É deixar o cabrão morrer.

“You know somethin’, Utivich? I think this just might be my masterpiece.” 

Em Inglorious Basterds, Quentin Tarantino deixou expressa aquela que porventura será uma das maiores quotes da história do cinema. Fê-lo via Lieutenant Aldo Raine, personagem maravilhosamente interpretada por Brad Pitt, e através deste quadro imagético memorável que por si só poderá sintetizar toda a irreverência e consequente magnitude do respectivo filme.

Em causa estava um obsessivo fascínio por escalpes de nazis e uma reversão do simbolismo legado pelos anais da história – o registo, via marca cicatrizada da cruz suástica, das atrocidades e de todo um desígnio popular de magnânimes proporções catastróficas, conjuntamente ostentadas por uma bandeira fascista e por esse símbolo rectilíneo capaz de se fazer valer enquanto maior símbolo vilão de todos os tempos.

Quem o diz é Aldo Raine, a propósito do seu fetiche pessoal. Mas do que nós, espectadores, nos recordaremos para a posteridade é do contexto em que a expressão se insere – o reconhecimento de Tarantino daquela que poderá muito bem ser a sua obra-prima. É Aldo quem o diz, mas é Tarantino que o reconhece. No seu devido contexto, seja feita a justiça.

Não deixa de ser curioso o facto de B Fachada, um dos mais interessantes cantautores da nova geração portuguesa (desígnio que, em si, já não augura nada de novo), recorrer também ele a uma das mais significantes bandeiras do ideal do regime salazarista para o título do seu mais recente disco – “Deus, Pátria e Família”.

Não deixa também de ser curiosa a data de lançamento do álbum em formato digital. Que originalmente estaria prevista para Sábado, dia 4 de Junho e, por força das eleições legislativas que ocuparam o pensamento e o imaginário nacional no fim de semana decisivo, acabaria adiada para Segunda-feira, dia 6 de Junho. O dia de ressaca das eleições. O 1º dia de um novo ciclo.

Muito menos o será o facto de em tal obra serem expressos versos como “Faz sinal ao galo vencedor, Que esta dança é arriscada”, ou “Portugal está para acabar, É deixar o cabrão morrer”, como também “Partiste a cama, Gostas mais do chão” ou ainda “Eu não sou português, E que se foda Portugal… Eu canto em fachadês, A minha língua paternal”.

Ou ainda o factor físico de formatação do álbum, uma canção única de 20 minutos exactos, que se inicia com sons de galinhas e termina com aquilo que parece ser uma sonoridade marítima. Tal composição musical ao bom jeito de um soneto capaz de englobar em si mesmo os mais distintos estilos, ritmos, euforias, melancolias, melodias e compassos.

Tudo neste disco será curioso.

Aqueles haverá que questionarão o conteúdo político do poema, enquanto arma crítica à situação actual do país. Outros haverá, imagino professores de literatura repletos de entusiasmo pelo carácter estilístico da poesia veiculada, que usarão a obra enquanto objecto de estudo nas suas ainda mais entusiasmantes aulas de Português. Aqueles outros tantos, que reforçarão, com todas as suas forças,  o facto de estarmos perante um predestinado artista sem igual no panorama da música e da literatura portuguesa. Um novo Camões ou um novo Godinho, talvez dirão. Talvez até um novo Zé Mário. Ou um novo Pessoa, em directa comparação com “A Mensagem”, a maior das emblemáticas obras dessa personalidade singular, seguramente afirmarão. Também estou certo que os haverá aqueles a quem tudo passará indiferente. Que a maior coisa que o Fachada tem será porventura a sua própria Fachada.

Tudo nesta obra será avaliado.

Para mim, B Fachada atingiu o seu limiar da amargura. Expressa-se enquanto membro de uma geração com pouca ou nenhuma esperança. Enquanto membro de um movimento inexistente. Enquanto parte integrante de um país a caminho da morte e da ruína. E constrói esta ode em jeito de renúncia. Enquanto membro dessa segunda geração com maior índice de emigração da história portuguesa. Dessa famosa “geração à rasca”. A nossa geração.

Bernardo Fachada não procura ilustrar um ideal fascista, como sugere o título da obra. Não se limita a extravasar o seu estado de espírito à crítica de uma certa ou de uma outra mais certeira via política. Também o faz, e bem. Mas não entendo que seja esse o propósito do poema que veste este disco. Entendo-o, sim, num sentido emocional, simbolista dessa geração que nós constituímos. Num desabafo pessoal retrospectivo, de inconformidade e de incapacidade. Perante o estado do nosso país. Da nossa pátria. Da nossa casa.

É preciso contextualizar, também. E saber que B Fachada, aquele autor que ganhou o seu espaço graças às composições musicais sobre temas do imaginário popular português – o “Zé”, o “Joana Transmontana”, entre tantos outros – expressava desejo pelo que lá fora se consegue fazer e cá não. Pelo quão bem soava o disco de John Grant, comparado com os seus. Pela produção que lá fora se conseguiria dar a determinado registo que cá, com os nossos meios, seria impossível.

Transparecendo essa posição, entendamos este disco enquanto consequência natural do seu processo pessoal. B Fachada está descrente com aquilo que Portugal propicia. Com aquilo que Portugal, enquanto albergue, poderá potenciar. Mas, e é neste ponto que considero a maior sublimidade da obra, ao contrário do que poderá transparecer pelo poema, não se sente capaz de o abandonar. “Não quero mais que ser um pai babado”, lamenta repetidas vezes em jeito de epílogo da obra. E, com isto, toca o sentido de compromisso de toda esta geração da qual, orgulhosamente, também eu faço parte. Este sentimento de amargura que nos preenche, enquanto cidadãos de Portugal e jovens “à rasca”. Puro patriotismo que, desesperadamente, nos identifica. Todos queremos ser pais babados, inequivocamente. Todos queremos ser pais deste e neste país que teimosamente nos orgulha. E, unidos enquanto geração (a única característica realmente comum a todos nós, seus membros), não podemos perder a esperança que os nossos “filhos” encontre correspondência com o seu rumo.

Com “Deus, Pátria e Família”, B Fachada vai das suas galinhas aos mares desconhecidos. Nessa viagem de 20 minutos, expressa o seu estado de espírito. Não diz que desiste. Mas que vai e volta. Porque esse sentimento ninguém nos consegue tirar, enquanto portugueses, por muito até que por vezes assim o desejássemos – nunca abandonaremos Portugal à sua própria condenação.

Eu também fui, por duas vezes. E voltei.

Também sou desta geração perdida. Também eu sinto a amargura.

Também não pode deixar de ser curioso o facto de ter decidido voltar no preciso dia em que o anúncio de regate europeu foi feito. Não o fiz enquanto resposta às necessidades do país. Não o fiz por sentido de oportunidade, porque a área que escolhi e na qual me movimento está de uma forma inconcebível ligada às máquinas do estado português. Não tenho, hoje, perspectivas de mudança significantes (assinalemos o dia de hoje enquanto certidão de óbito antecipado ao já precário Ministério da Cultura). Mas a vontade de fazer, cá, aquilo que persigo tem de ser superior a tudo isso. Porque é cá que pertencemos. E se é coisa que português não consegue ser é pai bastardo. Juntos, temos este filho para criar. E todos desejamos que, um dia, sejamos nós, vulgares antigos membros da geração à rasca, que um dia sejamos nós os pais babados.

Por fim, também não posso deixar de referir que, enquanto personagem deste universo que B Fachada cria em “Deus, Pátria e Família”, também eu um soldado com esta obsessão fetichista de seu nome Royal Cafe, também eu um Aldo Rainesinto necessidade de me expressar perante a obra que fiz com este post:

“Sabes uma coisa, Bernardo? Acho que esta pode bem ser a minha obra-prima.”

Sou eu que o digo. Mas és tu que o reconheces. No seu devido contexto, seja feita a justiça.

Para ouvir, clicar na imagem da capa do disco.

O resto é história. E o tempo que a julgue.

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3 thoughts on “É deixar o cabrão morrer.

  1. É “galo” em vez de cão, “dança” em vez de taça e, regra geral, falham as transcrições da letra. Fora isso, encheu-nos de alegria.

  2. diz:

    Parabéns pela bela prosa!! Se isto não é uma obra-prima, não sei o que o seja! Acho mesmo que B Fachada o devia pendurar no disco físico a sair, se é que vai sair nalgum formato (penso que o vInyl seria o mais adequado).

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