Crónica do Proprietário

Gosto de me sentir nostálgico.

De provocar essa certa melancolia. Que, sentindo-a, me faz saber o solo que piso.

De adquirir essas certezas. Quase imediatas.

E em 3 situações consigo-o sempre: Aniversários, filmes do Rocky e álbuns dos Radiohead.

Sou novo demais para não vibrar com o heroísmo de Balboa, talvez ainda algo prematuro para avaliar Radiohead como se exige. Mas já vivi vários aniversários. Meus e de outros. Que sabem sempre bem.

Porque vi e revi vezes sem conta as peripécias do “maior” pugilista de sempre. Ainda que ficcional. Porque gosto de acompanhar o percurso da genial banda de Thom Yorke. E porque até sei cantar os parabéns.

E, ao confrontar-me com cada qual, sinto-me nostálgico. E sabe tão bem.

Talvez porque desde sempre me acompanharam. Porque desde sempre conheço o Rocky. Todo o seu épico percurso. E ontem vi a (talvez) sua derradeira saga. Que acaba tão bem como começou.

Sempre nutri um carinho pela personagem. Pela sua coragem, simplicidade ou persistência que, ao longo do tempo, ganharam um lugar no meu coração. Apoiei, vibrei e sempre admirei cada episódio do mais místico papel de Sylvester Stallone. Uns melhores, outros piores. Como é normal. O Sporting também nem sempre joga bem. Mas gosto sempre.

E a saga termina bonita. Muito bonita, aliás. Porque Stallone soube pegar no melhor da sua personagem e narrar mais um ponto da sua história. Com distinção. Soube explorar todo o humanismo presente em grande parte da saga e ilustrar o envelhecimento. De Rocky, do cunhado Paulie (o grande actor Burt Young), do seu filho, da sociedade, da “sua” Philadelphia e do desporto em causa. Porque o passar dos anos deixam marcas evidentes.

E, neste capítulo, Rocky tem que enfrentar a maior luta da sua vida. Uma luta num ringue muito mais global, ilimitado de cordas. A luta contra o envelhecimento e todo o mal inerente ao mesmo. A luta da sua afirmação, perante o filho, perante os seus clientes (sim, Rocky agora ocupa o seu quotidiano vagueando pelas mesas do seu restaurante, contando as histórias de outra época, de outras glórias) e, acima de todas, perante si próprio e perante o vazio da perda da sua amada Adrian.

Rocky Balboa é um exercício muito interessante sobre o pós-glória de um herói e sobre as suas relações. Porque, apesar de tudo, Rocky é mesmo humano. E, neste filme, tem a maior vitória da sua vida. Mesmo com o ringue relegado para segundo plano.

A dado momento do filme Stallone diz: “não interessa a força com que és atingido, mas sim quanto consegues aguentar e seguir em frente”. E Rocky aguenta. E não desiste. Exemplarmente.

Radiohead é uma banda de culto. Demarca-se de tudo o resto. Pelo que inova, principalmente.

Não sei se toda a gente se sente nostálgica, perante a sua música. Mas eu sinto. É algo contraditório, sentir-me nostálgico perante a banda mais original dos últimos anos. Mas, para mim, é inevitável. Não o sei explicar muito bem. Mas é um facto. Talvez seja da voz de Thom Yorke. E da sua singularidade. Talvez seja porque sempre acompanhei minimamente todos os seus registos anteriores. E sempre gostei.

E, com “In Rainbows”, o seu mais recente álbum, aconteceu o mesmo. Desconfio que sempre acontecerá. Esta espécie de cliché que me faz voltar atrás no tempo ao som dos primeiros acordes de cada um dos seus álbuns. O álbum, como todos os outros, é excelente. Único. Numa palavra, perfeito.

Ontem tive também a felicidade de estar presente no 56º aniversário do meu pai. Mais do que ninguém, merece a felicidade do festejo aniversariante. Perto dos seus. Daqueles que realmente interessam na sua vida. Apesar dos presentes não serem os únicos.

Como em qualquer aniversário, aquele também teve sorrisos, cânticos e reinou a boa disposição. Eu emociono-me sempre. E fico nostálgico. Porque são sempre dias únicos. Que nos remontam a tantos outros. Sempre festivos, sempre alegres. Que saberão sempre tão bem recordar.

E, perante este efeito nostálgico, das velas, dos sorrisos, da alegria contagiante, sinto-me bem. Seguro de felicidade. Tal como perante o chapéu preto do Rocky Balboa ou o delicioso timbre de Thom Yorke. Que imediatamente provocam essa saudável melancolia.

De que gosto tanto, tanto. E cada vez gosto mais.

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