O Regresso do Hiato

Caros royalenses, cafezeiros cúmplices das minhas exortações:

Nos últimos dois meses, graças a um delicado processo jurídico, instalou-se o pior cenário possível em relação ao funcionamento do Royal Cafe. Como é senso comum, a ASAE está presente em todo o lado e o nosso local favorito de convívio não fugiu à regra. Felizmente, o nosso espaço está sedeado em Portugal e não há problema que um suborno não ultrapasse. 

Pois no passado dia 1 de Março, quando o Royal Cafe se preparava para transmitir aos seus clientes o nome da próxima banda que iria pisar o afectuoso palco do estabelecimento, eis que 2 agentes da Autoridade da Segurança Alimentar e Económica irromperam o momento de festa e iniciaram um processo de inspecção à higiene sanitária do local. Um era alto, magro, de queixo bicudo e assumidamente resmungão, o outro forte e carrancudo, de bigode a la Dupont (não sei precisar qual dos dois irmãos que Hervé imortalizou com sucesso; gosto de pensar que um bom bigode é o correspondente masculino a um bom par de seios – o adorno que mais rápido salta à vista).

Prosseguindo, não será preciso alongar-me em abono da qualidade das nossas instalações, é um dado universal que não existe outro local como o Royal Cafe – referência para qualquer adepto do bem-estar e da luxúria. Foi naturalmente com espanto que vi a porta do nosso estabelecimento ser fechada, por alegada lacuna de higiene. Maior foi a surpresa quando soube o porquê: “O galheteiro tinha sido re-utilizado”. Logicamente, como qualquer ser humano que se preze, não compreendi à primeira. Pedi gentilmente aos clientes que abandonassem o local e, com serenidade, abordei de novo os agentes. Ao que me responderam mais detalhadamente: “O recipiente que contém o azeite foi re-utilizado”. Delicadamente, fiz saber que não seria na definição de galheteiro que a minha dúvida consistia. O do bigode sorriu e prosseguiu, com o seu quê de sarcasmo: “O senhor sabe que, segundo as novas normas, esse recipiente terá que obrigatoriamente ser de utilização única. Pelo que, após o seu vazamento, deixa de ter uso e obriga-se uma sustituição do material.” Ainda pensei sorrir, mas, perante o olhar despreocupado de ambos os agentes, não consegui sequer esboçar essa reacção. Olhei à minha volta, para me certificar que não estava a ser alvo de um guião exageradamente ridículo, para programas do estilo “apanhados”. Olhei para o galheteiro, em cima da 1ª mesa à minha direita e reparei que caía lentamente uma pequeníssima gota de azeite. Senti-me desleixado, por um breve instante. Mas nunca porco. Nada que um pano não limpasse.

Tentei explicar ao agente a origem dos galheteiros e toda a índole artesanal que estava por detrás de todo este mal-entendido. Pena que só eu não estivesse a entender bem a anormalidade da questão. Pior, não me conseguia mentalizar sequer da possibilidade que existiria em compreender tamanha banalidade nesta situação. Contudo, para eles, agentes da ASAE, um galheteiro re-utilizado apresentava-se como a maior atrocidade existente. E, como tal, teriam de fazer valer os seus poderes autoritários. Confirmava-se: o Royal Cafe estava oficialmente encerrado. Por tempo indeterminado.

Expliquei que o azeite vinha directamente de uma herdade alentejana, a mesma onde havia encomendado as obras-de-arte que tinham acabado de originar toda esta confusão. O azeite era de qualidade inegável e os galheteiros altamente atractivos. Grande parte dos meus clientes gabavam-nos a toda a hora. Cheguei mesmo a assumi-los como o orgulho da casa. Contudo, segundo essas regras, não poderiam ser reenchidos. E, a solução do problema apresentava-se numa das seguintes opções: – excluir da ementa a famosa serradura algarvia (único prato da mesma que exigia o uso de azeite; não creio que alguém condimente uma tosta de galinha, um hamburger ou um pratinho de moelas com um pingo de azeite); – encomendar cerca de 300 mil unidades de galheteiros-demasiado-atractivos-para-serem-jogados-fora-sempre-que-vazarem ou – pegar no catálogo que o Dupont trazia na mão, enrolado, de produtos de uso único, de uma tal empresa especializada na matéria. Senti-me ultrajado e alvo de abuso de poder por essa empresa especializada. Eles tinham-nos na mão, a esses agentes estupores. Eu não. Tinha que remediar a situação.

Disse aos agentes que iria reflectir sobre a questão e pedi-lhes o contacto. O Dupont deu-me o Msn e afirmou que estava ocasionalmente ligado. Fecharam-me a porta por tempo indeterminado, até eu me decidir por uma das três opções.

A serradura é identidade da casa. Impensável retirá-la da ementa. O acto de deitar fora um objecto caro e tão bonito também não me seduziu muito. A terceira opção, muito menos. Não vou contribuir para o engrandecimento da corrupção no nosso Portugal. E fui para casa descansar.

Reflecti. Decidi. E andei dois meses a caminho de um computador para ligar o msn. De cada vez que o ligava, o Dupont estava offline. Mandei-lhe 58 mails, um por dia. Nunca respondeu. Ser agente da ASAE ocupa muito tempo. Assenti.

Até ao dia em que o apanhei online.

Senti vergonha na forma como o iria abordar. Abri a janela, para falar com ele e amedrontei-me com a sua foto. Nunca um bigode me tinha parecido tão ameaçador. Abordei-o com um simples “olá”. Levou 8 minutos a responder. E fê-lo com um ponto de interrogação. Nem ai, nem ui. Um simples símbolo. Tremi. Disse-lhe quem era e o porquê de me dirigir a ele. Ele reconheceu, a partir do momento em que falámos em azeite alentejano. Perguntou-me o que havia decidido. E respondi com um valor – 1.000€. Recusou. Ofereci uma refeição de assadura para ele e seu colega, com o verdadeiro azeite alentejano, nos ilustres galheteiros artesanais. Ele negociou, exigindo 3. Acertámos no 2. Duas refeições de serradura para ambos, por semana. Mais mil euros. E podia abrir de novo o Royal Cafe. Respeitando as normas de higiene sanitária.

Fica assim explicado o porquê deste hiato. Peço desculpa pela ausência prolongada e prometo recompensar os fiéis clientes. Fica explicado também a origem dos dois clientes que comem serradura ao balcão, duas vezes por semana. Não se assustem com as pingas de azeite que cairão do bigode do Dupont, cada vez que ele olhar para a Tv, enquanto mastiga um pequeno pedaço de pickle.

E assim, voltámos. Família, de novo.

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One thought on “O Regresso do Hiato

  1. zé pedro diz:

    Saudoso regresso!
    E apesar de não concordar com certas leis, que nada pactuam com as ricas tradições Lusitanas,fica a lição de que o azeite vem sempre ao de cima…
    Abraço grande, com o desejo de que continues com este gracioso espaço de lazer. Que a luta continue!

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