Holocausto Canibal

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Por muitos considerado o mais horrendo filme de sempre, “Holocausto Canibal”, de Ruggero Deodato (1980) é um dos melhores exercícios de terror jamais feito. 

Não obstante o seu elevado conteúdo “impressionista”, em muitos casos defendido como exemplo máximo de cinema gore, a difusão que a obra opera entre a ficção e o documentário aufere-lhe uma brilhante mestria na abordagem das questões sociológicas patentes ao longo da sua narrativa – por estas duas interpretações, a obra tem desenvolvido uma espécie de culto em seu redor, apesar dos opostos eixos em que se enquadram. Isto é, uns defendem-na como uma das maiores obras gore de sempre, outros como um dos mais interessantes exercícios sociológicos jamais registados em filme. Porém, é óbvio que tal disparidade levante a seguinte questão: Como pode um dos maiores exemplos de cinema gore, subgénero cinematográfico reconhecido pelo seu aspecto “série B” e pelo número reduzido de custos de produção e de questões temáticas ser, ao mesmo tempo, um brilhante exercício de reflexões sociológicas tão pertinentes, que transformaram o filme em objecto de análise e de estudo um pouco por todo o mundo? É que, de facto, “Holocausto Canibal” é essa ambivalência. Essa ousadia e, simultaneamente, essa riqueza. É um filme sobre a barbaridade. E sobre como ela é inata em todo o ser humano.

A própria narrativa tem duas fases distintas bem demarcadas: A primeira metade do filme em que acompanhamos o percurso de um professor norte-americano pela Amazónia, investigando o desaparecimento de um grupo de 4 jovens cineastas e em que somos confrontados com uma realidade completamente diferente da nossa (os hábitos e os costumes das tribos quase primatas que habitam a região) e uma segunda parte em que observamos os registos fílmicos cruelmente obtidos/forjados/ficcionados pelos respectivos cineastas, enquanto filmavam essas tribos longínquas. E, ao longo de toda a história, o filme horroriza. Pela crueza das imagens e pelo impressionismo que causa a sua visualização. Mas também, e acima de tudo, pela progressiva regressão que vai denotando, às profundezas da crueldade do ser humano, ilustrando a humanidade tal como ela é. Por ambos os casos, considero-o um filme notável. E um excelente exemplo de terror.

Certamente a maior influência para obras esteticamente semelhantes que surgiram posteriormente, tais como o “Projecto Blair Witch”, de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, ou o recente “Cloverfield”, de Matt Reeves (ainda por estrear em Portugal), o estilo “genuíno”, quase documental, que grande parte do filme retrata é de tal forma realista que, na data de estreia do filme em Itália, originou a detenção do realizador, por pretensos maus-tratos a pessoas e animais durante a rodagem.

“Holocausto Canibal” é, seguramente, um filme controverso. Pela sua crueza. Mas é exactamente essa crueza que o torna genial. Por expor as coisas tais como elas são. Sérgio Leone, após a sua estreia, enviou de imediato uma carta a Ruggero Deodato, congratulando-o pela genial obra que fizera. Eu não sou tão excêntrico, mas considero-o um “must-see” na história do cinema. Não só para os fanáticos de terror. E, da sua visualização, retiro uma certeza: Se um dia um filho meu me perguntar o que é a barbaridade, sento-o num sofá, ponho este filme no leitor e carrego no play. Nada mais a definirá tão brilhantemente.

Trailer

Imdb

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