Baú: Horizonte

Recapitulemos.

Entrei na licenciatura de Cinema (ramo de Realização), na UBI, no já longínquo ano de 2003. Na altura, com 18 anos.

Deslumbrei-me com a imensa vida académica que encontrei e, inevitavelmente, virei boémio ao bom jeito de um nómada circundante pelas ruelas da Covilhã. Foram 3 anos iniciais inesquecíveis. Sinto-me nostálgico por esse tempo. Como se sobre ele pairasse uma nuvem de pura felicidade, de camaradagem recíproca. E, durante esse tempo, lá fui fazendo os mínimos para ter aproveitamento escolar (e para ultrapassar a, na altura, muito aborrecida componente teórico/filosófica do curso em questão).

Nunca fui demasiado irresponsável, nem ingrato para com o empenho dos meus pais que tanto se aplicaram nesse investimento à minha formação (lamento nunca ter sido um “rato” de laboratório, ou aquele tipo de aluno que de tão exemplar se torna memorável; mas garanto-vos que fiz tudo aquilo que esteve ao meu alcance para tornar o tempo memorável, e sei que, de certa forma, isso conforta-vos).

Não obstante, no início de 2006 participei num projecto que alterou por completo a minha maneira de estar perante o cinema (em termos de postura e de aprendizagem). Ao convite de Telmo Martins, seguiu-se a participação em todo o processo que foi “Utensílios do Amor“, primeiro como assistente de produção (que me permitiu acompanhar toda a pré-produção e efectuar tarefas diversas na rodagem), depois, como assistente de realização (upgrade obtido ainda durante a rodagem, pela dedicação que impus num dos momentos mais críticos da mesma e por ter conseguido permitir rentabilizar o tempo com uma estratégia de relativa competência e coerência) e, por fim, como assistente de edição, que me permitiu acompanhar o processo final do filme. Resumindo, foi uma espécie de estágio que, pela primeira vez, me permitiu respirar o cinema enquanto arte prática. Por isso, um eterno obrigado ao Telmo Martins.

Acontece que, no pós “Utensílios de Amor”, e perante os métodos apreendidos com a experiência, senti a obrigação de materializar alguma história em imagens. Em filme, portanto.

E juntou-se a isso a experiência lectiva que tive com o Professor Laurent Chavanel, nome incontornável na minha ainda pequena formação enquanto cineasta. Contudo sei que, cresça essa formação o que crescer, com ele aprendi coisas que jamais esquecerei. Principalmente, e tenho pena de não poder ter extraído mais da pessoa em causa durante o tempo em que as nossas vidas se cruzaram, porque me ensinou a pensar o cinema. A pensar o modo de fazer cinema, com sensatez.

A sua intervenção junto de mim, mero aluno das aulas que leccionava, levou-me a escrever e reescrever alguns guiões de curta-metragem por si exigidos (para efeitos de avaliação), até finalmente chegar ao de “Horizonte”.

Considero que um dos principais trunfos de qualquer autor é a confiança na sua imaginação. Eu na altura ainda não a tinha encontrado.

E encontrei essa confiança num conto popular que considerei reunir as possibilidades de demonstração dos vários tipos emocionais que me motivavam trabalhar e fiquei positivamente seduzido pelo seu intrínseco valor moral. Trabalhei sobre essa estrutura base que, sintetizada, cabe num email (e talvez até nos 140 caracteres do twitter) e acrescentei tudo aquilo que pensei cultivar a operação sobre esses pontos emocionais.

Senti um forte apoio do Laurent Chavanel para avançar com a sua produção, do Telmo que sempre se mostrou receptivo a ajudar no que fosse preciso para levar o projecto a bom porto e, acima de tudo, ao grupo de colegas que se anexaram a mim e ao projecto e que acreditaram nele tanto ou mais do que eu. Ainda hoje assumo que a vossa dedicação e profissionalismo demonstrados neste projecto (e tendo em conta que foi o primeiro para a maioria de nós) foram de um carácter extremo, de um exemplo incontornável.

Claro que tudo isto só se tornou possível porque uma pessoa que estimo muito, o meu tio e padrinho Luis Ramalho, decidiu doar, em forma de investimento, uma quantia monetária para a produção do filme – 1000€, que se traduziram no orçamento do filme.

Houve também uma enorme abertura da Universidade, em nome do Reitor e do Departamento de Artes e Letras, em substancializar as ajudas de custo da produção em causa – afinal, foi a primeira vez que um aluno do curso de Cinema decidiu avançar com uma produção de âmbito semi-profissional no meio envolvente. E, dessa forma, apoiou com a cedência de alojamentos e alimentação para o corpo técnico e artístico.

Corpo artístico esse que merece igualmente uma palavra de agradecimento. Ao Carlos, pela incansável devoção ao projecto. À Rita, por ter acreditado e, com um sorriso, contribuído. Ao Laurent, pela orientação constante. À minha tia Dulce, pela total disponibilidade. À Cláudia, pela paciência. Não posso esquecer os miúdos do jardim, pela felicidade que acrescentaram.

À Nicole Eitner e ao Jorge Marques (porque contribuiram com música que acabou por não ficar no resultado final do filme). Ao Paulo Cavaco, porque criou o ambiente sonoro que o filme precisava. À EPABI e seus alunos, porque personificaram no filme a importância da existência musical.

A todos que, de forma directa ou indirecta, ajudaram a concretizar este filme.

Após meses de pré-produção (com uma intensiva acção junto do Hospital da Beira Interior, de forma a que permitisse autorizações para a rodagem, entre outras), foi em Julho de 2006 que a rodagem teve lugar. Foram 5 dias e 4 noites, entre o Jardim do Lago da Covilhã e o Hospital da Beira Interior, de muito trabalho, muito empenho, muito cansaço e falta de tempo.

E cumpriu-se o objectivo. Materializando esta bela história neste filme.

A pós-produção extendeu-se por 3 anos. Só em 2009 ficou finalmente concluído. Novamente as minhas desculpas a todas as pessoas que aguardaram com entusiasmo pela visualização do resultado final. Mas problemas de origens diversas e de formas sucessivas foram “atormentando” a conclusão deste projecto.

Agora chega à grande janela. Em primeira mão aqui no Royal Cafe.

Se sei que, hoje, enquanto guionista e realizador faria muita coisa diferente do que fiz nesse projecto, igualmente sei que, se tivesse a possibilidade de amanhã repetir a experiência, a decorrer de forma exactamente igual à que correu então, não rejeitaria nem um segundo.

E hoje voltaria a tentar adormecer com o mesmo nervoso miudinho que me dominou nessa já distante noite de Julho.

Podem acompanhar os vídeos do making of aqui. Obrigado por tudo, Ivo.

Volto a abrir o baú em breve. Até lá.

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