Mestres, Vencedores e Detractores

Saudoso regresso, este que enfrento. Nostalgia essa que invade uma sustenida palpitação, nesse adorno sonoro da humilde madeira a ranger. Deixo entrar luz no espaço, suspiro e retomo a actividade no salão. Limpo o pó, que abunda. E, desenfreado, sacudo um vinyl que ali pernoitou, noite após noite, perdido entre a desgastada protecção que a sua capa noutros tempos lhe prometera e o ar sujo e abandonado que o seu novo habitat tardou em apresentar. Contudo, constato que resistiu. Ao rude desarrumo. Envelheceu, do jeito que se quer. Sem perder a magia daquele primeiro acorde inesquecível, irreverente e impulsivo.

Soa música no espaço, abre-se o Café. O público espreita, desconfiado, do lado de fora. Sorrio, compreensivo, e agito-me até à porta. Peço lume, ao que não me negam. Apregoo o programa do dia e observo as reacções. Um misto de curiosidade e de receio – próprios do termo ‘cinema’. Dois fregueses voltam costas, cospem para o chão e afastam-se. Sorrio de novo, saúdo os restantes com um ligeiro toque no chapéu que herdei do meu avô e retiro-me para o interior. Regressa a azáfama. Preenchem-se as mesas. Saem cafés, chás, pastéis de belém. Pulveriza-se o ar com fumo e regressam as eufóricas gargalhadas dos jovens que brincam próximo do palco. Eu, anfitrião do convívio gerado, discurso do balcão. Agradeço a presença de todos. E saúdo a mais um aniversário do Royal Cafe, entretanto passado com a porta fechada. Agradeço novamente à presença de todos.

E dou início ao serão.

Mestres

Andava prometida uma análise profunda ao mais recente filme de P. T. Anderson – “There Will Be Blood“. Como não me pretendo alongar, e porque quero aproveitar a visita para comentar mais algumas obras recentemente vistas, fico-me pela reflexão em jeito de cabeçalho. “There Will Be Blood” é uma brilhante analogia ao passado recente da história norte-americana, em jeito de crítica metafórica. Isto é, partindo de um caso específico narrativo – a odisseia de Daniel Plainview em busca da fortuna petrolífera pelo solo norte-americano – P. T. Anderson lança-se numa crítica feroz à obsessão petrolífera que tem predominado na sociedade contemporânea. Constatemos os factos: Daniel Plainview não olha a meios para invadir território alheio e usa os artíficios que pode para cair nas boas graças populares – o uso que ele faz do adoptado filho para seduzir os proprietários dos terrenos; a história recente norte-americana fez-se de uma invasão territorial justificada pela posse ilegal de um suposto armamento químico que não tardou em confirmar-se inexistente – e o senso comum global reconheceu o infame pretexto para almejar algo mais. Daniel Plainview deparou-se, na sua odisseia, com credos religiosos distintos e “combateu” os obstáculos que estes lhe apresentaram – a crença promovida por Eli Sunday, o extremista pregador que dinamiza a mentalidade do povo; a invasão norte-americana promovida por distintos países do Golfo Pérsico motivou um choque cultural de crenças e originou uma oposição religiosa, dita extremista. A título de figuração máxima da metáfora, e porque isto vai em jeito de cabeçalho, no final do filme surge sangue, qual mensagem crítica relativa ao prenúncio de conclusão mais que esperada quando o assunto em questão se revela tão sério – a obsessão, no seu sentido literário mais puro, nunca será saudável. A obsessão petrolífera, no seu denominador comum, gera sangue. Infelizmente.

P. T. Anderson, cineasta máximo, explora subtilmente os terrenos da sua narrativa, sem nunca se deixar perder na crítica facilitista em detrimento da estrutura do filme e consegue aqui, a meu ver, um dos mais brilhantes exercícios cinematográficos da década. Pela mestria com que filma cada sequência (os dez minutos iniciais sem qualquer diálogo são fantásticos, ao melhor nível do estilo Sergio Leone), pela densidade com que explora os impressionantes personagens imortalizados por Daniel Day Lewis e Paul Dano (muita atenção a este jovem actor, é que só tenho visto coisas muito boas dele), pela composição do ambiente que as suas imagens criam em parceria com a música de Johnny Greenwood (membro dos Radiohead) e, acima de tudo, pelo virtuosismo com que manipula a sua linguagem cinematográfica em perseguição de uma crítica intemporal, primeiro, à natureza humana, e específica, em segundo, à história recente do povo que o viu nascer.

O quanto me regozijo cada vez que penso que P. T. Anderson desistiu de levar a cabo um curso de cinema logo no seu primeiro dia, porque um suposto professor lhe contrapôs o seu gosto cinematográfico. Coisas da vida.

Outro dado curioso prende-se com o passado de Quentin Tarantino. E também com a sua suposta falta de academismo. Ficou-se pelo clube de vídeo e não ingressou num curso de cinema. Pois. Afinal criticam-no porque ele copia muitas coisas de outros filmes e etc. Mas aos detractores já lá vou e, estranhe-se, não o vou fazer em relação ao cinema de Tarantino. Mas, para já, e porque a secção é de Mestres – “Inglorious Basterds“.

Sou fã de Tarantino há largos anos. Aliás, foi muito graças aos filmes dele que decidi ingressar num curso superior de cinema e inclusive explorar a possibilidade de algum dia vir a fazer cinema. Lembro-me de ver “Reservoir Dogs” com uns 8 ou 9 anitos e de sentir o estrondo que aquele filme para mim representou desde então. Obra máxima de Tarantino até ao momento, no meu gosto pessoal, e expoente máximo do cinema como arte em estado puro. Vibrei com “Pulp Fiction”, adorei a trama de “Natural Born Killers” (apesar de saber que ele próprio não gostou do filme que Oliver Stone criou – o que me deixou ainda mais curioso pelo guião original do filme), senti-me realizado ao ritmo de “Jackie Brown”, gostei da loucura de “True Romance” e de “From Dusk Till Dawn”, compreendi “Kill Bill” e inclusive senti o suspense apalavreado de “Death Proof”. Ah, e delirei com o seu excerto de “Four Rooms”! Posto isto e compreendida a minha idolatração pela sua obra, e mais concretamente pela sua escrita cinematográfica (que reconheço poucos que se lhe comparem no feito), dá para perceber a minha ansiedade pelo seu novo e mais que aguardado capítulo, de seu nome “Inglorious Basterds”. 

“Acho que esta pode bem ser a minha obra-prima.”, frase com que termina o filme, diz tudo. Eu também desconfio que tal aconteça. E que não o seja reconhecido nos próximos tempos. “Inglorious Basterds” é um filme novo de época, com uma abordagem revitalizante e inventiva, ou não estivesse em causa o génio de Tarantino. E o é também, a meu ver, uma obra máxima de cinema, à frente do seu tempo. Enalteço a sequência inicial (brilhante, brilhante), a sequência do bar na cave (e ainda assim tive pena que Tarantino não explorasse mais o pormenor dos personagens escritos nas cartas do jogo), a derradeira sequência que remete todo o mal para uma salvação cinematográfica, o humor dos basterds, a ironia do austríaco, as diversas homenagens à história do cinema (que vai do cinema de propaganda nazista, à mente aberta da nouvelle vague, ao western spaghetti de Leone, ao estilo noir, gangster, ao caso “Marlene Dietrich”, etc, etc).

Quentin Tarantino é um amante de cinema, ponto. E um mestre a renová-lo.

Vencedores

Vi o “Up” em 3D e senti-me uma criança de novo. Foi fantástico deixar-me levar numa aventura fabulosa a bordo de uma casa flutuante e viver um filme de animação como há muito não o conseguia fazer (já vai longe o mítico Fievel). Parabéns à Pixar uma vez mais por ter criado um dos melhores filmes de animação de sempre e elevar a audiência de Cannes (já o havia sido uma vitória o facto de preencher a programação da sessão inaugural da mais recente edição do mítico festival) e palmas aos seus criadores por, munidos da mais interessante ciência da animação da actualidade, não a deixarem sobrepor à narrativa – razão primeira desse mágico processo bilateral ao qual gosto de chamar cinema.

Palmas para Salaviza (para além da já recebida em Cannes), modestas, mas verdadeiras – as minhas. Fui a correr ao Arrábida, desesperado por conseguir entrar na sessão das 18:25 a tempo da visualização de “Arena“. Saí de Santa Catarina ao ritmo de Usain Bolt, entrei no Douro com braçadas semelhantes às de Phelps e subi a colina de Gaia na bicicleta que outrora foi de Vanessa Fernandes, disseram-me. Mas o carro era mesmo branco e o trânsito nunca pior. Entrei na sala e já o filme passava na tela. Sentei-me para amenizar a pulsação e entreguei-me às imagens. Cativantes, desde logo. João, se estiveres a ler isto, eu comecei a ver o filme a partir do momento em que o Mauro pede a um rapaz do exterior que lhe faça o favor de despejar o lixo, pela janela. Por não saber se perdi muito do filme, não pude tirar as devidas conclusões. Se estiveres a ler isto, por favor conta-me tudo aquilo que perdi para trás. Ou envia-me essa cópia…. Gostei bastante da composição da maior parte dos planos, da fotografia, do dramatismo e densidade da trama, dos personagens (interpretados de forma bastante convincente pelos respectivos actores), da cenografia (o carro no qual o puto ‘Alemão’ opera é digno de registo) e dos locais onde o filme foi rodado – serve tudo na perfeição a história que penso ter compreendido. Nota maior para a panorâmica vertical que culmina com a aproximação de Mauro a um dos jovens que o assaltou, numa das pontes dos singulares edifícios comunitários e da violência que a precede – seca, real, agressiva – que tão força tem pelo afastamento com que é filmada (boa manipulação do psíquico sensatorial do espectador, se é que o posso dizer). Gostei também do pássaro que voa no plano final, mas tenho receio de o comentar sem ter visto a parte inicial do filme (ou seja, a interpretação que lhe dei pode não ser a mais correcta). Parabéns João, boa sorte para o périplo de festivais que se adivinha e continuação de um bom trabalho. Pelo bem do cinema português.

Queria também deixar uma breve nota para Neil Blomkamp neste capítulo e para o visionário Peter Jackson. Ao primeiro pela excelente conquista que é a sua primeira obra “District 9” – abordagem renovada ao género Sci-Fi e excelente metáfora ao Apartheid revestida de uma temática “extra-terrestrial”. Ao segundo pela coragem que teve em apostar num projecto situado fora do mainstream e das paisagens centradas no coração norte-americano, desenvolvido por sul-africanos e com actores totalmente desconhecidos. Saiu a ganhar o cinema, com um excelente filme dotado de efeitos visuais acima da média e o próprio Jackson, já que o filme tem sido um sucesso de bilheteiras a nível global.

Detractores

Em jeito de despedida, e porque esta conversa não interessa assim tanto, queria apontar o dedo a duas situações específicas, mas não assim tão singulares:

– Reparei há dias num jornal que leio regularmente com apreço – “Ipsilon” – num depoimento de Joaquim Leitão, inserido num artigo sobre o cinema de Pedro Costa e sobre a reedição da sua obra “O Sangue”. Pois Joaquim Leitão confrontava gerações de cineastas portugueses, a sua e a que lhe precedeu (nomeadamente a de ’60) e referia que nesta última havia ‘uma espécie de pureza. O facto de um filme ser exibido já era algo um bocadinho sujo’. Manuel Mozos, no mesmo artigo, diz a respeito do mesmo: ‘havia um lado, quase statement, de não se importarem que os filmes não fosses vistos’. E a essa geração digo ‘obrigado’! Obrigado por terem delegado essa mentalidade que não se mune mais do que de egoísmo artístico num povo que perdeu o interesse pelo seu cinema. Obrigado por imporem as vossas regras ao longo das últimas décadas no sistema de produção cinematográfica nacional, tão parco e infeliz em termos de títulos qualitativos. Obrigado por monopolizarem com essa filosofia demasiado autoral para ser saudável um programa de atribuição de subsídios preso a currículos esporádicos de personalidades que não fazem filmes para ser vistos e/ou produtoras que se vêem sobreviventes às custas dos mesmos. Salve-se o tempo e a nostalgia do passado. Salve-se a gente, que é outra. Assim o espero.

Não o entendam como um desabafo de um pretenso cineasta, mas sim de um jovem espectador e amante de cinema que bem tenta reconciliar-se com o cinema do seu país, sem sucesso. Tal como tantos.

Aponto igualmente o dedo aos detractores do costume – a maioria dos críticos de cinema portugueses. Não é meu costume pronunciar-me sobre tais opiniões e respectivas divergências de gostos que de forma natural se associam ao processo. Aliás, até sou daqueles que respeita a perspectiva dos outros de forma veemente e não me inibo quando se trata de fazer questão de o demonstrar. Contudo, porque hoje o capítulo é para isto, não me pode passar ao lado uma crítica que me entristeceu. Refiro-me à visão de L. M. Oliveira sobre o mais recente filme de Ang Lee, “Taking Woodstock” e à crítica elaborada pelo mesmo sobre a interessante abordagem que Lee fez a um dos maiores acontecimentos do século passado. Que não goste do filme, muito bem. Que contraponha as intenções de Lee e justifique com elementos do seu conhecimento e gosto pessoal, tudo muito bem. Agora, uma coisa que me marcou no seu texto: “até a lama é muito limpinha”?? É munido de argumentos como este que uma pessoa com o seu conhecimento cinematográfico se pretende debruçar sobre determinado filme e, assim, automaticamente influenciar inúmeros leitores que aos seus textos recorrem no sentido de buscar motivação para assistir a x ou y? Vocês, queiram essa faceta ou não, são ‘opinion-makers’ e, como tal, não seria nada mau medir algumas das abordagens a que o vosso elitismo forçado vos obriga. Porque, em sentido último, vocês são os primeiros a trabalhar a educação cultural do país e, muitas são as vezes, parecem teimar em esquecer que o cinema não é só um código intelectualizado que só tenha valor quando pretenda ou consiga superar as convenções do género a que se pretende. Também não lhe peço que em vez da lama que não era suficientemente suja, que fale sobre a homenagem que Lee faz a Godard no travelling que acompanha a mota ao longo da engarrafada estrada repleta de milhares de jovens festivaleiros (que só por si é visualmente impressionante e convincente – ao contrário da lama, como diz), tal como o francês havia feito em Weekend de uma forma semelhante. Não, não lhe peço isso. Mas acho que Taking Woodstock não deveria ser marginalizado como aparentemente está a ser feito pelos críticos de cá, só porque a forma como está filmado e contado é demasiado simpática para entrar nesses quadros elitistas que tão erradamente têm educado o nível cultural cinematográfico do cidadão português.

Felizmente o cinema, para mim, é muito mais do que isso.

Volto em breve. Obrigado pela presença.

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2 thoughts on “Mestres, Vencedores e Detractores

  1. fernandoolino diz:

    Excelente post Luís…

    Uma curiosidade, o Paul Thomas Anderson não entrou na NYU por outra razão além da que enumeraste.
    Um dos testes era escrever uma página de um argumento, ele entregou uma página de um argumento não produzido do David Mamet e deram-lhe ‘C’.
    A outra que referiste: um dos professores numa das aulas de apresentação disse que quem viesse para ali a pensar que se ia falar e fazer filmes do tipo do Terminator 2 que se podia ir embora… Ora o Terminator 2 é um grande filme…

  2. ginha diz:

    beijinhos beijinhos estou a aprender !!!!

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