Dia da Verdade

Porque hoje, dia 3, é o dia da Verdade, actualizo o blog em jeito de veracidade:

– Vi finalmente o “Estranho Caso de Benjamin Button”. É um bom filme, mas não me encheu as medidas de forma a que justificasse a conquista do Oscar. Boa história, boas interpretações, competente realização (a sequência do atropelamento é realmente notável). Cumpre, mas falta-lhe qualquer coisa.

“In Bruges”. Nunca a visualização de um filme me tinha provocado tanta vontade de tornar a sua história numa peça de teatro. Senti-o desde o início, desde a relação entre os personagens, trama e cenário. E durante cerca de 2 horas de filme senti-me amiúde entre uma peça de shakespeare adaptada à realidade british gangster, com díálogos a la tarantino. “Porque preciso de ir lá acima para ver isto aqui em baixo? Já estou cá em baixo!”, diz o personagem de Colin Farrell a determinado momento do filme. E é entre diálogos estimulantes, personagens mirabolantes e sequências delirantes que decorre “In Bruges”, a primeira longa-metragem de Martin McDonagh (autor da curta-metragem vencedora de um Oscar em 2005, creio, intitulada “Six Shooter” e que na altura me havia deixado muito agradado com a sua visualização). Após visualizar “In Bruges” e sentir esse desejo de teatro, nunca antes denotado em mim, descobri a carreira consolidada que McDonagh tem no teatro britânico. E apreciei a fusão de formatos como nunca antes havia feito – distintamente da relação defendida pelo grande Manoel de Oliveira. É que, contrariamente ao que sucedeu com a visualização de “In Bruges”, nunca uma visualização de um filme de Oliveira me estimulou a adaptar a sua narrativa ao formato teatral. Excepto, talvez, a uma encenação de “Aniki Bóbó” em formato de marionetas, para uma sessão dedicada aos filhos que um dia terei.

– Vi também “Blindness – Ensaio Sobre a Cegueira“, finalmente. E, bem, acho que estive perante a obra cinematográfica mais poderosa de todo o ano de 2008. Poderosa em inúmeros sentidos, todo o filme é uma análise incrível à sociedade, conceito de comunidade e, acima de tudo, humanidade. Obviamente que grande parte da sua riqueza deriva da brilhante narrativa de Saramago – “Ensaio Sobre a Cegueira” é de facto uma obra literária singular pelas pluralidade de questões com que presenteia qualquer dos seus leitores – mas Fernando Meirelles conseguiu criar um filme fantástico, a todos os níveis. Só me deixou com pena de uma coisa – não poder assistir à sua versão original, de cerca de mais uma hora de filme. É que a relação entre o personagem de Danny Glover e Alice Braga tinha obviamente mais conteúdo do que aquele que é referido na versão final do filme, o “motim” que antecipa a evasão do local da quarentena ocorre quase sem a respiração devida, a solidão e angústia do personagem de Juliane Moore não obtém a relevância que se impunha. Meirelles é sem dúvida um realizador com um talento inesgotável, uma criatividade singular e uma genialidade épica. Pecou, quanto a mim, em desejar tornar este filme “mais agradável de ver” (talvez por imposições superiores – os financiadores têm sempre objectivos específicos), quando esta história nunca poderia ser agradável de ver. E a sua riqueza é essa crueza, essa crueldade omnipresente do ser humano em situação catastrófica, essa sujidade persistente, essa calamidade aparente. Que nos deveria obrigar a reflectir, do seu início ao seu fim. E nunca condenar. Saramago escreveu-nos aquilo que não queríamos ler, Meirelles mostrou-nos aquilo que não queríamos ver. Compreendo a sua pouca aceitação comercial. Não compreendo a sua subvalorização artística. “Blindness” foi, para mim (e dos que já vi), o melhor filme de 2008. Recordo a sequência do miúdo caminhando numa das salas do local da quarentena e que, para sua e nossa surpresa, se depara com uma mesa no seu caminho. Meirelles conseguiu, brilhantemente, fazer-nos viver o estado de cegueira a que o filme se propunha, criar-nos uma dor no estômago com a sua visualização e, consequentemente, colocar o seu filme num patamar atingível para poucos.

– Vi o “Marley & Eu” e gostei. É uma comédia deliciosamente irresistível que nos suscita a admiração e carinho pelos nossos animais de eleição, inerentemente associados à generalidade dos seres humanos. Quase todos sabemos o que é ter um best buddy em formato canino ao longo dos episódios da nossa vida. “Marley & Eu” capta na perfeição a presença discreta que um desses companheiros vitalícios aufere ao longo das nossas narrativas diárias. É uma surpresa agradável, um bom filme de família. Aos 20 minutos de filme pensei: «Pois, até aqui muito bem. Quero ver como agora, uma vez incorporado o cão no seio familiar, este filme se manterá interessante por mais 1 hora e meia.» E, para minha constante surpresa, a narrativa vai-se desenrolando no seio das peripécias familiares. É um filme repleto de amor, nada semelhante ao método “Beethoven” e bastante real. Nota de relevo para o guião e para a construção de personagens e situações pouco estereotipadas, com problemas reais, dificuldades reais, apesar da aparente história “pink dream”. Sinal mais para o personagem de Alan Arkin. Grande actor, grande  construção e caracterização de personagem. Nunca um director de redacção se me mostrou tão íntegro, original e ausente de prévio juízos de valor que inconscientemente fazemos perante uma comédia romântica. Esta não é uma dessas comédias românticas. Ou, aliás, é aquilo que uma comédia romântica se deve orgulhar de ser. Estimulante, interessante e, acima de tudo, emocionante.

– Já que falo de Alan Arkin, tenho de referir que revi também o grandioso “Little Miss Sunshine“. Que mais posso dizer sobre este filme? Fantástico, delicioso em todos os aspectos. Guião perfeito. Final perfeito. Personagens perfeitas. Cinema de altíssimo calibre. Humor cativante. Voltem Jonathan Dayton e Valerie Faris. Quero ver e rever os vossos próximos trabalhos. Poucos filmes me encheram as medidas como este o fez.

– Observei um showcase de Elvira na Fnac Triangle em Barcelona. Não conhecia até então. Simpatizei com o que ouvi. Têm sido poucas as surpresas que a música espanhola me tem pregado. (http://www.myspace.com/theelviraproject) Em jeito de verdade, afirmo que estou muito, mas muito mais entusiasmado com o panorama actual da música portuguesa. Felizmente. Quando chegará o dia em que afirmo o mesmo relativamente ao cinema?

– O penalty marcado ao Sporting na final da Carlsberg Cup não era penalty.

– A selecção portuguesa precisa de se reencontrar.

– Obama é realmente uma pessoa admirável e uma lufada de ar fresco no panorama cláustrofóbico que se impunha como uma névoa cinzenta escura sobre o mundo.

– Odeio vírus. Seja de quais tipos eles forem.

– O melhor da gastronomia espanhola é sem dúvida o cerdo ibérico.

– Nada me traz mais gratidão do que a honestidade.

– Porque raio desprezamos o dia da verdade e celebramos o dia da mentira? Creio que um dia de tranpsarência total teria efeitos catastróficos a nível global. Infelizmente.

Cumprimentos, voltem sempre. Esta semana teremos convidados em exclusivo para vocês. Para que se sintam em casa, aqui, no Royal Cafe.

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One thought on “Dia da Verdade

  1. Nina Salvado diz:

    Antes de mais, os meus parabéns por “Azeitona”.
    Quanto a este teu espaço interactivo, foi a primeira vez que o invadi. Passei os olhos por algumas entradas, e li integralmente o que escreveste hoje. Agradeço o comentário aos filmes, fazem-me olhar para os que já vi com outros olhos, e querer ver os que ainda não vi.
    Simpatizo com Obama também; e já sabes, a sociedade tem tendência a festejar dias de consumismo ou aqueles que nos permitem fazer pouco de alguém. (e com isto rimei!)
    Vou concerteza voltar. Para tomar um cafézinho.
    Beijo.
    Nina Salvado

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