The Godfather

Quem me conhece sabe da história.

Por muito absurdo que possa parecer, tomei a opção de, há alguns anos atrás, e aproveitando o facto de não ter visto o filme em pequeno (vá-se lá saber porquê, mas esta pérola da história cinematográfica não constou da minha concorrida lista de visualizações precoces – a educação cinematográfica que os meus pais e irmãos me deram, em pequeno, foi de excelência) e o facto de ter resistido às 3 VHS que lá por casa iam ganhando pó (4, se contarmos com a “Honra dos Padrinhos”, creio), esperar por me sentir preparado para encarar aquela que é definida como a obra das obras cinematográficas.

Assim, ontem chegou esse dia. Não porque me sentisse suficiente maduro para, com um nervoso miudinho, colocar o filme no leitor e, de seguida, tremeliques, carregar no play; mas sim porque, aos 24 anos de idade, e com o processo de escrita de 2 guiões cinematográficos de longa-metragem a meio, me senti uma espécie de ignorante pretenso qualquer coisa. Isto pelo facto de nunca ter visto “O Padrinho”. Foi algo do género: «Como posso eu ambicionar escrever algo bom, se não conheço o padrão de excelência?». Finalmente compreendi o meu vazio, mas admirei a espera – ainda bem que só agora vi aquela que é mais comummente definida como a maior obra cinematográfica da história! E, no sentido prático da coisa, enquanto pretenso guionista, ainda bem que o vi neste momento em que pretendo iniciar actividade, de um ponto de vista mais sério, mais ambicioso e mais profissional.

Passo a explicar, e sem me dar a grandes alongamentos, “O Padrinho”, para mim, é o filme perfeito. Pouco mais posso dizer sobre o filme, pouco mais pode ser dito que ainda não o tenha sido. Guardo para mim as sensações, as emoções, as interpretações que do filme retirei. Guardo para mim essa experiência. Contudo, não queria deixar passar a ocasião, sem justificar o porquê desse título – de filme perfeito.

Estabeleçamos um paralelismo com “Avatar”, filme revolucionário, histórico a priori e que considero ainda estar bem fresquinho na cabeça de toda a gente – se fazes parte desse núcleo minimalista que ainda não viu o Avatar, de que esperas? Que saia dos cinemas e assim percas uma oportunidade única de experiência sensorial?

Pois bem, “Avatar” é um grande filme. Um épico no sentido máximo da palavra. Tecnologicamente é irrepreensível, conceptualmente é inigualável, em termos narrativos é competente, estimulante e envolvente. É impossível ficar relutante a tudo aquilo que “Avatar” representa. Mas não é perfeito.

Enquanto espectador, tive pena de não ter tido a experiência “Avatar” quando teria cerca de 8, 9, ou 14 anos. Creio que a influência que representaria em mim seria algo sem igual na minha história cinematográfica – a emersão no produto cinematográfico é muito, mas muito mesmo, superior enquanto temos essas “asas para voar” (se é que entendem estes termos fábulo-juvenis). Contudo, considero que o sub-entendimento da experiência não se esgota nessa faixa etária – “Avatar” é grandioso demais para ser negado; fabuloso demais para ser desprezado.

“O Padrinho”, por sua vez, é um fenómeno diferente. Vi-o agora, com 24 anos e senti-o de uma maneira. Se tivesse visto com 8, não seria pior (mais pobre, talvez, em termos semióticos e reflexivos; mas mais rica em termos imagéticos e, talvez, sensoriais). Nem se o tivesse feito com 50 anos de idade. Nem se eu fosse um geek do cinema de entretenimento, nem um elitista fetichista do cinema de autor. Esse equilíbrio narrativo, visual e demagógico, faz de “O Padrinho” o filme perfeito. São 177 minutos de puro brilhantismo. 177 minutos de uma metafísica inigualável, no léxico cinematográfico.

Comentei no Facebook, logo após a visualização do filme – com qualquer coisa do género: «Finalmente vi “O Padrinho”. Não há mais nada a dizer. É o filme perfeito.» E seguiram-se diversos comentários, de amigos que estimo muito. Entre eles, destaco um que simboliza na perfeição o paralelismo que efectuei com “Avatar” e a definição que fiz do “Padrinho” – qualquer coisa do género: «Que pena tenho de não o poder ver agora de novo, como se fosse a primeira vez.», do Pedro Oliveira (aka PI). O Padrinho é, realmente, o filme ideal para ver seja em que momento for, com que idade for, para o feitio de espectador que for. De uma coisa tenho a certeza: Hajam as expectativas que houver, este filme surpreende-as.

Grande parte dos outros comentários ao tal post no Facebook, insistiram em debater-se sobre a qualidade das sequelas da saga e a questionável qualidade das mesmas. Eu ainda não as vi. Seguir-se-ão hoje e amanhã os próximos capítulos. Contudo, houve um comentário que me lançou um desafio valente: o meu amigo João Monteiro (aka Johnny) lançou o repto para, antes de visualizar “O Padrinho, parte II”, escrever as minhas ideias para uma possível sequela do primeiro capítulo.

Como tal, e alertando desde já que não é de minha pretensão desrespeitar todo o processo criativo e de produção em torno da saga de Francis Ford Coppola, nem sequer questionar todos as possíveis decisões levadas a cabo pelos responsáveis máximos deste projecto, decidi, aqui, lançar algumas ideias que me agradariam, enquanto espectador, encontrar numa sequela de “O Padrinho”.

E assim, aqui vão (aviso, para quem ainda não viu, pode conter spoilers):

– O 2º capítulo desenrolar-se-á, inevitavelmente, na ascensão ao poder de Michael Corleone, enquanto novo Don da família Corleone. O final do 1º capítulo remete-nos para a sua elevação a “Padrinho” (brilhante a sequência alternada entre o baptismo e os actos exteriores que, paralelamente, o promovem a Padrinho, na dupla ambiguidade do conceito) e ilustra os acontecimentos que antecedem a assunção da família Corleone como “vencedora” do conflito em questão. Obviamente que, fazendo Michael Corleone o que faz pela família, apesar das crueldades inerentes, tais atitudes podem gerar discórdia e próprios conflitos internos familiares – a mentira final que ele dá à sua esposa, e a harmonia relacional entre ambos que daí resulta, é o sinal de reforço familiar que uma sequela precisa. “A Godfather got to do what he has got to do, for his own family” é, assim, o ponto de partida.

– O conflito entre famílias Corleone, Barzini e Tattaglia está agora mais aceso do que nunca. Michael deu ordens para matar os respectivos líderes e saiu por cima nessa pequena guerra. Se bem que, sabemos, momentaneamente dado que entre famílias sicilianas a honra fala mais alto. E, quando a vingança é uma questão de honra, ela acabará por aparecer. Por isso, neste momento da história, haverá sempre a ameaça de represálias.

– Uma vez que o detentor de alguma da propriedade do Casino em que os Corleones têm activos, em Las Vegas, também é assassinado no final do 1º capítulo, faria sentido que Michael enviasse não o irmão mais velho, Fredo, para gerir a totalidade do Casino, mas sim o ex-consiglieri Tom Haden. Tom Haden é, neste momento, uma das pessoas de maior confiança de Michael, mas pelo facto de não ser um consiglieri de guerra, e por agora, mais do que nunca os Corleone estarem em guerra, Michael opta pelo afastamento de Tom – embora não num sentido de desconexão, mas sim de expansão. Por sua vez, Michael denominaria Fredo o seu novo braço-direito (só Fredo é irmão de sangue e, como tal, família directa de confiança) e iniciaria um processo de “formação” psicológica de Fredo – digamos que o recuperaria para os ideais familiares Corleone. Perceberíamos também, no início, que John Fontane, assumiria o contrato de animação do Casino.

– Depois da brilhante jogada para matar o seu cunhado Carlo (um dos traidores envolvidos com a morte de Santino Corleone), em que envolveu o desígnio deste para seu braço-direito, primeiro, e o convite recebido para obter um afilhado, depois, Michael, após a morte do seu pai (Vito), tem assim autonomia para decidir o futuro de Carlo. Essa autonomia revela que Michael consegue ser ainda mais frio que Vito e que nem os seus familiares estão a salvo, quando voltam as costas à família. Como tal, é necessário promover um novo consiglieri. E, a minha versão do Padrinho II iniciaria-se com espécies de convocatórias, entre os relacionados com os Corleone, para encontar um novo consiglieri de confiança. Nessas convocatórias apareceria um novo personagem, talvez primo de Michael (mas oriundo da Sicília, das raízes familiares), com o mesmo carisma de Vito e de Michael (será que o Robert de Niro será uma surpesa do género?). Esse primo assumiria, assim, pela admiração que Michael nutre por ele, o cargo de consiglieri. Fredo assumiria muito mais protagonismo nesta sequela, enquanto braço-direito de Michael e completamente renovado para os ideais familiares. Assim, Michael, Fredo e esse novo consiglieri seriam o triângulo que promoveria o poder dos Corleone e, com jogadas de sucessiva inteligência, conseguiriam, passo após passo, impôr-se no seio das outras famílias mafiosas.

– Com o passar do tempo, o filho de Michael e o seu afilhado, cresceriam no seio das relações familiares. Determinado a educá-los para os princípios familiares, Michael decide enviá-los, sob a custódia de Clemenza (outros dos homens de total confiança) para a Sicília por um tempo. Isto promoveria uma educação pura nos dois legítimos herdeiros do trono e desenvolveria uma espécie de competitividade entre ambos. Seriam 2 personagens interessantes, que permitiria do ponto de vista narrativo trabalhar uma evolução da personalidade dos mesmos.

– O negócio da droga está cada vez mais imposto e Michael, por decidir nunca se envolver, começa a perder poder para as outras famílias que, a seu bel-prazer exploram o negócio. Contudo, e porque o negócio está entregue a grupos de origem africana, uma nova “estirpe” começa a desencadear guerras nas ruas – os negros começam a querer assumir o poder e, assim, fazer frente às famílias sicilianas. Michael encontra, nestes, um possível aliado na guerra que os opõe às demais famílias sicilianas. Apesar disso, cedo sofreria pela diferença de valores familiares que encontra entre a sua filosofia e a dos grupos étnicos a que se une – e a confiança está instável como nunca.

– Numa jogada de vingança impressionante, os Tattaglia matam Tom Haden e Johnny Fontane, liquidando os activos dos Corleone no Casino – aquela que se tinha tornado a maior fonte de receitas da família extingue-se e os Corleone sofrem muito com isso, perdendo poder para as demais famílias.

– Quando os dois jovens voltam de Sicília, os Corleone estão numa fase muito instável. Receosos como nunca, ameaçados como nunca, os Corleone debatem-se pela sobrevivência constante. Contudo, a formação que os dois jovens obtiveram em Sicília resulta num fantástico reforço para a sobrevivência dos Corleone. E, com estes, voltam a operar para reconquistar o poder. Só que a competitividade entre os dois jovens ferve como nunca. E é preciso descobrir qual dos dois é mais fiel à filosofia Corleone (a guerra entre estes 2 passaria para o 3º capítulo da saga, numa espécie de Clash of The Titans). Será, assim, escusado dizer que um deles acabaria por matar Michael Corleone, ambicionando o trono de Don e, ambos, assumiriam o poder em distintas facções – a fiel à dos Corleone e a rival. Seria curioso prevalecer o afilhado como fiel, fruto da dedicação de Michael na formação deste em detrimento da do seu próprio filho.

Não sei, seriam ideias. Sugestões que me agradariam, enquanto espectador. Muito incompletas, porém.

Só me conseguiria exprimir totalmente com a escrita de um guião, talvez.

Mas esse já existe. E pelo que consta é fabuloso.

Hoje irei comprová-lo. Amanhã haverá novo post no Facebook.

Cumprimentos,

The Royal Owner

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4 thoughts on “The Godfather

  1. Ivo Silva diz:

    Acho que vais ter uma surpresa agradável ao ver o segundo filme.

    Realmente concordo com o que o teu amigo disse, quem me dera ver o Padrinho pela primeira vez. De qualquer forma, acho que o vi na altura ideal. Vi-o quando andava envolvido da mítica da Famiglia e do Omerta (o livro do Puzo e o jogo). Vi-o quando tinha 21 anos (menos do que os que tu tens agora), mas já o vi com olhos de (na altura) estudante de Cinema.

    Depois revi-os uns anos depois, os três de uma assentada, e senti uma evolução na minha compreensão do filme (muito por culpa também do Professor Fidalgo e das suas aulas de Semiótica).

    Hoje deste-me vontade de os rever novamente, ou pelo menos os primeiros dois – e verificar se realmente as centenas de filmes que já vi desde então, as horas de conversa, e os filmes que fiz entretanto, me deram mais “estaleca” para compreender em pleno a obra prima de Coppola. Provavelmente não.

  2. Pi diz:

    Concordo com o Ivo Silva, vais ter uma surpresa agradável ao ver o segundo filme.
    Tens algumas ideias interessantes, mas parece-me que não estas à espera do q vais ver, o q é bom! hehehe
    Grande abraço e mantém-nos informados

  3. Anónimo diz:

    Concordo com os outros dois comentários, vais ter surpresas no segundo capítulo. Achei interessante a tua ideia e deixo uma sugestão, depois lê “O Padrinho: O regresso”, escrito por Mark Winegardner, que procurou preencher os espaços “em branco” que o best seller de Puzo e os filmes não preencheram.

  4. CARLA SALOMAO diz:

    EU TENHO POR CABECEIRA OS TRÊS FILMES ASSISTI SOMENTE 176 VEZES SE TIVER INFORÇÃO EXTRA GOSTARIA DE VERCOMPARTILHAR

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