Um Renascimento Profetizado

Ando insaciável!

Ávido de cultura, conhecimento, criatividade e imaginação.

Que imenso prazer no saber-se nutrido; que ímpar orgulho no saber-se renascido sobre formas cíclicas.

Cheers! também porque, em rejúbilo, me fascino pelas transcendências pontuais, e harmonicamente metronómicas, de todo um legado cultural sobre o qual se alicerceia a emancipada história da humanidade pensante.

Aos 25 anos, quarto de século, comecei a descobrir os Beatles.

Não a conhecer. Porque todos nós, do frio do Ártico ao frio do Antártico, dos corais lá donde o sol nasce à neve da Patagónia onde o sol se põe, dos farnéis de Almodôvar aos quinquilhos de Trás-os-Montes, da creche pré-primária de Sta. Margarida à Santa Casa da Misericórdia de São Pedro do Sul, todos nós sabemos quem são os Beatles.

Toda a gente sabe quem são os Beatles. Quem foram, seus nomes, seus hits, sua lenda, suas faces, que mais óbvio seja, seus cabelos! Sem excepção, a geral escala, esta palavra transporta, talvez, a receita mais bem guardada do sucesso mediático em toda a história da Humanidade. Mccartney disse-o: Eles eram maiores que Jesus Cristo! Maiores ou não, certo é que, pelo menos, mais consensuais o são.

The Beatles são, largamente considerados, a maior banda musical da História.

Até eu, que me recordo (quase de forma traumática, admito) dos narigudos bonecos azuis do “Yellow Submarine” – esse filme de animação que de petiz me punha a cantarolar o refrão, como se a bordo do amarelo submarino eu alegremente viajasse. Quem nunca cantou, de forma contida ou distraída, Let it Be ou Yesterday? Quem nunca se entusiasmou com Help!? Quem nunca abraçou ao som de All You Need is Love? Até, quem nunca se reconfortou na orquestração de Eleanor Rigby? Ou no baixo vibrante de Come Together?

Eles são todo esse conjunto de hits que não só fazem parte da História da sociedade, como a própria sociedade faz parte da História deles.

Até aqui, todos nós sabemos.

O que eu descobri, agora, com 25 anos, é que esse singelo trademark de penteados esconde muito, mas felizmente muito mais do que o apelo popular dotado da empatia que lhe reconhecemos.

Não é que desgostasse deles. É impossível não gostar deles.

Simplesmente, e não me perguntem porquê, de alguma forma os devo ter catalogado, durante os passados 25 anos e alguns meses, como a banda das músicas que toda a gente conhece. Pela negativa, reparemos. Porque tal definição me abstraiu de qualquer tipo de vontade e/ou interesse de os conhecer com a justiça a que a obra deles obriga. Sempre me achei um gajo muito mais pró-Doors. Se é que me entendem, nesse perverso e injusto jogo de maior banda de todos os tempos. Doors sempre me atraiu. Beatles também. Mas Doors cativou sempre muito mais. Beatles nem tanto.

E é este tipo de cegueira, ainda que ingénua e inconsciente, que não nos reconhece qualquer tipo de legitimidade para classificarmos e/ou avaliarmos de forma superlativa e/ou comparativa tudo e o que quer que seja. Isto é, passando à prática, como pude eu entusiasmar-me a abordar/comentar/enaltecer/denegrir/justificar/pensar-que-seja que tenho algum tipo de razão acerca da música em geral? Cada vez me faz mais sentido o botão “Gosto disto” no Facebook. Gosto, pronto. Mais palavras para quê? Melhor, pior, para quê? Acaba sempre por não fazer sentido. Por muita razão que tenhamos a classificar, comparar, situar qualquer tipo de projecto musical, houve sempre uma banda chamada Beatles, começo a sabê-lo. E, perante tal facto, dissimulam-se todos os tipos de razões temporárias e, temos agora que reconhecer, não fundamentadas. Porque se há comparação, é porque há padrões. E eles reinventaram-nos. Meteram novas regras no jogo.

Começo agora a descobrir o que realmente significam os Beatles. Colei. Tudo o resto não tem sentido. Eles mudaram a música. Permitiram que a nossa música actual seja como é. Quebraram barreiras. Transcenderam-se, a eles e à música. Com eles, renasci. Aquele renascimento mais que profetizado a que todos nós estamos destinados. Do ponto de vista crítico, cultural e/ou cognitivo. Porque um dia existiu uma banda chamada The Beatles.

E que bom tem sido dar os primeiros passos na incomparável obra do quarteto de Liverpool. Arte, no seu estado puro. Composições, lírica, signos e significações.

Foram 9 anos de actividade (dos franjinhas que viraram ratos de laboratório e abanaram o mundo) que geram tamanho universo impossível de materializar em palavras, termos ou expressões. Mas que não me coibem o gesto de voltar a abrir as portas do Royal Cafe para vos tentar cativar – provem do elixir. E renasçam. Deliciem-se. Maravilhem-se. Não custa nada.

Comecem por googlar The Beatles. A wikipédia encarrega-se de vos guiar no resto. Recorram ao youtube. É tudo bom. Especialmente da colheita de 66 a 69. Da magia que emergiu em Abbey Road (o estúdio, não só o álbum). Eles foram além. Imortalizaram-se. Eu diria que, permitam-me o termo, se beatificaram. Nessa mágica tour misteriosa que, de forma alegórica, os elevou à magnificiência do ser humano.

Com eles sei que renasci. Refizeram-me num embrião de humildade e ingenuidade. Porque hoje, que os conheço, consigo antever uma fasquia de nível criativo. Como se de uma trip se tratasse. Como se, de forma fugaz, tivesse uma visão do patamar onde a genialidade criativa reside. Eles não só a atingiram, como se predispuseram a estabelecer novos limites. Chegaram lá, reinaram e definiram novos padrões. E, por isso, não me abstenho de afirmar e de propagar a grandeza que lhes aprendi a reconhecer.

Deixo aqui o vídeo de um dos temas que, para mim, melhor consegue sintetizar toda a magia dos The Beatles – “Hello Goodbye” (extraído do brilhante Magical Mistery Tour, 1967). Alegria, complexidade, empatia, criatividade, originalidade, irreverência. Tudo isso é Beatles.

Acreditem em mim. Nem que seja pela parte terapêutica da coisa. Tipo slogan de método clínico: “É artista? Revê-se enquanto ser criativo? Tem pretensões de maior? Descubra os Beatles.” A humildade agradece. E a humanidade também. Aliás, de que outra forma saberá quem é o Walrus?

Por falar em agradecimentos, não posso deixar de aproveitar este saudoso regresso sem brevemente referir duas sugestões de euforias com que confrontei nos últimos dias.

Primeiro, “Un Prophéte”, de Jacques Audiard.

Fabuloso filme. Magnífica analogia cultural. Exímio jogo visual de linguagens e significações. Excelente fábula sobre a natureza do profeta que há em todos nós. Sobre o poder existente nos recônditos do ser humano enquanto ser capaz, racional. Maravilhoso ensaio social sobre a complexidade inter-religiosa e o jogo político hierarquicamente canonizado.

E tudo isso ali. Naquela prisão. Em que ou matas ou morres.

Recomendo vivamente. Foi, talvez, o melhor filme que vi desde “O Segredo dos Seus Olhos”. O francês venceu a Palma de Ouro em Cannes 2009. O argentino levou o Óscar. Na incerteza de definir qual dos dois filmes gostei mais, tenho a sensação que “Un Prophete” permanecerá com mais afinco nos quadros da História Cinematográfica. Uma obra imperdível. Para degustar.  E, após o seu último plano, relaxar no sofá e sobre ela reflectir.

Por último, mais um brinde desse rato perigoso que, esporadicamente, nos visita o espaço.

“Dark Night of The Soul” é o fruto do mais recente projecto de Danger Mouse (sim, esse mesmo dos Gorillaz e de The Good, The Bad & The Queen, entre outros) e Sparklehorse.

Com visuais de David Lynch e colaborações de Julian Casablancas, Iggy Pop, The Flaming Lips, Suzanne Vega ou Black Francis, entre outros, este álbum que curiosamente andava pronto desde 2009, à espera de ser editado (derivado de disputas com a EMI), viu a luz do dia oficial no passado mês de julho de 2010. Antes disso, foi disponibilizado um livro com fotografias de Lynch e informação diversa sobre o projecto, com um Cd-R anexado. Diziam eles que o comprador usaria o cd virgem da forma que desejasse. Possivelmente até viria o código do link para download do álbum encriptado em alguma das páginas do livro… Mas pronto, a coisa correu e o álbum chegou às lojas. E que pena teria sido se não o fosse.

Visitem o myspace deles e digam de vossa justiça. Atentem nesta sublime canção intitulada “Revenge”, com a colaboração dos The Flaming Lips.

Eu gosto disto. E vocês?

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One thought on “Um Renascimento Profetizado

  1. […] D’os” que, embora não sendo tão genial como o fora “Un Prophète” (já aqui falámos dele), consegue novamente ser um grande […]

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