Vicissitudes do Guionista Prosaico

harmonica

A força da imagética no cinema – tema da crónica de hoje.

Perguntam-se agora vocês: o quê? porquê?

Ao que contraponho: “Once upon a time in the West” (1968) e “Easy Rider” (1969).

Como bom estudante de cinema que nunca fui, só agora vi pela primeira vez estes dois filmes. Estas duas obras singulares. Ou, apenas, estes dois clássicos da história do cinema.

Sempre os quis ver, desenganem-se os mais atrozes. Poupem-me a penúria e toda a ingenuidade de só finalmente os conhecer aos 23 anos. Salve-se a certeza de que agora os vejo como pretenso guionista. Com olhos mais atentos, com outra psicologia. De que nem sempre fui provido. Esconda-se o facto de que ainda está por ver a saga de Corleone (entre milhares de outros títulos essenciais)… Ponho a vergonha nestes termos, e usando uma ferramenta tão em voga nos dias que correm, dos 20 primeiros filmes do top 250 do IMDB, resta-me a visualização de 8. Não é assim tão negativo quanto isso – a percentagem rondará os 60%. O caso agrava-se quando penso que tenho um mestrado em cinema.

Posto isso de lado e restingindo-me ao que considero de pertinente retenção nesta crónica, ainda que isso possa ser de conteúdo reflexivo e de parco interesse para a maioria dos visitantes do Royal Cafe, submeto-me à questão da harmónica.

Essa questão de fúria, violência, vingança, ódio, amor e de mais uma série de adereços que a tornam épica. Essa questão que Sergio Leone decidiu colocar há precisamente 41 anos atrás. Com 4 grandes actores e um conjunto de tons inesquecíveis (GRANDE MORRICONE!!).

Não, não vou falar do filme em geral. Não vou tentar descrever o filme e/ou abrilhantá-lo tanto ou mais do que já foi feito por milhares e milhares de devotos espectadores, completamente rendidos aos encantos deste filme. Vou, apenas, tentar reflectir sobre essa questão da harmónica. E a força da imagética no cinema.

Todo o “Once Upon A Time in West” é um assombro cinematográfico. Um épico ao jeito da melhor ópera Wagneriana. E, assim, uma obra-prima.

Quando penso que o guião do filme apenas tinha 15 páginas de diálogo, ainda vanglorio com maior intensidade toda a subtileza e o brilhantismo visual que caracterizam Leone. Quando me recordo da derradeira sequência do flashback de Bronson, ainda me reconheço maior amante de cinema. Porque o simples elemento da harmónica simboliza tudo aquilo que nós, espectadores, incessantemente buscamos no cinema.

Ponto 1 – a razão.

Queremos saber a causa de algo que estamos a apreender. Queremos desmitificar a sucessão de elementos visuais e sonoros que a pouco e pouco nos vão sendo dados sob o formato fílmico. E, neste caso concreto, quando vemos a harmónica nas mãos de um rejuvenescido Henry Fonda soltamos um orgulhoso “Ahhhh” interior, de resolução. Ali, descobrimos a razão do inquietante olhar de cerca de 150 minutos de Bronson.

Ponto 2 – a paixão.

Sentimos um desejo ardente de algo no personagem de Bronson. Uma invulgar perseguição a algo. Com uma paixão singular. Ao sentirmo-nos na pele de Bronson miúdo, nesse flashback, percebemos essa misteriosa paixão por vingança que o move ao longo de todo o filme. E partilhamos o seu ódio, apaixonadamente.

Ponto 3 – a moralidade.

Teimamos em conseguir desvirtuar a personagem de Bronson. Até simpatizamos com Fonda, quando este permanece deitado com Claudia Cardinale. Não tomamos um partido firme por nenhum deles ao longo de toda a história. Chegamos a pensar que o Cheyenne é que será o típico herói da história. Ao apreendermos a trajectória da harmónica, definimos a moralidade da história. Se ao sabermos dos planos do falecido marido de Cardinale começamos a moldar os personagens, apenas no flashback obtemos a certeza da ética que paira invisível ao longo de toda a trama. E aí, definimos o bom e o mau. O herói e o vilão.

Ponto 4 – o imaginário.

Porque a imagem de Henry Fonda a aproximar-se da câmara, anos mais novo, é a típica imagem aterrorizante do western embutido no nosso imaginário. Ele, aí, é o vilão exemplar. O derradeiro terror do faroeste. Que transporta o elo de ligação dos nossos sonhos “ocidentalizados” – a harmónica.

Ponto 5 – a acção.

Porque ao vermos um jovem Bronson com a harmónica enfiada na boca, segurando nos ombros o seu irmão em vias de ser enforcado, queremos saltar da cadeira e ajudá-lo da forma que for precisa. Porque sentimos pena dele e queremos justiça. Porque queremos retribuir o ódio impresso por Fonda. Porque queremos saltar para o ecrã. E porque, apesar da velocidade reduzida de montagem de Leone, sentimos o coração inquieto.

Ponto 6 – a música.

Os fabulosos tons de Morricone que aí se justificam, em jeito de génese. Fabulosa sequência musical que fazem da pequena cena de flashback um épico dentro de um épico. Ali recordamos a primeira aparição de Bronson no filme, do lado de lá da linha, no final da brilhante sequência inicial do filme.

Ponto 7 – a memória.

Porque nunca mais olvidaremos a imagética da harmónica neste filme. Nunca mais a extrairemos de uma das maiores e melhores referências western de todos os tempos. Nunca mais nos esqueceremos do decor desse flashback. Nunca mais esqueceremos o olhar de Bronson. Nunca mais esqueceremos “Once Upon a Time in West”.

E essa imagética da harmónica é o elemento que todos os guionistas procuram a elevado custo. Um elemento que sintetize toda a trama do filme, revelando-a pela sua força visual. O adereço narrativo que por si só faz um guião valer a pena. A resposta a todas as nucleares questões estruturais do guião pela sua imagética – “O quê”, “onde”, “quem”, “como”, “porquê”. Harmónica. Nela se fez a obra-prima.

Recordemos o brilhantismo (atenção, o seguinte clip é um spoiler para quem ainda não viu o filme).

Sequência final (a tal da harmónica)


“Easy Rider”. Um caso bem diferente. Um road movie histórico. Um filme político impressionante.

Um guião estupendo. Sem harmónica, em estado físico. Uma imagética sob a forma de metáfora. Um “case study” de conotação.

Todas as sequências do filme têm uma mensagem conotada com uma força inesquecível e riquíssima do ponto de vista artístico. Peter Fonda e Dennis Hopper fizeram um trabalho excelente a escrever o guião do filme, ilustrando perfeitamente os episódios desta viagem com a carga política pretendida. A busca do sonho americano. A busca da liberdade. E vários capítulos que se apresentam como obstáculos aos seus objectivos.

Um código muito bem trabalhado, ganhando forma conotativa sob diversos uniformes – o dinheiro como mote da viagem, a família que vive da sua auto-cultivação, a comunidade yuppie que vive sem padrões, o advogado sem lei, a trip infeliz, o desfecho quase xenófobo.

A jornada teria de ser eficaz. Uma análise aos meios para atingir o fim. Um fim sem esperança. Como o sonho americano.

Deixo aqui um interessante documentário sobre a criação de Easy Rider, dividido em 7 partes. Um ‘must’ para quem viu o filme.

“Once Upon a Time in West” e “Easy Rider” são, assim, dois conceitos de guiões cinematográficos bem distintos, mas igualmente notáveis. Ambos essencias na colecção de um pretenso guionista. Dois modelos a seguir. Duas influências a reter. Pela força da imagética no cinema. Pela certeza que um filme dispõe de outros meios para contar as suas histórias do que aqueles que se munem a literatura e a rádio, por exemplo. Porque o cinema é uma junção de imagens em movimento com música e som.

E, dessas vicissitudes, abastece-se o guionista prosaico.

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One thought on “Vicissitudes do Guionista Prosaico

  1. LFT diz:

    agora percebes porque digo que ainda não me sinto preparado para ver os Padrinhos

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