O Segredo dos Seus Olhos

Eu faço parte daquela (que acredito ser considerável) percentagem que nunca tinha ouvido falar de Juan José Campanella.

Faço parte da talvez ainda mais considerável percentagem que ficou surpreendida, na cerimónia dos Óscares 2010, por ver um filme intitulado “El Secreto de Sus Ojos” roubar a estatueta a “Un Prophéte” (de Jacques Audiard) ou a “Das Weisse Band” (de Michael Haneke). Não que eu já tivesse visto algum dos filmes em questão. Mas, com tanto mediatismo e com tanta crítica positiva em torno destes dois últimos, deixavam antever uma luta aguerrida entre dois dos mais consagrados cineastas europeus da história recente em prol da estatueta dourada. Fui um daqueles que, a comprovar a lista dos vencedores (este ano, ao contrário do habitual desde garoto, não acompanhei a cerimónia em directo), ficou muito surpreendido por, afinal, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro ter ido para um filme… “Argentino?” (primeira reacção) “Estes gajos andam mesmo com bom cinema” (segunda reacção) “E eu tão pouco conhecedor desta espécie de movimento cinematográfico que tem extravasado oceanos e continentes” (derradeira reacção). Continuei a ler a lista de vencedores.

Hoje, cerca de dois meses depois da cerimónia, o filme vencedor estreou em Portugal. “El Secreto de Sus Ojos”, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (ou não Americano) de 2010. Rótulo sugestivo. Eu continuo “leigo” no que toca a cultura cinematográfica argentina. Ouvi, há tempos, o Salaviza falar das suas influências do cinema recente argentino. Porreiro, curti muito o “Arena” – pensei. Mas o que é que se anda a fazer na Argentina? Que tanto se fala… Tanto se admira. E eu, nada? Rien de conhecimento?

O curioso disto tudo é que escolhi o filme argentino porventura mais americanizado dos últimos tempos para me iniciar na cultura cinematográfica argentina. Sei-o agora, a posteriori. Porque assim que cheguei do cinema, tive que obrigatoriamente ir investigar o nome Juan José Campanella. E ler críticas. Saber o que foi dito deste filme que, de forma tão intensa, agradável, emotiva e profunda me assolou durante 2 horas.

Fui vê-lo, um pouco por acaso. Consultei o cartaz. Ao contrário, se calhar faço parte daquela pouco considerável percentagem que, em 20 salas, escolhe um filme intitulado “El Secreto de Sus Ojos”. “Vamos lá. A este. Ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro” (foi o feeling). Inconscientemente, manifestava-se-me o desejo de conhecer o tão falado cinema argentino. Abrir essa porta. E, nem a propósito, assisti a um filme que explora a semiótica do objecto “porta” como poucos.

Fui, então, a meias que por acaso. O “Bad Lieutenant” também apelava. Também conheço pouco do Herzog. E até tenho uma discussão agendada com um grande amigo meu sobre esse filme. Desculpa lá, Alex, mas ainda não foi desta que o vi. É mais fácil, a qualquer momento, encontrar um filme com o Nicholas Cage do que com o Ricardo Darín. Acho que a este nem o Rapidshare deve reconhecer… Infelizmente. Porque se o Rapidshare o conhecesse, nunca mais o esqueceria. Esse Benjamin Espósito imortal que, com o filme que “comanda”, bateu recordes de bilheteira históricos em solo argentino. Arrisco-me a dizer que, em breve, até o Rapidshare o conhecerá. Quando o seu merecido talento se vir firme em projectos de maior envergadura. Com maior público. Mais milhões. E, talvez, menos seriedade.

Porque “El Secreto de Sus Ojos” é um filme exemplar. Sério, profundo e simpático.

O tal cinema de meio-termo que, quem me conhece, me escuta tantas vezes pregar.

Esse artefacto de e para o público. Esse filme que conduz, orquestra emoções, raciocínios e sensações. Esse filme que comove, arrepia, intriga, seduz, enoja, vibra, alegra, irrita, conquista, prolifera em – arrisco-me a dizê-lo – todo e qualquer olhar cinematográfico. Desde o mais culto ao mais singelo. Desde o mais estabelecido ao mais ocasional. Que vinga em qualquer segredo que os olhos dos espectadores transportem. Desde o que se envergonha em admitir que cinema é tiros, gajas nuas ou explosões, ao que se regozija em conhecer a filmografia do Gódard. Este filme é para todos aqueles que possuem as faculdades sensoriais humanas activas, bem ou mal desenvolvidas. Não é por acaso que “El Secreto de Sus Ojos” é o número 184 na tabela classificativa do IMDB. Não é por acaso que, pela primeira vez na História, um filme argentino atinge tal posto no ranking. Não é também por acaso que é o 3º filme no top 250 com menor número de votantes. Os poucos que viram, não foram capazes de se manter indiferentes à experiência que é visualizar o filme – cinema no seu estado bruto.

A história (que não vou revelar aqui) é brilhante. É adaptada de um livro de Eduardo Sacheri, intitulada “La Pergunta de Sus Ojos”. E debruça-se em distintos campos narrativos, capazes de cruzar o melodrama com o policial. A comédia com o thriller.

O trabalho dos actores (que já personifiquei aqui com o exemplo de Darín) é transcendental. Todos eles dignos de registo. Interpretações convincentes e entusiasmantes. Comprova que Juan José Campanella não negligencia a vertente de director de actores. Cumpre-o, com perfeccionismo. Palavra de destaque também para o trabalho técnico de caracterização que permite, ao longo do filme, de forma implícita e inerente, saltar entre as distintas fases temporais sem sentir, por momento que seja (talvez o envelhecimento do Morales salte um pouco mais à vista), pontas inverossímeis e descredibilizadoras.

O filme, como um todo, foi perfeito aos meus olhos. Filme de olhares, territórios, consciências e mil e uma outras coisas. É, assumo-o, das obras cinematográficas mais completas que vi nos últimos tempos. E vi o “Padrinho” pela primeira vez recentemente. É um “Seven” meet “The Usual Suspects” meet “Revolutionary Road” meet “My Blueberry Nights” meet “Volver”. É toda essa miscelânea, na minha cabeça. Com o seu valor próprio, obviamente. Distinto dos demais, que por si só igualmente albergam inquestionável riqueza. Mas, se há elogio que posso fazer a “El Secreto de Sus Ojos” é que, nos seus 127 minutos de duração, ele atinge, pontualmente, o melhor que todos esses outros exemplos cinematográficos atingiram, esse imaginário por eles formulado, essa experiência com eles vivida.

Em jeito de conclusão, porque não vos quero oferecer ponta que seja da história (porque qualquer pronúncio é spoiler, neste caso específico), tenho de deixar algumas palavras à magistral realização de Juan José Campanella. Brilhante maestro, manipulador de emoções. Brilhante equilibrista, gestor do metrónomo que alinha o filme. Esse realizador que já fez carreira em Hollywood, já fez episódios do Dr. House, do Law & Order, do 30 Rock e teve cerca de 4 longas-metragens em língua espanhola exibidas no seu país. “El Secreto de Sus Ojos” confirma, para quem, como eu, não conhecia a respectiva obra do realizador, estarmos perante alguém ultra-criativo, ultra-virtuoso, ultra-competente. Enumero a sequência de Espósito, quando descobre o Morales na estação de comboio, e a forma como Campanella a filma, de um ângulo oposto ao eixo tradicional/clássico de diálogo – justificada com a afirmação de Espósito na sequência seguinte, da necessidade de, por vezes, vermos as coisas de outro ângulo; O extenso e intenso jogo que, ao longo do filme Campanella faz com os olhares, as portas e os espaços – a noção de território, invasão, privacidade, segredo; A articulação entre as relações e as incidências dos dois pólos principais da história – o olhar de Gomez para a Morales e o de Espósito para Irene; O épico plano-sequência no estádio do Racing!! (que virtuosismo, que coragem); O uso dos silêncios, muitas vezes mais fortes que qualquer palavra ou expressão; As subtis inserções de conectores, nos momentos essenciais da narrativa; A ilustração do personagem de Sandoval – a empatia que consegue anexar ao personagem, truque de suporte para manipular o espectador em função do trauma, dos motivos, da resolução.

Enumero, por fim, a sua maior virtude em “El Secreto de Sus Ojos” – a capacidade de criar/dirigir/obter um filme competente, complexo e inteligente.

E retiro uma ilação – o bem que pode fazer ao autor cinematográfico uma incursão no sistema de produção de Hollywood (ou até da televisão norte-americana). Nada como saber dominar artifícios capazes de conduzir toda e qualquer plateia.

Em prol do filme.

Da ideia.

Do culto.

Dificilmente encontrarei um filme tão competente na minha incursão pela história recente do cinema argentino. Talvez mais brilhantes. Talvez menos. Mas dificilmente encontrarei um que, tão brilhantemente, saiba conduzir a plateia. Que pena tenho que a barreira da língua não lhe permita ter o público que este ENORME filme merecia.

Ainda bem que, por acaso, iniciei a viagem. Que fabuloso início teve a minha experiência no cinema argentino.

A partir de hoje, influência obrigatória.

Imdb

Trailer

O Royal Cafe recomenda. E muito.

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2 thoughts on “O Segredo dos Seus Olhos

  1. Ainda sem oportunidade para ver este filme, certamente que tive para ver “Um Funeral à Chuva”.

    Deixo um link para o meu blog, onde já deixei a minha opinião (www.agentenaove.blogspot.com) e os meus parabéns pelo bom trabalho.

  2. Muito bem! Li com enorme prazer as tuas palavras sobre o filme! E agradeço-te pela completa análise, profunda, do filme que conseguimos fazer chegar até ti!

    Muito obrigado!
    É, para nós (e falo em nome de toda a equipa), um conforto imenso saber que, de certa forma, o filme mexeu contigo!

    Como eu já disse na página do Facebook do filme, em reacção aos inúmeros comentários dos espectadores agradados com o filme: “Não há palavras para descrever as vossas palavras”. E o facto de sabermos que o filme conseguiu arrancar-vos um sorriso, um sentimento, uma emoção, significa para nós uma grande vitória do tal “grito pelo cinema independente”. Pelo futuro do cinema em Portugal e em português!

    Muito obrigado.
    Ainda assim, espero que não percas “O Segredo dos Seus Olhos” – grande grande filme!

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