Kharaktêr

Sempre fui mais pró-Buster Keaton, eu.

Não que o Chaplin não me agradasse. Bem pelo contrário. Fragmentos da sua obra têm acompanhado as mais distintas gerações de há mais de 60 anos para cá. E sempre foram uma excelente companhia.

Personagem singular, essa do Charlot, quase tão icónica no imaginário contemporâneo como a figura de Jesus Cristo. Não que se diga que é ou tenha sido maior que Cristo. Ou inclusive maior que os Beatles, que por sua vez carregaram o rótulo de ser maiores que Cristo… Que pirâmide esta, hem?

Mas, sei lá, desde que conheci o simpático Buster, sempre o achei de trabalho mais elaborado. Talvez por narrativas mais complexas e desenvolvidas, não sei, digamos. Porém, algo em mim tornou as fitas do Buster mais atractivas do que as boas do Chaplin.

Um pouco como a situação dos Beatles, comigo. Sempre havia sido mais pró-Doors. Mas, investigando a obra completa do quarteto de Liverpool, assume-se o brilhantismo da obra. A transcendência implícita que obriga a perpetuar a genialidade dos protagonistas.

Com o Chaplin, igual. Investigada a obra, resta o reconhecimento. Pode muito bem ser o maior personagem da história do cinema. Muitos houve, também eles brilhantes. O Buster, por óbvios parâmetros de comparação, foi um deles.

Reparemos, porém, na amplitude que Chaplin desenvolveu com o seu personagem – essa figura ora simpática, ora melancólica de bigode engraçado; roupagem popular e simplista; e, o trademark mais memorável, seu andar burlesco.

Britânico de origem e família humilde, Chaplin mudou-se para os EUA a bordo de uma companhia de teatro ambulante (sendo ele uma espécie de animador cultural – o que hoje podemos paralelizar com humorista de stand-up). Aí colaborou com vários agentes culturais. Encenadores, humoristas, promotores. Tornou-se, lá, parte essencial do espectáculo. Era, ele, uma figura que desempenhava com categoria o caricato do alcoolismo. Dito assim de uma forma muito resumida.

Aos poucos, começou a envolver-se com produtores cinematográficos. Visionários, ou talvez não, que pretendiam explorar o formato com o recurso à comédia de pantomina. Meliès havia provado que era possível o formato ir além do retrato do real. Griffith havia dado o mote para uma técnica distinta, mais elaborada, mais em função da narrativa.

E Chaplin apaixonou-se pelo formato. Mais: aprofundou-se na exploração do formato, em função da sua personagem. Esse castiço de andar tipo pinguim, com chapéu de coco na cabeça e bengala atrás. Mas mais do que um artista de inegável talento representativo – que incorporou como poucos a personalidade do seu “character” (personagem) – Chaplin veio a confirmar-se como um cineasta genial.

Se no imediato era o desempenho das suas acções, dentro do plano, que assumia o total protagonismo da obra, foi, com o passar do tempo, a sua voz artística que atrás da lente confirmou o seu talento.

Charlot, o personagem de Chaplin, não falava. Pelo menos nós, espectadores, não o podíamos ouvir. Chaplin acompanhou a transição do cinema mudo para o cinema sonoro. Mas não foi isso que o estimulou a “dar voz” ao seu personagem. Estimulou-o, sim, a criar bandas-sonoras para os seus filmes. Facto que comprova o incansável talento e compromisso perante os seus projectos.

Mas, para mim, o que fez do “character” de Chaplin um personagem singular na história do cinema foi o perfeito balanço do seu carácter. Charlot, na tela, era um de nós. Curioso como nós. Trapalhão como qualquer ser humano. Humilde. Romântico. Por vezes corajoso. Por vezes receoso. Desenrascado. Engraçado. Simples. Pobre. Mas honesto. E mesmo quando tentava ludibriar algo, ou alguém, nós, espectadores, estávamos a par da sua honestidade. Do seu compromisso moral. Do seu bom senso. E era isso que procurávamos nos seus filmes. Esse reflexo social do que somos, o povo. Por vezes alegres, por vezes melancólicos. Mas o moralismo ninguém nos tira. E, embora no dia-a-dia sejamos bombardeados pela ausência dele, nos vários cantos do mundo e da humanidade, sabemos que há um bem e um mal. Esse bem que, ainda que por vezes ofuscado, Chaplin e os seus filmes representam e ilustram.

Contudo, o momento em que me rendo completamente à genialidade de Chaplin é quando este, o criador, decide dar pela primeira vez voz ao seu personagem. No singular filme “O Grande Ditador”. Aqui, no célebre discurso de Charlot vestido à Hitler (por alturas em que Hitler era ameaça real ao conforto da humanidade), o personagem diz isto:

(O vídeo não é do respectivo filme, na íntegra. Mas achei conveniente colocar aqui esta montagem, muito adequada à mensagem que passa e ao estado caótico a que chegámos globalmente).

Foi Chaplin a ascender ao Olimpo da arte. Foi Chaplin a tornar-se eterno. Foi Charlot a sagrar-se das maiores personagens da História do Cinema e da Humanidade.

Mais há, e vale mesmo a pena aprofundar sobre a sua obra. Como o momento em que Chaplin regressa e convida Buster Keaton para ambos participarem num filme. Ambos em fase descendente nas suas carreiras. Ambos a fazerem de pantominas esquecidas. Ilustrando o declínio de um fantasma que perseguiu Chaplin em toda a sua vida – o do insucesso.

Chaplin foi GRANDE.

E revelou-se grande pelo seu carácter.

É o carácter que mede o valor de uma personagem.

É o carácter que define o valor de um líder.

E é nestes momentos de crise, de recessão, que mais sinto falta do génio de Chaplin. E dessas inegáveis doses de carácter.

Porque nos líderes de hoje em dia é difícil encontrá-las.

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