Black Snake Moan

blacksnakemoanposter.jpg

“Black Snake Moan”, de Craig Brewer (2006)

Craig Brewer é um dos mais promissores realizadores/argumentistas norte-americanos, da chamada “nova geração”. Em 2000, recorrendo ao dinheiro herdado com o falecimento do seu pai, comprou uma câmara mini-dv e juntou grande parte da sua família para desempenhar os diversos cargos técnicos de “The Poor & Hungry”, o seu filme de estreia. Com um orçamento de cerca de 20 mil dólares, a sua obra de estreia conquistou o prémio máximo do 4º Festival de Cinema de Hollywood, no mesmo ano. Perante o sucesso que o filme obteve junto da crítica, conseguiu financiamento para o seu próximo filme – “Hustle & Flow” – e arrebatou o prémio máximo no festival de Sundance do mesmo ano.

O Royal Cafe também recomenda a visualização de “Hustle & Flow” – um exercício fílmico sobre o universo “Pimp” norte-americano, sempre com as influências hip-hop como pano de fundo e ponto de escape, em jeito de fábula neo-realista. Brewer é exímio a retratar um universo “sujo”, “feio” e, consequentemente, mais rejeitado pelo senso-comum, mas não mais desprovido de sonhos e ambições.

“Black Snake Moan” é o terceiro filme de Brewer. E troca o cenário urbano de Memphis, Tenessee (em “Hustle & Flow” passeamos por um subúrbio específico da cidade, mas universal nos seus contextos de pobreza e ausência de moralidade) por uma paisagem rural do mesmo estado. Curiosamente, é o estado em que Brewer nasceu e viveu grande parte da sua vida. E se em “Hustle & Flow” sentimos todo o hip-hop que transborda de cada passeio, cada esquina, cada casa e, acima de tudo, cada alma, “Black Snake Moan” é uma questão de Blues. Dos Blues das raízes norte-americanas, do Mississipi e de todas as pequenas povoações afro-americanas do estado do Tenessee.

E se em “Hustle & Flow” se contava em entrelinhas uma história de amor, relegada para plano secundário graças ao protagonismo que os confrontos emocionais e psicológicos que os personagens viviam, em “Black Snake Moan” o método é semelhante. Ataques de ansiedade, traumas emocionais e disputas interiores são o ponto primário da história que nos é contada. É um filme de personagens e, acima de tudo, das suas fragilidades. É, igualmente, um filme de sonhos, ambições e conquistas pessoais. E, também, uma história de amor.

O leque de personagens principais é fabuloso. Samuel L. Jackson vive o pós-trauma do término de um casamento de vários anos, isolado na sua quinta, refugiando-se no álcool e nos blues que outrora faziam dele um homem de significado cultural no seu meio. Christina Ricci tem uma das mais espantosas representações femininas de que o Royal Cafe se recorda. Ela é uma jovem que vê o namorado partir para uma experiência militar e assim se vê privada de todo o conforto emocional que este lhe transmite, regressando a um passado bem presente de distúrbios psicológicos, cujo único refúgio que encontra é nas dezenas de órgãos sexuais que co-habitam no seu meio. Justin Timberlake é o namorado que sofre ataques de ansiedade sucessivos que, ao partir, se vê esvanecer o seu “calmante”, a sua mais-que-tudo cara-metade.

E, em “Black Snake Moan”, Brewer arquitecta uma história que nos vai atribuindo, a pouco e pouco, os detalhes que precisamos para a compreender e apreciar. É um filme atípico, com a alma de uma boa canção de blues e que questiona a força do amor. E aborda a necessidade de relações humanas, a necessidade de tranquilidade interior e a necessidade de afirmação em determinado meio. Porque o termo “meio” pode ser mais circunscrito do que se pretende.

O filme data de 2006 e, curiosamente, não estreou nos cinemas nacionais. Saiu no passado dia 31 de Outubro a edição em dvd, com extras muito interessantes, tais como comentários do realizador, entrevistas com os actores, um making of do filme, cenas cortadas e curiosidades significativas em termos de construção da narrativa.

Vejam o filme. E apaixonem-se por Christina Ricci. Por Jackson. Pelo gospel. Pelos Blues. Pelo conceito de amor. E, acima de tudo, por vocês próprios. Porque o filme origina essa reflexão. E transporta-nos para o profundo Tenessee, como se o conhecessemos tão bem como à nossa região. Porque o filme consegue isso. Absorver-nos nessa cultura tão distinta, mas, simultaneamente, tão universal – A cultura do amor – Que não tem margens. Nem nome.

Trailer

O Royal Cafe recomenda. E vocês?

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: