José Afonso o José Mário Branco e sobretudo o Sérgio Godinho, que me mostraram que se podiam fazer excelentes canções em português. A música ligeira da época, (estou a falar de 72/74), era para mim uma coisa terrível, e punha todos na mesma prateleira. Mais tarde percebi até que ponto estava errado, pois também se faziam coisas muito interessantes nessa época.

De qualquer forma foi com o universo de músicos como o Jorge Palma e o Rui Veloso, que eu me identifiquei realmente. Estávamos próximos a vários níveis. Comecei por trabalhar com o Jorge Palma que me abriu muito o universo das canções, mas com o Rui havia também o gosto pelos blues que ambos tínhamos, e depois as excelentes canções com aquelas letras fantásticas do Carlos Tê. Foi para mim um mundo novo. Acabei por fazer parte do grupo do Rui durante 11 anos. Ainda hoje trabalho pontualmente tanto com o Rui como com o Palma.

No meio de tudo isto, fui compondo as minhas canções e necessitava de espaço próprio para lhes dar vida. Aí entra a ala dos namorados, que criei com o João Gil, com o João Monge, outro dos grandes letristas portugueses, e a voz do Nuno Guerreiro. Digamos que a Ala tem sido nos últimos dez anos o espaço privilegiado para compor e fazer arranjos.

O álbum que fiz a solo, só não saiu como ala dos namorados porque de facto aquelas canções faziam parte de um outro universo que não cabia nas características da ala, embora a ala seja um grupo com um espectro estético largo.

Para mim uma das características mais interessantes do grupo é a sua capacidade em se apropriar de várias linguagens, sem se descaracterizar, mas no ASSOBIO DA COBRA queria mesmo trabalhar com outra gente e outro som.

R.C.: E o que te levou a escolher as colaborações para o mesmo?

M.P.: As colaborações têm a ver com as canções, sendo que algumas foram feitas expressamente para “aquele” cantor. Todas as participações têm uma razão de ser. Há ali canções, que na minha perspectiva e do Monge não poderiam ser cantadas por mais ninguém.

R.C.: Com que artista gostarias de trabalhar?

M.P.: Há muitos com os quais me identifico e gostaria de poder trabalhar. Lembro-me do Tom Waits ou do David Byrne, ou poder ter o Sonny Rollins numa canção minha…

R.C.: Achas estimulante a criação de bandas-sonoras? Porquê?

M.P.: Gosto muito de trabalhar sobre imagem. Tenho feito algumas bandas sonoras e estou de momento a trabalhar numa. A música pode sublinhar e criar efeitos interessantíssimos ligada a imagem. Não tem que ser redundante ou óbvia, mas pode ser até uma extensão do que se vê. Nalguns casos subsiste sozinha. Há bandas sonoras absolutamente fantásticas.

R.C.: Qual o instrumento musical que sempre te lamentaste por não saber tocar?

M.P.: Nenhum, embora gostasse de os tocar todos.

R.C.: Houve algum acontecimento que tenha alterado a tua maneira de viver, ou, de certa forma, marcado a tua maneira de “ver as coisas”?

M.P.: Houve, ao longo da minha vida, acontecimentos que me foram mostrando o mundo e as pessoas, de formas e ângulos que eu não conhecia e me abriram horizontes. Chama-se a isso crescimento e aprendizagem, e passa por pessoas cruciais que conheces na tua vida, lugares onde vives, fenómenos que observas… Há muita coisa.

Pessoalmente, os anos 74/76, marcaram-me especialmente por ver como valores que sempre foram tidos como únicos e permanentes, são completamente efémeros, e de um momento para o outro desmoronam-se, mostrando que há mesmo muito mais vida para além do que nos deixavam ver. Especialmente 74 e 75, foram dois anos em que o poder quase caiu ao chão, e sentiu-se uma enorme descompressão colectiva. Foi espantoso.

Viver em África durante o ano de 1980 também me marcou especialmente, mas há muitas coisas que ainda nos vão abrindo os olhos todos os dias.

R.C.: Que realizador escolherias para fazer um filme sobre ti? Porquê?

M.P.: Não sei se gostaria de ver um filme sobre mim, mas não me parece que corra esse risco. A haver, realizá-lo-ia eu! Há é muitos realizadores de que gosto, quer no cinema americano quer no europeu, como o Robert Altman ou o Sérgio Leone, ou o Peckinpah, o Hitchcock, o Scorcese, o Fellini o Almodôvar ou o Lelouch, e tantos outros.

R.C.: O que achas das novas bandas que têm aparecido em Portugal?

M.P.: Quando aparecem novos grupos de música, é sempre bom sinal, embora por vezes sejam desiguais. Muitas vezes a proposta é mais de procura de sucesso do que propriamente musical. É cada vez mais difícil vingar, sem que o sucesso comercial seja a curto prazo, especialmente em mercados mais periféricos, como é o caso do nosso. De qualquer forma, enquanto houver gente a compor e a interpretar música, ela não acabará, e a crise acaba por ter também um lado estimulante. Há que avançar e não cruzar os braços. O aparecimento de novas bandas e projectos é sempre de saudar.

R.C.: E como classificas o actual panorama musical, a um nível mundial?

M.P.: É uma conversa longa, mas se por um lado a música “popular” está mais ou menos normalizada, pois existem uma série de mega estrelas globais, incontornáveis, normalmente norte americanas ou inglesas, e que ditam de alguma forma a moda ou a corrente, por outro lado há um estímulo e uma procura de sonoridades diferentes, em que cada vez mais se mistura tudo com tudo e que gera música francamente interessante.

Estamos numa época de consumo desvairado e geralmente efémero, em que a indústria nos inunda de produtos que são enormes sucessos, mas que são substituídos no ano seguinte. Há, na minha opinião, lugar para tudo, embora o comércio continue a falar mais alto, e continua a fazer-se muita música para todas as sensibilidades.

R.C.: Qual o concerto da tua vida?

M.P.: Já vi muitos, e é muito difícil eleger um, pois há muitos factores. Lembro-me que quando vi o concerto do quarteto do Roland Kirk no jazz Cascais em 1973, tinha eu 16 anos, abriu-se para mim um mundo novo. Recordo-me também dos Génesis em 75, igualmente no velho pavilhão do dramático de Cascais, que também foi uma verdadeira pedrada no charco. Uma coisa nunca vista. Não posso no entanto dizer que há um concerto da minha vida.

R.C.: E o álbum que mais te marcou até hoje?

M.P.: É uma resposta ainda mais complicada que a anterior, mas houve discos que consumi e consumo até à exaustão. Posso falar-te do álbum branco dos Beatles, do Facing You do Keith Jarrett, os discos da Sandy Denny, o Selling England by the pound dos Génesis, os primeiros Jethro Tull, os Led Zeppelin, os discos do Ry Cooder, Tom Waits, o North do Elvis Costello, e a parceria dele com o Burt Bacaharach, os discos dos Weather Report e depois do Zawinul, os discos do Herbie Hancock , do Bill Frisell, os discos do Milton Nascimento da primeira fase. Muitos álbuns me marcaram em diversas fases da minha vida.

R.C.: O que achas do progresso tecnológico? O que retiras de positivo/negativo?

M.P.: É a ferramenta de trabalho cada vez mais aperfeiçoada e mais ao nosso alcance. Não retiro nada de negativo.

R.C.: Quais as tuas perspectivas de futuro?

M.P.: São boas, mas estamos numa fase de transição. A indústria, tal como a conhecemos já não existe. A música é só uma e faz-se com doze notas. Os suportes e a maneira de a ir fazendo chegar às pessoas é que está em mudança, mas tudo isso são acessórios. Houve sempre “crise” desde o aparecimento da rádio e dos diversos suportes de música gravada.

R.C.: Queres deixar algum conselho aos jovens?

M.P.: Se gostam de fazer música não deixem de a fazer, mas quanto mais preparados para a fazer, será melhor, e sejam honestos no que fazem.

Manuel Paulo aceitou disponibilizar um tema para os clientes do Royal Cafe:

“Como Seria” (Mp3)

Música de Manuel Paulo (interpretada pela “Ala dos Namorados” no álbum duplo Cristal), Letra de João Monge e com a participação especial de Jacques Morelenbaum no violoncelo.

Website

Foi com grande orgulho que o Royal Cafe recebeu Manuel Paulo. Foi muito honroso contar com a presença de um dos maiores nomes musicais da história de Portugal.

Obrigado. Volte sempre.

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