O Almocreve, II

II

«Ser digno é ser como Dani Jarque. Capitão, jovem mártir. Teve morte inglória, o eterno ícone do Espanhol de Barcelona – esse clube de futebol irmão menor do símbolo catalão, do si us plau e do mès que un club. Foi num quarto de hotel, na região que trouxe ao mundo o génio de Dante Alighieri, que o espírito de Dani convalesceu e quis o destino que a tragédia ocorresse precisamente no mais irónico de todos os momentos daquele fatídico estágio nas terras da Toscânia: Dani caiu quando também ele matava saudades da sua cara-metade. Preciso infortúnio, esse, o de escutar a morte de quem amamos em directo. Não obstante, predestinado era o Dani que 30 dias antes havia recebido o título que seu era de direito – o de capitão da armada, o de líder do balneário de Cornella-El Prat – como bom descendente de uma linhagem que nasceu em Sarriá, que passou pelo Olímpico de Montjuic e que agora, quase excomungados para os arredores da cidade, parecem finalmente conformados como uma espécie de outsorcing de uma cidade e de uma região quase inteiramente submetidas à predominância azul grená. O Dani podia ser um homónimo de Lancelot, súbdito fiel do Ciclo Arturiano; valete de Paus de todo e qualquer baralho de cartas. Também ele fora, certo dia, nomeado cavaleiro, e também ele caíra, outro certo dia, apesar da categoria, honra e força que ostentava, também ele vergara longe da sua amada. Mas a vida é isto – um dia o coração pára e o resto é memória. De Lancelot recupera-se Glastonbury, esse local da sua derradeira penitência onde hoje se celebra o maior festival de música da actualidade (ainda que não esteja directamente relacionado, o facto não deixa de ser interessante); no caso do Dani a memória atinge-nos a cada novo duelo, a cada novo 21º minuto de jogo na eterna arena do guerreiro. Se em Glastonbury são 500 mil, no ringue do extremo sul de Barcelona são umas vinte vezes menos. Glastonbury é o maior do género, e esgota no imediato. Mas o Iniesta também é enorme, e foi ao Dani que dedicou o decisivo golo, naquela final com a Holanda do Mundial de 2010. Estas coisas emocionam-me, tenho que admitir. Também eu chorei no épico funeral do Grande Peixe Edward Bloom. Somos humanos, não estamos isentos a este tipo de comoção; e o fenómeno de Cornella-El Prat é realmente algo digno de se ver; a sintonia dos corpos e da acção humana com essa única finalidade – a de reconhecer o engrandecimento da experiencia humana e de, em ultima instância, prestar homenagem à dignidade sob a pele do número 21 que o Dani carregava nas costas da camisola que defenderia até à morte – literalmente. Ainda que não seja frequente celebrar ou, pelo menos, reconhecer a dignidade enquanto o ser é vivo, sei que é alguém tão íntegro como Dani Jarque que eu, o Haynes e o lendário Ed estamos a algumas de horas de conhecer.

Até que não tenho um mau carro, para o cidadão Português de classe média que sou. Tive a sorte de, há 2 anos atrás, comprar o Golf do meu cunhado a um bom preço quando este o quis pôr à troca para ir buscar aquela nova e sofisticada Passat com que todas as semanas, de forma ternamente exemplar, conduz e passeia a par de anos mais velha minha Irmã e os irrequietos ainda dente-de-leite meus sobrinhos encosta-acima/encosta-abaixo das magníficas retalhadas e sensacionalistas paisagens limítrofes do rio Douro. Dois bons carros, não tenho nada a dizer. Mas certamente que não seria num Golf de 2003 que o Ed e o Haynes imaginariam fazer a nossa A2, sentido Norte-Sul, na primeira vez das suas vidas. É qualquer coisa como enfiar deputados europeus num voo da Ryanair – geneticamente incompatíveis. Ainda há pouco passáramos a Vasco da Gama e já o Ed suspirava: abrindo janela, fechando janela. Sugeri o ar condicionado, mas o velho disse que isso lhe causava alergias. O Haynes, esponjado em todo o banco de trás, realizava sucessivas chamadas telefónicas com uma velocidade superior à que o ponteiro do Golf traduzia. Também ele com um ar de ligeiro desagrado. Eu não tenho o pé pesado, mas até vínhamos uns 20 ou 30 acima do permitido. O pior é que estes gajos estão habituados a andar para cima de 200, ou seja 80 ou 90 acima do permitido, três a quatro vezes superior à minha tímida transgressão. Nesta indústria há dois grupos: os que timidamente desafiam as leis; e os que confortavelmente vivem acima delas. Eu sou claramente do primeiro grupo, os meus passageiros não. Trazê-los no meu carro acabou por se comprovar uma má opção, um péssimo jogo de cintura que mais não fez do que reforçar a minha misoginia pelas regras da companheira desta dança – a indústria cinematográfica mostrava-me, a espaços, o desagrado pelos meus passos – e não foi fácil convencer o Ed a fazer esta viagem no meu carro: ainda mal tínhamos saído do avião e já o Haynes telefonava a uma agência de motoristas privados cuja existência obviamente eu desconhecia. Claro que fiquei ofendido, hospitalidade é connosco; e essa pequena luta que travámos acabou por criar um ambiente de intranquilidade que perdurava ainda neste início de viagem. Estive eu mais perto de ceder a tamanha burguesia, do que de se conformarem eles à minha simples heresia. Apesar de tudo, mantive-me firme – aqui o árbitro sou eu, já o disse. Na minha terra, nas minhas estradas, nas minhas gentes e nas minhas paisagens, sou eu que mando. O Ed achou piada à ponte de 17 quilómetros – 34 Empire State Buldings: o edifício mais temido do mundo, quer visto de dentro, quer visto de fora – mas logo de seguida começou a embirrar com a velocidade do elevador do vidro eléctrico que, sem falsos rodeios, lhe apresenta o Portugal real. Ora devagar, ora rápido demais. Ficou-se por um entreaberto tão envergonhado que nem ar sai, nem brisa entra – só para dizer que sim, que está confortável desta forma. Tipo texugo abespinhado com dentes e focinho de bulldog: demasiado corcunda para assentar o seu anabolismo, demasiado escorreito para ofuscar o seu inconformismo. Sigo indeciso quanto à cacofonia: de Português não percebem eles, logo não entendem as piadas do Markl. Normalmente decido-me pela Antena 3, mas desta vez propusemo-nos ao último do Paul Simon. Bastou a percussão da “Dazzling Blue” para o velho começar a abanar a perna e, de um modo espontaneamente decidido, abrir o vidro a três quartos. Num ápice fez-se novo, em puro júbilo com o vento que se lhe estoirava na cara. Juraria mesmo que lhe captei um ligeiro assobio, coordenado com azuis deslumbrantes e um par de rosas cor-de-lampião. Percebe-se que o Ed gosta e conhece. Acertei na escolha. Se calhar ele até esteve no Central Park, naquele mítico concerto do Simon com o Garfunkel. Estive para lhe perguntar, mas fui sensato – assumi para mim próprio, logo desde o primeiro momento, que iria redobrar a atenção no que tocasse a abusar das suas confianças. Quem sabe se não esteve mesmo e se não recordará tal data por um primeiro coração quebrado, a troco de algum primeiro amor perdido? A confiança é uma linha demasiado ténue para se apostar no risco de perdê-la a troco de inocência. Nunca se sabe até onde acutilam um par de palavras, por mais inofensivas que sejam. Apesar da plena consciência dos poderes da mais perigosa arma do mundo, acabei por prometer ao Haynes ainda no avião (voltámos juntos de Nova Iorque, factor que ainda me deixou mais empolgado para este projecto), que na viagem de regresso a Lisboa passaríamos pelas Azenhas do Mar alentejanas. Vocês sabem o porquê. E embora ele não se tenha mostrado muito entusiasmado com a ideia, eu sei que vai acabar por me agradecer. Estes gajos estão habituados às chapas polidas, aos lencinhos tiracolo, aos sobretudos Armani e às cuequinhas de renda. Está na hora de lhes mostrar o que é a vida real, o que é Portugal, o que são as coisas pelas quais realmente vale a pena viver. Tenho todo o tempo que preciso, entre o chegar ao Autódromo de Portimão, o conhecer o Barry Brown, o dormir em Lagos e o subir pela costa alentejana – uma road trip Portuguesa com o Haynes e com o lendário. E talvez com o Barry, o maior actor de todos os tempos, caso a nós se junte. A vida tem destas coisas – o sonho passar a realidade com a velocidade a que a realidade passa a sonho. Não estou a brincar, o Barry Brown é mesmo o maior actor de todos os tempos.

Três dias atrás, na sequência daquele primeiro encontro com o Ed e com o Haynes, dentro do isolado forte daquele translúcido escritório da Ed Films, lançou-se um nome para cima da mesa – Barry Brown. Disse-me o puto, o autor das 118 páginas de papel que nos trouxeram até aqui (vamos no quilómetro 69, o quilómetro da área de serviço de Alcácer do Sal, primeira paragem relevante do troço de estrada preferida pelos Portugueses: aquela que significa proximidade de férias, feriados e fins-de-semana esticados nas mais belas praias, peixarias e maresias de Portugal), disse-me ele que o protagonista havia sido escrito a pensar no Barry Brown. O Brown, que de Brown só tem o nome; o gajo é pálido como tudo – uma espécie de Christian Bale no Maquinista. Por norma magro, de cara sofrida. Se bem que também já ganhou peso e músculos, quando os papéis assim o exigiram. O Barry é um versátil actor Norte-Americano que sempre passou ao lado dos papéis e das oportunidades de Hollywood. Segundo ele, nunca lhe foi oferecido um projecto de jeito, vindo daqueles lados. Consta que participou num filme menor de um austríaco radicado em Los Angeles, logo no início da sua carreira, mas os ecos da sua boa prestação não passaram além de um par de crónicas editadas em meia dúzia de jornais locais. Depois disso o Barry mudou-se para a Europa onde, ao longo dos anos, tem construído uma sólida carreira pelo cinema europeu, participando em filmes a cada triénio e desenhando os mais complexos personagens que a História do Cinema já teve o prazer de registar. Da única vez que o Barry fez manchete nos jornais Americanos a notícia nem foi muito bem aceite pela maioria dos cidadãos embora, de súbito, tenha sido a pólvora de um rastilho que originou um par de debates bem acesos nas Guilds dos seus colegas de profissão – levantaram-se as vozes dos que o admiravam e esconderam-se as dos que o condenavam. O Barry é um fiel seguidor do método e do sistema de Stanislavski e, como tal, nunca olhou a meios para desenvolver os processos de construção dos seus personagens. Pregava o Mestre Russo que o verdadeiro actor era o que se preparava de acordo com o sistema da suposta personagem. Para se representar um pescador, por exemplo, seria necessário ser-se, temporariamente, realmente um pescador; e, dessa forma, conseguir interiorizar a psicologia dos actos, dos movimentos e dos sentimentos de um pescador; a partir da experiência e em benefício da representação. Em calão: não podes imitar o que nunca foste. Recordemos que foi o Barry, quando em 2001 recebeu uma proposta para representar um presidiário naquele filme húngaro menor – menor em termos comerciais, não em termos artísticos, até porque o filme acabou por ganhar os prémios maiores de Veneza e de Berlim dois anos depois – mas recordemos que foi o Barry que, para se preparar convenientemente para esse papel, não fez menos do que assaltar uma joalharia em Budapeste e, por isso, deixar-se deter e encarcerar durante quase um ano na tenebrosa prisão húngara de Szombathely. Só ele sabe o que aconteceu durante aqueles longos 324 dias, apesar das sucessivas tentativas falhadas do realizador e produtor do filme em retirá-lo de lá – Andrei Hubos, que diz ter em sua posse um diário do Barry no qual, para além de outros apontamentos, diz ser também abordada a experiência em Szombathely; Hubos disse também que prometeu não publicar o diário enquanto Barry fosse vivo. O que, para os entusiastas do género, é algo realmente perturbante: uma relíquia, um tesouro por descobrir; um manual que poderá alterar tudo aquilo que é debatido e profetizado nos colóquios do género e nas academias das artes por este mundo fora. O que é certo, nisto tudo, é que nem o Day-Lewis nem o Dustin Hoffman conseguiram atingir tamanho nível de perfeição na representação de um condenado. Chega a ser inquietante o desempenho do Barry no Szervusz, essa obra-prima do Hubos que arrebatou a plateia da Berlinale em 2003 e que, além disso, conquistou o único Leão de Ouro para um filme húngaro em toda a história da Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica. O Barry ganhou o prémio de melhor actor em ambos os certames, por este filme. E, três anos volvidos, repetiu a proeza com aquele filme italiano em que faz do jornalista freelancer que pôs em cheque um suposto triângulo longitudinal de interesses entre Nápoles, Milão e o Vaticano – Il Deputato, esse polémico e brilhante filme que ateou o rastilho de muitos dos milhões de habitantes em pé de guerra pelo país da bota fora. Curiosamente, Cannes desprezou-o em ambas as ocasiões. Mesmo sabendo que Barry passara um ano em Szombathely e que havia sido ameaçado de morte enquanto, durante ano e meio, obsessivamente perseguira deputados italianos e compulsivamente publicara vídeos virais na internet, estilo profeta de algum terrorismo cibernético organizado. Diz quem com ele conviveu que a sua pertinente bipolaridade oscila entre a genialidade e a loucura – puro estereótipo do artista; o orgulho de Stanislavski. Imaginou-o a ele, o puto; imaginou-o a ele com a pele do nosso protagonista vestida. Diz o puto, profundo conhecedor e entusiasta do cinema e da música do mundo – o puto é daqueles do FMM de Sines e do Andanças de São Pedro do Sul, fã das roots e da multiculturalidade, do Kurosawa e do Nuri Bilge Ceylan – diz ele que não existe outro actor em todo o mundo tão talentosamente talhado para cumprir a exigência deste papel como Barry Brown. Eu acredito no puto, já o disse: para mim o Barry é o melhor actor de todos os tempos. Não só pelos papéis, mas por todo o contexto. É um extremista, na sua arte. Um radical do método; um génio e um louco; a personificação da baba do Stanislavski. Não conheço algum outro actor com o seu carisma, nem que transporte tanta grandiosidade no seu nome e na sua obra; e tanto mistério ao mesmo tempo. O Barry é o actor que desafia as leis da física; a definição máxima do termo, o conceito em carne e osso; a concretização da tentativa do Phoenix que, por sua vez, acabou por cair nos tentáculos do polvo mediático – o Phoenix sabe que o Barry significa o limite, o clímax da sua profissão. A diferença está no Barry sê-lo e no Phoenix persegui-lo. A “demência” temporária do Phoenix caiu no ridículo das suas barbas, para a rede noticiosa. A do Barry é inata: não deixa margem para dúvidas e é teoria para os cahiers; ora Deus, ora mito. Para se ser um homem Grande nunca nada é pequeno demais. O ditado de um bom actor. Cheguei a comentar isto com o puto, que concordou. O Barry é, sem dúvida, aquilo que o filme precisa. Admito que li o guião a pensar no Joaquin Phoenix, para este filme. Mas assim que o puto me falou do Barry, opção é termo que deixa de existir. O Haynes confessou que o leu com o Ben Foster na cabeça, esse jovem que impressionou naquele filme do filho do Cassavettes e que também é um excelente actor. Haynes tinha um objectivo pessoal para catapultar Foster e achara que este projecto seria perfeito para servir os seus intentos. Mas assim que lancei o nome do Barry naquela reunião, os olhos do Ed reluziram como ainda não o haviam feito até ao momento. Ali pude percebê-lo: o Ed não procura mais do que a oportunidade de provar aos fundamentalistas do cinema europeu, os do Dogma e da nouvelle vague, que o grande Ed Foreman ainda consegue lançar filmes capazes de contribuir para os estudos da estética, capazes de representar a evolução da análise crítica e, claro, capazes de se impor no desenvolvimento da arte cinematográfica. Que diriam os sedentos antípodas e os académicos da Paris-Sourbonne, de Oxford ou de Lodz se o velho Ed canalizasse os milhões da jovem mediática herdeira norte-americana para um filme rodado em Portugal, esse histórico país em desuso, numa manobra de exímia perícia capaz de operar no resgate do mal-amado Barry Brown às profundezas do cinema europeu sob a forma de um guião e de uma personagem demasiadamente irresistíveis para serem desprezados pelos maiores certames internacionais do género? Consegui ler-lhe tudo isso, apenas pelo reluzir dos seus olhos. Percebi que acabara de lhe expor o plano perfeito – a quimera a quem, sem sucesso no seu objectivo principal, dedicara o último par de décadas. Este engenho não é mais do que o perfeito alibi que Ed obsessivamente persegue a fim de que, também ele, um dos maiores dinossauros da indústria norte-americana, possa obter o reconhecimento dos estudiosos e das elites da Europa cinematográfica. Foi uma vez mais obra do destino (porque o destino nem brinca, nem dorme em serviço) o acaso de que o Barry estivesse neste preciso momento a acabar de rodar um filme no Autódromo de Portimão, num ambicioso projecto francês inserido no plano de investimento e de incentivo municipal à atracção de produções cinematográficas à região algarvia. Bastou um telefonema do Haynes para conquistar mais do que tudo o que eu e o Diogo há vários meses tentávamos – nem conseguíramos o contacto do Barry, nem um parecer positivo das empresas, das pessoas ou das instituições à frente desse plano regional, em relação aos não menos ambiciosos par de projectos cinematográficos que lhes enviámos. Um telefonema do Haynes foi suficiente para nos marcar um encontro com o Barry e, praticamente ainda na mesma conversação, obter-nos a predisposição dos abutres em considerar o nosso projecto, não para uma parte da verba destinada à promoção desse plano, pasme-se, mas sim para a garantia da quase totalidade dos esforços e das quantidades envolvidas na viabilização de um cenário de produção do nosso projecto por terras mouriscas. É este o poder que se tem quando se vai a jogo com o Ed e com o Haynes na nossa equipa: toda a força da indústria dominante a operar no zé-povinho. O nome é tudo, nesta área. Infelizmente. O que os abutres não sabem é que essa opção nem vai ser considerada. O filme está pensado para ser rodado no interior de Portugal, nas planícies e nos vales da nossa serra mais alta e mais formosa, entre 500 a 1000 metros acima do nível das águas da região algarvia, e não vai ser nem a graxa nem a saliva deles que nos irá demover dessa ideia. A herdeira garantir-nos-á tudo aquilo que eles não terão para nos dar. Com isso terei o prazer de, envolto em sorrisos cínicos, poder dizer-lhes que «Não, obrigado. Não preciso.». Tipo trovão, nos seus intentos. O sustento do outrora inacessível plano desenvolver-se-á agora amaldiçoado, por esses anos vindouros a fora. Espero bem que não, porque Portugal precisa mais do que nunca de uma actividade cinematográfica em constância com as condições e com as paisagens que temos para oferecer. Espero que o plano algarvio saiba prosseguir, em ritmo crescente. Não vou desprezar a oportunidade do sorriso cínico, da chapada de luva branca mas, sinceramente, espero que os abutres consigam com isso abrir os olhos de então em diante e que esse podre sorriso seja apenas uma pedra no sapato, uma ajuda aos que podem almejar horizontes tão atractivos como aqueles que o Infante um dia descortinou para lá do Cabo de São Vicente, da Boa Esperança, do Bojador e das Tormentas; mas que não o fazem. Que se recordem do que comigo perderam para não mais desperdiçarem. É só isso que desejo. De qualquer das formas iremos ouvir o que têm para nos dizer, assim que chegarmos a Portimão. Mas entusiasmante mesmo será visitar o Barry. Encontrá-lo em pleno set do remake francês do Le Mans, esse clássico e alucinante filme que, desta feita, obtém novos registos no recém-criado Autódromo de Portimão, com o aliciante extra de ser o Barry Brown a fazer de Michael Delaney, a pessoa que um dia foi de Steve McQueen. Será curioso observá-lo in loco. Especialmente sabendo que ele andou os últimos 2 anos a participar nas mais diversas competições amadoras, entre o Brasil e a Indonésia, para com isso desenvolver as suas aptidões de automobilista, espatifar dezenas de carros de alta cilindrada e pernoitar nos mais subnutridos hospitais do mundo com severos traumatismos cranianos e um par de costelas partidas. Assim é o Barry. Vai ser interessante ouvi-lo em relação à nossa proposta, ainda que se tenha prontamente recusado a ler o nosso guião antes do término da rodagem em que se encontra. Por questões de princípios, disse ele. Pergunto-me: princípios, em relação a quem? Ou melhor: em relação ao quê?

Passavam poucos minutos das 4 quando chegámos ao Autódromo. A reunião com os abutres decorrera como eu esperava: uma cortesia tremenda para com o Ed e com o Haynes, uma descomunal indiferença para com a minha pessoa. Por vezes parecia que eu estava até sentado numa mesa à parte, naquele belo restaurante junto à margem Este do Rio Arade. Nunca eu, até à data, me apercebera da beleza de Ferragudo, uma típica vila da mais pura tradição algarvia que apenas faz notícia por ser o destino de férias do Mourinho. Tudo foi bem preparado pela comissão de boas vindas: o encontro na zona ribeirinha de Portimão – essa famosa Casa Inglesa cujas esplanadas eu ainda recordava devido aos quentes verões e aos deliciosos gelados das férias de família dos anos 80 -, a viagem naquela pequena embarcação directamente até à porta do restaurante (o restaurante tinha uma entrada directa do rio, tipo apeadeiro particular) e o desfrutar de alguns dos melhores peixes de que há memória. A inevitável fotografia da visita do Mourinho ganhava especial destaque, envolta numa decoração de variados e interessantes instrumentos da faina. Foi cá fora, enquanto fumava um cigarro na companhia do Haynes e das suas sucessivas chamadas telefónicas, que tive tempo para apreciar a inquestionável beleza da vila que um dia fora amada por Manuel Teixeira Gomes e que, ao mesmo tempo, pude dar espaço ao meu sistema digestivo para que este pudesse iniciar o seu processo de acordo com as leis da gravidade. O peixe estava mesmo bom: uma mista de frescos e enormes robalos, sargos e besugos; o Ed ficou rendido ao saboroso vinho verde que nos fora indicado, algures da região de Amarante – essa bonita terra que faz fundo em várias das fotografias do meu cunhado e dos seus passeios familiares; e eu acabei por repetir a dose final do melhor digestivo do mundo – o medronho da serra de Monchique. Apesar de tudo, não deixei esmorecer a minha postura e passei as quase três horas de almoço a sorrir como se fosse a encarnação da felicidade em pessoa. Senti perfeitamente o desagrado dos abutres para comigo e os seus consecutivos intentos para me conseguirem deixar fora de jogo. Tipo defesa em linha, bem subida. Eu compactuei, limitei-me a comer, a sorrir e a observar o decorrer da conversação. Mas bastou uma palavra minha ao Haynes, naquele momento que partilhámos com a ternura da vila branca à nossa frente e com a imensidão da cidade azul às nossas costas, para ele regressar lá dentro e desfazer qualquer hipótese de pacto que ameaçasse o nosso projecto. Ficaram negociações apalavradas para projectos futuros de cooperação entre a Ed Films e o plano de investimento algarvio, mas toda e qualquer aspiração de atracção do “Almocreve” às paisagens sulistas caiu por terra naquele fabuloso restaurante que um dia deu de comer ao maior génio futebolístico de todos os tempos – José Mourinho, o único Português que realmente tem consenso para vir a ser primeiro-ministro no dia em que abandonar o futebol. Tipo aquelas celebridades de países Africanos que, apenas porque singraram nos meios em que se movimentavam, ganham o direito de vir a ser presidentes e líderes do país onde outrora nasceram: Youssou N´Dour, George Weah e o Schwarzenneger na Califórnia, embora esse nem sequer tenha nascido lá. Percebi também naquele momento que o Haynes confiava em mim. E que, ao contrário do que eu inicialmente temera, ele estava mesmo empenhado na qualidade final do filme. “O Almocreve” é o nome do fabuloso guião que o puto escrevera. “The Muleteer” era a tradução à letra, o título que fora apresentado aos tubarões que acabaram por vir a jogo connosco. Percebi o empenho do lendário logo no momento em que decidiu que o filme iria ser rodado em Portugal e falado em Português – contrariando toda e qualquer lógica da indústria norte-americana com o intuito de convencer os palcos e os teóricos do velho continente. Mas apenas reconheci o real empenho do Haynes para com a qualidade final deste filme quando ali naquele preciso momento desprezou os fáceis milhares da moeda única europeia que nos foram oferecidos a fundo perdido e que nos obrigariam a alterar muito do conceito do nosso filme. O Haynes saiu de Ferragudo com novos negócios no horizonte, é verdade, mas em nada prejudicou as 118 páginas do “Almocreve”, a verdadeira razão porque ali almoçáramos naquele dia. Naquele momento de despedidas cordiais, com a barriga cheia de peixe e carregando um gostoso hálito a medronho, senti que existia harmonia nos nossos intentos para com este projecto e que ambos confluíam na mesma direcção: o objectivo era a Palma de Ouro de Cannes. Faltava apenas convencê-los de que seria o puto a pessoa mais indicada para conseguir fazê-lo lá chegar.

Deviam ser as 4 em ponto quando fizemos a rotunda Este de Odiáxere – aquela rotunda que dantes nem existia, nos tempos áureos do fim da minha adolescência e das férias no Algarve, nesses tempos em que com meus pais frequentava a Meia-Praia dos carecas, dos índios e dos piratas algarvios e que com meus primos me embebedava na Horta 2 dos ingleses, dos marafados moços e das vampiras algarvias – e nunca eu pensara que o confronto com tal paisagem me causasse tão nostálgico sentimento. Quase que consegui visualizar, em plena rotunda, aquela indescritível imagem que se obtém após cruzar o campo de Golf do serro dos Palmares – aquela baía idílica, com Lagos à direita e Portimão à esquerda, a Ria de Alvor a pontuar os traços de tamanho impressionismo e aquela imensidão azul que obriga a qualquer horizonte sentir-se embaraçosamente ridículo por com este quadro confrontar-se -, quase que consegui também escutar, ainda em plena rotunda, a fúria das locomotivas que nos pontuavam de suspense as prés e as pós jornadas de sóis escaldantes e de banhos refrescantes – o pare, o escute e o olhe que, quase artesanalmente, assinalavam o início e o fim dos melhores dias de praia que um ser humano pode pedir; e que, simultaneamente, assombravam a travessia desértica e selvagem que faz deste pequeno recanto um dos percursos mais singulares de Portugal, pese embora o facto de que, desde as esmorecidas casas dos pescadores à imensidão de areal claro e fugidiamente liso, apenas seja um trajecto com pouco mais de 200 metros de comprimento – e, de uma forma ainda mais forte, quase que consegui sentir também o calor nocturno da genética algarvia que, em momentos fortuitos, consegui explorar ao longo daqueles ainda hoje intactos baldios castanho-esverdeados, estendidos pelas margens da ribeira de Odiáxere. Grande parte da minha mais pura adrenalina adolescente perdeu-se (ou encontrou-se) nos terrenos envoltos àquela mítica discoteca que um dia foi palácio e hoje em dia é ruina. Que turbilhão de sensações, fazer aquela rotunda que por momentos vestiu pele de pista de montanha-russa. Saímos da rotunda em direcção ao Autódromo, que distava a cerca de meia-dúzia de quilómetros e, por momentos, senti o peso do vinho verde com que regáramos o almoço e do medronho com que activáramos a digestão. O Ed olhou-me, de soslaio, e fez-me lembrar o meu avô e os juízos de moral que ele impunha só com o olhar. Senti-me mal por estar a conduzir com algum álcool no sangue – demonstrei, de certa forma, uma determinada fraqueza aos tubarões e prometi-me a mim mesmo que de hoje em diante não voltaria a repeti-lo – mas errar é humano e os árbitros são os humanos que mais liberdade têm para o fazer; embora não devam repeti-lo. De qualquer forma foi ali, naquele momento, ao confrontar-me com as efemérides do meu passado na rotunda de Odiáxere, que percebi que o meu comportamento do presente iria condicionar o nosso futuro. Analisando-o agora, reconheço que foi muito positivo este reconhecimento ter-se dado minutos antes de chegar ao Autódromo, momentos antes de me cruzar na estrada com um despido Vai-Vem (transporte municipal que faz a linha do Autódromo), de observar o aparato que a equipa de produção do remake do Le Mans montou em redor da megalómana construção Portimonense, de assistir a um par de takes frenéticos em plena pista de corridas, de admirar de perto uma das Arri Alexas com que captavam as imagens (uma das rainhas das digitais câmaras da nova geração, que nunca antes pudera eu ver de perto), de lançar um olhar interessado na direcção do local onde está prevista a construção de um complexo de estúdios cinematográficos (ainda inserido naquele plano de incentivo à atracção e à produção cinematográfica na região algarvia que horas antes nos fora apresentado) – indiquei o espaço ao Haynes, que se mostrou deliciosamente aliciado – e, acima de tudo, pelas surreais 24 horas que se seguiram, foi imperialmente bom que esse reconhecimento tenha acontecido minutos antes de conhecer o Barry Brown. Volto a repeti-lo, o maior actor de todos os tempos.»

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: