O Almocreve, IV

DA ARTE

Pauta 3

Pauta 4

I

Ao erguer-se o Sol naquela manhã, por entre o preenchimento da vasta planície anexa ao vertical declive delimitador da topografia covilhanense – como se fosse o núcleo do nosso sistema planetário também ele apenas um mero visitante, situado naquele impasse do acto de coragem que é o trepar as íngremes colinas de aglomerados de casas e de uma caducada indústria (outrora Manchester portuguesa), e defronte daquilo que se assume como porta de entrada para as cãs de Portugal – largou Brown o passado recente e esse seu irreversível contexto de uma possível incursão na ideologia cinematográfica de Wilson Ramiro (a ele apresentada na longitude das horas que findaram) para, ainda visivelmente alcoolizado, embarcar no que seria uma entusiasmante jornada trimestral, adornada pelos rígidos e invernosos meses que caracterizam a auspiciosa cordilheira de sangue lusitano, com o propósito único de concessão da capacidade para um desempenho fundamentado do Almocreve.

A postura decidida de Brown contrastou com a timidez da luz do Sol, enquanto ambos por segundos encararam a robustez daqueles corpulentos maciços que, após dobrados, certamente escondem opulentos vales e glaciares e desfasamentos de pastores e de rebanhos para com a realidade do novo século em que agora sobrevivem. Foi num rápido sorriso e num ainda mais ligeiro abraço que se antecedeu a partida do Brown perante o saudosismo do Ramiro. Mochila às costas, como fiel peregrino, boné e barba a la Dean Stanton no “Paris, Texas” e um tipo de calçado suficientemente desportivo, mas insuficientemente radical para o tipo de uso que ameaçadoramente se avistava sob o espectro das nuvens. Não olhou uma única vez para trás, após partir, e Ramiro desejou que o estado de espírito que o preenchia pudesse ser entendido e decifrado pelo amigo norte-Americano; a saudade é sentimento genuinamente genético do genoma Português e, por mais entrelinhas que se coloquem, o subentendimento estrangeiro do mesmo nunca se comprova fidedigno – o domínio do idioma, infelizmente, não traduz o domínio da identidade. Apesar de tudo, foi também com uma sensação de conforto que Ramiro se retirou na direcção do aquecido quarto de hotel que o aguardava para um par de tardias horas de sono: a jornada a que o Brown se propusera era uma admirável tentativa de procura e de reconhecimento dessa nossa cultural identidade e, atingindo-a ou não, isso era um factor suficientemente forte para garantir que o actor que com dentes-cerrados escolhera seria, no dia em que tivesse de vir a ser, um exemplar recoveiro. Ali ficou desamparada a porta de hotel, agora no vazio mergulhada. Nas suas costas, apenas o recorte da serra; à sua frente, o equilibrado e inconsequente desplante do carapulo entretanto gerado pelos regadios da planície, pela amenidade do céu e pela linha do horizonte que a todos une.

Foi assim a despedida do Brown; a despedida de tudo aquilo que, de forma visível e invisível, se apresentara aos recém-despertos olhos de Mário quando duas horas depois este reagiu à melodia que Lúcia lhe havia seleccionado para despertador pessoal – uma qualquer das sinfonias do Beethoven que, após cerca de 30 segundos de difusão, se transforma numa literal cavalgada electrónica sob o revestimento de um qualquer anúncio televisivo ou radiofónico que, em tempos, até acharam ter a sua piada; mais uma vez, arreliado, o Mário pensou que seria aquele o dia em que de rompante alteraria a melodia duma vez por todas e de novo Mário não o fez. O mundo tecnológico que, dia após dia, se encarrega de acordar, albergar e adormecer as acções humanas; perante, com e sobre o mesmo. Foi de tudo isso que Brown, por cerca de 90 dias, se despediu. Quando o Mário chegou, ensonado, ressacado e ligeiramente envergonhado, aos olhos de Yoannis que, exemplarmente desperto, tranquilo e relaxado, já desfrutava do agradável pequeno-almoço buffet no salão térreo do hotel, estava longe de imaginar que já Brown iniciara a sua jornada. O Yoannis tão pouco o sabia e muito menos se aparentava preocupar; a sua concentração estava apenas e só nos macios croissants que, recheados de regional doce de abóbora, de forma lenta degustava.

Depois da habitual conversa matinal introdutória, o Mário, procurando um qualquer sintoma de lucidez nos escombros da ressaca enfrentada, pensou no trio que naquele pouco faustoso bar horas antes havia abandonado e rapidamente se lhe retorquiram imagens fugazes pelo imaginário que, nesta manhã de sofrimento, não abundava. Apesar de tudo conseguiu ter um vislumbre quase preciso de uma qualquer reminiscência que dificilmente ocorrera: o trio em plena festa madrugadora num inesperado baile de raízes cabo-verdianas, envolto em mussambas e em mornas tardias que, de forma surreal, algures na cidade neve o Ramiro tivesse descortinado. Reflectiu nesse conceito por breves segundos, descreditou-o, e dedicou-se ao doce de cereja igualmente regional que servia também como um dos principais atractivos do requintado pequeno-almoço hoteleiro. Mário sabia que nunca o Diogo alinharia nesse tipo de destempero étnico e que o mais certo seria encontrar-se o trio nesse preciso momento em profundas sinfonias de respirações cavas ao longo do 3º piso do mais popular hotel da Covilhã. Estava longe de imaginar Mário que a esta hora já Brown caminhava na direcção do topo da montanha mais alta de Portugal.

Havia ficado na véspera estipulado que Brown iniciaria a sua odisseia com a subida às Penhas Da Saúde, chegando depois à Torre e encetando daí uma descida pela margem Nordeste da Serra da Estrela, atravessando localidades como o Sabugueiro, Seia, Gouveia e circulando depois os seus declives por localidades como Folgosinho, Videmonte, Famalicão, Valhelhas e Verdelhos até desaguar novamente na Covilhã, muito provavelmente na mesma porta de hotel de onde naquele dia se despedira. Era esse o trajecto que, sob as coordenadas de Ramiro, havia assinalado no mapa de bolso que religiosamente transportaria. Curioso era outro dos pormenores que tinha ficado definido: para criar impacto em cada uma das localidades pelas quais passaria, como outrora o fizeram os dignos almocreves, o Brown distribuiria exemplares de bolso da “Mensagem” de Fernando Pessoa. Era basicamente essa carga poética o conteúdo da sua mochila, isto apesar do pleno foco no principal objectivo de angariação de tarefas, de aldeia em aldeia e pelo decorrer do périplo, para transportes de mercadorias e para trocas de favores entre os locais, ao melhor estilo das tradições e das linhagens dos almocreves que à história precederam. À força do seu entusiasmo juntava-se o peso de um desconhecimento profundo das técnicas de sobrevivência necessárias em ambientes que, nos mais rigorosos momentos do Inverno, chegam a atingir temperaturas abaixo dos 15 graus negativos. «Não deveria ser pior que Szombathely», afirmou categoricamente sempre que confrontado com tal ameaça; e tal argumento sempre vingou, independentemente do tipo de audiência proposto. Ramiro deixara-o partir com apenas um blusão de cabedal vestido (daqueles em lã revestido) e com pouco mais de um par de agasalhos suplementares no interior da mochila. Ramiro sabia que pelo percurso designado iriam aparecer várias possibilidades de compra de roupa e de acessórios e sabia também que parte do entusiasmo de Brown na odisseia persistia precisamente nesse desejo da experiência dos extremismos actuais que outrora seriam casuais – não poderia ser algo como o frio a amedrontá-lo quando nunca os reais almocreves o haviam assumido. Ficara também combinado que Brown teria acesso a uma conta bancária especialmente designada para esse propósito, o de todo e qualquer tipo de necessidade – cortesia do Yoannis, habituado a lidar com este tipo de espiráculos. O grego tentou também impor o uso de um telemóvel, prontamente recusado; ficou em seu lugar obrigado a um telefonema por semana, para providência de informações sobre coordenadas de localizações e dos destinos que se seguiriam – foi-lhe facultado um cartão telefónico para uso em cabines públicas, quase como acto de desespero. O resto seria liberdade e improviso: esse tipo de incondicionalismos que o Brown incessantemente procurava.

Quando, passadas umas horas, o Ramiro finalmente acordou para atender as persistentes chamadas do Mário, já seria tarde demais para antever a partida do Brown. Foi com alguma frustração que Mário aceitou o facto, uma vez que por esse motivo sentiu uma breve renúncia às suas autoridades (frustração essa agravada pelo estado depressivo que a sua ressaca alimentava e pelo nervosismo que, com o passar das horas, denotava) quando, também por esse mesmo motivo, mal-humorado e numa tentativa insensata de recuperar os poderes entretanto perdidos, ordenou um rápido regresso a Lisboa. 45 minutos depois já tinham atravessado o túnel da Gardunha e já a Serra da Estrela que escolheram como tour de force para este projecto estava agora invisível às suas costas. Seguir-se-iam meses de burocráticos trabalhos de pré-produção, maioritariamente desenvolvidos na capital Portuguesa e, a curtíssimo prazo, uma viagem do Diogo e do Ramiro a Moscovo para visitar o director de fotografia que este último escolhera como primeira opção para o projecto – um Russo da nova escola soviética, seguidor da linguagem de Tarkovsky mas suficientemente original para ter definido como sua aquela que é provavelmente a mais excitante cinematografia Europeia contemporânea. Para Mário e para Yoannis caberiam as vindouras tarefas de contratualizações, planificações de agendas, de parcerias, alugueres e promoções – já se comentava o filme pela blogosfera, gerando um autentico buzz positivo em seu redor, e não havia por isso tempo a perder – com a pequena diferença de que o Yoannis, por estar hospedado no Tivoli (tudo pago pela Ed Films), chegava sempre uns 20 minutos mais cedo ao escritório da Mentecapta (situado na Rua Castilho, bem próximo do mais socialista hotel de Portugal), antecipando-se sempre à monumental travessia matinal do Mário desde a nova Alta de Lisboa, onde com a Lúcia num T2 de um 10º andar residia, até ao fastidioso caos do trânsito do Saldanha e do Marquês. Toda essa previsão exacerbava o já de si irritante estado que a recorrente ressaca alcoólica emprestava ao Mário neste opúsculo pedaço da História Cinematográfica Portuguesa – tal como já algures se mencionava pela blogosfera: «”O Almocreve” poderia finalmente vir a ser, pelos nomes envolvidos, uma obra cinematográfica portuguesa candidata aos Óscares.». Ressalve-se a dicotomia identitária do projecto: um filme de um povo europeu que quer a todo o custo convencer Hollywood, feito por gente de Hollywood que, com o custo todo, desespera por convencer povos europeus.

Por essa mesma altura já estava Brown sentado numa rocha granítica hercínica – uma das rochas rainha dos maciços ibéricos –, situada algures no sítio das Sete Fontes, enquanto descansava as pernas e apreciava uma das mais singulares vistas da Cova da Beira. Atrás de si avistava-se uma mansão (ou antigo palacete) em ruínas, vítima de algum incêndio monstruoso que dizimara grande parte da vegetação local, e à sua frente expandia-se a calmaria desses infinitos verdejantes vales que anunciam parte da fisionomia do Velho Continente. À indescritível sensação de paz associou-se o cansaço próprio de quem nada dormira na última noite e de quem muito álcool bebera durante o mesmo período. Ainda agora a viagem começara e já o cansaço tanto de si apoderara. Como resposta ao ímpeto sentido, Brown recostou-se no declive da rocha e deixou-se espairecer por instantes. Colocou de lado, repousados sobre a sua mochila, os pedaços de pão caseiro e de presunto serrano que comprou numa pequena mercearia pela qual passou quando saía dos confinantes da Covilhã e sentiu falta do leitor mp3 que normalmente carregava – também isso deixou de parte, numa tentativa óbvia de se privar desse tipo de prazeres auditivos enquanto prosseguia a odisseia dos almocreves. O Sol fazia sentir-se amigavelmente, esse Sol meio serrano meio citadino de fins de Outono e, embalado pelas ligeiras brisas que harmoniosamente ondulavam, deixou-se fluir no sono que o perseguia. Quando acordou já o Sol se escondia atrás do monte e já os pedaços de comida haviam desaparecido – pegadas de cão delatavam o principal suspeito. Levantou-se, resmungando consigo próprio, e apressou-se a seguir caminho antes que a primeira noite da odisseia caísse sobre os primeiros sentimentos de receio, agora expostos ao perceber-se ludibriado pelas criaturas do habitat onde se aventurava. Brown sabia que tinha que subir o monte com o Sol sempre do seu lado esquerdo, factor que o guiava no sentido Norte, e, para tentar cortar terreno, decidiu seguir uma linha recta e atravessar os painéis de vegetação que a serra lhe apresentava em detrimento da curvada forma que o conforto da alcatroada estrada indiciava. Não obstante, o facto de subir o monte pelas suas principais artérias levou-o a passar próximo da vedação daquilo que parecia ser um parque de campismo. Lá dentro observavam-se pouco mais de uma dúzia de velhas caravanas, uma piscina sem água e um campo de ténis gasto e abandonado, sem rede divisória. «Talvez a coisa tivesse outra vida no Verão», pensou. Um casal de idosos nórdicos, talvez finlandeses ou dessas bandas, acenava do anexo da autocaravana em que se encontravam. Era, por sinal, a autocaravana mais recente de todo o espaço e a simpatia pelos donos expressa realçava uma patente e pacífica felicidade. Brown retribuiu o gesto e continuou o percurso, afastando-se do complexo. Da porta do hotel onde iniciara a viagem até ao local onde agora se encontrava já havia subido uns 500 metros de altitude. O oxigénio que respirava era agora não só mais intenso, como também mais frio e a vegetação mais densa e encorpada – em contraste com a zona onde repousara, esta área não mostrava índices de calamidades recentes. Por ambas as razões Brown sentia agora mais dificuldades na travessia. O Sol, esse, estava cada vez mais fusco, realçando o contraste operante entre as limítrofes linhas dos montes por si precedidos e do céu sobre si distendido. Furando um novo conjunto de robustos pinheiros-silvestres, Brown atingiu os exteriores de uma ruína de proporções estratosféricas para a paisagem onde se insere. O edifício, ou o que restava dele, era notavelmente grande para o ambiente envolto enquanto construção humana e a sua localização era privilegiadíssima sobre o desplante da panorâmica beirã – como a moldura que horas antes o apaziguara e adormecera, mas para muito melhor. A porta de entrada do edifício, magistral sobre a arquitectura natural onde se inseria, estava situada no oriental terço da obra. Para Ocidente estendia-se um braço de betão com os restantes dois terços descaracterizados graças ao abandono vigente. Brown sentou-se no solo, diante do caminho de acesso ao pórtico da gigantesca ruína, e reconheceu na grandeza da obra uma imediata analogia ao estado da nação Portuguesa. Sentiu-se triste, pela reflexão e pela observação vista de fora, longe de imaginar qual o uso que teria sido dado a tamanha edacidade cultural e patrimonial pelas gentes locais. Observou o local em silêncio, desfrutando o momento de um modo ponderado e aproveitando para descansar as suas costas do peso da mochila que transportava. Sem conseguir resistir ao apelo por muito tempo, levantou-se e dirigiu-se ao interior da gigantesca ruína. Subiu os degraus de acesso ao pórtico e constatou que lá dentro a destruição era ainda maior. O vandalismo que ocupou os mais recentes anos da gestão espacial revelava um caos calmo, vazio, sem conteúdo. Pequenas marcas autorais de graffitis sem jeito e intermináveis buracos compunham a totalidade do espaço, divisão após divisão. Espaços tremendos, que noutras vidas tiveram outros luxos e camadas sem fim de interjeições temporais perdidas na memória de olhos que não a vêem e de corações que não a sentem. Brown aventurou-se e subiu ao piso imediatamente superior, escalando uma débil estrutura que outrora dera lugar a um elevador clássico, de ferro, hoje repleta de ferrugem. No andar de cima a destruição era ainda mais evidente. Sinais de manifestos bélicos, irados e inconformados; elementos que um dia foram vivos e que hoje já não o são – o abandono total de uma lascívia precoce, descabidamente coeva. Calcorreou as diversas divisões do espaço, porque a noite ameaçava cair a largos passos, e subiu ao ainda superior piso através de um pequeno caixilho que possibilitava a passagem sobre aquilo que aparentava ter sido uma escadaria – hoje não mais do que um conjunto de madeiras bebidas, instáveis e inconsequentes. O topo do edifício já nem albergava telhado em mais de dois terços da sua totalidade – o braço ocidental despido, a céu aberto. De lá, Brown conseguiu avistar os maciços que se escondiam por detrás do monte que até então perseguira e que já proximamente atingira: sim, os vigores e as imponências da serra pela qual ele se aventurara podiam agora ser finalmente descortinados. As várias nuvens que compunham o espectro soturno que rapidamente se assumia nem permitiam descodificar o topo da mais alta montanha da Lusitânia continental. Um ligeiro tremor, aliado à moldura originada pela ausência da quarta parede (neste caso, a superior), fez-se sentir na barriga de Brown. Por isso e porque também agora se levantavam algumas temperaturas mais baixas do que na viagem até então obtidas, o pretenso almocreve decidiu abandonar a ruína e procurar um local com o potencial mais habilmente explorado. Não precisou de caminhar muito, desta feita estrada fora, porque praticamente anexo à ruína existia um pequeno café rústico com aquilo que parecia ser comida, um par de pessoas e uma lareira abrasadora. Quando entrou no sítio já atrás de si a noite estendera o seu manto e a presença de existência de vida humana foi, para ele, uma indescritível sensação de bem-estar. Lá dentro, calor. Ambiente acolhedor, de pouco requinte, mas tremendamente eficaz para os motivos que o fizeram entrar, fossem eles quais fossem. Ao aproximar-se do balcão, uma senhora dos seus 65 anos, em movimentos lentos e sofridos, fez a recepção. Foi simpática, cumprimentando Brown e antecipando os seus ainda assim perceptíveis estrangeirismos. Numa das poucas mesas existentes encontrava-se um senhor visivelmente mais velho; podiam ter a mesma idade, inclusive ser marido e mulher, mas o peso dos anos caíra muito mais agressivo sobre o representante masculino ao ponto de parecer ser mais um pai do que um marido. A senhora, por sua vez, ainda se mostrava suficientemente activa para conseguir propor um prato de pica-pau – que o forasteiro nem sequer pensou em recusar. Esperou que o seu copo de vinho acabasse de ser enchido, a partir de uma garrafa sem rótulo, e sentou-se na mesa imediatamente ao lado da de onde se encontrava o velhote. Este, hipnotizado pelo quase tão velho televisor e pelas sequências de imagens de um desses game shows franchising televisivos que o mesmo transmitia, ia de forma pontual esboçando pequenos sorrisos inexpressivos perante a divertida mestria do apresentador do programa e da interacção deste para com os participantes. Brown, visivelmente cansado e permitindo-se a mais uns breves momentos de repouso, fixou-se por momentos no entretém pelo receptor gerado, pese embora a verdade de que o seu pensamento confluía nas mais distintas direcções. Ao analisar a decoração do sítio reparou numa emoldurada imagem daquilo que parecia ter sido, em tempos menos lúgubres, a ruína que momentos antes percorrera. Apesar do impulso que sentiu em levantar-se para poder observar a moldura de perto, o cansaço e a fome que naquele momento nutria acabaram por mantê-lo sentado. «Isso, que foi?» perguntou Brown, com visível incapacidade de articulação frásica nativa. O velhote não se distraiu minimamente do foco no televisor, ignorando por completo a pergunta. A senhora, por sua vez, reagiu atenciosamente, embora não tivesse compreendido o propósito.

«Disse alguma coisa?», tentou ela contextualizar-se.

«Essa fotografia.»

«O sanatório?», banalizou a senhora qualquer tipo de curiosidade.

«Sanatório?», admirou-se Brown. «Hospital?», prosseguiu na tentativa de compreensão do termo.

«Sanatório dos Ferroviários.»

Brown continuou confuso.

«A senhora trabalhou aí?»

«Praticamente desde que nasci e durante 43 anos.»

«44.», surpreendeu o velho, de forma decidida e cortando subitamente com isso qualquer foco de atenção entretanto gerado.

Brown percebeu-se encurralado no meio de um álbum de memórias prestes a ser revelado. «O senhor também?», tentou manter o velho na conversa.

«Lá nascido, lá criado e lá casado.», prosseguiu o velho, sem com isso desgrudar o olhar do televisor.

Brown manteve-se em silêncio, por uns instantes, enquanto tentava descortinar possíveis fragmentos dessas flutuantes memórias. A senhora voltou do interior do balcão, desta vez transportando o prato de pica-pau que entretanto preparara. Brown agradeceu o serviço, ao preparar-se para iniciar a refeição com um veemente impulso.

«O António nasceu mesmo lá. Não é mentira nenhuma.», reforçou a senhora, como que indignada com um possível descrédito cujo temporário silêncio pudesse ter dado azo a suspeitas – infundamentadas.

«Falamos de que anos? 20? 30?», perguntou Brown.

«1944. Poucos dias depois da Normandia.»

Brown ficou ainda mais confuso com a menção do épico evento. «Esteve lá, na Normandia?», perguntou por instinto.

O senhor e a senhora soltaram uma breve gargalhada, como num coro trabalhado.

«São todos uns patetas.», desprezou o senhor a questão de Brown, que por sua vez se sentiu meio ofendido, meio ridículo, mesmo sem compreender a definição do termo “patetas”. «1944 é a data da fotografia, da inauguração do Sanatório. E Normandia foi no mesmo ano, dias antes.», concluiu com altivez.

Brown fez um gesto com a cabeça, compreendendo a relação.

A senhora aproximou-se da moldura, colocando os óculos que transportava pendurados sobre o pescoço, numa estóica tentativa para conseguir ver com maior exactidão. Percorrendo a imagem com o dedo indicador permitiu-se à identificação de uma qualquer pessoa disposta no meio de outras tantas, estrategicamente colocadas sobre a escadaria do pórtico que hoje não é mais do que uma parca sombra da sua, em tempos, magistralidade.

«Aqui está ele.», indicou a senhora.

Brown levantou-se, com o intuito de observar a descrição de perto, e aproximou-se da moldura. Estranhou quando reparou que a indicação apontava na direcção de uma senhora e questiona a sanidade da improvável cicerone.

«Dentro da barriga dela. É a mãe do António.», explicou ela, ao perceber a confusão na expressão de Brown.

Brown sorriu, descodificando a visível gravidez na imagem, e continuou cuidadosamente analisando a composição do registo fotográfico. Cerca de três dezenas de funcionários e de funcionárias: a maioria delas com simples chapéus dispostos sobre as cabeças e largas saias, arredondadas; a maioria deles com camisas de xadrez colocadas no interior de calças de fazenda bem puxadas acima do umbigo. No centro da imagem encontravam-se 3 homens engravatados, de vestimentas muito mais cuidadas e preocupadas e elaboradas barbas e bigodes. Puro retrato clássico que levou Brown a imaginar o possível fotógrafo escondido por detrás daquele tipo de véus fotográficos que permitiam o efeito da câmara escura, momentos antes de o click por este efectuado provocar uma magnética combustão com capacidades para os chapéus das modelos ao ar atirar e os bigodes dos cavalheiros ao comprido esticar. Também por confrontar-se com esse pequeno slide imaginário, Brown contidamente sorriu.

As quase três horas que se seguiram foram inclassificáveis. Os carismáticos hospedeiros mergulharam num vasto debitar de memórias dos mais de 60 anos de existência do Sanatório. Os pais de António, caseiros do Administrador dos Caminhos de Ferro de Portugal que promulgou a construção do Sanatório a partir de um projecto arquitectónico desenvolvido pelo realizador de um dos mais famosos filmes clássicos portugueses, deslocaram-se nos anos 30 desde Viana do Castelo para assumirem os cargos de governantes da pretensa megalómana casa de cuidados destinada ao tratamento de operários afectados pela tuberculose. O pedaço de casa onde Brown havia hoje sido acolhido, e nela provado um saboroso pica-pau à moda da serra, foi então nos anos 30 a oferenda que operou no convencimento da mudança dos pais de António. O sanatório havia sido oficialmente inaugurado em 1944, a data em que ficara registada a memória fotográfica, mas os pais de António já lidavam diariamente nas tarefas do espaço com real origem nos finais dos anos 30, quando ainda a obra do Sanatório levantava os seus alicerces. A cicerone, Ofélia a propósito, comentou com Brown, após este último confidenciar que representava para ganhar a vida (ou que ganhava a vida para representar – o seu estrangeirismo não permitiu explicá-lo convenientemente), que ainda se recordava do primeiro filme que vira naquele grande salão de chá da ala Ocidental do Sanatório – um qualquer filme italiano sobre ricos que viram pobres e pobres que viram ricos -, rodeada de dezenas de funcionários e dos tísicos das mais altas classes, ora tossindo, ora mussitando: Brown rejubilou com a imaginação de uma projecção clássica a 8, 16 ou a 35 milímetros naquele enorme espaço cujo destronamento havia hoje testemunhado. Ficou também a saber que o Sanatório funcionou sob investimentos estatais até finais dos anos 60 (quando uma nova administração dos Caminhos de Ferro de Portugal decidiu cessar os efeitos subsidiários em benefício dos seus adoecidos funcionários, cujo número começava a diminuir drasticamente) e que, durante esses vinte e tal anos que passaram, o filho dos governantes entretanto nascido – António – conhecera Ofélia, a cicerone que hoje narrava os factos com entusiasmo, filha de uma solteira enfermeira que havia abandonado um permanente contrato no hospital de Coimbra em abono de um cargo de chefia no Sanatório dos Ferroviários, e que o mesmo Sanatório fora palco de uma incrível história de amor eterno. O António era cerca de 5 anos mais velho que Ofélia (embora hoje parecesse muito mais velho) e nascera pouco depois da inauguração do Sanatório (como a fotografia bem constatava), mas não foi por isso que não acolheu Ofélia como a sua parceira oficial das aventuras e das travessuras pelas dezenas de salas, corredores e metros quadrados do mítico espaço. A Ofélia chegou ao Sanatório poucos dias antes de completar os seus 6 anos de idade e ainda hoje se recordava da festa de aniversário que os pais de António lhe organizaram. Tinha ela 15 anos quando lá foi projectado esse filme que mencionara e tinha ela 17 quando o António sobre ela pela primeira vez seriamente se debruçara. No ano seguinte estavam já casados – com uma divertida festa de casamento pelos jardins do Sanatório – e não tardaram em assumir as funções dos pais de António que, por sua vez, começavam a perder forças para as desempenhar com a exigência pretendida. Eram já eles os jovens governantes do espaço quando os Caminhos de Ferro de Portugal decretaram o encerramento do Sanatório da Covilhã, em 1969, e por 5 anos o casal se dedicou à manutenção do espaço entretanto ocupado por pacientes de classes baixas, oriundos de todo o país, e à assistência aos pais de António que rapidamente caminhavam ao encontro da morte. A mãe de Ofélia continuou também por lá a exercer as suas funções quase num jeito caridoso, à revelia do estado que à força toda desejava fechar o espaço, com o auxílio de uma equipa de uma dezena de voluntários que, sob o comando de António e de Ofélia, mantinham os cuidados necessários nas actividades diárias com tão precários fregueses. Entretanto nasceu Brígida – a filha do casal – e estes pensaram num novo rumo, relançado por hipóteses algures no litoral Português. Mas em 1974 centenas de desalojados retornados coloniais foram colocados no extinto sanatório e António e Ofélia não tiveram coragem para lhes virar as costas naqueles momentos tão complicados. Com isso acabaram por ir ficando, ano após ano, dia após dia, confinados às muralhas do edifício que entretanto já abandonara todos os sinais de luxúria que inicialmente havia ostentado. No início dos anos 80 uma dessas retornadas famílias – pessoas de bem, descendentes das linhagens de Bragança (e, por isso, da extrema confiança de António e Ofélia) – conseguiu colocar as mais jovens filhas dos temporariamente alojados retornados num exemplaríssimo colégio do Estoril, para que lá pudessem estas desenvolver os estudos com outras categorias. Aos olhos de António e de Ofélia tratava-se da gloriosa oportunidade que eles próprios nunca tinham tido e, embora muito lhes tivesse custado, não foram capazes de negar à sua jovem princesa as hipóteses que eles não puderam ter. Hoje a filha era doutora, no São Francisco Xavier em Lisboa e, apesar de por muitas vezes se ter oferecido para o financiamento de uma casa de habitação para os pais na linha de Cascais, onde agradavelmente também ela hoje vive, estes nunca quiseram abandonar a casa que, por direito, a eles lhes havia calhado via herança paternal – esse anexo da ruína que ainda hoje ia conseguindo sobreviver como negócio hoteleiro, mediante as visitas de mochileiros como Brown e de famílias em busca de trenós nas épocas de neve. Confessaram que as actividades do Sanatório findaram em 1988 – já entretanto um edifício semidestruído e sob as promessas da construção de uma futura Pousada. 23 anos depois, António e Ofélia continuavam a viver maioritariamente de uma pequena mensalidade do estado, referente aos anos de actividade enquanto governantes do sanatório dos ferroviários, e das verbas que a filha, a cada trimestral visita, lhes destinava. Até porque o negócio que ainda geriam, uma espécie de minúscula albergaria nesse anexo que assumiram como casa, lhes permitia uma rentabilidade praticamente nula. «Hoje só lá vão os curiosos, tirar fotografias às ruínas. Ainda assim, não nos podemos queixar. Nos anos 90 eram só drogados. A verdadeira peste, essa.». O lume da lareira começava a espairecer e António ofereceu dormida a Brown, que não teve nem coragem, nem vontade de recusar. Depois disso o casal acompanhou-o a um dos três pequenos e envelhecidos quartos que estavam disponíveis para pernoita e despediram-se com umas intrigantes palavras: «Podiam pegar naquilo, vocês do cinema, para fazer lá os vossos filmes.» Brown despediu-se, sentindo-se impotente, e dormiu sobre as memórias que verbalmente lhe foram retratadas entre nostálgicas lágrimas secas ao longo daquele inesperado serão.

Na manhã seguinte Brown despertou com o cacarejar de um par de galinhas que liberalmente circulavam pelos exteriores do quintal traseiro, meias-paredes feitas com o quarto onde, sobre camadas profundas, toda a noite dormira. À sua espera estava já disposto um rico pequeno-almoço, naquela sala que na véspera servira de recordatório, bem como uns agora muito mais activos António e Ofélia – com genicas próprias de quem começara o dia muito antes até do sol nascer. Brown aproveitou e desfrutou do pequeno-almoço (sem saber quando voltaria a usufruir de semelhante prazer) e, apesar das gentis insistências de Ofélia, recusou-se a tomar um banho na casa de banho comum, alegando pressa e compromisso com a caminhada que lá fora o aguardava (sem igualmente saber quando voltaria a usufruir de semelhante prazer). Despediu-se do generoso casal, deu uma última olhada na direcção das ruínas e lançou-se à longa travessia que se seguiria. No alpendre do anexo ficaram Ofélia e António, com uns nostálgicos olhares enquanto observavam o afastamento de Brown e com a mesma dedicação que outrora dedicaram na partida da filha, nesse dia em que ela marchou ao encontro de uma vida nova. Brown percebeu naquele momento que esta iria ser uma viagem de aproximações e de afastamentos. De deixar vidas, memórias e momentos para trás, em trocas de abraços a novas histórias, a novas descobertas e a novas conquistas. Seria essa a jorna de um almocreve: elemento mecânico do sistema biológico, de coração quente no momento da chegada e frio na labuta da partida.

Um par de horas passadas e Brown, porque o sol naquele dia, a tamanha altitude, se fazia sentir com muita força, já aproveitava um pequeno ribeiro para refrescar a cara com a gélida água proveniente dos vales glaciares. Esta zona de sopé serrano que antecedia a entrada nas Penhas da Saúde (estância turística de tradição secular por excelência) não continha uma vegetação tão densa como aquela observada até ao atingir da marca dos 1000 metros. Bacias de rochedos e de semânticos pousios com indescritíveis formas e figuras e apenas um par de organizadas e vitais linhas de arvoredo que, em contraste, seguiam de forma paralela por entre as trilhas que a dança do riacho originara. Aparte desse mimoso núcleo serpentino restavam apenas magras plantas lenhosas, como ilhas de um oceano ora cinzento de tanta rocha, ora amarelo de tanto feno ainda pertencente a um Outono já entretanto ressequido graças ao orvalho invernal.

Brown decidiu subir o riacho, de encontro aos declives primários das Penhas da Saúde e, a determinado momento, a meio da subida, deparou-se com uma pequena casa de pedra sobreposta à margem de uma lagoa, também ela de dimensões reduzidas, que os milenares anos de decursos aquáticos ali entretanto originaram. Era de facto um luxo, para as delimitações de tal construção – como uma pequena piscina natural privada que, sendo pública, de águas límpidas, correntes e semestralmente frias, dada a sua recôndita localização não deveria ser frequentemente utilizada. Foi tudo isso suficiente para impressionar Brown que, numa espécie de premonição, conseguiu visualizar-se como proprietário de tal espaço, com uma eventual família distribuída pelos cantos da casa, pelo quintal com churrascos e por um par de braçadeiras flutuantes sobre as cristalinas águas de um longínquo mês de Agosto qualquer e, também por tudo isso, Brown decidiu aproximar-se do envidraçado que clareava a mais próxima divisão da casa, a fim de espreitar para o seu interior. Dentro da casa, decoração clássica: visivelmente desarrumada em contraste com a harmonia observável no imediato exterior. Uma ainda mais desarrumada voz rouca e um ainda mais enferrujado gatilho surpreenderam-no pelas costas. «Sentes-te assim tão confiante?», questiona abruptamente um homem, nos seus quarentas, de desfarelado cabelo solto, cicatrizada face e caçadeira em punho. Brown assustou-se com a surpreendente articulação de sons e de palavras e voltou-se de rompante. Ao confrontar-se com o cano duplo da caçadeira, a escassos centímetros do seu nariz, o susto ganhou forma de pânico. «Hey. Hey. Não é o que pensas. Desculpa.», soltou o Americano, a receio, com parcas palavras trémulas.

«Pensas que chegas aqui. E que é tudo assim tão fácil?»,

«Calma. Desculpa. My bad.» ainda meio atónito.

«Mai bed o caralho. Quem é que vos dá o direito de subir aqui, com esse à vontade?», ameaçou de novo o caseiro, com uma reluzente ira a atravessar os olhos.

«Hey! Não é o que pensas, sim? Calma. Vamos ter calma.», procurou Brown acalmar-se, em contratempo com as vertiginosas palpitações que de cima a baixo sentia. Por instantes, o arrependimento de quem não deveria ter embarcado nesta aventura prevaleceu.

«Vou contar até 5. E tu vais pegar nessas pernas escanzeladas e pôr-te a andar daqui para fora, ouviste?», ultimou.

«Sure. Agora vou.», concordou o Americano enquanto, movimentando-se de forma muito lenta, se afastava do local. Colocou a sua mão à frente da cara, enquanto retrocedia, como que impedindo um tiro letal. «Com calma, sim?», suavizando ainda mais a movimentação.

«E podes dizer aos teus amigos que, aqui, não há mar e mar, nem ir e voltar. Ouviste? Eles que ponham os papéis no cu. E mais as mães deles.», acompanhando a movimentação de Brown, sempre de cano em punho.

«Não faço ideia do que falas… Nem tão pouco sei quem és. Estou só de passagem. Subi o rio e espreitei por curiosidade. Ok?», explicou-se o forasteiro com algumas dificuldades na fonética.

«A curiosidade mata.»

«Desculpa. E embora vou.»

«Quem és, então?», revelou um traço de curiosidade o caseiro.

«Barry. Barry Brown.», esticou a mão o Americano, a receio, para cumprimento.

«E que fazes aqui?», replicou o caseiro sem desarmar posição, mantendo a caçadeira em riste.

«Estou só de passagem. Em trabalho.»

«E que trabalho é esse?», mantendo a agressividade.

«Sou actor.»

«Actor?»

Brown acenou positivamente com a cabeça.

«És Americano?»

«Sim. Nasci lá. Mas vivo na Europa há vários anos.»

«Na Europa, onde?», sem desfazer a postura agressiva.

«Amesterdão.»

«E que fazes tu aqui?», perguntou de novo o caseiro.

«Preparo-me para um filme.»

«E como é que falas Português tão bem?», revelando descrédito.

«Tenho aprendido.»

«A mim pareces-me é um ganda impostor.», franziu as sobrancelhas decorrente desse descrédito.

«Hey. Eu não tenho nada a esconder. Não sei quem és, nem quem temes. Ou baixas a arma e amigavelmente falamos ou tenho de continuar.», explicou-se o Americano.

O caseiro manteve-se em silêncio, pensativo, e de seguida baixou a mira da arma.

«Obrigado.», agradeceu Brown enquanto se aproximava do caseiro com a mão esticada para cumprimento.

O caseiro retribuiu o cumprimento, com uma mão forte, decidida e maltratada.

«Duarte. E esta é a quinta da minha família.», prosseguiu na apresentação.

«É uma casa bonita.», retorquiu o Americano.

«Bonita demais para o que querem fazer dela.»

Brown manteve-se estático, olhando para Duarte e duvidando se prosseguir no modo interrogativo seria a atitude mais apropriada. Duarte entendeu a retracção e continuou.

«Querem deitá-la abaixo para construir uma barragem. Esses agiotas de merda.»

«Agiotas?», questionou Brown, revelando o seu estrangeirismo.

«Sim. Comissão de desenvolvimento regional, meia-dúzia de palhaços que com o guito da Europa querem mandar esta merda toda abaixo.», reforçando no formalismo.

«Agiotas.», manteve-se Brown a reflectir sobre o termo.

«Pois digo-te já que não vão ser 10 mil contos a mandar isto abaixo. Isto foi tudo construído à mão. Pedra por pedra. Ano sobre ano.»

Brown pensou no que vira do terreno e da casa, especificamente, e assumiu um valor considerável. Tentou também quantificar o montante por Duarte mencionado. «Contos?», questionou de seguida o Americano, confuso com o termo.

«50 mil euros.», explicou Duarte.

Brown deduziu que contos seria o termo para classificar a moeda antiga portuguesa. Não deixou de achar curioso o termo, mediante o que aprendera como definição do mesmo e pensou mais nisso do que propriamente no valor representado.

«Parece-te muito?» perguntou Duarte, indignado.

«Não. De todo. 10 mil pequenas histórias, então?», justificou-se com uma questão.

Duarte limitou-se a observar o Americano, de cima a baixo, desprezando qualquer tipo de resposta. De seguida focou a atenção nas águas do riacho.

«És bom actor?»

«Tento sê-lo.»

Duarte continuou focado nas águas do riacho. E depois soltou:

«Dá-me jeito que sejas.», desta vez na direcção do vazio.

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