Royal Cafe Convida: Francisco Silva

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O convidado semanal do Royal Cafe, nesta 5ª feira, dia 11 de Outubro, é Francisco Silva – o mentor do projecto musical portuense Old Jerusalem

“The Temple Bell”, o seu quarto álbum de originais, foi lançado em Fevereiro deste ano e foi aclamado pela crítica como o seu melhor registo até à presente data. O álbum pode ser comprado aqui.

Aproveitando a sua presença, o Royal Cafe colocou-lhe as seguintes questões:

Royal Café: Descreve a música dos Old Jerusalem numa frase.
Francisco:
Numa frase curta: são canções – música com palavras / palavras com música, com algumas excepções. 🙂

R.C.: Quais as tuas maiores influências?
F.: São demasiadas para enumerar. Costumam ser-me atribuídas várias no domínio dos songwriters (em entrevistas, críticas, etc) e são quase sempre acertadas, o que não é surpreendente. Sou um pouco melómano, pelo que há muita música que resulta inspiradora para mim.

R.C.: Old Jerusalem é um projecto singular na música portuguesa actual. Consideras a sua sonoridade mais americana do que portuguesa? Ou mais de algum outro local do que propriamente Portugal?
F.:
Não é uma questão relevante para mim, mas certamente não vejo Old J como mais americano (ou de outro qualquer lugar) do que português. Dito isto, também seria absurdo dizer que vejo Old J como essencialmente português quando a língua usada nas canções é o inglês, não é?
No fundo, penso que as canções acabarão por reflectir a minha expressão no que ela tem de intrinsecamente português mas também no muito que tem de “intrinsecamente-de-lado-nenhum”.

R.C.: O que difere “The Temple Bell” dos teus trabalhos anteriores?
F.:
Possivelmente para um ouvinte regular não haverá diferenças substanciais: continuam a ser canções, com determinadas características e ambientes. Há diferenças a nível técnico, de interpretação e também de escrita que demarcam um certo carácter em cada um dos discos. Mas não saberia especificá-las de forma convincente e inequívoca, pelo que sou forçado a concluir que não são discos radicalmente diferentes uns dos outros, os que fiz até ao momento.

R.C.: Achas que há uma “regionalização” musical em Portugal? Que se podem identificar diversos movimentos musicais, consoante as suas origens regionais?
F.: Hoje em dia não sinto essa demarcação regional. No passado sim, pareceu-me em determinado momento haver algumas características estéticas comuns a bandas de determinadas zonas: um certo indie rock nas Caldas da Rainha (Tina & The Top Ten, Orange, Red Beans,…), um rock mais musculado no Porto (Zen, No Creative Solution, Blind Zero, Parkinson,…), inclinações experimentais em Barcelos (Astonishing Urbana Fall, This Isn’t Luxury,…), o rock’n’roll conimbricense (M’As Foice, Tédio Boys e respectiva “prole” – d3ö, Bunnyranch e Wraygunn), um rock “degenerado” e literato de Braga (Mão Morta, Um Zero Amarelo,…), etc. Claro que mesmo nessa altura talvez fosse abusivo fazer este tipo de generalização. O que me parece mais ou menos evidente é que hoje estas demarcações são ainda menos legítimas.

R.C.: Como classificas o actual panorama musical em Portugal?
F.: O panorama musical em geral está a sofrer modificações de que todos vamos estando mais ou menos a par e que são significativas. Sendo os efeitos destas coisas cada vez mais globais, é natural que em Portugal se sinta também essa convulsão, com os pros e os contras que lhe são inerentes. Em termos puramente criativos e estéticos, o nosso cenário não me surge como particularmente entusiasmante, mas vai havendo (como sempre há e haverá) alguma música com interesse e mesmo, de tempos a tempos, algumas coisas realmente empolgantes.

R.C.: O que dizes das novas bandas e tendências que têm surgido em Portugal?
F.:
Vou encontrando bandas e músicos interessantes e com trabalhos que me parecem consistentes e dignos de registo em vários géneros.

R.C.: Qual é, para ti, o maior obstáculo à exportação da nossa música?
F.:
Há vários obstáculos e constrangimentos, todos fortemente correlacionados, pelo que se torna difícil identificar claramente qual é “o” problema. Há dificuldades na capacidade de produção e promoção; há obstáculos quanto à imagem do país e do que fazemos; há, todos sabemos, um universo de outros constrangimentos, mas a verdade é que há também poucos projectos que se distingam de tal forma (pela qualidade, pelo carisma, pela originalidade,…) que não percam relevância quando retirados do nosso contexto. Isto falando no domínio da música popular urbana e numa perspectiva absolutamente pessoal, como é óbvio.

R.C.: E que medidas achas que resolveriam essa questão?
F.:
Não saberia dizê-lo, naturalmente, é uma questão complexa. Do ponto de vista que me toca mais – como músico e autor – ocorre-me apenas citar o “segredo” para o sucesso que um amigo generosamente me revelou: “o segredo… é ser mesmo bom”. Fácil, portanto… 🙂

R.C.: Quais as tuas perspectivas de futuro?
F.: Não sei, presumo que continuar a fazer o que faço nos moldes que apareçam como possíveis. O percurso de Old J até aqui não tem sofrido grandes convulsões mas também não está isento de inseguranças. As coisas não se têm desenvolvido de uma forma que permita antever os passos seguintes com certezas. Ao fim de cada passo há sempre um conjunto grande de incógnitas quando ao que virá a seguir.
Estou convencido que independentemente da minha vontade de fazer música, a vida pública do projecto só faz sentido enquanto se mantiver o interesse de uma audiência em que ele exista publicamente (com discos, concertos, etc). Tento ir tendo um pouco a noção desta receptividade, mas o feedback nem sempre é claro e, se há momentos em que tudo parecer fazer um certo sentido, há também outros em que a sensação que prevalece é a de uma certa vacuidade e redundância do que temos para oferecer.
O caminho é feito oscilando entre esses dois estados de ânimo, o que se calhar é até bastante saudável. 🙂

R.C.: Qual o concerto mais memorável que deste até hoje?
F.:
Não sei dizer, mas talvez a experiência menos comum tenha sido a de tocar, como Old Jerusalem, num casamento. 🙂

R.C.: E qual o álbum da tua vida?
F.: Depende da perspectiva. A primeira “epifania musical” de que tenho memória ocorreu com o “Bad”, do Michael Jackson. Foi o disco que pôs incontornavelmente a música no centro da minha existência, pelo que numa determinada perspectiva é o disco da minha vida. 🙂

R.C.: Achas que a tua música tem algo de cinematográfica? Que resultaria como banda-sonora? Porquê?
F.: Alguma da música que faço talvez tenha essa ambiência cinematográfica, mas nem tudo o que escrevo “encaixa” nesse tom. Um dos temas do último álbum foi usado na curta metragem “Intemporalidade”, da Filmes da Mente, e gostei muito do resultado final. No fundo, o essencial é a adequação estética entre a imagem e a música, não há uma distinção absoluta entre o que é ou não é “cinemático”.

R.C.: Que achas do conceito do Royal Cafe?
F.: Parece-me um conceito interessante, o de transportar para a net as conversas de café. 🙂

R.C.: E acerca da internet em geral? Das suas possibilidades, enquanto elemento de divulgação musical, enquanto fonte de informação e enquanto fonte de pirataria?
F.:
Este é porventura outro tópico demasiado abrangente para me sentir habilitado a dar uma opinião minimamente fundamentada. Sinto pessoalmente uma certa nostalgia pela forma como as coisas funcionavam antes do boom da internet; ao mesmo tempo, é inevitável sentir-se algum entusiasmo pelas possibilidades que se abrem, impensáveis há bem pouco tempo atrás.
Parece-me sim que o excesso de informação e de “acessibilidade” a tudo são fenómenos potencialmente nocivos, e esse poderá ser um dos maiores riscos desta era de conectividade intensa e permanente – o cair-se num “ennui” existencial a uma escala sem precedentes, onde tudo está disponível, mas nada é desejado.
Mas quem sabe o que daqui pode resultar?

R.C.: Queres deixar alguma mensagem aos jovens aspirantes a músicos?
F.:
Na verdade, não sinto que tenha aprendido nada que possa servir a outra pessoa. Relembro se calhar a revelação do meu amigo: “o segredo… é ser mesmo bom”. Mas eu não sou obviamente a pessoa habilitada a dar conselhos sobre como se consegue isso… 🙂

Francisco Silva aceitou também disponibilizar para os clientes do Royal Cafe o tema “Our Own Time”, que saiu originalmente na compilação ‘Divergências.com’, editada pela Independent Records em parceria com o site divergencias.com.

Myspace

Website

O Royal Cafe agradece a sua presença e, acima de tudo, a sua obra.

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