O Almocreve, VI

III

A ligeira chuva das idas horas matinais já se encontrava em marcha oriental nos momentos que antecederam a chegada de Brown às Penhas da Saúde. Afastara-se a chuva e chegara o frio – esse característico frio de meados de Novembro que mais não faz do que confirmar a chegada do Inverno e que com isso se torna ainda mais sentido. A aldeia de montanha, que outrora se assumira como a maior referência hoteleira serrana de todos os tempos lusitanos, mais não seria actualmente (e em plena época alta) do que um conjunto de avelhentados casarios, desorganizadamente brotados ao longo da cercadura da estrada que, quando não interditada, se encarrega de facilitar o acesso aos mais elevados pontos da Serra da Estrela.

Avistou-se logo à entrada da aldeia um hotel, quiçá erguido ainda por inícios do passado século por membros dos Farelos, externamente bramado por uma dezena de chalés de montanha de características mais modernas. A julgar pela quantidade de estacionamentos vazios e de descortinadas luzes observadas entre as janelas do hotel, poder-se-ia concluir que a taxa de ocupação estaria bem abaixo da possível metade – Brown considerou que o atrasar das expectáveis temperaturas gélidas invernais pudesse estar na origem do ermo e também que a indispensável queda de neve tudo viria a normalizar, para bem do comércio local. Era contudo possível, pelo abandono actual, imaginar o frenesim de outrora. Burburinho de turistas em massa escala, oriundos dos quatro cantos do país e a caminho dos nevados cântaros e das suas resvaladas brancas manchas. Facilmente se distinguiriam burgueses de plebeus pelos instrumentos que carregavam – as pranchas e os trenós de categoria dos primeiros e os improvisados artefactos sobre bases de sacos de plástico dos segundos. Os gastos e as invenções de períodos de férias nas alvas planícies da mais alta serra beirã sob formas de familiares piqueniques, rústicos bonecos de neve e amigáveis flocos de gelo em batalhas campais; o branco e o preto dos contrastes e o preto e o branco das memórias. Espalhos de farruscos cachorros da serrana raça por desleais comércios entre pedintes gaiolas de obra humana, neófitos corações quebrados e incólumes ternurentos laços em génese. Era também possível indiciar, pelo arrosto aos resquícios da identidade actual, toda uma ida panorâmica. Lobrigava-se, por actual paisagem, a vitalidade do antigamente, encorajada face aos notáveis maciços que dali em diante certo dia se ergueram rumo ao céu – as pompas da estância ofuscam no tempo presente, a passadas largas, todos os tratados obtidos na prosperidade. E tudo isso em detrimentos de incaracterísticos legados de diásporas diversas e em abonos de esfumares das dinâmicas e dos dizimistas aguilhões das retomas perdidas. Brown pensou nas dezenas de pequenos exemplares da “Mensagem” que transportava e na escassez de oportunidades para estimular a oferenda – ainda não se cruzara com uma única criança desde que iniciara a jorna. Pensou também na influência que a nebulosa atmosfera daquele início de tarde assumira sobre o local que atravessava e na latência de novas variações das gastas cores que os seus olhos lhe mostravam – as dos idos tempos não seriam tanto mais difusas do que as da actualidade, em termos de tonalidades. Faltavam as pessoas. E essencialmente os sorrisos das crianças.

A outra extremidade da aldeia, a da saída, era composta por uma barragem de dimensões médias, enquadrada a sul com a imensidão da cova da beira e a norte com o reflexo da grandiosidade dos cântaros que antecipam o topo da montanha. No entanto a composição observava-se em tímidas medidas, como as de uma das fotografias de Robert Frank ou as de uma das telas de Andrew Wyeth: quatro margens delimitadoras de fragmentos que por si só se permitem amplificar guarnecidos universos dos foras de campo e das imagens perdidas pelo imaginário popular. Assim o faziam as estáticas águas da barragem perante os olhos de Brown – mostrando todo um léxico de montesinas visões, palmilhadas por imaginárias vivências perdidas; todo um marginal panorama por revelar – e assim era o reflexo da Serra que sob um par de prodigiosos cântaros se destapava.

Passado cerca de um quilómetro situava-se a Nave de Santo António. Para trás, nas delimitações da saída ascendente das Penhas da Saúde, ficara um conjunto de geminados contentores cujo perímetro assinalava um projecto sob o seguinte mote: “Aqui vai nascer a futura Aldeia da Montanha”. Ficara-se pela intenção. O placard do anúncio aparentava quase tanta ferrugem como as débeis cartilagens das rótulas de Brown, que se começavam a ressentir da caminhante sequência do dia, e a paisagem envolta não exibia quaisquer sinal de evolução ou de prévio desenvolvimento do que poderia ter sido um empreendimento e mais não era do que uma moribunda tentativa de revitalização dos anexos das Penhas da Saúde – essa grande estância do antigamente. Na colina da esquerda, a derradeira colina dos maciços sulistas antes do início da subida à Torre, observava-se um bloco de cimento que permitiria múltiplas interpretações: poderia ter sido um receptor de teleféricos, um posto de vigia, uma particular obra de privadas vistas para os cântaros, ou até mesmo uma igreja. Poderia ter sido tudo. E não era nada. Apenas se poderia descodificar que, independentemente do destino que a erguera, a construção nunca se seguira e apenas os alicerces de cimento haviam permanecido: um esboço vazio de um projecto que morrera à nascença. Atrás dessa mesma colina escondia-se o Centro de Limpeza de Neve – uma espécie de quartel-general com portão de altas seguranças para os veículos e os suportes aos cenários de emergência, corpo de resposta às interdições e aos bloqueios no maciço central da Serra da Estrela e seus imediatos arredores. A actividade no quartel, vista de passagem, era praticamente nula – somente o ladrar de um cão se fazia reagir perante o passar do tempo. Brown fixou o olhar na cratera da Nave de Santo António e decifrou uma diminuta capela bem no meio da imensidão de solo circundante. A obra humana em nome de Deus no território do Universo. Na sequência da observação, levantou-se a primeira grande encruzilhada da viagem: a Norte ficava a Torre e o trajecto predefinido por Ramiro; a Este o Vale Glaciar, cuja beleza natural num ligeiro encurtar do roteiro se anunciava; a Oeste um escasso caminho de terra, daqueles de cabras, rumo a nenhures; a Sul, o voltar atrás, o regresso aos confortos da civilização moderna e consequente abandono da missão. O distante balido de uma ovelha assumiu um inesperado protagonismo na momentânea indefinição e permitiu antecipar a chegada de um rebanho, vindo de detrás da planície que possuía o rascunho do inconclusivo edifício. Na lide do rebanho assumiram-se um pastor de meia-idade e um cão de completa idade, ambos cães de fila noutra vida que já distava. Brown aguardou pela aproximação deles, percutindo numa breve análise antropológica da cultura local que sob a égide do pastor e do rebanho se permitia ver esfumar a ritmos incontroláveis. O cão chegou primeiro, farejando o forasteiro com o desdém próprio à idade de quem já vira demasiado de tudo. Seguiu-se o pastor, com uma amigável estampa na cara. Trajava uma capa, como Brown pensara que já não se visse. Na cabeça usava uma boina, a qual educadamente retirou para cumprimento ao forasteiro, que por sua vez retribuiu com um estender de mão. Trocaram conversa de ocasião e Brown revelou o motivo da sua viagem, explicando a indefinição vivida na encruzilhada do momento. O pastor replicou com um coçar de cabeça e com uma sequência de olhares nas possíveis opções. Depois olhou para o céu e tracejou uma expressão de incerteza.

«Isto vem lá mau tempo. Nunca vou lá acima com mau tempo.», afirmou o pastor, apontando na direcção do topo da montanha.

Brown sentiu o insurgir do desafio e inclinou-se na fidelidade ao roteiro que Ramiro desenhara. Para cima seria o caminho.

«Eu vou para Manteigas. Não há muitas terras nessa direcção, mas pode vir comigo.», prosseguiu o pastor, explicando o seu trajecto na direcção Este.

Brown rodou o corpo nessa direcção. Seria tentador o famoso vale glaciar e mais ainda a sociológica companhia do pastor e do velho cão que desinteressadamente o sondava. Para Este seria o caminho.

«Antigamente os Almocreves andavam era lá mais para além. De aldeia em aldeia. Unhais, Piódão, Fajão, Pampilhosa… Era por aí que eles andavam. Nas terras longínquas.», expressou o pastor com parcimónia, descrevendo os caminhos de Oeste que prosseguiam na direcção do tal terreiro rumo a nenhures.

Os olhos de Brown brilharam perante a derradeira descrição e a sua decisão fez-se instantânea. «A Rota dos Almocreves», pensou. Seguiu-se uma rápida descrição cartográfica e uma ainda mais breve despedida, perante saudosos gestos de parte a parte, e balidos e chocalhos de anúncios e de prenúncios. Apressou-se Brown a arrepiar passo, enveredando pelo improvável caminho de terra: toda uma nova serra se acamava aos seus olhos, de costas feitas ao topo da montanha, ao Vale Glaciar, à simpática sabedoria do pastor e, em última instância, às desengonças do decano cão, zelador-mor do sobrevivente rebanho. Brown optara pela circum-navegação nas brumas do território, seu toque de Midas, e todas as interdisciplinares missões que dessa permuta adviriam. Iniciou a descida num brusco improviso, por desabrida via, desfez um último olhar na direcção da pequena capela a estibordo, recordou o quadro que momentos antes vira no reflexo das águas da barragem – esses tais postais gerados pela magnificência do ausente, que espelham o observável, ilustram o visível e suscitam o indefectível – e gerou repentinas memórias fotográficas do que atrás recusara, exactamente antes de idear uma estrutura dos objectivos que fundamentavam a sua opção e de, com isso, lançar pela descida abaixo voláteis desejos em busca de um jusante perdido. A profecia do Farelos revelara-se sob a forma das palavras de um pastor, em abono do romantismo do improviso, e a rota tomada fazia agora mais sentido do que nunca.

O primeiro vestígio de civilização que alcançou no fundo da via foi, contudo, um inegável refutar da romântica teoria que se erguera e uma enorme, redonda decepção nos seus intentos. O pequeno caminho de terra pelo qual se decidira cedo desaguou numa tortuosa estrada de alcatrões e de buracos com curvas e contracurvas que cortavam ao meio as escarpas de pedra firme, até desaguar no resplandecente edifício de um hotel de luxo, de modernas estruturas e lotadas instalações. Sentiu por isso Brown, perante o decepcionante postal de entrada em Unhais da Serra, defraudados instantes. Pelo caminho passara próximo de uma outra barragem, esta de dimensões mais reduzidas, esculpida no recheio do majestoso maciço central da Serra da Estrela, e atravessara cerca de meia dezena de quilómetros envoltos em paisagens de diluente Natureza. Adensara-se o peso do semblante celestial mutante e ressentia-se o frio. Muito frio, finalmente; um frio que fazia estalar as gastas, enferrujadas articulações de Brown. Como técnica de resistência à ameaça climatérico-corporal, a caminhada fez-se em apressadas passadas largas e sob descortinares de aldeados horizontes e de recortadas cordilheiras. Fora recomendado pelo pastor um breve repouso na primeira localidade que iria encontrar: Unhais da Serra, prévia “Pérola da Beira”. Mas não seria o tipo de pérola encontrada o tesouro que Brown buscava. Durante a descida, movimento físico contraditório ao do seu espírito – que ascendia, vovente em altas estimas – recordou momentos da sua infância em Huron, South Dakota. Lembrou-se, essencialmente, dos seus sorrisos: fielmente comprometidos com a inocência da sua idade. De todos esses sorrisos que ao Mundo oferecera, a rodo do seu iniciado triciclo, enquanto atravessava os quarteirões da pequena localidade onde nascera, e também de todas essas tradições de campanhas de pesca com o seu pai, aos Domingos, que pelo Lake Byron cultivara. Recordou imagens da mãe enquanto esta, situada numa das margens do lago, habitualmente acenava felicidade na direcção do barco. Mudavam nos registos os vestidos de Verão por ela usados; mantinham-se as ternas expressões. Pai e mãe tinham descendências Irlandesas e Alemãs, respectivamente. Alexander Brown, seu pai, emigrara ainda criança da irlandesa cidade de Cork para Nova Iorque. Depois de uma década de trabalhos e educações pelos quarteirões de Hell’s Kitchen, os pais de Alexander decidiram investir as economias num negócio no South Dakota, um dos estados Norte-Americanos em maior ebulição imobiliária. Começaram por se estabelecer em Sioux Falls, a maior cidade do estado, mas passado um par de anos reinvestiram num terreno em Huron, jovem cidade que, como tantas outras no interior dos Estados Unidos da América, derivou das concentrações de trabalhos ferroviários de fins do século XIX. Tinha Alexander 17 anos quando se fixaram em Huron e era o mais velho de 4 irmãos. Com a mudança, o pai de Alexander dera-lhe a possibilidade de abrir o seu próprio negócio numa loja especialmente criada para o efeito (anexa à casa que de raiz fora construída) e o filho decidiu empregar tais esforços na criação de uma agência de publicidade. O negócio foi bem-sucedido, para a inovadora pequena empresa que era, e em poucos meses, pela crescente aposta de grandes empresas norte-americanas na reestruturação das suas sedes ao longo do estado de South Dakota, conseguiu estabelecer um par de elos comerciais que ainda hoje perduram. São dignas de registo as parcerias que vingaram no início da década de 80, grandes fatias do intemporal sucesso da empresa de Alexander Brown, tais como a umbilical relação com o estabelecimento da sede nacional de operações do Citibank para Sioux Falls e a privilegiada anexação aos governamentais investimentos publicitários na Base de Força Aérea de Ellsworth – a segunda maior empregadora estatal e responsável por cerca de 10 por cento dos volumes de negócios locais. Curiosamente, dois dos sectores com maiores responsabilidades na crise económica de 2008 – o crédito e o exército – cedo se assumiram para o negócio de Alexander como as suas duas principais fontes de rendimento. Como consequência, rapidamente começaram a aparecer apelativos outdoors pelas planícies e montanhas do estado e os muitos milhares de visitantes anuais do Monte Rushmore, das Black Hills e de Deadwood (respectivamente, a escultura dos rostos de pedra dos 4 icónicos presidentes norte-Americanos, as montanhas sagradas dos Sioux e um dos maiores exemplos de uma antiga localidade western, todos ex-libris turísticos situados a oeste de South Dakota) não tardaram a deparar-se com inovadoras técnicas publicitárias. O jovem Alexander conhecera Andy Warhol em Nova Iorque, por mera casualidade, pouco antes da mudança para South Dakota, e era um confesso seguidor do conceito de pop art que este introduzira. Poder-se-á afirmar, em tons metafóricos e hiperbólicos, que o estado de South Dakota sofreu duas grandes transformações visuais no passado recente – a tempestade de poeira (dust bowl) dos anos 30, que danificou a maioria das pradarias locais e o ciclone serigráfico de Alexander Brown dos anos 80 que renovou toda a estética regional. Em estreita colaboração com o histórico jornal local de Huron, o Plainsman, Alexander desenvolveu uma brilhante secção publicitária que logo foi copiada por todos os periódicos das cidades anexas, criou conceitos anuais para a promoção das mascotes de Huron – os Tigers – e concentrou os seus mais recentes anos num famoso rebranding da South Dakota State Fair em Huron, a mais popular do estado. Alexander Brown conseguiu sempre trilhar o seu próprio percurso na economia local, não obstante o seu confesso apoio à Democracia – Huron (e o próprio South Dakota) é uma das zonas Norte-Americanas com maior concentração de apoiantes Republicanos por metro quadrado -, facto que só pode ajudar a revelar a mestria de Alexander no ofício escolhido. A mãe de Barry, Katherina Hilligoss de nome de solteira, tinha descendências alemãs. O pai de Katherina (avô de Barry) era Australiano, já ele próprio descendente de alemães e radicado desde criança nos Estados Unidos dos anos 20, e a mãe de Katherina emigrara com os pais desde Hamburgo, no final dessa mesma década. Da união entre ambos nascera Katherina, em Huron, corria o ano de 1955. Katherina era a mais nova de um total de 3 irmãos; a única rapariga. Sempre fora por pais e irmãos protegida e, durante a tenra idade, nunca precisara de focar suas atenções nas periferias da privilegiada formatação escolar de que foi alvo. Candace Hilligoss, tia de Katherina pela parte do seu pai, ficou famosa por protagonizar um par de filmes de terror low budget que viraram culto entre os apreciadores do género: “Carnival of Souls” e “The Curse of The Living Corpse”. A coisa não foi muito bem aceite pela maioria da comunidade local, mas talvez tenha vindo de Candance a aptidão de Barry Brown para a representação. Bem mais popular foi Cheryl Ladd, nascida Cheryl Jean Stoppelmoor, também ela de raízes germânicas e eterna amiga de Katherina, desde os iniciais percursos escolares. Se Katherina foi desposada por Alexander Brown no início da década de 70, Cheryl a David Ladd deve o seu nome de casada: Cheryl era uma bonita actriz do teatro local que decidiu ir tentar a sua sorte em Hollywood. Lá conheceu David, um trintão actor de sucesso por quem se apaixonou e a quem deu uma filha, Jordan Ladd, nascida exactamente um ano após ter nascido Barry Brown (que nascera em 1974). Dois anos depois da gravidez, Cheryl conseguiu finalmente ascender ao estrelato sendo seleccionada para substituir a incontornável Farrah Fawcett-Majors na segunda temporada do megassucesso televisivo “Charlie’s Angels”. Foi enorme a euforia em Huron, celebrando o destaque da concidadã Cheryl e disso derivado um indescritível sentimento de orgulho que desde criança se habituou a acompanhar o quotidiano de Barry Brown. Recordou momentos de algumas dessas reuniões familiares em frente ao televisor para seguir as desventuras da amiga Cheryl a soldo de Charlie – o misterioso agente secreto que salvava Mundos através das perícias e das batutas da sensualidade feminina. Cheryl pertencia ao glorioso trio dos mais populares cidadãos oriundos de Huron: juntamente com Earl Caddock (famoso wrestler dos finais da primeira década do século XX) e Chic Sale (artista de cinema e da vaudeville Hollywoodiana nos anos 30). Como tal, não seria de admirar que as mais jovens crianças de Huron se habituassem a andar sobre as pisadas dos mais nobres representantes. Mas ao contrário de Barry, que desde logo vislumbrou uma paixão na representação, a maioria dos seus colegas ocupava o quotidiano dentro de improvisados ringues de descabeladas lutas. A única vez que Barry se aventurara para dentro de um desses ringues foi no dia do seu tímido 14º aniversário, por motivos de vingança passional; e o resultado não foi nada positivo, sem qualquer tipo de glória perante o grupo de jovens espectadores que não poupou desenfreadas vaias ao filho único de Alexander e Katherina Brown, esse respeitado casal que se conheceu na State Fair local de 1972 e que até hoje nunca mais se separou, marcando pelo caminho vincadas posições ideológicas e estéticas na região que nasceu assistindo aos maiores massacres das comunidades índias norte-americanas. Por volta de 1994, após o levantar do embargo ao Vietname por Bill Clinton decretado, Barry decidiu seguir as pisadas de Cheryl e rumar a Los Angeles para tentar a sua sorte no mundo dos sonhos. Não deixou de sonhar, em cada um dos trabalhos que lá teve: restaurantes, hotéis e até no balcão de uma bomba de gasolina. Contou pelos dedos as participações em curtas-metragens e apenas por uma vez entrou numa longa-metragem, realizada a part-time entre as folgas e os desvarios de um idealista emigrante austríaco que conhecera num desses trabalhos. Oitenta por cento desse filme passava-se nas ruas de Los Angeles, estilo cinema verité, percorrendo os sonhos e as frustrações de um grupo de artistas nas suas criativas lides diárias em busca de um qualquer sonho cultural indefinido. O filme mostrava alguns do mais alternativos autores do presente, pouco conhecidos na altura, tais como Beck Hansen, Elliot Smith, Andrée Singer Thompson, Carol Aust, Sam Beam, Ethan Miller, Ben Flashman e o então jovem Devendra Banhardt, entre outros. Em 1998 Bill Clinton decidiu levantar outro embargo (o da Monica Lewinski) e Brown, frustrado com as escassas oportunidades obtidas no meio cinematográfico, decidiu rumar à Europa. Desta feita o destino foi Hamburgo, para conhecer a história dos seus antepassados germânicos, e, apaixonando-se depois pela cena artística de Berlim, deixou-se por lá ficar. Participou num conjunto de projectos e acabou por conhecer Hubos, o realizador húngaro que lhe ofereceu a oportunidade de protagonizar um filme sobre a prisão de Szombathely. Foi com grande apreensão que os pais de Barry receberam a notícia do premeditado encarceramento e houve inclusivamente esforços do consulado Norte-Americano em Budapeste para a absolvição da sua pena. Depois disso foi a história que se conhece. E o rapaz que lhe deu uma sova no dia do seu 14º aniversário, naquele mal-amanhado ringue de wrestling de Huron, sentiu um enorme arrependimento quando viu no periódico Plainsman a imagem de Brown a levantar o prémio de Melhor Actor na gala da Berlinale em 2003. Para trás, em Los Angeles, ficou também a maior paixão humana da vida de Brown: Adriana Gomez, uma jovem mexicana que aos 2 anos de idade clandestinamente entrara nos Estados Unidos da América. Foi um breve, tórrido romance vivido por ambos; que acabara mal, com pancadaria e tudo. Os impulsos de Brown levaram-no, inclusive, a ser ameaçado com uma pistola à frente dos olhos, por um dos primos de Adriana, membro de um temível gangue local. Depois desse momento nunca mais a vira. E a fuga para a Europa também respondia, de certa forma, a esse apoteótico culminar passional. Posterior à participação no galardoado filme italiano, Il Deputato, Brown apaixonou-se novamente, por uma jovem curadora artística holandesa e mudou-se para Amesterdão. Viveu com ela durante 2 anos. Depois a coisa correu mal. E Brown arranjou o seu próprio loft no bairro De Baarsjes, na zona Oeste de Amesterdão. Desde então apenas regressou a Huron para celebrar as festividades natalícias de 2009; a primeira visita desde 2001, o ano em que as torres caíram.

Naquela descida rumo à “pérola da Beira”, Brown fez vir à memória a relação de amor-ódio que nutria pelo seu país natal. No entanto, mantinha-se como confesso admirador da série televisiva “Deadwood”, a produção western que, a espaços, lhe refrescava as ideias e as nostalgias que detinha sobre o estado em que ele, do outro lado do mundo, certo dia nascera.

Chegado a Unhais da Serra, tremenda decepção. Confrontado com um luxuoso hotel, pensou por momentos inverter a marcha e rumar novamente na direcção do topo da montanha. Depois avistou uma criança, correndo desenfreada junto a um pequeno ribeiro que por ali passava. A primeira que viu, em toda a odisseia. Caía o sol para trás das montanhas, antecipando o frio anoitecer que daí não tardaria, e Brown aproximou-se da criança. Era um jovem rapaz, que ocupava o seu final de tarde correndo nas margens do ribeiro à mesma velocidade com que um pequeno pato nas águas se deslocava. O rapaz estranhou a presença de Brown – o cansado aspecto deste vestia a forma de um agouro – e imobilizou-se no confronto visual. Brown, com extrema delicadeza e sem desviar o contacto visual ou pronunciar palavra que fosse, retirou um pequeno exemplar do interior da sua mochila e esboçou o gesto da oferta.

«Toma. Para ti.», reforçou Brown o gesto.

«O que é?» replicou o miúdo, a receio.

«Um Livro. Toma.»

O miúdo aproximou-se, aceitou o livro e preparou-se para desatar a correr na direcção contrária.

«Espera!» apelou Brown.

O miúdo parou e olhou na direcção do Americano novamente.

«Vives aqui?», perguntou o forasteiro.

O miúdo acenou afirmativamente com a cabeça.

«Sabes onde posso comer alguma coisa?»

O miúdo, estranhando a pergunta, limitou-se a apontar numa direcção e desatou a correr na direcção oposta. Brown ficou feliz por ter oferecido o primeiro exemplar da mágica obra de Fernando Pessoa, mas ficou desanimado porque o primeiro encontro com uma criança na sua odisseia não decorrera como imaginara – no próximo teria de conseguir absorver mais informação. Seguiu as indicações do miúdo, que apontara na direcção do centro da vila, e rumou em busca de mantimentos. Descobriu uma churrasqueira, bem central – Unhais era uma pequena vila preenchida por algumas casas revestidas a pedra e algumas outras mais modernas, que fazia da verdejante paisagem apensa e da sua socalcada inserção no sopé dos montes serranos o seu cartão-de-visita e a justiça da sua famosa alcunha – e lá lambeu os dedos depois de comer um saboroso frango assado. Conversou com o empregado sobre a sua travessia e os seus objectivos e este reforçou as palavras do pastor: Brown teria de seguir na direcção de Fajão, do Piódão e da Pampilhosa, as terras longínquas. O empregado ainda mencionou mais alguns nomes, que Brown não decorou por falta de prévia associação, e indicou o caminho a percorrer. Ficou-lhe na cabeça a descrição de umas antigas minas – as da Panasqueira -, e a vontade de visitá-las. O empregado ainda lhe ofereceu dormida, que foi prontamente recusada. Quando se preparava para sair da churrasqueira, deu entrada um vistoso casal estrangeiro, aparentemente já conhecido dos donos da casa. Tinham ar de soviéticos, de leste. E ela era provavelmente a mais bonita mulher que alguma vez Brown vira. Curtos cabelos loiros, com uma incomparável elegância e autênticas medidas de manequim. Seus olhos azuis, amendoados, fixaram Brown com uma altivez desarmante. No entanto, Brown não conseguiu desviar o olhar e a sorridente réplica da fêmea fê-lo sentir um agradável arrepio. O homem que a acompanhava vestia roupas caras e usava um enorme anel dourado. Foi cordial, para com os empregados e os donos da casa, que não tardaram em encaminhar o casal para uma das melhores mesas do espaço. Brown ficou hipnotizado com os movimentos da nórdica e o empregado sorriu perante o transe demonstrado. A loira sentou-se, virada na direcção de Brown sem nunca desgrudar o olhar, olhos nos olhos, entrecortada pela presença do acompanhante que se sentou imediatamente à sua frente. Sentiu-se uma plutónica química e um platónico desejo nos espelhos de olhares e de sorrisos entre Brown e a inesperada visitante – oriunda do Quirguistão, segundo o empregado, e por ali muito vista ultimamente; deveria viver ou ter casa de férias em alguma das aldeias conexas. Brown baixou ligeiramente o olhar, de alma cheia, e reparou na aliança que esta usava. Sentiu a atracção esmorecer e conformou-se, levantando-se e abandonando o local quase de pronto.

Quando Brown saiu da churrasqueira já era de noite e sentiu novo arrepio, desta feita vítima do frio. Não conseguia esquecer a beleza da escaldante mulher e lamentou ter-se dado tal cruzamento sob impossíveis circunstâncias – daria tudo por um breve contacto com ela; cheirar-lhe o pescoço, sentir a sua firmeza corporal, tocar-lhe os carnudos lábios. Apeteceu amá-la, suave e abruptamente. Inteirar-se do seu calor, difundir-se nos seus uterinos vapores. Seguia-se uma longa caminhada pela N230 – a estrada que liga a Beira Interior à Beira Litoral -, na direcção de Trigais, uma pequena aldeia no limite do concelho da Covilhã que serviria de primeiro posto às vicissitudes do pretenso Almocreve, localizada a caminho do Piódão: o primeiro destino da rota dos seus confrades. Seguia-se a sua primeira noite ao relento no núcleo duro das cordilheiras serranas. E seguia-se também, seguramente, a memorável perdura do belo rosto Quirguiz – a mais cintilante estrela de toda a serra lusitana.

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