O Almocreve, V

II

Duarte Farelos é um dos mais jovens produtos do seu legado familiar. Apesar dos seus quase 50 anos de idade, épocas de dúbia inconstância não lhe permitiram dar o esperado seguimento a uma enraizada tradição repleta de bons costumes. Filho único, cedo se mostrou mais preocupado em vingar enquanto problema, real pedra no sapato de todo um regime reprodutivo ao pormenor pensado e sobre pormenores deitado. A propriedade que hoje defende, de dentes e canos cerrados, nem sempre foi de sua concordância. Tal espaço sempre fora o ponto de abrigo dos seculares Farelos, prodigiosa herança de uma construção com alicerces na familiar mão-de-obra de múltiplas gerações, mas a defesa do “castelo” nem sempre se definira como a principal missão de Duarte. Seus pais, últimos habitantes e derradeiros utentes do refúgio, haviam falecido não fazia muito tempo e a morte dos mesmos deu origem a um desenfreado esforço comunitário para o desmantelamento da construção – o único obstáculo em todo riacho de potenciais recursos hidra energéticos e de singular preponderância para a subsistência da região envolta. Por essa altura andava Duarte na sua versão nómada pelas remotas ilhas da ocidental costa da Tailândia – ora perdido nos meandros de Phuket, ora encontrado nas “Koh’s” das cristalinas águas turquesas e das lisas areias brancas –, quando recebera a notícia do falecimento dos pais (vitimados por um trágico e muito triste acidente de automóvel nas íngremes colinas da Serra da Estrela). Duarte abraçara desde cedo um movimento geracional anárquico e revoltoso sustentado pelos riffs das guitarradas de Tony Iommi, Ritchie Blackmore ou Jimmy Page e embarcara, ainda muito jovem, numa maresia de pesadas influências sonoras e de altas cilindradas motorizadas, cujo expoente máximo culminou no acompanhamento das primeiras tournées internacionais de ambos Metallica e Iron Maiden. Fez da fortuna dos Farelos o mote para meio mundo percorrer, envolto nessa conceptual filosofia e perseguindo e prestando diversos cultos às inúmeras melodias que os ambivalentes amplificadores de exponenciais formatos por majestosos estádios começaram a debitar. Ele, uniforme com a Whizzer de 3ª mão que importou dos Estados Unidos em 1980 e mais dúzias de compinchas com aptidões, indumentárias e semelhantes cilindradas. Por tudo isso, nunca foi homem de trabalhos forçados e, afortunadamente, seus devotos pais nunca lhe limitaram o acesso ao orçamento que fosse necessário para o cumprimento das suas excentricidades. A observação da sua própria vida sobre outro prisma que não o de uma pura satisfação egocêntrica com origens nas criações musicais de alguns dos maiores ícones da história do rock & roll nunca foi, portanto, uma condição. No final dos 90’s veio o stoner rock, ao qual se sucedeu uma curta mas intensa temporada em Antuérpia e com tudo isso, naturalmente, os Kyuss, os Fu Manchu e os Queens of The Stone Age. Nesta altura preocupava-se Duarte em sedar o seu inconformado espírito, que guerreava com uma intensa adição alcoólica, e acabou por procurar exílio no Sudoeste Asiático. Índia, Birmânia (hoje Myanmar), Malásia e a derradeira temporada nos limítrofes da decadência e dos sublimes do mar de Andaman. Talvez por isso a face de Duarte tenha hoje um sôfrego e invejável semblante dos anos perdidos e ganhos sob os ritmos da calmaria das ondas tropicalistas e do rebuliço das personagens de Patong, respectivamente, e talvez por isso também facilmente se compreenda a tatuagem que Duarte exibe no seu ombro esquerdo, a do Q artístico da imortalizada concepção do “Songs For The Deaf” dos QOTSA – marca de infinitas guerras avivadas por peculiares circle pits em prematuros bordéis e por agressivos moshes em elixires D’Anvers. A morte dos seus pais foi, portanto e analisando a postura com que hoje recebera Barry Brown nos anexos do seu castelo familiar, uma espécie de catalisador fenómeno para aquele que ficou definido como o seu principal objectivo de vida – garantir a sobrevivência da contribuição cultural que os Farelos emprestaram (sob muitos anos de esforços e de empreendimentos físicos e económicos) à paisagem circundante da Serra da Estrela. A morte dos seus pais foi também um segundo tsunami na sua vida, um tsunami desta feita seco, fisicamente distinto daquele que anos antes in loco testemunhara na baía de Phuket. Apesar dos abanões e das marcas de guerra do cansado espírito do guerreiro, era visível que o álcool ainda hoje não o largara de vez.

Foi num serão embalado por uma dúzia de flamejantes brasas de carvão dispostas sob um par de trutas pelo próprio Duarte apanhadas, naquele mesmíssimo circundante riacho, e numa degustação gastronómica ritmadamente imersa em majestosas proporções de Southern Comfort com cola (a bebida-mor de Duarte, nesta fase da sua vida) e em escaldantes sonorizações de uma panóplia de invulgares bandas do Hard Rock contemporâneo com distintos nomes e origens como Graveyard (segundo o anfitrião, oriundos da Suécia), Boris (Japão), Colour Haze (Alemanha), Priestess e Pride Tiger (Canadá), assim como os já mais globalizados Wolfmother (Austrália) e Arctic Monkeys (UK), que Duarte se apresentou convenientemente em jeito de pitching de projecto cinematográfico – o quem, o quê, o quando, o como e o porquê. Tudo explicado bem direitinho, ainda que envolto em pontuais pequenos mistérios maioritariamente nos capítulos do quem e do quê, mas definitivamente bem rectilíneo desde o quando ao porquê – a missão de Duarte era manter o castelo assente, custasse o que tivesse de custar. E o momentâneo azar de Brown foi o da confusão gerada pela sua presença, facilmente subentendida como uma das ocasionais visitas dos membros do ameaçador plano comunitário, vulgos inimigos, que transtornavam o dia-a-dia e os vislumbres de sucesso na manutenção do nome e da obra dos Farelos. A descrição da missão ganhou ainda mais preponderância quando Duarte confidenciou que a fortuna familiar fora obtida com base num empreendedorismo hoteleiro regional (todos os sobreviventes hotéis distribuídos pela zona geográfica envolvente tinham certo dia sido erguidos por ou de posse da família Farelos, sem excepção), que com o passar dos anos desvanecera. Os próprios pais de Duarte fecharam os derradeiros negócios de permutas e de vendas, tendo como principal objectivo o retiro espiritual na incontestável magnificência do reduto da casa de pedra junto ao rio. Outro cenário igualmente preocupante para o anfitrião era o da convicção numa conspiração de traição familiar – segundo ele, os restantes jovens sobreviventes da família Farelos (primos, na sua maioria emigrados) limparam qualquer tipo de preocupação na manutenção daquele que outrora fora o projecto familiar de excelência quando, por acordos selados em cartas e em valores para Brown indecifráveis naquele preciso momento, a propriedade havia sido titulada nos nomes dos pais de Duarte. Mantinha-se também a desconfiança que havia um qualquer desses primos envolvido no famigerado plano de desmantelamento regional, quiçá por efeitos de reclamação de uma qualquer verba indevida. Mas ainda assim a determinante convicção de Duarte na sua apelidada missão de cariz familiar persistia sobre qualquer suspeita ou indefinição cronológica. Cada erguer de caçadeira era, indiscutivelmente, aos olhos dele, o orgulho dos seus avós e das inúmeras gerações de passagens de testemunhos dos Farelos. E era apenas e só sobre esse conceito que Duarte hoje em dia respirava, tumultuando ao jeito do seu “conforto sulista”. Foi um serão agradável. Um autêntico “hidden gem” serrano, considerou. Exultou perante a introdução da ideia que fez demover a agressividade de Duarte no encontro inicial – Brown iria ser peça fundamental na estratégia do anfitrião dado que, vestindo o fato outrora usado pelo pai de Duarte num qualquer desses processos negociais decorridos sobre o solo de uma das oficinas do Banco de Portugal, os skills do actor serviriam para confrontar e demover os persistentes esforços comunitários numa das próximas, indeterminadas visitas pontuais dos mercenários agiotas. Restaria definir se iria Brown incorporar o “papel” de engenheiro ambiental, designado pelos gabinetes do Parlamento Europeu, ou simplesmente o de um mero advogado estatal reivindicando por um qualquer artigo do código penal que, numa hipotética fase do processo, pudesse emprestar razão aos intentos de Duarte. O álcool por eles bebido fora o tónico de uma noite de folia, de rock, de comunhão e de implícitas cumplicidades. Brown obtinha assim um desafio dentro do desafio e definia programas para os dias que se seguiriam. Fixar-se-ia ao local por graças de um pequeno jogo de aptidões; de um teste ao seu ofício, envolvido numa prova de superiores dimensões. Um guião inesperado e de total liberdade criativa. Poderia Brown pedir mais?

Quando o sol despertou, no dia seguinte, Brown acordou confrontado com uma valente ressaca e uma ainda mais inócua proposta: era dia de aprender a pescar.

Dizia Duarte que, apesar do apego às tradições familiares herdadas, a arte do ofício pesqueiro fora por si aprendida na região de Langkawi, algures entre as mais de 100 ilhas que compõem um dos arquipélagos do topo norte da Malásia, integralmente explorado aquando do seu périplo oriental. Fez-se reforçar com a mostra de duas dezenas de fotografias tiradas nos locais, várias delas em amigáveis poses e em rodeios de típicos macacos de praia, e umas outras ostentando enormes tipos de peixes recém-pescados, ainda quase passíveis de permitir a descodificação dos titubeantes movimentos destes nos precisos momentos em que o orgulhoso pescador ocidental às câmaras os exibia (Polaroids, pela textura das imagens e pelo formato das molduras). Havia também fotos de habitantes locais, honestos sorrisos, despalhados chapéus de palha, rudimentares apeadeiros de ainda mais rudimentares embarcações, uma baleia morta dada à costa e dezenas de minúsculas crianças seminuas dispostas em torno da mesma, os tradicionais tigres da Malásia, de sóis poentes e de sóis nascentes, praias e areais brancos, verdes águas e azuis céus; a riqueza das imagens contrastava com a crescente falta de interesse de Duarte em exibi-las. Revelava olhos saudosos, como se confrontados com experiências nefastas. Recolheu as imagens, perante o hipnotismo de Brown, bebeu um valente trago de uma garrafa que ficara por terminar ainda da noite anterior e saiu na direcção do rio. Na aparelhagem soava nessa manhã o “Dark Side of the Moon”: provavelmente o ‘melhor álbum de todos os tempos’, nas palavras do anfitrião. Ao seguir-lhe os passos, encontrou Brown um sol forte na saída da porta fora. O Inverno parecia teimar cair. Estariam seguramente uns 15º, facto que, com o forte sol que soava, se assemelhou a uma espécie das condições climatéricas dos abafados verões Holandeses que Brown presenciou durante os últimos anos. Por pensar nisso, voltou dentro de casa e retirou uma lata de cerveja do interior do frigorífico. O clique sonoro da abertura da lata coincidiu precisamente com os iniciais acordes de piano da “The Great Gig in The Sky”. Brown sentou-se no alpendre que dava acesso ao riacho e saboreou o primeiro gole da fresquíssima cerveja. Com o soar da instrumental voz de Clare Torry em crescendo, fechou ele os olhos. Puro sublimar espiritual de cerca de um minuto. Refreou os ânimos no salpique de água por Duarte emitido. Abriu os olhos.

«Queres aprender ou não?»

Duarte, situado sobre o rio, já com água pelos joelhos e transportando uma espécie de artesanal arpão de três bicos numa das suas mãos, esforçava-se por despertar Brown do labiríntico mini-transe que este obtivera graças ao conjunto de frequências sonoras da histórica prestação de Torry, uma elementar desconhecida que emprestou o seu outsider contributo vocal a custo de cerca de 30 libras (reza a lenda), num caricato episódio de transcendental inspiração.

«Sim, Neptuno.» replicou Brown, com um sorriso, concentrando-se de seguida nos movimentos do desguedelhado anfitrião, de magro tronco nu e apenas usando uns calções brancos à Johan Cruiff (nos tempos de glória deste) sobre umas escanzeladas e desgastadas ancas. Tinha também uma espécie de fio de prata, não muito grosso, enrolado no pescoço, com uma cruz de Cristo na extremidade. Mas usado em reverso, com a cruz sobre as costas em vez de sobre o peito. Brown indagou por breves instantes nesse pormenor, tentando descodificar o motivo. E logo assentiu que, dado o cronológico relato da véspera, estranho mesmo era o uso de qualquer tipo de signo cristão num corpo que correu mundos em busca de sinergias metálicas – passe o estereótipo. Ainda assim a instantânea confusão gerada na mente do Americano não foi de cariz vilipendioso: ele próprio não tinha muito a achar, a pensar ou a dizer em tudo o que tocasse nas esferas de qualquer tipo de religião.

«E pensamos nós por cá que a pesca deve ser feita à cana…» estremunhou Duarte.

Brown limitou-se a observar os movimentos do improvável docente na calma azáfama percorrida, enquanto este bailava de pedra em pedra pelos submersos componentes do riacho. Percebeu a tentativa de refutação do jovem Farelos, lançada sobre os seculares ensinamentos de piscatórias tradições entre os circunscritos rios da região, mas desdenhou o superlativo tom que serviu acoplado à afirmação. Ainda assim reconheceu as possíveis inebrias de Duarte pelo sudeste asiático e os incontornáveis ensinamentos obtidos pelos xamãs da pesca local em prol da técnica do arpão – os das cálidas águas doces e salgadas, testemunhas do global assombro tecnológico e das incapacidades económicas milenares para sequer se terem algum dia auto permitido à reflexão e à experiência da pesca à cana. Meras contingências, pensou. Por norma revelaria Brown um limiar inferior de tolerância. Neste caso, quiçá por gratidão, entregou-se à fácil compreensão dos contextos.

Com entusiasmo seguiu o aprendiz o percurso do mentor pesqueiro, ao ritmo da ponderadamente primata caçada aquática: Duarte observava, em jeito de meditação, o fluxo das águas, preparando-se para a decisiva estocada, e Brown acompanhava, em jeito de devoção, as sequenciadas fases do processo. Tal processo consistia num detalhado e rigoroso estudo prévio da corrente e dos trajectos dos cardumes que por ali a vertiginoso ritmo passavam até ao momento em que, incorporado o estratégico local da “apanha”, o predador incidia sobre as águas com um mergulho superficial, enfrentando de caras os peixes aceleras que na sua direcção disparavam e, num momento de glória, atracava ele um ou dois ou três dos feixes do seu arpão num dos corajosos peixes que mais não queriam do que subir o rio para ir efectuar a desova numa das superiores extremidades do leito. Parecia fácil, visto de fora. Mas os quatro dias que se seguiram foram recheados de frustradas tentativas e de repetidos ensinamentos entre aprendiz e mentor da pesca do arpão. Ocasionalmente lá conseguia ser Brown o glorioso que conquistava as peças do almoço ou do jantar. Mas em quatro dias isso não aconteceu mais do que um par de vezes. Perante tais intercâmbios de experiências revelou-se Duarte Farelos um autêntico baú de ancestrais segredos. E, em paralelo, num verdadeiro realizador que o direccionava de encontro ao registo que, enquanto personagem, teria de vir a almejar no confronto que a espaços se adivinhava. Não tardaria para que do nada uma vez mais surgissem os agiotas, reclamando todo e qualquer poder pelo poder das suas mãos.

A meio da oitava manhã do prelúdio por serras lusitanas caiu sobre Brown (em forma de pensamento) uma índole demagogia sobre o périplo percorrido. Tudo, terminada a semana inicial e praticamente sem excepção, se assumia de jeitos bem mais facilitados do que alguma vez se permitiriam haver sido imaginados. A única dormida ao relento tinha sido a primeira – essa informal sesta sobre um dos rochedos do Sítio das Sete Fontes -, bem longe de qualquer realidade por si previamente visualizada enquanto lustro da caminhada. Imaginara-se sobre nómadas dormidas, entre acabrunhados interregnos e pontificados recomeços; sobre infinitas caminhadas, curtas pousadas e lascívias desventuradas. Ao invés, todo o tom lhe soou em jeito de conforto. As sete noites, dormira-as essas em camas e colchões porventura melhores que aqueles que habitava na sua própria casa. Os oitos dias passara-os entre díspares comunhões e lúdicos convívios. Aprendera, no durante, parte da intemporal história da serra e, em igual período, parte dos históricos que a coabitam. Foi tudo rápido, no entanto: momentos de fulgor, intensos como os seus próprios brilhos; instantes de verbais fugacidades e de impessoais capacidades. Pensara sobre todo esse processo. E, essencialmente, no quanto sobre de si descobrira durante a primeira semana de procura do seu eu Almocreve. Amiúde, lá visualizava também ele o seu eu versão Engenheiro Ambiental Europeu. E ensaiara para Duarte, nessas passadas tardes e noites de espera, que, por sua vez, o orientava com coordenadas para o registo que deveria atingir afim do brilharete. Brown nunca se sentia totalmente confiante em tal registo, como perfeccionista que era, mas o Farelos lá lhe garantia que o sotaque estrangeiro que ele conseguia empregar ao personagem seria o suficiente para demover os incultos intervenientes do plano comunitário dos pergaminhos por eles apresentados, que a todo o momento poderiam irromper casa adentro.

No oitavo dia houve também espaço para uma breve reflexão sobre o clima. Na noite de véspera caíra, pela primeira vez desde o início do périplo, uma intensa chuvada. Também as temperaturas desceram, embora de forma mais moderada – longe ainda daquilo que Brown previra para o modus operandi da sua travessia. Avizinhava-se o Inverno, com a natural brusquidão serrana que se lhe poderia reconhecer. Foi um dia áspero, em comparação com os prévios; de rugosos ensimesmares e de incaracterísticos exfoliares de ideias. Submeteu-se Brown à introspectiva análise do trajecto percorrido, não se sentindo ele sob o desamparo que procurava, em virtude da exploração de uma rejeitada confortável auto-suficiência. O entusiasmo que se gerara com o desafio pedido por Farelos esmorecia nas globulosas e indivisas porções da chuva que intermitentemente agora caía – o rock passara a soul, e os ecos sonoros eram agora da Motown, das raízes do Louisiana, do Jazz e do Blues. Recusando qualquer índice de desespero, o Americano decidiu puxar a textura para as fitas e, aproveitando um tema de Lightnin’ Slim, introduzido por Duarte como um dos barões dos swamp blues, introduziu Brown à baila o título de um filme de Craig Brewer – “Black Snake Moan”. Duarte não o vira, mas incorporou a descrição na perfeição: o exorcismo através dos Blues. Pareceu-lhe bem, muito bem. E apontou tal título no bloco de notas que, segundo ele, o acompanhara desde a travessia pelo sudeste asiático. Depois disso falaram de almocreves, do guião que motivara a odisseia de Brown e das histórias dos Farelos antepassados: alguns deles, próprios almocreves. Com o alpinista entusiasmo do tema rapidamente regressaram ao stoner rock e às memórias dos QOTSA. Era indescritível o transe em que emergia Duarte perante cada solo de guitarra ou a cada pesada linha de baixo ou a cada tarola mais frenética. Indescritível era também o tipo de fascínio que o Farelos emitia sobre a pessoa de Josh Homme, esse «filho de um Deus menor». O caseiro era um letrado melómano. Por filmes não demonstrava grande cunho, apesar do regozijo no projecto d’O Almocreve. Mas o espírito do ideal rocker era personificado na totalidade dos cerca de metro e oitenta e picos de empírica solidão: um cunho de impreterível conhecimento em tudo aquilo que provocasse trémulos e ventarolas sonoras. Ele próprio captava esse nível de espiritual entendimento musical na conformidade com os dedilhares de uma dúzia de cordas a um patamar que em nada ficasse em dívida ao de um xamã sulista na sua pesquisa de um alucino perdido. Após a saudável partilha de doutrinas sobre a personagem do almocreve, Brown aclarou-se num momento de fraqueza: expressou a Duarte a admiração que ganhara sobre a sua rubrica. «Longe de mim esperar cruzar-me com tal espalho de classe nos declives estrelados.», algo poético deste género, no seu estrangeirismo próprio, e agradeceu ao anfitrião por este ser um especial ser na imensidão dos vulgares mortais. Por sua vez Duarte, sem fazer qualquer tipo de caso, limitou-se a uma ainda mais surpreendente reacção: «A única especialidade que existe em mim é o peso desta merda de ursa maior que comigo carrego.» E subitamente, arregaçando a manga da camisola que vestia, exibiu sete sinais, situados na interior parte do antebraço direito que, de forma metodicamente natural (apesar da perfeição na disposição facilmente permitir a associação a espécie de obra manual), se assemelhavam ao formato da famosa constelação estelar. Os gracejos e os particípios de filos prosseguiram noite dentro até ao preciso momento em que Brown decidiu confrontar Duarte com um fugaz episódio da histórica cronologia do Farelos, que em abono da verdade há alguns dias o intrigava.

«Porquê Antuérpia, na tua vida?»

E perante a questão Duarte baixou de imediato o olhar, escondendo o sorriso e rendendo-se a um perturbante silêncio.

«Isto é, se quiseres falar disso. Claro.» terminou Brown, sentindo-se na obrigação. E remeteu-se também ele ao silêncio, no momento que curiosamente coincidiu com o início da “Like A Drug” na aparelhagem – o tema final do “Lullabies to Paralize” e talvez o tema mais blues de todo o catálogo dos QOTSA. Ambos se refastelaram nas cadeiras que ocupavam, enquanto abanaram os pés (em que seus olhares cabisbaixos se concentravam) ao ritmo do náufrago swing que a música introduz em qualquer espaço que a possa absorver. Depois a música terminou e, por instantes, nada soou das colunas. Brown olhou na direcção de Duarte e manteve-se em silêncio, na esperança de que o desconforto gerado obrigasse o Farelos a enveredar por confissões e indesejados relatos. Também Brown conhecera Antuérpia, embora decididamente o tivesse feito em moldes distintos (Brown nunca lá vivera, ao contrário de Duarte que confessara lá ter vivido uma temporada das suas, mas foram vários os fins de semana passados e vividos ao limite pelo Norte-Americano na multicultural “capital” da Flandres). Por conhecê-la, intrigava-se ele com as hipotéticas ínfimas possibilidades que se poderiam proporcionar na operação de tal combustivo ambiente sobre o conturbado espírito do Farelos e todas essas singulares rábulas que da inevitável fusão de sucessivas implosões e explosões se pudessem gerar. Imaginava-o Brown como uma autêntica bomba-relógio em convulsas caminhadas pelas ruas do Schipperskwartier, sob monstruosas camadas dos absintos locais, explodindo a cada penetração pelos pecaminosos corredores do Villa Tinto e novamente implodindo a cada paragem pelos bastidores dos anexos da Catedral e dos medievais meandros do Grote Markt, entre as brewerijs locais, o Quinten Matsijs e demais pubs preenchidos pelos marinheiros que por essa altura ainda pelo enorme porto local parassem. Duarte Farelos era, na sua própria concepção da palavra, um artista. Um artesão da vida, pioneiro das frutíferas tentativas ambulantes da redoma espiritual, e um genuíno connaisseur da arte musical. Antuérpia é conhecida como o núcleo mundial da lapidação comercial de diamantes; mas nenhum diamante consegue ser por lá melhor lapidado do que o brilho de um artista. Assim foi com Rubens e com Van Dyck (os locais) e com todos os outros que por lá decidiram abastecer seus insaciáveis espíritos de reflexão e de criações artísticas e intelectuais. Imaginava-o Brown vivendo algures no quarteirão judaico, nos anexos da ímpar Estação Central, comungando a espaços com as vincadas tradições da comunidade local dos ultra-ortodoxos Hasidics e Haredis que em caminhos de sinagogas se cruzavam com as suas espairecidas visitas ao igualmente belo Stadspark. Também o via partilhando permutas com os hipsters da Vlaamsekaai e da Walsekaai, essa outrora intermitente e desgastada zona sul, na troca de experiências químicas e de efusões musicais; e entrando em ebulição no meio da praça Sint-Jansplein, ora defendendo as congéneres comunidades Portuguesas dos vizinhos Africanos e dos ascendentes Índicos e Arábicos, que em catadupa começavam a ocupar os circundantes quarteirões, ora no vice-versa, mediante as direcções tomadas pelos exasperantes níveis de embriaguez que se permitisse atingir. Antuérpia é uma cidade quente, à beira de ruptura cívica e social e em constante reinvenção cultural. Personificada, para aquilo que Brown conhecera de ambos, dava vida ao espírito do Farelos. Tudo nessa cidade o intrigara tanto como na pessoa que nessa noite respirava diante de si, em efeito ziguezagueante. De tal forma o fazia que, dado o silêncio que a inoportuna questão gerara (e a quantidade de Southern Comfort já emborcada ao longo das horas que passaram), tal efeito se assumia em Brown como reforço das primeiras náuseas alcoólicas do serão. Talvez o amortecido Duarte tenha sentido semelhantes atritos mentais, uma vez que nesse preciso momento se levantou para alterar a banda-sonora. Depois de um ligeiro reconhecimento sobre a considerável colecção de álbuns alinhados em suportes próprios fixos na parede, feito sob a forma de um olhar mais de quem sabe o que procura do que o de quem tenta descobrir, retirou Duarte um dos álbuns e colocou-o em rodagem na aparelhagem. Levantou ligeiramente o som, após seleccionar a faixa desejada, e voltou para o seu lugar. Brown limitou-se a segui-lo com o olhar. E do nada surge “Dreams”, dos Fleetwood Mac. «Puro clássico.», pensou Brown enquanto se preparou para desfrutar tudo o que o tema lhe pudesse naquele preciso momento emprestar.

«Conheces isto?», perguntou Duarte.

Brown assentiu, fitando-o com o olhar.

«Lembro-me de ouvi-la com a minha filha.», concluiu o Farelos.

Brown ficou perplexo de surpresa, com tal afirmação. Longe de si imaginar que tal personagem pudesse algum dia ter dado azo a qualquer tipo de procriação.

«Por isso, Antuérpia. É lá que vive a minha filha.», justificou com um inquietante tom de seriedade. E, posto isso, deu novo, profundo trago na bebida.

«Não diria que tinhas uma filha.», respondeu o Americano.

Perante o verso “What you had/And what you lost”, proferido pela doce voz de Stevie Nicks, fechou Duarte os olhos por meio segundo. Tal gesto expressou mais dor do que toda a descrição que o mesmo fizera sobre qualquer um dos Tsunamis que experienciara na primeira pessoa.

«Nasceu a 14 de Julho de 1996. Dia dos mártires de Myanmar. E eu nem o soube.», prosseguiu Duarte.

«E a mãe?», questionou Brown, algo intrigado com o pormenor.

«A mãe… Uma belga que conheci num festival do sul de França… No verão anterior.», respondeu Duarte, entre suspiros. «Três anos depois de nascer a Karla decidiu enviar-me um postal. A dizer que eu tinha uma saudável filha em Antuérpia. Loirinha, mas com a cara do pai. Já viste esta merda?!», visivelmente magoado, permitindo inclusive o vislumbre de uma breve ameaça lacrimosa.

«E foi isso que te fez ir para Antuérpia.», assumiu Brown.

«Obviamente. A cena é que a cabra vivia com outro gajo, ‘tás a ver? E a miúda nunca me conseguiu ver como pai dela. Para ela o pai era o outro gajo. E eu era um bêbado, de cabelos compridos e roupas pretas, ‘tás a ver? Um alien que aos fins-de-semana a levava ao parque para comer um gelado. Estive lá quase 1 ano. Não falhei um fim-de-semana. Nem um. Até que um dia ela não quis vir e bazei. Não estava a ser saudável para a miúda. Nem sequer falava a língua dela, ‘tás a ver?»

«E aí entrou Ásia.», antecipou Brown, entendendo agora o sentido da cronologia do Farelos.

«Índia… Myanmar… Foram 3 anos entre templos e retiros e deixei de beber. Tinha sérias ideias de voltar e ser o pai que ela merecia ter.»

«E voltaste?», questionou Brown, curioso.

«Não. Enviei cartas, mas ela nunca respondeu. Um dia a mãe respondeu-me a pedir para não enviar mais cartas e nesse mesmo dia fui para Sul. E pronto… Agora estou aqui. Esta casa é tudo o que tenho para dar à miúda.», terminou Duarte a descrição com visível confiança na sua missão.

Brown limitou-se a observá-lo com seriedade, tentando atingir o misto de sentimentos expressos no relato e compreender o fechar de ciclo na misteriosa cronologia do Farelos. Tudo agora tinha mais lógica. Tudo é lógico na relação umbilical. Imaginava-o agora Brown em Antuérpia de mão dada à pequena Karla, loirinha como o sol, que com a restante mão segurava num qualquer gelado de chocolate belga, enquanto passeavam ambos pelo parque sob latentes problemas de comunicação. E vislumbrava-o enquanto rockeiro quarentão de calças de cabedal rotas e cabelos vastos que era, perdido entre parques e universos infantis. Talvez até com o recurso ao auxílio de um dos seus amigos do hard rock local que nos passeios deles se fizesse acompanhar, meramente para funções de traduções e de interpretações, em puros contrastes incapacitados no estabelecimento de um sucesso no elo paternal entre Duarte e aquele que seria o mais inocente produto das suas extravasadas experiências sexuais. Nunca iria Brown conseguir compreender o tipo de sentimentos gerados por tal relação que, ao contrário do que inicialmente imaginara, traduziria a personificação de Antuérpia nos olhos do Farelos. Mas não seria difícil entender agora a lógica da derradeira missão. A necessidade de guardar o castelo, o bastião, o reduto final do guerreiro. A última instância do nome Farelos na vida da loirita. Brown conseguiu ali distinguir, naquele preciso momento e mais do que em qualquer outra ocasião em toda a sua vida, o bem do mal e o mal do bem. Não seria pelo Farelos. Seria pela pequena Karla. E não havia volta a dar.

No início da 9ª manhã do périplo, o som de um motor de carro ecoou pelos resvalos do riacho e Duarte saltou da sua cama com a rapidez própria de uma ponta e mola acabada de activar. Como primeiro instinto não tardou no carregamento da caçadeira habitual, soluçando entre fúrias e receios. Brown despertou de forma mais contida mas foi quase tão determinado no assomar-se à janela. Um enorme jipe negro dera entrada no terreno dos Farelos e aproximava-se em lenta marcha do tugúrio que o Americano adoptara como lar. Com a imagem fez-se pressentir aquele que seria o momento da verdade – o levantar dos panos para o extremo confronto com a quarta parede – e de uma assentada só o Americano vestiu o formal fato azul-escuro que passara os mais recentes dias exposto num bengaleiro próprio de sustentáculo. Lavou a cara, afogando-a em rápidos movimentos de despertares, e colocou um chapéu de coco de condizente cor sobre a cabeça, para com isso esconder o desarrumado penteado obtido graças ao formato da almofada. Ajeitou a diagonalmente listada gravata de escurecidos e marinhados azuis sobre a acinzentada camisa lisa que sob o fato vestira e pegou num qualquer dossier que há largos anos servia como um desses perdidos bibelôs desajeitados que compunham o interior da casa de pedra. Munido, caminhou na direcção da porta onde se encontrou com Duarte. Olharam um para o outro e, num perfeito gesto de cumplicidade, saíram porta fora ao melhor estilo dos eternos protagonistas de um western longínquo – o profeta, com a bíblia em punho, e o pistoleiro, com o rifle em riste. Caminharam até à zona de acesso à entrada da casa, conseguindo chegar ao local do duelo antes sequer de os agiotas deixarem o jipe. Os movimentos de saída do interior do veículo colidiram num decidido som com origens no bater das portas traseiras que resvalou pelas colinas envolventes. Ainda mais decidida foi a exibição dos dois membros do clã rival que, em repentinos trejeitos e sem mostrar um mínimo receio pela presença da caçadeira que Duarte empunhava, se aproximaram da declarada zona de guerra somente carregando umas negras pastas com possíveis e indesejadas resoluções. Contudo, foi possível reconhecer-lhes um tímido esboço de dúvida por na expressão de Duarte repararem – o habitual negrume sisudo do seu rosto revelava hoje um regozijado invulgar aspecto de confiança. Quando se aperceberam da presença de Brown, o misterioso engravatado, interromperam a inicialmente triunfante galopada. Fixaram-se os quatro em cruzamentos de olhares à escala dos close ups de Leone, por segundos que pareceram infinitos. Quando o motor do jipe se desligou, jurar-se-ia que se conseguiam inclusive escutar as palpitações dos intervenientes de tão aguardado tête a tête, em notório contraste com o ligeiro caudal do riacho que por detrás de todos cronicamente se manifestava. Foram segundos de expectativa num imprevisto volte face prestes a ocorrer: um qualquer primeiro manifesto de palavra que definisse o tom da marcha que se seguiria. Mas tal simplesmente não surgiu.

Depois deu Brown um passo em diante e, para espanto dos agiotas que o defrontavam, puxou da estrangeira palavra. Bastaram cerca de cinco minutos, enquanto plausível Engenheiro Ambiental que foi. Bastou isso e um inexistente relatório que nunca necessitou de exibir para conseguir definir o rumo da palavra final – essa de supostos patronos da EU, donos da justiça, do ordenamento territorial e do calculismo vigente – e, com tal resultado, forçar o recuo dos intentos comunitários. Sob promessas de uma cópia desse dossier que ostentou como dando uma futura hipotética entrada nos camarários gabinetes dos agiotas fez-se a improvável acta do monólogo e, com tal suficiência, ocultaram-se por temporários períodos os intentos de destruição do legado do Farelos. No afastar do jipe obteve-se a dúvida sobre quanto tempo passaria até ao regresso dos burlados oponentes, munidos das certezas sobre o embuste por Brown criado, e sobre quanto tempo demoraria até à conclusão do presságio de desmantelamento local. Contudo, o provisório objectivo de Brown fora cumprido e no sorriso de Duarte conseguiu este interpretar a possível felicidade da pequena Karla. Pormenor que bastou para que nos instantes seguintes o Americano se apressasse a mudar a vestimenta e a preparar-se para prosseguir com a caminhada. No apertar de mãos, fez-se mútuo e glorificado o eterno agradecimento pelas seguintes palavras do Farelos:

«Não prevaricarás, caro amigo. Tens toda uma serra aos teus olhos e um resplandecente memorial das mais belas e ofuscas manifestações à descoberta. Depende de ti absorvê-las. E quando souberes que o caminho é pela direita, vira à esquerda. Aprenderás mais indo por aí.»

Brown assentiu a receita e relançou-se no périplo. Antes de atingir os três metros de distância, o Farelos entoou novo conjunto de palavras:

«O bom almocreve é aquele que é celebrado na chegada e chorado na despedida.»

Brown olhou uma última vez na direcção de Duarte, agradecendo os contributos. De seguida ajeitou as alças da mochila e continuou. Toda uma serra se erguia aos seus olhos.

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