Do Brasil bons ventos…

Marcelo Camelo

A música tem destas coisas.

Após algum tempo atarefado com outros projectos pessoais e profissionais, que me obrigaram a deixar o Royal Cafe para segundo plano, vi-me agora forçado a retomar a actividade deste espaço virtual de convívio e divulgação cultural.

Ao longo destes 4 meses aconteceram inúmeras coisas dignas de registo, sem dúvida. Contudo, pela escassez de tempo, não me foi possível abordá-las aqui no Cafe. Perdeu-se a oportunidade de promover uma noite temática sobre a eleição de Obama, por exemplo. Ou até dedicar um exclusivo à estreia de Blindness numa altura em que Saramago também edita um novo livro… Temos também a selecção de Queiroz, o regresso de Leonel Vieira, um país em mudança contraditória e uma global crise financeira. Inúmeras manchetes do quotidiano que dariam pano para mangas a uma saudável discussão dos utentes do Cafe. São factos.

E aparte de tudo isso, eis que surgem dois álbuns fantásticos oriundos do Brasil. “Sou”, de Marcelo Camelo e “Labiata”, de Lenine.

Caros clientes, a este facto não consegui passar indiferente. Fumei o cigarro pós-refeição e retirei a chave de uma teimosa gaveta que exige algum esforço para abrir. Saí de casa e reabri as portas do Royal Cafe. Sacudi as teias de aranha do painel e acendi as luzes. O néon do exterior fez algum ruído ao aquecer. Limpei as mesas e alterei o folheto informativo pendurado na porta de forma a situar-se em «Aberto». Olhei em redor e senti uma certa nostalgia. ‘Talvez seja hora de redecorar a casa’, pensei. ‘Talvez seja hora de repensar a programação’, assenti. Ponderei igualmente sobre as sequiosas noites que se haviam passado, na ausência do Royal Cafe. E na vontade que me consumiu em regressar. Abrir as portas. Esperar os clientes com um sorriso. E, com a casa composta, apresentar-lhes Lenine & Camelo.

Nos últimos meses houve vários álbuns que me agradaram bastante. Acho que o ano de 2008 tem sido muito rico em registos discográficos. Gosto de opinar, mas não sou de modas. Não partilho os inúmeros comentários destrutivos do presente musical. Não me agrada muito a negatividade constante, demasiado aborrecida para ser tão alternativa e elitista quanto se pretende. Sou de fácil agrado, creio. Ou talvez um mau crítico, não sei. Também não o ambiciono ser. Gosto do que gosto. E gosto de divulgar o que gosto. Partilhar. Convosco. Para que se sintam em casa, aqui no Royal Cafe.

Houve um excelente regresso de TV on The Radio, uma alteração de registo interessante dos Kings of Leon, uma ligeira desilusão dos Cold War Kids, uma afirmação dos Cut Copy, matámos saudades dos Metallica como mais gostamos deles, o amadurecimento de Owen Pallett enquanto Final Fantasy, o bom gosto de John Legend e da novíssima Estelle, o pretensioso novo registo dos The Killers e dos Keane. Tivemos também o aparecimento dos Elbow, reclamando a atenção devida. E, do Brasil, novos álbuns de Lenine & Marcelo Camelo. Se todos os outros acontecimentos musicais de 2008 havia guardado para mim, para minha análise e usufruto, com estes dois novos registos brasileiros não consegui ficar indiferente. Tive de os vir partilhar. Aqui, convosco.

lenine1

Lenine já anda nestas lides há algum tempo. Confesso que apenas o conhecia de nome antes de “Labiata”, o seu álbum editado neste presente ano. Editando álbuns há já 25 anos, Lenine impôs-se no panorama musical global com registos solo e inúmeras composições para outros artistas – entre eles Maria Bethânia, Milton Nascimento, Zélia Duncan ou Daniela Mercury. Todo ele é música. Boa música. E eu descobri-o agora em “Labiata” – excelente álbum, no seu todo viciante.

Não sou grande expert em música brasileira, mas agradam-me bastante as suas características rítmicas singulares, os seus elementos distinguíveis. Mas engane-se quem pensa que “Labiata” será mais um registo ‘flamenco sambático em jeito de bossa nova’ como tantos outros associados ao termo música brasileira. Engane-se quem cataloga artistas brasileiros num único quadrante que por si só retira o prazer da sua descoberta. Quem despreza por pensar tratar-se de mais um nome após tantos outros. Do Brasil têm emergido alguns dos melhores artistas musicais do Mundo, desde Matogrosso a Caetano Veloso. Lenine não foge à regra. “Labiata” é um conjunto de 11 dos melhores temas que já ouvi até hoje, não só neste registo. São temas brasileiros? Sim. Abordam o Samba? Inevitavelmente. Mas todos eles de tal força própria, de tal musicalidade apaixonante que se tornam irresistíveis. Destaco “Lá vem a cidade”, canção envolta por um certo negrume intrigante e “É o que me interessa”, um dos mais belos momentos musicais dos últimos anos.

Desfrutem.

Lenine - Labiata

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Paralelamente temos também Marcelo Camelo. Eu não conhecia bem Los Hermanos, conjunto do qual Marcelo fazia parte. Sabia do estatuto que estes auferem no Brasil e do hiato em que se encontram. Mas não tenho conhecimento suficiente sobre eles para poder comentar o que quer que seja. Posto isto, informo agora que conheci Marcelo Camelo, inerentemente ligado ao sucesso que obteve enquanto membro de Los Hermanos. Por curiosidade decidi dar uma escuta. E “Sou”, o seu álbum de estreia a solo, maravilhou-me. Canções como “Mais Tarde”, “Liberdade” ou “Vida Doce” enchem-me as medidas a cada escuta. Todas elas são Brasil, afirmadamente. Internacionalizam-no pela singularidade vocal e através de simples acordes musicais. Afirmo que “Sou” abriu-me os horizontes para este estilo musical. E percebi que o ciclo de música brasileira não se fecha nos forrós, no samba ou nos precursores Matogrosso, Jobim ou Veloso. Que boa música irrompe fronteiras. E que, felizmente e acima de tudo, não é só o enjoativo “Párapáparápapá” da BSO do Tropa de Elite a chegar até nós…

Dia 4 de Dezembro, para os mais interessados, Marcelo Camelo estará em Lisboa para dar um concerto no Tivoli. Certamente deixará saudades.

marcelo-camelo-sou-2008

Blog de Marcelo Camelo

Myspace

E assim voltei, para partilhar. Espero que gostem. Prometo alterações futuras na decoração e programação do Royal Cafe.

Foi com grande agrado que vos aqui recebemos novamente. Voltem sempre.

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