Baú: Azeitona

“Azeitona” foi o projecto final de Mestrado em Cinema, Realização, de um grupo de 4 amigos – Eu, a Ana Almeida, o Humberto Rocha e o João Gazua, no ano de 2008.

Após o repto lançado por nós, alunos, ao grupo de docentes ubianos responsáveis pelo Mestrado em Cinema (nomeadamente o Dr. Frederico Lopes, o Dr. Luis Nogueira e o Dr. Paulo Serra), desafiando-os a instituir um tema único para os projectos finais de Mestrado – e, dessa forma, cada aluno trabalhá-lo livremente, abordando-o com a perspectiva que desejasse – surgiu o tema “Manoel de Oliveira”.

Uma vez que estávamos em pleno ano de 99º aniversário do decano realizador (e que por alturas de estreias dos filmes estaríamos próximos do centenário) e que é de senso comum o díspar consenso que a obra do cineasta encontra no meio cinematográfico nacional e internacional, considerei desde logo, e contrariamente à opinião de muitos colegas, um excelente tema, uma temática muito permissiva, no sentido de exploração da liberdade criativa.

Assim, e quase de forma instintiva, decidi lançar-me ao desafio com um objectivo único – o de reconhecimento. Da obra e, principalmente, da pessoa e seu significado na relevância cultural nacional. Quer queiramos, quer não; quer gostemos, quer não, a obra de Manoel de Oliveira é, por si só, uma instituição cinematográfica. É, em última instância, um dos expoentes máximos do cinema enquanto arte rica, diversificada e global. Porque o seu cinema, por muito característico que seja, em contraste com o ritmo dominante actual, é um exemplo de visão pessoal, de obra autoral e, acima de tudo, de riqueza alternativa.

Apesar da distinção global em torno da sua linguagem cinematográfica, e óbvio reconhecimento além-fronteiras pela sua obra singular no panorama cinematográfico, moveu-me, quase de imediato, o desejo de fazer prevalecer a homenagem à sua pessoa. Reconhecendo a sua participação no ciclo vital, o seu sinónimo de sabedoria anciã e o estatuto de um ser que dedicou mais de meio século à produção, promoção e desenvolvimento da arte cinematográfica.

Talvez me encaminhasse para este registo o facto de eu não ser um adepto entusiasta da obra de Manoel de Oliveira – à excepção do terno “Aniki Bóbó”, o qual considero um dos melhores filmes portugueses (e não só) de sempre – e, com isso, se apoderasse mais de mim a necessidade de reconhecer, enaltecer o respeito pela actividade, devoção e determinação de um autor que dedicou a sua vida a desenvolver a sua visão enquanto cineasta (como já disse, singular em todo o mundo), do que propriamente homenagear a riqueza das suas obras, dos seus filmes, das suas intervenções cinematográficas, nas quais, como já referi, não encontro reflexo ou grandes influências enquanto pretenso cineasta.

Assente nessa ideia, eis que cheguei ao conceito de filme musical.

Não existe outro género cinematográfico que, na minha opinião pessoal, eleve tão brilhantemente o conceito/objectivo de homenagear algo. Considero que a conjugação imagem em movimento/música/coreografia, de uma forma bem trabalhada, permite atingir, enquanto mensagem comunicativa, o nível de emoção pretendida.

Como sonhador que sou, e defensor da criação cinematográfica enquanto desafio artístico em termos técnicos e de produção, facilmente idealizei uma história em que uma rapariga, nos anos 50, filha de pescadores da região vareira, nutre uma enorme paixão pelo mundo do cinema – alimentada pelo projeccionista do teatro-cine de Ovar – e que após assistir à exibição de Aniki Bobó, emocionada, decide partir para o Porto em busca de sucesso no mundo da 7ª arte. O seu pai, rude pescador, não aceita a ideia e, com a sua autoridade, procura motivá-la para seguir as pisadas da sua mãe – fiel cristã, vendedora ambulante de peixe. Perante uma coreografia à beira-mar (interpretada pelos vários pescadores, liderados pelo rude pai da personagem principal), em dia tempestuoso, e recriando a tradição das “companhas” (em que os barcos seriam retirados do mar com recurso aos bois, que puxavam os pequenos barcos carregados de pescaria diversa – ainda hoje, pontualmente, se pode assistir a este fantástico fenómeno), a jovem rapariga decide, com a ajuda da mãe, abandonar a localidade e perseguir o seu sonho para tentar vir a ser uma actriz famosa.

Seria numa manhã repleta de névoa, a bordo de uma carroça precária, que ela cantaria uma ode à liberdade, ao poder do sonho e da ambição, munida de um conceito estético capaz de fazer jus a qualquer quadro de Monet e de uma sonoridade capaz de recuperar o melhor de Judy Garland e eternizar uma espécie de “Somewhere Over Ovar”. Chegada ao Porto, numa invulgarmente escura noite,  abandonada num ameaçador bairro da “Ribeira”, seria perseguida e ameaçada por um gang misto de ideal pirata com arruaceiro e, consequentemente, salva por um outro gang rival, liderado por um carismático rufia, influente nas lides negociais do Porto. Este, simpatizando com a ternura da nossa personagem principal e decidido a ajudá-la a perseguir o seu sonho, encaminha-a para a entrar em contacto com uma antiga galã do cinema portuense que a convida para participar numa peça de teatro. E seria aqui, no Teatro Nacional de São João, perante uma sala esgotada, que a personagem principal teria que convencer Manoel de Oliveira, um cineasta em início de carreira que a poderia catapultar para a 7ª arte.

Convenci o Humberto Rocha e a Ana Almeida a juntarem-se ao projecto. Começámos a estruturá-lo. E iniciámos o seu desenvolvimento.

Em decisão comum, chegámos aos Clã. Nomeadamente a Manuela Azevedo, para protagonista. E ao Hélder Gonçalves para a composição musical. Contactámos os Clã, eu e o Humberto encontrámo-nos com eles e, após apresentação do conceito, a ideia foi muito bem recebida pelos Clã. A sua participação, uma vez que se tratava de um projecto académico e, portanto, em regime pro-bono, dependeria de disponibilidades, prazos e tempos.

Motivados com a conquista, decidimos avançar com a coisa. Veio-nos a ideia de David Fonseca para co-protagonista, enquanto anti-herói do filme, de motivar o Marco de Camillis para orientar as coreografias musicais do filme, etc etc.

Depois começámos a fazer contas. O quanto custaria a produção de este pequeno sonho de 25 minutos. E caímos na realidade.

Obviamente, tivemos que, muito forçosamente e de forma resistente, desistir perante o apelo à sensatez promovido pelos professores, primeiro, e pela Ana Almeida segundo – a pobre coitada que se lançaria à produção de um filme qual Bartolomeu Dias a enfrentar o Cabo das Tormentas.

Inevitavelmente, teríamos que aceitar. Não havia meios para fazer este filme em cerca de 6/7 meses.

E, tristemente posta de lado essa ideia, era altura de pensar numa alternativa.

Todos tínhamos visto o Juno recentemente. E todos tínhamos gostado da personagem de Juno. Do tipo de humor, da ternura e da imprevisibilidade constante.

O Humberto gostava da ideia de explorar uma personagem feminina de meia-idade, com uma extravagância singular. Todos gostámos da ideia de explorar um reflexo da nossa experiência enquanto estudantes de cinema numa cidade do interior português. E, acima de tudo, de explorar o fenómeno de recepção do cinema de Manoel de Oliveira, junto dos distintos pólos de conhecimento cultural da sociedade portuguesa – pólos esses que atingem extremidades hilariantes quando os abordamos numa região do interior.

O João Gazua que, na altura, conseguiu resolver mais um erro grave dos famosos serviços académicos ubianos e que, finalmente, teve autorização para levar a cabo o Mestrado, juntou-se ao grupo, com o mesmo entusiasmo que o nosso. Não era o musical pretendido, mas estávamos a chegar a algo muito interessante.

Criámos os personagens do professor empenhado e desprovido de preconceitos, a protagonista que abraça o desafio de fazer um filme sobre Manoel de Oliveira, o seu senhorio, Sr. Manuel, que personificaria a sabedoria, a ternura e o lado paternalista de uma jovem desamparada em busca da adaptação à sua nova vida de estudante universitária, os fregueses da tasca que recuperariam o estilo e o humor simpático dos clássicos da comédia portuguesa, o Dinis do quiosque que interpretaria um carismático e simpático vilão do filme e a Mãe da protagonista, excêntrica mulher de meia-idade que personificaria o amor maternal de uma forma bastante singular e elaborada.

Definimos o nome da protagonista como Olívia (relação óbvia com Oliveira) e o título do filme como Azeitona (o fruto da Oliveira).

Podem consultar mais informações sobre todo o processo criativo do filme aqui.

Ou escutar algumas das músicas da BSO, aqui. As colaborações neste capítulo, de Arrah Fisher, que compôs 7 temas originais a nosso pedido, propositadamente para o filme, bem como a de Bruno Vasconcelos, que brilhantemente compôs o tema da sequência final do filme, foram decisivas para o sucesso do filme. Ambos estão de parabéns pelo magnífico trabalho. Esta azeitona não teria este sabor sem a vossa contribuição.

Palavra de grande apreço também para a equipa artística: à Cláudia pela entrega, ao Orlando pela sabedoria, à Teresa pelo talento, ao Rui pela disponibilidade, ao Fernando pela ternura, ao Luís Cassapo pela equidade com que encarou este projecto, ao Igor pelo humor, ao Pisco pela ressaca que compartilhou connosco numa quente manhã de verão sob a linha do comboio, à Filipa pela simpatia, ao Álvaro pela persistência, a todos os figurantes que com tanta dedicação tornaram este filme possível. Aquele primeiro dia de rodagem, no baile, foi “assustador”, mas graças a vocês, figurantes com coração de ouro, foi possível fazer este filme.

A todo o pessoal amigo que colaborou, todas as entidades/instituições/pessoas que apoiaram o filme, todos os técnicos que emprestaram o seu contributo, toda a gente que abraçou este projecto com uma entrega e determinação incríveis, este filme é também vosso. As palmas são também para vocês. A todos mesmo, e faço-o de forma mais geral porque tenho receio de esquecer a nomeação de alguém (toda a gente que participou foi importantíssima para este filme e seria uma ingratidão terrível não a recordar).

Ao Mestre Manoel de Oliveira, espero que tenhamos conseguido representar esse sentimento que partilhávamos, de homenagear com o reconhecimento devido da obra e da personalidade que têm brindado o Mundo. Embora o tenhamos tentado fazer sob uma perspectiva que consideramos real, abordando o distinto fenómeno de recepção que a sua obra tem na sociedade portuguesa. Nunca foi nossa intenção criticar qualquer ponto relacionado com a sua obra – acho que quem vir o filme facilmente entenderá isso – simplesmente pretendemos documentar a distinta opinião social sobre o que significa o termo “Manoel de Oliveira”.

Aos nossos pais, porque a eles, acima de tudo, devemos este filme. E a homenagem serve, munindo-se dessa conotação.

O Azeitona foi integralmente rodado na cidade da Covilhã, a rodagem teve a duração de 5 dias e o custo de, sensivelmente, 2000€ (dos quais 1200 foram investidos por nós quatro). Foi produzido pela Universidade da Beira Interior e co-produzido pela Lobby Productions. Foi filmado em HD, com a Panasonic HVX-200.

Foi o filme vencedor do prémio Melhor Filme Português de Escolas, na mostra ESAP 2009. Venceu também diversos prémios do Público em vários festivais de cinema nacionais (prémios de carinho especial para nós, porque nós quatro consideramos que o agrado do público é o melhor reconhecimento que podemos ter, enquanto autores de cinema).

Foi um prazer desenvolver este projecto. Foi um prazer fazê-lo com todos vós.

É com nostalgia que o recordo.

Deixo-vos também os seguintes vídeos:

Até à próxima. O Baú abre de novo em breve.

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2 thoughts on “Baú: Azeitona

  1. Humberto Rocha diz:

    Assino por baixo

  2. nicole diz:

    est site nao é muito bom prcisa mlhorar muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiittttttttttttttttttttooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

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