O Almocreve, III

III

«Passaram-se 5 meses, desenrolados de mesa em mesa, e estávamos agora algures na Covilhã, a cidade-sopé da montanha mais alta de Portugal continental. Encontrávamo-nos num pequeno local onde dantes existira um grande restaurante e, desta feita num ambiente mais relaxado, festejávamos e desfrutávamos a noite zero da complexa jornada que se seguiria. Tinha como companhia o Barry Brown, o Diogo (meu sócio na Mentecapta Filmes), o puto (argumentista e agora confirmado realizador do filme que aqui nos trouxera) e o Yoannis (development executive da Ed Films). Meses atrás, naquela singular viagem ao Algarve com os “patrões” do Yoannis, a minha capacidade de liderança do projecto fora variadas vezes posta em causa e eu, sozinho no jogo e de forma até algo fortuita, consegui manter-me firme ao leme daquelas horas que se transformaram numa espécie de dirigível, destemidamente pairado sobre ambos requinte e submundo lacobrigense. Nunca eu pensara que um jantar com o Ed, o Haynes e o Barry Brown pudesse descambar naquele horrífico estado de depravação e também nunca eu imaginara que aquelas simpáticas, estreitas e acolhedoras ruelas de Lagos pudessem esconder tamanhas quantias de perversão. Foi uma noite de calamidades, de caos e degeneração que, pelo bem do senso comum, decidi enterrar no baú das minhas memórias. Acho muito provável que tenha sido o olhar litigioso que horas antes o Ed me colocara – e que me fizera recordar o carácter do meu avô -, que me levou a recusar beber álcool no agradável restaurante que o Barry escolhera para o nosso jantar: um pequeno restaurante decorado com caixas e garrafas de vinhos; moquecas, choquinhos e açordas na ementa. Comida fabulosa, ambiente fantástico – percebia-se que o Barry já dominava completamente aquela terra, em pouco mais de um mês de estadia. Inadvertidamente, o álcool se assumira nessa mesma noite como um género de átomo combustivo, detonado pela presença dos bares, bordéis e demais clubes nocturnos da cidade do Infante. Felizmente fora eu o careta, o sensato, o outsider da noite – o vigilante dos egos e dos superegos desse poderoso trio da indústria cinematográfica mundial que nos levou às pantominices e ao deboche noite adentro fora. Obrigado avô, mantiveste-me digno, correcto e sensato; a ti será dedicado este filme porque só graças a ti é que ele, pelas nossas mãos, existirá. Não foram poucas as vezes que a minha competência foi posta em causa, nessa noite. Posso classificá-la como uma epopeia de sucessivas audições à malta da barca do Inferno – três pares de olhos, gradualmente mais degradados com o passar das horas, que de forma pontual me colocavam à prova. Como quando lhes tentei garantir que o puto tinha o que seria preciso para materializar este filme com qualidade – porque todos suspeitavam da sua capacidade (o puto apenas realizou um par de curtas enquanto estudante, até à presente data) – e, perante estapafúrdias e inseguras tentativas da minha parte em tentar demonstrar o meu conhecimento e bom gosto cinematográfico, o Brown, do nada, atira para cima da mesa: «Ok. Percebes de filmes.». Perante a perplexidade por mim obtida, com a inesperada dedução, prosseguiu: «Explica-me então o seguinte: porque fazem os putos o pino no “Killer of Sheep”?». Pude, por instantes, reconhecer uma ligeira expressão de surpresa quer no Ed, quer no Haynes – imediatamente reposta nesse normal estado analítico monocórdico, com o qual cronicamente me fitavam. Um teste à minha capacidade: puro e duro. De quê? Não sei. Talvez apenas um rápido exame ao tipo de aço que revestia o meu punho, talvez apenas um ambíguo cheque à minha competência cinéfila e à minha sensibilidade empresarial; uma prova mais exigente do que qualquer outra até hoje enfrentada. E eu nem vira o filme ao qual se referia Brown. Supondo que fosse um filme, pelo contexto. Mas nunca eu ouvira falar de tal coisa. Pelas caras do Ed e do Haynes senti o afundar da minha teoria. Felizmente decidira não beber e mantive-me firme. Noutra situação, com um par de copos de vinho bebidos, era homem o suficiente para, envergonhado com a minha ignorância, afirmar prontamente que havia visto tal filme e, mais ainda, sorrir, vibrar ou concordar com o que quer que fosse que o Brown indicasse sobre o mesmo. Sem fazer a mínima ideia, mas para que parecesse bem, para me sentir enturmado e para tentar impressionar no teste. Mas felizmente não bebera – o literal “desta água não beberei” – e estive à altura da exigência, afirmando que não conhecia o filme. Não passei no teste, da forma que os juízes esperavam. Não provei que tinha a razão no assunto das capacidades do puto. Mas mantive-me em campo. Fui sensato, sincero e aguentei-me; escolhi o caminho certo, uma e outra e uma vez mais, durante as horas que se seguiram. Fiz mea culpa e afirmei que o puto tinha a visão que o filme necessitava. Deixei o trunfo nas mãos dele e o puto não nos deixaria mal, sempre tive a certeza disso. Sei que pouco significo para o Brown, do seu ponto de vista artístico e intelectual, e que pouco contribuí para o seu entusiasmo neste projecto. Eu sou fã do Bruce Springsteen; o Brown não se deve contentar com menos do que Stockhausen. Mas garanti-lhe honestidade, naquela noite. Companheirismo, sensatez e seriedade. Até os mais tresloucados exemplos da humanidade gostam de se sentir envoltos numa consciência séria. Foi uma quente noite de Verão. Mas aqui estamos hoje, já com a pré-produção do filme em curso e com a certeza que daqui a uns meses iremos estar a rodá-lo, com o puto no comando do navio. Vai ser a primeira vez que o Brown participará num filme novo sem um intervalo de 3 anos a separá-lo do anterior. O poder do Ed até estas regras quebra: as dos princípios e as dos moralismos. O Brown apenas impôs uma condição, a de deixá-lo passar os 3 rigorosos meses de Inverno percorrendo sozinho, a pé, o interior profundo de Portugal. Foi a sua única exigência, para que dessa forma se pudesse preparar convenientemente para a personagem que lhe havia sido oferecida: a de Almocreve, no filme que o puto escrevera com o mesmo título.

O Diogo, meu grande amigo de longa data, é uma espécie de génio incompreendido. Não porque seja realmente genial, mas porque é muito mais do que o que aparenta. Ele é o estereótipo do cara-de-parvo. Aquele tipo de miúdo que dificilmente arranja amigos porque tem uma real cara de parvo. Não sabemos porquê, ninguém consegue defini-lo; não é uma questão de olhos demasiado grandes ou de orelhas estranhamente descabidas. Mas, olhando para ele, facilmente descodificamos que algum dia terá sofrido de bullying. Esse tipo de cara que revela uma inconcebível falta de jeito para todas aquelas actividades que a malta fixe pratica e esse tipo de cara do apenas porque prefiro rumar à biblioteca do que jogar ao bate-pé. O Diogo é daqueles casos científicos difíceis de compreender: sempre tive pena dele, mas também eu não me conseguia abstrair dos impulsos de gozo quanto à sua caricatura singular. Ainda assim, apesar do escárnio pontual, sempre fui dos seus amigos mais condescendentes. Na verdade, os seus verdadeiros amigos eram os livros e os filmes que numa base diária devorava; mas logo a seguir, provavelmente vinha eu. A nossa maior proximidade, de longa data, também se deve ao facto de termos sido vizinhos durante vários anos e de que, por isso e por muitas das vezes, era a ele que eu recorria para brincar no quintal da minha casa – geralmente, brincadeiras do tipo em que eu me divertia e ele se magoava. Ficámos vizinhos quando a minha família se mudou para Castelo Branco, pouco após o 25 de Abril. O meu pai defendia que se seguiriam tempos de prosperidade e decidiu rumar ao interior beirão com desejos de proliferação rural (hoje preenche os últimos dias da sua gasta vida com a incrível frustração de apenas ter proliferado um estado crónico de depressão). Lembro-me do dia em que chegámos e da cordial recepção que a mãe do Diogo nos preparou, dando-nos as boas vindas ao nosso novo lar com a oferta de uma bôla de chouriço estupidamente boa para primeiro impacto. Lembro-me que as suas primeiras palavras me pareceram também elas estupidamente erradas: «Agora que toda a gente foge daqui é que vocês vêm?». Pensei nela como uma pobre ostracizada do interior e senti orgulho no meu pai – um jovem beirão que nos anos 60 decidiu rumar a Lisboa para se fazer à vida e que, quase 20 anos depois, decidiu vender o estabelecimento que entretanto cultivara na Almirante Reis para, em conjunto com a família que entretanto também criara, apostar num grandioso espaço de restauração em Castelo Branco (herdado de um tio sem filhos), a fim de constituir raízes numa pequena vivenda brilhante como o sol que, com o passar dos anos, acabou por escurecer e diluir-se em amarelo-torrado. Realmente a mãe do Diogo tivera razão: a conjuntura social da época rapidamente transformou um espaço de referência regional numa ruína cultural e todas as boas intenções do meu pai esbarraram na falta de soluções vigentes numa interioridade cada vez mais rural e numa espécie de revolta organizada do proletariado hoteleiro. A nossa família rapidamente passou do 80 ao 8 e valeu-nos a determinação da minha mãe, que ao arranjar um trabalho estável num híper armazém de retalho, nos aguentou na recessão. O meu pai nunca mais se perdoou por ter optado pelo êxodo urbano quando todos os outros o faziam rural. E talvez por isso se aceite e se compreenda a minha carreira em gestão empresarial – a travessia de segurança do filho-de-peixe-sabe-voar. Mas também talvez por isso não se entenda que eu tenha canalizado os meus recursos num empreendedorismo em cinema. Tal como o meu pai o fizera há 30 anos atrás, ao jogar os trunfos na cultura, também eu decidira subir o rio contra a corrente. E rapidamente distorci o ditado para a sua pronunciação correcta. Apostar na indústria cinematográfica em Portugal, quando esta se encontra num coma induzido que já se faz adulto, é motivo suficiente para me fazer confluir na direcção do Júlio de Matos. Estranhamente o Diogo, filho da mãe que afinal teve razão, mostrou-se disposto a partilhar o quarto na psiquiatria. Mas no caso dele, apesar dos profetismos que a sua família augura, a loucura ainda se compreende: se eu me especializei em gestão, em Coimbra, o Diogo não fez por menos do que o Conservatório de Cinema de Lisboa e, porque se sentia demasiado institucionalizado no final do curso, conseguiu ainda convencer os pais a financiarem-lhe um mestrado de 2 anos na National Film and Television School em Londres. Diz que passou do institucionalizado ao radicalizado e o que é certo é que, cerca de 10 anos depois de sucessivas experiências de trabalho frustrantes, fracassadas e mal remuneradas e de um par de projectos que desalmadamente procurou desenvolver sem grande sucesso, a determinada altura decidiu apresentar-me o esboço do seu projecto maior – o de criar uma produtora de cinema. O plano era bom, o mercado não. Não posso negar o facto de ter encontrado no projecto do Diogo o desafio de vida pessoal e profissional que incessantemente procurava. Já me haviam passado aqueles anos de sonhos com Wall Street e com os títulos de Bussiness Manager, do Administrador da PT, da Ren ou da CGD. Passam-se os anos, cai-se no real e é preciso é focar em algo concreto. O projecto do Diogo fez-me recordar a bôla de chouriço que um dia, décadas atrás, a sua mãe nos apresentara – tão boa, tão cheia de razão e, estranhamente, tão confortável (mas no masculino, porque era realmente um senhor projecto). Além disso, a Lúcia apoiou sempre a decisão (a invulgar concordância que ela demonstrou neste assunto fez-me começar a olhar para o espelho com dúvidas sobre uma eventual crise de meia-idade que me poderia estar a consumir sem que eu me apercebesse da sua existência). Ela é uma orgulhosa (e competente) executiva de marketing numa agência multinacional de publicidade e é graças a ela que temos conseguido alguns trabalhos lucrativos para a Mentecapta. Sempre foi um importante eixo no nosso negócio, o da publicidade, e, tenho de admiti-lo, perspectivar esses benefícios de antemão foi um dos factores que mais segurança me deu para embarcar na aventura que foi abrir a minha própria produtora; a garantia de que chegaríamos ao final de cada mês com um salário suficientemente razoável para fazer uma vida interessante em Lisboa. Ainda que, na verdade, continuasse a ser bem mais atractivo o salário mensal da minha mulher, trabalhadora dependente, e também que os trabalhos em publicidade não nos motivassem particularmente. Estamos nisto pelo cinema (mais o Diogo do que eu, em abono da verdade) e, com esta jornada que se iniciou no guião do puto, temos agora a sensação de autonomia e o tipo de motivação que sempre procurámos. Abençoado Haynes. Por isso digo que o Diogo é um génio incompreendido. Vi nele, e no projecto dele, a razão que outrora negara à sua mãe, no dia em que chegámos a Castelo Branco. Não obstante a sua cara de parvo, reconheço que existe ali algo de genético que lhe confere o poder da razão. A vida tem pouco de justa: que o diga o meu pai, pobre alma que segue atormentada por uma única e erradamente denotada decisão ao largo da sua vida. Trocou ele a agitação metropolitana pela calmaria rural, com perspectivas de glória e recheado de razão, mas o universo girou no sentido inverso da sua lógica. No caso do Diogo passa-se o oposto: com a sua cara de parvo colocou-o o universo em órbita, à margem de qualquer tipo de razão. Mas a lógica persegue-o.

Ainda vivia bem fresca na minha memória a última visita ao restaurante onde hoje nos encontrávamos. Fazia agora cerca de uma década de quando eu e a Lúcia decidíramos passar os dias de um prolongado fim-de-semana divididos entre os declives da Covilhã e os recantos da serra de Viriato. A meio da estadia, num início de noite fria (tão fria quanto a Covilhã facilmente o permite), descobríramos este pequeno espaço que dantes respondia com outra gerência e também com outro nome; a rendição foi imediata. Desde uma articulada mesa de buffet disposta logo à entrada, da qual podíamos repescar a melhor panóplia das iguarias beirãs, à orgulhosa decoração do legado lusitano, passando pelo caseiro vinho tinto (produzido pelo carismático dono – que por sinal também era o cozinheiro – e servido num simpático jarro de barro), até ao saudável enfarte que quase obtivéramos com tão bom e tão bem confeccionado cabrito no forno. Tudo o que neste espaço foi outrora maravilhoso e que hoje já o não é. Desses tempos apenas restam alguns pontos coincidentes da ementa e, nem por acaso, quer o queijo da serra quer a chanfana que ainda persistem, em nada se aproximam do requinte que há uma década partilháramos. Por isso estava eu hoje, mais do que desagradado, estava eu hoje triste. Porque tanto eu gabara o espaço aos meus companheiros, que poucos minutos bastaram para gorar todas as expectativas entretanto geradas. No entanto isso pouco preocupava Barry, que mantinha uma entusiasmada conversa com o puto – eu sabia que o puto se aguentaria bem no tipo de debates que Barry procurava. Na hora que até então gastáramos naquele restaurante, já o puto e o Barry haviam revisitado quase toda a história do cinema independente, da literatura beat, da música étnica do Mali e inclusive existira espaço para uma rápida reflexão sobre o futuro dos Media e das Artes Visuais. Descobriram (e nós por associação) que ambos seriam acérrimos entusiastas dos filmes do Charles Burnett (o Barry voltou a mencionar o Killer of Sheep e eu tomei uma nota mental para mais tarde confrontar o puto com a questão que Barry me colocara naquela tortuosa noite sulista) e analisaram cuidadosamente a evolução registada num tipo de cinema independente Norte-Americano supostamente seguidor dessa corrente específica do matador de ovelhas. Falaram-se nos nomes de David Gordon Green (vibraram ambos ao recordar um filme chamado George Washington; eu imediatamente associei o título ao histórico líder Norte-Americano mas pelo decorrer da conversa rapidamente constatei tratar-se de um filme sobre um miúdo negro que, estranha e aparentemente, sem poder molhar a cabeça, era um super-herói), de Jeff Nichols (e percebeu-se um misto de inveja e de admiração do Barry para com o Michael Shannon, o novo super actor indie de Hollywood que vai fazendo brilharetes onde quer que passa), e exultaram ambos quando o Diogo se tentou intrometer na conversa mencionando o nome do Steve Mcqueen. Eu imediatamente associei o nome ao célebre actor, ícone cinematográfico que poucos meses antes o Barry “substituíra” no remake dos carros e, por isso, sorrira. Mas logo percebi que se referiam ao talentoso realizador britânico que com apenas um par de filmes recentemente mudara a história do cinema – muitas vozes chegaram mesmo a apelidá-lo de Kubrick dos tempos modernos. Disso derivado, pude também descortinar uma patente inveja e vincada admiração do Brown pela pessoa do Fassbender. Recordei os títulos dos célebres filmes do Mcqueen, “Fome” e “Vergonha”, e apercebi-me que ambos intitulavam (e extrapolavam) precisamente aquilo que eu sentia no momento: uma fome saudosa e uma vergonha embaraçosa. Enquanto eu me debatia comigo próprio para desfrutar da apenas aceitável chanfana de cabra que de forma consensual pedíramos (e me esforçava para garantir que o Yoannis apreciasse o momento), o Barry e o puto (e por vezes também o Diogo) prosseguiam nas suas cuidadas divagações. Falaram também nos filmes do Malick (cujos conheço, mas não aprecio particularmente), num casal de músicos invisuais do Mali (reconheci o nome do Damon Albarn, o homem-forte dos Blur, quando a determinado momento o mencionaram), percorreram as letras do Kerouac, do Ginsberg e do Burroughs (também eu lera o On The Road e aproveitei para relembrar, entusiasmado, que o Coppola estava a produzir uma adaptação cinematográfica do livro – consegui com isso, por breves momentos, centrar as atenções da conversa na minha pessoa, mas rapidamente retomei a sofrida degustação da chanfana), nas opções estéticas que um tal gajo com o nome de lua trouxera ao conceito de videoclip musical moderno (porque, segundo eles, filmava música despida – ainda hoje não percebi o significado da expressão) e inclusive houve espaço para o Diogo brilhar quando, a certa altura, lançou para cima da mesa o livro que o acompanhava nos últimos tempos (e que tantas vezes me havia indicado sem que eu lhe prestasse a mínima atenção em nenhuma dessas vezes) – American Rust, de Philip Meyer. «O equivalente literário à corrente cinematográfica que vocês procuram.». Disse ele, de forma imperial e decidida e, com isso, o Diogo entrara no núcleo duro que entretanto fora criado naquela mesa; ao mesmo tempo eu, homem de negócios habituado a vibrar com filmes como o Jerry Maguire, o Philadelphia, o Dead Man Walking ou o The Wrestler (não só por todos terem músicas do Boss, mas também), reconhecia-me cada vez mais incapacitado para ombrear com os intelectos que me calharam em destino à partilha desta inusitada e falsificada amostra de prato beirão. Foi nesse preciso momento que senti o primeiro arrepio de saudades da minha Lúcia da noite (atente-se como a articulação de uma frase ternurenta pode facilmente cair numa ambiguidade indesejada – o poder das palavras é por demais). Safava-se o vinho, que não era mau (hoje, negócio consumado e véspera do início da odisseia, é momento de celebrar e, desde que me contenha nas palavras, um par de copos de vinho não comprometerão nada nem ninguém). Por isso, e enquanto o “trimente” (termo exclusivamente da minha autoria, improvisado com indescritível e multipolar significado neste preciso momento) se divertia discutindo a fugacidade do sonho Americano pelo cinema contemporâneo – e o como uma abordagem ao tal novo realismo Americano que ocupara grande parte da nossa refeição seria o caminho a seguir pelo Almocreve, nosso filme – eu decidi focar a quase totalidade da minha concentração no Yoannis: um executivo grego que o Ed contratara há cerca de 7 anos logo após a excelente prestação deste nos desenvolvimentos de uma mega produção greco-romana que a BBC não hesitou em comprar. Diz-se, entrelinhas, que o Yoannis é o responsável pela melhor sessão de pitching jamais feita até à data (vulgo mito da Berlinale) e nada disso passou despercebido ao Ed. É, aliás, por decisão do velho que o Yoannis cá estará nos próximos meses a acompanhar-nos como supervisor do projecto e como selo de garantia, enquanto o mesmo é desenvolvido no escritório da Mentecapta e também enquanto decorre a peculiar jornada do Brown pelo interior de Portugal. O grego será o pilar, a marioneta que manterá as coisas sob o controle do Ed. Terei tempo para estudar tal fenómeno que, por enquanto, desconheço; estranhamente a presença do Yoannis foi uma das poucas condições impostas pelo velho, que denota cada vez mais um espírito cansado (mas não inconformado), e eu não tive a mínima hesitação ao aceitá-la. O Yoannis parecia estar mais interessado no debate do “trimente” do que na minha conversa de ocasião, o que me fez atentar de novo na saudável discussão, e, após dar mais um valente gole no vinho e de ingerir mais uma garfada de chanfana, ainda meio a mastigar, melodicamente soltei: «Darkness on The Edge of Town.» O “trimente” fixou-me, confuso. «Bruce Springsteen. 1978. A América que vocês perseguem.». Concluí e voltei ao vinho. Os outros, desprezando, voltaram às suas amigáveis quezílias, atropelando literalmente qualquer reflexão que o meu comentário pudesse originar. Yoannis olhou-me com aquele olhar do “quem é que pariu este energúmeno?”. Eles não sabem, mas o Boss tem sempre razão. E não é por acaso que o aclamado álbum traz à tona repetições de termos como dark, night, work ou dreams, recorrentes na maioria das canções. O sonho e o realismo Americano no contraponto que procuravam para o ambiente do Almocreve. Eles não sabem, mas se soubessem percebiam.

O resto da noite foi passado num pequeno bar mal-amanhado, repleto de jovens estudantes, alguns até trajados a rigor, e de música rock a altos berros. O “trimente” prosseguia com todo o entusiasmo que uma conversa cinéfila pode gerar para quem a perceba. Desloquei a minha atenção temporariamente na direcção das jovens universitárias que, de forma carismática, vibravam com as ondas sonoras. Da música que soava, apenas pude identificar um par de temas. Soube-me bem saber que a juventude de hoje adere à proposta de bandas como os Cut Copy ou os Black Keys. Deu-me uma sensação de confiança, sentir-me de certa maneira identificado com o progresso. Deu-me também alguma confiança perceber que, apesar de tudo, continua a existir um positivo intercâmbio geracional de valores. O resto da noite foi uma maré de paixões à primeira vista. Ainda tentei perguntar a uma jovem de pele limpa e de maquilhagem exuberante a que banda pertencia uma determinada música que rompia pelas colunas fora. A rapariga nem sorriu nem respondeu, perante a questão do bêbado quarentão. Senti uma pequena revolta, para com a minha idade e para com a minha falta de capacidade em fazer-me sentir interessante. O álcool deve ser das coisas que mais bipolarmente afecta gerações: os jovens, sob o seu efeito, são atractivos, os “cotas” são exaustivos. Ninguém naquele espaço reconheceu o Barry: o status quo do jovem Português vai aos sítios para viver, não para ver – incluindo-se nisso a ida ao cinema – e apenas um grupo de jovens, segundo eles estudantes de cinema, foi capaz de identificar o Brown pelas tortuosas ruas “covilhôcas” (parafraseando uma expressão por eles utilizada). O Barry não se mostrou muito receptivo aos 5 minutos de fama e até foi por pedido dele que rápido rumámos ao bar onde agora nos encontrávamos: um dos primeiros que apareceu. Ali, no barulho das luzes e na incandescência do som, ele parecia sentir-se escondido e capaz de analisar e reflectir sobre as ideias que o puto lançava para o filme. Vistos de fora pareciam camelos fora do deserto, tal era a devoção que expressavam numa filosofia distante. Mas isso não os preocupava minimamente. O Yoannis, a esta hora, já dormia no hotel. Restava eu, feito urso, enquanto tentava perceber os compassos de cada música, com novas paixões a cada 10 minutos. Nos interregnos voltava-me a memória da Lúcia à cabeça. O ser humano vive na fantasia de um dia conseguir encontrar a paixão da primeira vista. Com o tempo aprendemos que paixões dessas acontecem todos os dias e que o que realmente importa é a paixão à última vista – a da pessoa que queremos ter ao nosso lado no momento em que morremos. Alguns whiskies depois e o meu corpo já não era de pessoa. Encostei-me ao balcão e, visivelmente combalido, pus-me a admirar a sagacidade com que o puto defendia as suas ideias. Reparei que, com inegável dedicação e agora que o grego se havia retirado, Brown se esforçava para manter a conversa em língua portuguesa. Finda a rodagem do remake do “Le Mans”, e aceite a proposta do Almocreve, o Brown logo empregou os seus recursos numa aprendizagem intensiva da língua de Camões e não deixa de ser incrível o à vontade com que ele já domina hoje a nossa língua materna – como é que alguém aprende, com exímio rigor e com tal facilidade, aquele que é tido como um dos idiomas mais difíceis do Mundo? Fiquei especialmente impressionado pela sua dicção nos ditongos – essa trave mestra de todo o duelo a que o mais bem-intencionado forasteiro se atreva – e percebi que o Brown realmente dedicara mais atenção à nossa sintaxe e à nossa gramática num par de meses do que eu em 40 anos. O puto soube desde sempre que este filme seria conseguido nos detalhes (pelo menos foi neste tópico que ele bateu desde o dia em que o conhecemos) e não foi por acaso que foi lançado o nome do Brown. Há que reconhecê-lo: o puto fez um ímpar trabalho de casa. Parece-me hoje ainda mais incrível que tudo isto tenha tido origem num específico e-mail, por horas perdido na caixa de correio da Mentecapta. Não foram muitas, que o Diogo tem como estranha obsessão limpar a caixa de correio numa base diária, antes de dar por consumado cada dia de trabalho; outra das suas manias é a de imprimir as 5 primeiras páginas de cada guião que, de forma não solicitada, nos é enviado. Leitura nocturna, chama-lhe ele. Graças a isso, até hoje não existiu guião que tivesse um dia chegado à nossa caixa de correio que não tivesse sido vistoriado. Não faz disso regra, uma vez que quando por essas 5 páginas é convencido, a manhã seguinte é dedicada à leitura integral do respectivo cujo. Poucas foram as vezes em que o vi ficar entusiasmado, nessa última fase do seu singular processo de scouting. Houve em toda a história da Mentecapta um par de projectos que ele tentou aprofundar, mas em cujos quais a repercussão gerada não se fez correspondida nos seus autores. Foi num certo dia, algures no Outono passado, que, depois de tratar de uma qualquer burocracia no repartimento de Finanças, cheguei ao escritório da Mentecapta e me deparei com o Diogo a fumar, inquieto, percorrendo os poucos mais de 20 m2 que compõem o espaço físico da empresa. «Não tinhas deixado de fumar?», foi a natural questão que, por se colocar na minha cabeça, fui obrigado a fazer. «Tens de ler isto.», a sua seca resposta, enquanto apontava, com um óbvio nervosismo e um trémulo dedo indicador, na direcção de uma resma de folhas que, estratégica e esteticamente, havia sido disposta no alinhamento do quadro do Maldenim. Reconheço que não me entusiasma particularmente a tarefa da leitura de guiões – é, porventura, das etapas do processo de produção cinematográfica a que menos me motiva (felizmente conto com a anormal devoção do Diogo nesse capítulo, capaz de compensar qualquer índice de preguiça ou de incapacidade na comensuração da análise cinematográfica) -, mas a hora que se seguiu foi um literal estrondo na minha capacidade crítica e analítica. Acabara de ler o guião e estava eu igualmente percorrendo as milhas do solo Mentecapta, juntando-se-lhe o facto de que também eu fui forçado a pedir um par de cigarros extra ao Nuno, um dos simpáticos designers da PegaMonstro (a agência gráfica que faz paredes meias com o nosso escritório) que tão boa companhia tem sido ao longo da nossa actividade diária. Arrebatadoramente, o “Almocreve” havia desmantelado as nossas trincheiras, nós dois que levávamos quase 1 semestre de resistência aos impropérios da nicotina, e, num ápice, os evasivos momentos de frustração que experienciámos com a produção do nosso último capítulo cinematográfico se esfumaram ao ritmo dos nossos cigarros. Havia chegado algo de superlativo às nossas mãos, mas ainda não cabíamos nós no discernimento de tentar explicá-lo, ou de apenas compreender a sua essência. Apesar disso não tínhamos dúvidas de que, quiçá por obra divina, uma autêntica bomba cinematográfica havia rebentado no interior das nossas cabeças. Foi unânime nos sonhos e esperanças de cada um de que seria este o projecto, sem que tivéssemos conhecimento dele, que, de forma incessante, sempre havíamos procurado. Depois disso sentámo-nos e dedicámo-nos à pesquisa da pessoa que o escrevera. Quem seria este tal de Wilson Ramiro e, acima de tudo, como pode alguém escrever algo tão forte, tão emotivo, tão contemporâneo e tão clássico, tudo isso ao mesmo tempo? O que será que terá levado tal raciocínio a perder uns minutos do seu certamente concorrido pensamento para indagar na pesquisa do nosso website, do nosso contacto e, por com tudo isto estar relacionado, das nossas pessoas? Que contributo teríamos nós tido para com o ramo em que nos movíamos de forma a que tal bênção caísse sobre os nossos esforços? Certamente não teríamos sido a sua primeira opção – nem sequer os clientes da actividade publicitária cujas relações vamos mantendo fidedignas ao longo destes anos de Mentecapta nos consideram como primeira opção a cada novo projecto que acalentam -, e certamente que não seríamos a última. Pelo que, ao entendê-lo, nos apressámos a tirar as seguintes conclusões: primeiro, e mais urgente, era imperial entrar em contacto com o Wilson desde logo, sem qualquer segundo a perder; segundo, e mais inconcebível, seria assim tao plausível que este brilhante pedaço de história visual que a nós nos havia sido apresentado não tivesse sido já vangloriado e encarcerado de forma impressionantemente decidida em qualquer registo de contrato ou de acordo de desenvolvimento, por qualquer outra pessoa que tivesse a sorte de com ele se haver cruzado? Não perdemos tempo e à hora de jantar já partilhávamos uma mesa com o Wilson, num curioso restaurante do Porto que dedicara a semana a uma ementa gastronómica criativamente debruçada sobre as potencialidades da lampreia. O restaurante havia sido sugerido por ele, ainda percorríamos nós a auto-estrada com mais tráfego de Portugal, facto que comprovava o seu bom gosto pelos prazeres da vida – um homem talentoso, na minha concepção, tem que ser um exímio mestre da degustação acima de toda e qualquer suspeita criativa que apresente; quem não demonstre talento na arte de ser alimentado, jamais se conseguirá demonstrar bom garfo e boa boca (para bom entendedor meia metáfora basta, até porque apesar da distinta forma de degustação, digestão e defecação a que a cultura obriga, esta não deixa de repetidamente se comprovar como o ingrediente mais indissociável da experiencia humana e da saudável preservação dos traços da humanidade). O que de alguma forma nos surpreendeu foi o facto de o Wilson ser negro. Passo a explicá-lo, antes que os fundamentalistas se inquietem nas cadeiras e nos sofás donde humildemente escutam o meu raciocínio: não por impulso racial ou xenófobo, mas porque o Almocreve era, na verdade, um filme com uma enorme crítica subentendida ao pan-africanismo e, de uma forma até algo extremista, uma forte alusão à colonização portuguesa da costa ocidental africana. Um filme que corre sérios riscos de poder ser considerado como uma arma propagandista de facções de extrema-direita ser escrito e realizado por um negro tem o seu quê de incompatível. Não obstante, bastou esse jantar com apontamentos de lampreia para facilmente sermos convencidos e atraídos para o universo criativo do Ramiro, um puto de vinte e poucos anos com raízes cabo-verdianas, nascido no ano em que Portugal se juntou à União Europeia. Apesar da sua ainda curta idade, o Ramiro era visivelmente um pensador, um filósofo, um sobredotado, um cinéfilo e um criativo por excelência. Fresquinho, acabado de sair da Universidade, mas com tanta coisa interessante por dizer. Era sempre um prazer ouvi-lo falar. Continua a sê-lo hoje, enquanto tenta imprimir os seus conceitos visuais ao Brown nesta noite que já se faz longa. Observei-os por mais uns instantes e, depois disso, dei o canto do cisne: paguei as bebidas com o cartão da Mentecapta e preparei-me para rumar ao hotel, antecipando o dia de ressaca que a passos largos se aproximava. Despedi-me dos sobreviventes do “trimente” e, ainda antes de sair, aproximei-me do puto, perguntando-lhe de forma discreta: «Porque é que fazem os putos o pino no Killer of Sheep?». Sua resposta foi: «Se te conto, estrago-te o filme.». Assenti e calei-me. A partir de agora conta outro.»

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