Royal Cafe Convida: António Ferreira

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António Ferreira nasceu em Coimbra em 1970. Inicia-se profissionalmente como programador informático, profissão que viria abandonar em 1990, quando se muda para Paris. Em 1994 ingressa em Lisboa, na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC). Em 1996, muda-se para a Alemanha para estudar na Academia de Cinema e Televisão de Berlim (dffb). Em 2000, ganha notoriedade com a curta metragem “RESPIRAR (debaixo d’água)” que o levou até ao Festival de Cannes e com a qual ganhou vários prémios em diversos festivais internacionais. Em 2002, estreia-se na longa metragem com “Esquece tudo o que te disse”, que se tornou num dos filmes portugueses mais vistos em Portugal nesse ano. Em 2007 estreia o seu mais recente filme “Deus Não Quis”.

Reside e trabalha actualmente em Coimbra, onde dirige a sua produtora ZED FILMES – CURTAS E LONGAS, com a qual produz ficção e documentários dos mais diversos realizadores.

“Respirar (Debaixo De Água)” Trailer

“Deus Não Quis” Trailer

“Esquece (Tudo O Que Te Disse)” Trailer

Alguns videoclips realizados por António Ferreira:

Expensive Soul feat. Bianca – “Eu Não Danço/I Don’t Dance”

A Jigsaw – “Lion’s Eyes Louder”

Humanos – “Quero É Viver”

O Royal Cafe aproveitou a sua presença para lhe colocar as seguintes questões:

Royal Café: Descreve a actividade da Zed Filmes numa frase.

António Ferreira: A ZED é uma produtora cinematográfica de filmes de documentário, ficção e videoclips.

R.C.: Foste programador informático. Em que momento da tua vida sentiste que querias ser cineasta?

A.F.: Quando compreendi que não queria ser programador informático o resto da vida…. o cinema era o meu outro amor.

R.C.: E que experiência guardas da Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora? Em termos de aprendizagem.

A.F.: Boas e más. No inicio foi uma revelação positiva, pois o meu conhecimento do cinema era sobretudo a do mainstream e a ESTC revelou-me outras cinematografias até então desconhecidas. As más experiências começaram quando me apercebi que a escola era conservadora, que afinal havia cinematografias “maiores” e outras “desprezaveis”. Obviamente, esse não era o meu ponto de vista.

R.C.: E em que aspectos a tua passagem por Berlim foi enriquecedora?

A.F.: É essencial conhecer outras culturas e neste caso, outra forma de fazer cinema. A passagem pela escola de Berlim foi um bom contra-peso para a minha aprendizagem no Conservatório de Lisboa. É uma escola muito virada para a prática e filmei bastante. Na verdade, foi aqui que “aprendi” a filmar.

R.C.: Achas que conseguiste algum desenvolvimento como cineasta lá, que seria de todo impossível conseguires em Portugal?

A.F.: Hoje acho importante ter passado por duas escolas tão diferentes, pois acho que me dá uma visão mais abrangente de como fazer um filme. Na minha passagem por Berlim acho que ganhei mais “músculo” sobre o processo de concretização de um filme, na medida em que filmei bastante. A minha experiência na ESTC foi mais teórica e intelectual.

R.C.: Com “Respirar (Debaixo de Água)” foste seleccionado para Cannes. É uma espécie de sonho para um jovem cineasta? Que efeitos teve essa selecção na tua abordagem ao cinema?

A.F.: Curiosamente não era um sonho pois o envio do RESPIRAR para a selecção de Cannes foi um daqueles actos empolgados de quem faz um primeiro filme, sem quaisquer expectativas. Ser seleccionado foi sobretudo uma boa surpresa e o deslumbre de participar num festival daquela dimensão. Não sinto que este evento tenha mudado seja o que for na minha abordagem ao cinema, pois as minhas motivações permanecem as mesmas. Ir a Cannes básicamente ajudou-me a financiar o próximo filme.

R.C.: Qual foi, para ti, do ponto de vista pessoal, a maior conquista de “Esquece Tudo o Que Te Disse”?

A.F.: O desafio do “ESQUECE” foi o de concretizar um projecto de longa-metragem, que é sempre demorado e extremamente trabalhoso. Como costumo escrever os filmes que faço, é igualmente um acto de grande exposição perante o público e isso pode ser assustador. Fico satisfeito por ter tido uma boa recepção junto do público. Enquanto criador, é-me gratificante ser reconhecido pelos demais. Dá-me mais força para continuar.

R.C.: Realizaste vários videoclips. Nutres alguma preferência por esse tipo de exercício fílmico? Ou és assumidamente um homem da ficção?

A.F.: Como dizia o personagem Pankas numa das cenas (apagadas) de Esquece Tudo o Que Te Disse: – “Caguei no cinema e decidi dedicar-me à música!”, na verdade, esta frase tem qualquer coisa de auto-biográfico, pois na verdade, eu caguei na música para me dedicar ao cinema. Quero com isto dizer que a minha ligação à música vem da adolescência, de rabo de cavalo e guitarra eléctrica na mão, e que o cinema só se tornou mais sério quando fui estudar para a Escola de Cinema em Lisboa em 1994. O videoclip é um meio muito livre que permite conjugar formas de expressão muito diversas. É um excelente laboratório para a ficção, embora em verdade, sejam meios de comunicação com diferenças importantes. A ficção é um trabalho de fundo, demorado, reflectido, extremamente gratificante quando se concretiza num filme, pois a ressonância que provoca no público é mais intensa. O videoclip é mais impulso, velocidade, e talvez por isso, mais efémero.

R.C.: Como classificas o actual panorama do cinema português?

A.F.: Acho que a cinematografia portuguesa tem melhorado ao longo dos últimos anos, mas penso que o progresso que houve é manifestamente insuficiente, pois na verdade produzimos poucos filmes, com um interesse do público dramáticamente baixo. É sabido das limitações demográficas e financeiras de Portugal, mas isso não desculpa tudo. Apesar de tudo a música e livros portugueses são os que mais se vendem em Portugal, o que demonstra que há talento do lado dos criadores e interesse por parte dos portugueses. Se o cinema português está divorciado do seu público, tem com certeza a sua quota de responsabilidade, pelos filmes que tem feito. Esta imagem do panorama cinematográfico português entristece-me. Gostava sinceramente de vibrar mais com os filmes portugueses que vejo.
R.C.: Que medidas encontras para o desenvolver?

A.F.: Só fazendo mais filmes. A diversidade enriquecerá a nossa cinematografia. Por consequência, acho que os nossos filmes poderiam conquistar mais o público e consequentemente, fazerem-se ainda mais filmes. O cinema tem esse mau vício de ser caro o que torna a sua concretização extremamente difícil. Eu sou daqueles por exemplo que defende ser preferível apoiar-se mais filmes com menos dinheiro para cada um (opinião que normalmente irrita os produtores estabelecidos no mercado). Aumentaria a diversidade, forçaria os produtores a encontrar mais fontes de financiamento, obrigando-os naturalmente a criar filmes que se relaccionem com o público.

R.C.: Achas que a aposta nos jovens cineastas portugueses é insuficiente?

A.F.: Acho que temos um sistema de distribuição de apoios cinematográficos que é injusto, pois não premeia o mérito e é baseado em factores demasiado subjectivos. Penso que a idade de um realizador não deve ser factor decisivo para um filme existir ou não, mas sim a pertinência de um determinado projecto cinematográfico. Ser um realizador mais ou menos experiente, tem vantagens e desvantagens. Os mais experientes dominam à partida melhor a linguagem cinematográfica, mas pode-lhes faltar a força e espontâneadade dos mais jovens. Penso que num sistema mais democrático, o meio naturalmente decide quem filma ou não e por mais que nos custe admitir, o factor “público” é o mais democrático.

R.C.: Qual a tua posição perante o aparecimento de produtoras independentes, apostando cada vez mais em filmes de cariz “comercial”?

A.F.: Na minha concepção, filmes comerciais são os que levam pessoas a pagar um bilhete de cinema para ver um filme. Se houver cada vez mais produtoras (que não são assim tantas) que levam pessoas às sala, isso é positivo.

R.C.: E em relação ao envolvimento cada vez mais significativo dos canais televisivos portugueses na criação de cinema?

A.F.: É inevitável e desejavel. Já há alguns anos que as receitas em sala foram suplantadas pelas do dvd. A distribuição cinematografica alterou-se profundamente nos últimos anos pelo que os canais de financiamento também se estão a alterar. Portugal, devido ao seu sistema de financiamento “jurássico”, desfazado da realidade e totalmente dependente de apoios estatais, só agora (e lentamente) começa a dar sinais de mudança.

R.C.: “Deus Não Quis” é o teu mais recente trabalho. Já foi inclusive seleccionado para alguns festivais de cinema internacionais. Fala-nos um pouco acerca do filme.

A.F.: É um projecto o qual já andava a “moer” desde 2003, escrito pelo argumentista Miguel Triantafillo e que é a dramatização dos versos da música “Laurindinha”, que tal como a música conta, fala de um rapaz que se separa da sua amada para ir para a guerra. É uma história de amor passada numa pequena aldeia em Portugal tendo a guerra colonial em pano de fundo. É um filme de 15 minutos, narrado sem diálogos, somente através de imagens e som.

R.C.: Quais as tuas perspectivas de futuro?

A.F.: Ser feliz.

R.C.: E qual aquele actor que sempre sonhaste trabalhar?

A.F.: Não sei como responder a essa pergunta… normalmente os actores surgem-me depois das histórias. Iria depender do projecto.

R.C.: Quais as tuas maiores influências enquanto realizador?

A.F.: Gosto sobretudo de filmes que me emocionem. Aprecio realizadores como Kubrik, Scorsese, Lars von Trier, Mike Leigh, P.T. Anderson, Lynch, irmãos Coen, Alejandro González Iñárritu, entre outros.

R.C.: E quais os filmes que mais te marcaram até hoje?

A.F.: Penso que o “The Wall” do Alan Parker terá sido um dos primeiros que me deu vontade de fazer filmes, mas há imensos: Taxi Driver, Laranja Mecânica, Safe, Comédia de Deus, Babel, Embriagado de Amor, entre muitos outros…

R.C.: O que achas do conceito do Royal Café?

A.F.: Parece-me simpático. Tudo o que possa provocar discussão é bem-vindo.

R.C.: E qual a tua posição perante todo este desenvolvimento tecnológico? Nomeadamente, em termos de progresso da utilização da Internet e de todas as suas possibilidades?

A.F.: Veio democratizar o acesso à informação. Agora depende do que nós fizermos com isso.

R.C.: Queres deixar algum conselho aos jovens cineastas portugueses?

A.F.: Eu recomendaria dedicação, espírito de sacrifício e bastante preserverança a quem aspira a vir a fazer filmes… não é fácil, mas a recompensa é grande.

António Ferreira aceitou exibir para os clientes do Royal Cafe a sua primeira curta-metragem, intitulada “Gel Fatal”, que data de 1996 e que conta com Adolfo Luxúria Canibal como protagonista e com músicas de Sonic Youth na banda-sonora.

“Gel Fatal”

Zed Filmes Website

Obrigado António. Foi uma honra contar com a sua presença.

Volte sempre.

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