O Almocreve, VII

IV

Deu por si Brown a chegar junto de um velho palacete, de enfraquecidas cores, no centro do nada exactamente colocado e de dura forma claustrofobicamente aprisionado por uma cerca de pontiagudas varas e de três dezenas de escanzelados pedintes, todos vítimas de uma incógnita peste mundana com origens em nostalgias de um apocalíptico futuro. Deixou-se envolver, ali naquele pórtico de acesso, com mistas sensações de repulsa e de toques de digestivas intempéries pelos sucessivos confrontos com acabrunhadas faces de uma revolta popular à beira da calamidade sanguinária, e foi-lhe impossível negar a vincada marcação dos ossos nos rostos, troncos e membros dos esfomeados plebeus, bem como a trintena multiplicação de dentes podres e de hálitos adversos que por sobre si inteiramente se manifestaram. Seria este o testemunho mais próximo de um cenário cáustico, em todo o absentismo da sua vida, e quando algum apanágio lhe foi finalmente reconhecido pelo cadete que sob ultras camadas de zelo geria a segurança do pórtico, necessitou de cerca de cinco minutos para recuperar-se à sôfrega experiência que imediatamente obtivera antes de consumada a entrada no palacete. Já na parte de dentro do palacete, permitiu-se a uma profunda respiração de intensas proporções, geometricamente dobrado sobre os seus joelhos, e nem o gesto de conforto que o cadete desfez sobre o seu costado o conseguiu restaurar perante o sacrifício. Sentiu vontade de vomitar mas deixou-se conter, somente por desvelo.

«Custa. Mas não nos resta senão que aceitá-lo.», confidenciou o cadete, entre dentes, versado Americano com sotaque do Oklahoma.

Brown respirou fundo mais quatro vezes, vulgo premeditada técnica de ansiolítico recobro, e finalmente se ergueu para encarar o cadete, que não lhe trouxe à memória nenhum outro do que Richard Hawley – o eterno crooner bonacheirão de Sheffield que com o aspecto de roqueiro sulista dos 60’s, baladas de amor tocadas a doze cordas, cabelo benzido a brilhantina, longas patilhas e grossa voz, conseguiu marcar um espaço próprio no panorama musical britânico; Brown era um grande fã do seu trabalho. «Não te faria maçon com esse estilo, por dizer.», pensou Brown à primeira impressão. Lá fora intensificavam-se os grunhidos do tumulto. O cadete fez sinal para que o Americano o seguisse e este, fugindo da ruidosa raiva que provinha do exterior, não se prestou a demoras. Atravessaram ambos um largo, escuro corredor ornamentado a velhos móveis e embalsamadas cabeças de javali penduradas pelas paredes – nada daquilo resistiria caso autorizassem a pequena multidão do exterior a percorrer tal espaço – até que deram entrada numa ainda mais obscura sala, iluminada a velas, passível berço de géneses e exorcismos. Por cada um dos cantos da sala estavam dispostos alguns homens, trajados a jeitos de sacerdote, que se encarregavam de balbuciar comendas diversas em língua Inglesa ao ritmo que abanavam pequenas lamparinas. Faziam-no a sequências alternadas e nenhum deles permitia o vislumbre de seus olhos – os capuzes que cobriam as suas cabeças ajudavam a conspirar nesse sentido. No centro da sala, sentados sobre cadeirões revestidos pelas regras e compassos dos enormes símbolos maçónicos, estavam três demarcados membros – quiçá grão-mestres ou pontífices da seita – que se apressaram a esboçar amarelados sorrisos na direcção de Brown. A estes poder-se-ia vislumbrar os destapados olhos, e pôde também Brown reparar nos estranhos penteados: todos eles remetiam para a semelhante imagética de Richard Hawley, esse rocker que surpreendentemente se assumia agora como o improvável conselheiro visual da seita maçon. «Os maçons da brilhantina.» Brown sabia que sua presença derivava de uma convocatória e que existia uma razão para ali estar naquele preciso momento – apenas não se recordava de qual. O cadete que lhe abrira as portas retirou-se atrás de si, deixando-o à mercê dos ritualistas e do receio que ocupava o seu espírito. Duvidou Brown, por instantes, se estaria mais seguro naquela sala de fumos e vapores, ou quando entregue lá fora aos rebeldes de outros fluidos e odores. O estremecer da porta que se cerrou nas suas costas coincidiu com o culminar das comendas proferidas pelos capatazes e com tudo isso ergueu-se a máxima instância, a do cadeirão do centro.

«Chegou o dia.», anunciou o supra-sumo, num sotaque sulista.

Era natural para Brown a inteligibilidade no seu idioma nativo. Não sentia que voltara à América, mas sim que nunca de lá partira.

«Procurámos-te por todo o lado.», prosseguiu o pontífice, erguendo a anelada mão direita ao mesmo tempo que discursava. O gesto teve sequência numa ligeira rotação do punho, terminando no sinalizar de apelo à aproximação. Brown reagiu de forma inconclusiva, dando uma breve passada a receio. Chegou próximo dos superiores.

«Sabias que iríamos atrás de ti.», expressou o supra-sumo, reflectindo a insuficiência de uns possíveis intentos de Brown. Este, por sua vez, esforçava-se para tentar decifrar a razão que o levara até tão perverso local. Sabia que, no fundo, existia um objectivo. Um propósito.

«Hoje é o dia.»

«De quê?», pensou Brown.

Um forte estrondo ressoou no exterior. A porta de entrada no palacete fora derrubada. As iradas vozes de destruição começaram a ecoar pelo sinistro corredor e até as cabeças de javalis pareceram relinchar. Os capatazes recomeçaram de imediato o ritual das comendas, profetizando imperceptíveis dípticos em descoordenadas vozes. Os três pontífices do centro da sala fixaram o olhar em Brown, com expressões de uma biótica ganância. Os ecos do exterior adensavam o volume.

«Hoje é o dia.», repetiu o supra-sumo, elevando o tom.

«Dia de quê?», questionou Brown com um crescente medo surfando pelos decibéis das ondas da sua voz a fora.

O chão começou a tremer, com intensidade. O fogo que emanava das velas começou a dispersar pelos cantos da sala, alastrando-se às vestes dos capatazes. Tudo cresceu, com a ardência.

«Hoje é o dia.», concluiu de forma relaxada o supra-sumo, definindo uma sentença incompreendida. Tudo tremeu.

«O dia de quê?!», gritou Brown, explodindo no conflito que debatia com a sua própria memória. Qual seria esse motivo, que se lhe escapava na ponta da língua, código para o decifrar da sinistra inquietação que o rodeava?

Seria este o apocalipse? O adensar do fogo, dos gritos de revolta, das profecias, de forma uníssona e impiedosa, faziam crer que sim. Desabaram as paredes, irromperam os tumultos. Arderam os vestígios. Brown deixou-se levar. Sentiu-se cair, a bordo de uma interminável queda. Como as dos sonhos, de frisson na barriga, até ao fim do mundo. Tudo morreu.

Quando recuperou a consciência estava deitado numa pequena embarcação, flutuando sobre o oceano. O fulgor da queda dera espaço à calmaria de uma solarenga tarde de deriva, algures longe de tudo menos da imensidão de água que o rodeava. Sentou-se no centro da embarcação, pouco mais comprida do que ele, e ofereceu-se à náusea que o assolava. Debruçou-se rapidamente para dar vazão ao acumular da alucinante viagem que o perseguira e pôde finalmente vomitar todos os odores e dissabores que sentira desde a entrada no palacete ao período da sua morte. Lavou a boca na calmaria de água salgada que o suportava, com um sucinto bochechar, e olhou na direcção do sol. Que forte e limpo estava o sol nesse dia. Um sol de verão. Fez um ligeiro flashback por tudo aquilo que passara nas últimas horas (questionando quantas delas teriam passado desde que naquela obscura sala de perversos ritos e rituais estivera) e chegou à conclusão de que morrera. Tentou entender o porquê de tal acontecimento e, acima de tudo, quem de todos o matara. Teriam sido os plebeus? Essas pobres almas cujos destinos de vida permaneciam nas bases das suas revoltas? Ou os membros da roqueira seita maçon, decisores dos destinos dos ricos e dos pobres e, por essa razão que ainda não conseguira recordar, os responsáveis pela convocatória dos seus serviços? Ou teria sido mera catástrofe natural, de chãos tremidos e tectos caídos, que seu dorido corpo levara, deixando-o a vagabundear pelas celestiais marés até à eternidade dos dias do seu espírito? Seria este o seu purgatório? O abundar de idílicos horizontes sem ilhas de objectivos e de motivações até ao longínquo extremo do seu infinito? E o anunciado calor, esse, em forma de sol e não de fogo? Teria tudo que ser bonito, mas entediante e indolor neste purgatório dos esquecidos que o assombraria até ao fim do sempre? Seria esse o propósito da coisa, deixá-lo entregue a si próprio e aos seus pensamentos até que certo dia conseguisse descobrir o porquê da sua visita ao palacete maçon e o significado do dia do incaracterístico juízo final? Todos estes pensamentos o perseguiam naquela deriva quando, de súbito, uma outra embarcação se aproximou envergando velas de ténues e pacifistas melodias. Era o barco dos sinos quebrados, o Broken Bells, pregando o tema “Sailing to Nowehere” aos sete mares; piratas contemporâneos de uma harmonia guiada pelas notas vocais de James Mercer e pelos acordes de Brian Burton (o rato perigoso), respectivos comandante e capitão da improvisada jangada, navegada por obra das pontuais incursões de um pequeno coro e de um tímido quarteto de cordas pela sobranceria de uma proa que perseguia fantasmas e tesouros do passado. Brown limitou-se a apreciar a plenitude dos sabores sonoros que a vizinha jangada emanava, deliciando-se com a altivez do registo. Sentiu-se dentro de um filme realizado em parcerias do Fellini com o Woody Allen ou do Lynch com o Terry Gilliam, e concluiu que a morte é cheia de surpresas. Depois a orquestra soprou de vez, numa bela melodia em crescendo, e a jangada zarpou para longe. Brown tardou em baixar a mão do aceno de despedida, sentindo parte de si ir-se na orquestral busca de todos esses tesouros que o ritmo da jangada perseguia. Quando esta desapareceu no horizonte, Brown ficou de novo abandonado aos seus próprios pensamentos, restando apenas o balancear desses escombros musicais que momentos antes experienciara na profundeza das suas reflexões. O contributo divino, de superiores seres em busca de um subtil perfeccionismo emocional, sob peles de dançantes e sorridentes corpos, bebedores dos elixires extraídos das canas dos açúcares caribenhos, símbolos da imensidão azul que nos dá vida e donos desse paraíso longínquo, inatingível ao comum do humano que concorda com o malogrado dom do mortal comodismo. Concluiu que a arte perdura e que não há morte que a separe. Depois disso avistou costa: um ilhéu de grandes proporções, perdido no meio da vastidão. Brown meteu os braços na água e esforçou-se por direccionar a embarcação rumo à ilha, remando de todas as possíveis e imaginárias formas. Rapidamente se aproximou.

Quando desembarcou pôde reparar num alinhado conjunto de estátuas, gigantes monólitos de pedra com formas humanas, cujas faces voltadas para o oceano revelavam uma ébria preocupação dos seus ancestrais construtores para com todos os misteriosos padrões da mitologia marinha. Prontamente reconheceu a obra – os Moais, estátuas dos Rapa Nui que se tornaram célebres na Easter Island. Mas vislumbrou diferenças, quando perto: cada qual fazia-se acompanhar de uma estrutura repleta de decapitadas cabeças de macaco, rachadas a meio pelo que aparentavam ter sido golpes de machadadas. Ambas obras de mão humana, portanto. Permitiu-se apreciar a grandeza das estátuas ao mesmo tempo que repudiava a nojice deixada pelos vestígios de macacos e tentou recapitular tudo o que acontecera até à data da sua morte, procurando explicações para o limbo que ali vivia. Num ápice a praia encheu-se de policiais com uniformes dos anos 20, exímios investigadores de um inconcludente crime que, em sexto sentido, parecia de alguma forma familiar ao léxico de Brown. Forçou a concentração, procurando respostas para as suas próprias incertezas. Mas só encontrou mais questões. Até que um inspector de imenso bigode se evidenciou perante as dezenas de agentes e, com um ar apreensivo, se decidiu aproximar de Brown.

«Não estamos nós fartos de mistérios?», deixou o inspector fluir tal questão no nativo idioma de Brown por todo o comprimento da praia. «Chegou mais cedo do que esperávamos, ainda assim.», concluiu, enquanto o observava de cima a baixo. Brown ficou confuso, procurando compreender os ingredientes que temperavam a sua morte.

«Fora-me dito que chegaria pelo raiar do novo sol. Tratei de chamar toda a equipa que tinha disponível. Há muito tempo que aguardávamos a sua chegada.», prosseguiu o inspector, de rechonchuda cara e simpáticos gestos. Era fácil criar empatias com tal sujeito.

«Fora-lhe dito… por quem?», levantou Brown o semblante, procurando obter a primeira das respostas que de si privava.

«Não esperamos de ti perguntas, senão respostas. Viéssemos também nós do futuro…», reforçou-se o inspector com um sorriso.

«Eu vim do futuro?», pensou Brown, desta feita remetendo a questão à sua interna voz.

«Foi-nos comunicado pela Grande Loja que chegaria hoje. Com os dados que precisamos.»

«O que não domina esta gente. Que mundo nos sobra, afinal, se lidamos com comunicações inter espácio-temporais?», reconheceu Brown nas palavras do inspector a supremacia maçónica nas sociedades contemporâneas, em novo monólogo interior.

«Você viu o que aconteceu, certo?»

«Referir-se-ia ele ao dia do juízo final, esse da minha morte no palacete maçon?», intrigou-se Brown com nova sequência de reflexões.

«Pois a salvação está por aqui algures, nestes mausoléus.», explicou o inspector, apontando na direcção dos misteriosos Moais. «Contamos consigo para descobri-la.»

Brown sentiu todo o peso do mundo cair-lhe sobre as mãos, enquanto se esforçava por soltar uma palavra que fosse. Que procurariam eles na sua pessoa, sendo tal coisa de inalcançável resposta? Que confianças depositavam eles na sua interacção, de forma a que com isso se pudesse salvar ou impedir uma calamidade futura que, por sua vez, se remeteria aos descendentes destas gentes? Fora ele que morrera, não os outros. Bastaria de cantigas sobre viagens no tempo. Seria ele a precisar de respostas, não os outros. Inconformado, olhou na direcção das estátuas e desgostou-se de novo com a chacina dos primatas. No fundo sabia que sabia o que todos precisariam de saber. Tal ciência prosseguia-lhe na ponta da língua, sem dar sinais de benefício. Sentia conforto por saber que sabia tudo o que de cognitivo necessitava neste enigma – uma inteligibilidade transcendente confortava-o. Ainda que para isso tivesse de menosprezar o seu status quo, dependeria a sua reincarnação dessa trave mestra. Era um crónico dado comum, o da relação entre os Moais e o apocalipse. Tudo estava ligado. Tudo está ligado. A imanência do céu sobre a terra e a retoma desta sobre o céu. É uma interminável relação de causas e efeitos sobre mais causas e efeitos. As matemáticas, as ciências e os abstraccionismos da metafísica. Tudo está ligado, por invisíveis cordas e demarcados acórdãos entre a Humanidade e o divino. Depois ergueu-se nos céus a imagem da Quirguiz com que se cruzara em Unhais da Serra, deitada sobre a sua própria masturbação, e tudo ficou ainda mais ligado. Antes que voltasse a si, sentiu o despontar do sol queimar seus olhos e acordou. Acabara de nascer o dia e descobriu-se desperto, junto à interminável estrada que o levaria até Trigais. Tudo não passara de um sonho. Um estranho e vertiginoso sonho.

Passara poucos metros após a intersecção da N230 com a M510, esse ligeiro troço de alcatrão que converge na direcção da Erada, quando Brown sentiu o pesar do cansaço insurgir-se sobre o seu fustigado corpo. Não distava ainda nem uma mão cheia de quilómetros desde que naquela churrasqueira de Unhais se cruzara com a mais bela e sedutora mulher que alguma vez vira e o reconforto das agradáveis palpitações com que seu coração se manifestava, ora pelas memórias da estética da Quirguiz ora pelo adensar da operacional mecânica do seu sistema digestivo, fez com que decidisse sair da estrada e recostar-se junto a um pequeno abrigo de pastor que por ali encontrou. Nada de grandioso: mero conjunto natural de 3 pedras desprovidas de qualquer significância que não a de suas implícitas resistências. Verdadeira fortaleza, altamente funcional. O seu ritmo cardíaco contrastava também, naquela altura, com o ríspido frio que imperava e, sentindo-se numa plena encruzilhada de pulsares entre o descoordenado cansaço, o incontrolável desejo e a ferrugenta digestão que o dominavam, alojara-se mesmo ali. Naquelas circunstâncias, um protegido sono não tem preço. Brevemente viria a neve e aí as coisas apertariam com a devida seriedade. No entanto foi com olhos de quem vê água no meio de um deserto que Brown viu aquele que seria o seu bastião por uma noite. Foi também com olhos de quem não tem olhar para mais que não seja a formosura da majestosa Quirguiz que Brown se deixou levar pelas soporíferas brisas a rodo de um destino de reconversões físicas e psicológicas. Nunca imaginou ele que seu improvisado abrigo o protegesse de tudo menos de um surreal sonho de fugas aos recônditos da criação e da destruição humana. Acordou como adormeceu, com o rosto da Quirguiz em mente, e o frio espairecera com a propagação dos matinais raios solares. Recordou a sua adolescência e as características, fugazes memórias dos sonhos húmidos com origens em visões mais inocentes do que naquela que breves segundos antes do despertar experienciara. Sentiu uma enorme vontade de amar e de sentir-se amado, sempre com a Quirguiz no outro eixo da comunicação, e deixou-se espreguiçar ainda deitado como se com isso conseguisse projectar seu desejo de contacto sexual ao vazio da atmosfera que o circundava dentro daquele pequeno reduto natural. Sua primeira noite ao relento enaltecera seu instinto animal e suas aspirações sexuais propagavam-se pelos sensoriais nervos a pujantes ritmos. Levantou-se, decidido, e enfrentou o que restava de estrada até Trigais.

Foram cerca de 15 quilómetros de estrada sem grande assunto humano. As paisagens eram interessantes, mas longe do melhor que a Serra teria para oferecer. A vegetação não abundou em todo o caminho e Brown não hesitou em furtar meia-dúzia de frutos quando avistou um conjunto de brotáveis pereiras num pequeno terreno privado a poucos metros da estrada. Comeu duas, como pequeno-almoço. E alguns quilómetros depois, já mais próximo de Trigais, comeu duas mais. Estas, já como seu almoço. Todo o restante caminho serviu para adensar o cansaço e a sua vontade de chegar ao destino que escolhera. Não trocara palavra com ser humano que fosse, durante todo o trajecto e ainda se exaltara com um carro guiado por 3 jovens alimentados a estupidez que acharam piada à propositada, ruidosa razia que desenharam sobre o desamparado caminhante. A estrada continha um tráfego reduzido. «Os camelos do deserto serrano», retinha como imagem de cada carro que passava e sentiu-se uma espécie de Lawrence da Serra. O sol pautou a travessia, mas sem o imperialismo que se lhe reconhece – o inverno amadurecera quase todo o seu potencial. Quando estava quase a dar entrada no cruzamento com a Rua Principal Carlos Pinto – a rua que daria acesso a Trigais –, o último cruzamento antes da N230 sair do concelho covilhanense e de se intrometer na Beira Alta, Brown estranhou a passagem de cerca de uma dezena de camiões de largas escalas e volumes, monocromáticos e organizadamente seguidos uns pelos outros. Indagou na presença de tal estirpe pelas paisagens envoltas: recordaram-lhe imagens do estereótipo de uma marcha militar ou de um qualquer segredo de estado ao estilo da Area 51. Quando estes desapareceram no horizonte, saindo de cena pelas escarpas da Beira Alta (que estavam mesmo ali à mão de semear), Brown retomou o foco na pequena aldeia de Trigais. Passava pouco da hora de almoço local quando Brown entrou na aldeia. À excepção de uma senhora de meia-idade que estendia a roupa num pedaço de corda artesanal e estrategicamente colocado diante daquela que deveria ser a sua casa, nenhuma outra alma se avistava no raio do olhar. Brown aproximou-se.

«Olá.», esforçando-se por se fazer notar.

A senhora, sem interromper a acção, desfez um brevíssimo olhar na direcção do forasteiro. Sorriu, de forma tímida, e retomou a concentração na roupa que pendurava sobre a corda, predominantemente branca tal como a cor das poucas casas que faziam a aldeia. Um conjunto de casarios perdidos no meio do tempo e da declivada paisagem.

«Onde está toda a gente?», questionou o Americano, de regresso aos óbvios estrangeirismos.

«Qual gente?», respondeu a senhora num cerrado sotaque serrano.

«A gente.»

«Os poucos que cá estão, dormem nestas horas. Os outros não estão cá.»

«E as crianças?»

A senhora expressou uma inquietante tristeza, perante a questão. Brown sentiu um envergonhado remorso, retirando a questão do panorama com o esboço de um gesto.

«São duas e estão na escola.», respondeu de forma apressada e fugidia a senhora.

«Onde é a escola?» prosseguiu Brown com a sua intriga natural.

«Do sítio de onde veio.»

Brown olhou para trás, tentando entender como percebera a senhora de onde viera – nem ele o sabia exactamente.

«Em Unhais. Foi de lá que veio, não foi?»

Brown confirmou, com um aceno.

«Dantes havia cá uma escola, mas hoje já não compensa. Se não há cá crianças, porque é que haveria de existir uma escola?»

A senhora, parecendo querer soltar uma lágrima, recolheu o cesto da roupa que estava agora já vazio e apressou-se para o interior de casa. Brown tentou interceptá-la com uma nova questão.

«A que horas chegam eles da escola?»

A senhora fez uma pausa e fitou-o com um ar muito sério. Moldou a tristeza que momentos antes apresentara, agora em forma de tons irados.

«Olhe, não sei quem é nem o que o senhor quer. Mas não ande por aí a perguntar por crianças, que não parece bem.»

Brown sentiu-se incompreendido e ultrajado.

«Não. Não é nada do que possa parecer. Sou actor e ando a estudar esta região para o meu próximo filme. Vou fazer de almocreve.». Nunca ele pensara ser tão sincero sobre a sua pessoa e sobre a sua ocupação com alguém, mas a circunstância assim o obrigara.

«Ainda assim.», respondeu a senhora com um travo muito amargo. De forma gélida, mais fria do que toda a serra que a rodeava, entrou em casa. Brown ficou desamparado no meio da principal rua da aldeia, tão perdido no tempo como a terra que o recebera.

Desiludido, continuou a caminhar pela ruela. Encontrou um pequeno café, de porta aberta: seria aquele, muito provavelmente, o único estabelecimento comercial que restaria na terra dos trigueiros. Lá dentro estava sentado o proprietário, com os olhos postos na televisão. O assunto era uma telenovela de colonos e de escravos revolucionários, de grandes produções. Brown não conseguiu decifrar se o sotaque seria Português de Portugal ou do Brasil. Mas inclinou-se para a influência brasileira, pelo falar e pela produção.

«Isto é sempre assim tão calmo?», confrontou Brown o proprietário com um trejeito ainda magoado da afronta que vivera segundos antes.

O proprietário, de palito no canto na boca, nem reparara que Brown entrara, de tão concentrado que estava na narrativa novelística.

«Peço desculpa.», levantou-se em esforço. Foi audível o estalar de grande percentagem dos seus ossos, com o brusco movimento de moderada erupção. Queixou-se, com um ligeiro aforismo, e deslocou-se para o interior do balcão. Concluiu o coordenado movimento em beleza com um «Deseja tomar algo, amigo?», como se de um decorado e ferrugento guião se tratasse.

«Sim. A melhor cerveja que tiver.» expressou Brown com um gozo tremendo.

«Cerveja não falta, caro amigo.» sorriu o proprietário imediatamente antes de se baixar para retirar uma fresquinha do interior do frigorífico de metal. Tudo isto continuava a parecer parte do mesmo guião – o habitual guião que acompanhava o quotidiano daquele simpático senhor. Sempre que podia, lançava olhares na direcção da televisão e dos conflitos coloniais. Sempre que se mexia, estalavam novos ossos. Ou talvez os mesmos. Tudo aquilo era já mecânico. Serviu a cerveja. Brown bebeu metade logo no primeiro trago.

«É boa, sim. Obrigado.» agradeceu de seguida com um sorriso.

«Eu disse. Cerveja aqui não falta. E sempre boa, fresquinha. É difícil encontrar cerveja assim por estas bandas.» prosseguiu o proprietário em venerações ao seu espaço.

«Não duvido.»

O proprietário bateu na parte superior do frigorífico de metal como quem testa a chapa de um Ferrari.

«Veio da Suiça. Nada é por acaso.» concluiu, desvendando o segredo da frescura da cerveja.

«Viveu lá?»

«Eu não. O meu irmão é que vive. Em Zurique. Eu não saio daqui. Depois da guerra ainda estive um ano em Lyon e depois trabalhei uns anos na Covilhã, mas aquilo não é para mim.»

«Guerra?»

«Guiné, de 70 a 72. Ultramar, meu amigo.»

Brown interiorizou com um novo trago de cerveja. Percebeu que provavelmente a atenção que o proprietário denotava na colonial novela seria uma reflexiva jornada às suas memórias.

«Chegaram a estar aqui dentro deste café 200 pessoas. Hoje nem que se juntassem todas as madres Teresas das aldeias aqui à volta que eu conseguia meter aqui tanta gente…», desabafou o proprietário em sequência.

«Quantos cá vivem, hoje em dia?»

«Oh. Nem 100 somos. Nem metade disso. E tudo velhos. Os poucos jovens que cá se aguentavam emigraram nos últimos anos. Este país está podre, ressequido. E atenção que só vai piorar.»

Brown terminou a sua cerveja.

«Vai outra?»

Brown concordou. O proprietário retirou e serviu nova cerveja, ainda mais fresca que a anterior.

«E você? A que se deve a sua visita?»

«Passo em trabalho.»

O proprietário manteve-se em silêncio, aguardando novos desenvolvimentos com o olhar.

«Sou almocreve.»

Continuou o silêncio. O proprietário parou, por segundos, de triturar o palito. Brown fixou-o, muito sério.

«Venho entregar uns livros às crianças desta região.», explicou.

O proprietário soltou uma gargalhada. Brown não gostou, temendo ineficácia na sua performance.

«Peço desculpa.», lamentou-se o proprietário. «Pensei, por momentos, que trabalhasse nas minas. Ou que fosse dessa malta dos camiões. Por vezes eles passam por aqui.»

Brown perpetuou a sua seriedade, em silêncio.

«Mas isso são os Russos e os Romenos. Deduzi que não fosse desses. Mas um almocreve? Ora esta está boa… Sabe qual a última vez que por aqui passou um almocreve? Ainda me lembro do dia como se fosse hoje. Toda a gente ali no adro, a despedir-se dele. Nós aqui gostávamos muito dos almocreves, gente de bem. Por bem vinham e a bem saíam. Mas isto, digo, os últimos há já uns 30 anos. Desde então…».

O proprietário retirou nova cerveja, saudavelmente ainda mais fresca que as prévias.

«Pegue lá outra, caro amigo. Por conta da casa. Bons olhos vejam novo almocreve por estas bandas. Mas o senhor disse, que vem para dar uns livros às crianças? Isso também era dantes, hoje já por cá não há crianças…»

«Foi-me dito que haviam cá duas. É por elas que cá venho. Só aguardo até que elas voltem da escola, lá de Unhais.», aproveitou Brown a deixa, reforçando a sua prestação.

O proprietário fez um breve silêncio, estranhando a afirmação.

«Está bem informado. É verdade que só temos cá duas. E que estão na escola. Em Unhais, sim. São os filhos do Paulo e da Margarida. O único casal jovem que se manteve por cá, quando todos os seus amigos optaram por ir para fora. Para a costa, para a Suiça, para Lisboa… Saiu tudo.»

«Pois são exactamente esses que aguardo.», manteve Brown o seu registo sério.

«Muito bem. Devem chegar lá pelo final da tarde. Quando a carrinha os trouxer. Então mas trabalha para quem? Lá para o pessoal da Covilhã, é?»

Perante a negação de Brown, o proprietário aproveitou os minutos seguintes para descrever «o Pêro da Covilhã, um homem que foi a pé até à Índia, antes de sabermos sequer lá chegar de barco. E de Belmonte, que também é aqui perto, saiu o Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil. Isto é região de gente de fibra. Mas saem daqui, chegam longe e esquecem-se disto. Somos o trigo que fica por colher e que morre quando caem as geadas do Inverno.». De seguida silenciou-se e retirou uma cerveja para si próprio. Propôs um brinde ao almocreve e celebraram ambos o momento com um delicioso trago.

«Falou em Russos. Vivem por aqui?» questionou Brown, intrigado, com a quirquiz na memória.

«Aqui não. Vivem lá mais para cima. Piódão, Fajão, Pampilhosa. Por aí. Nas minas, os que lá trabalham. Andam espalhados por aí. Mas diz-se que trabalham todos para a mesma gente. E, cá para nós, acho que é melhor nem os questionarmos muito. Não trazem boas vibrações, desses lados… Não trabalha para eles, pois não?» procurou desculpar-se o proprietário com um traço de humor, receando ter dito coisas que não devia.

«Não.»

«Nem anda a investigá-los, pois não? É que anda aí tanta coisa da ASAE, que nunca se sabe quem é que veste as capas…»

«Também não.»

O proprietário demonstrou alívio, com uma descontracção corporal.

«Só ainda não me disse o seu nome.»

«Barry. Barry Brown.». O Americano esticou a mão, para cumprimento. O proprietário retribuiu o gesto.

«Inglês?»

«Americano.»

«Fala bem Português. Eu sou o Jorge. Por aqui chamam-me Jójó.»

Ambos foram cordiais, na apresentação.

«Nunca pensei voltar a ver um almocreve por estas bandas. Ora esta, hem? Muito menos um almocreve Americano.», soltou nova gargalhada para conclusão da afirmação.

Brown também nunca pensara ver uma tão bela mulher por aquelas bandas. A Quirguiz não lhe saía do pensamento. Achava que, de certa forma, ele e o Jójó estavam quites. O sentimento era recíproco. Era fácil contextualizar-se no meio, por ali. Nada que uma encenação não facultasse. Um bom actor é bom tudo, sabia-o Brown: bom político, bom ladrão, bom líder, bom mentiroso.

Horas mais tarde, duas chouriças comidas em pão caseiro, uns pires de presunto e uma dezena de cervejas a mais, todas estas já partilhadas com alguns dos restantes habitantes da aldeia que entretanto acordaram e afluíram ao café do Jójó, chegaria à aldeia a carrinha que distribuía as crianças da escola de Unhais pelas ramificadas terras. Nesta altura já todos os habitantes que estavam a par compactuavam com a missão de Brown. Um deles, o velho Manel, estava sentado junto à porta do café com o olhar perdido no cruzamento de acesso à aldeia, para se permitir anunciar em primeiríssima mão a chegada da aguardada carrinha. Tal aconteceu com euforia. Foi o momento alto da Trigais dos últimos anos para todos aqueles que rejubilaram no café com a presença do almocreve. A chegada das crianças à aldeia coincidiu com uma debandada do café nas suas direcções. Brown liderava o molhe, com a sua mochila às costas, carregada de livros. A senhora que horas antes o espantara observava do interior da sua janela com desdém. Nada disso desconcentrou Brown, que tinha agora uma pequena multidão à sua mercê. O sorriso dos habitantes de Trigais não teve preço, naquele fim de tarde inesperado. A oferenda dos livros de Pessoa obteve um breve testemunho das duas crianças sobre a temática em que se debruçavam nos últimos dias – aproximavam-se as janeiras, um cântico tradicional local, e a coreografia com que visitariam o conjunto de aldeias da ramificação estava a ser minuciosamente estruturada. A pedido do Jójó fizeram um pequeno ensaio, para apreciação do almocreve. Toda a gente rejubilou, à excepção da senhora que, ainda do interior da sua janela, soltou uma lágrima imediatamente antes de desaparecer atrás das cortinas. Brown reparou e considerou que talvez aquela senhora tivesse sabido o que seria perder um filho ou, então, que a mesma nunca aceitara a partida de um seu rebento. A mágoa escondia-se na face daquele povo com igual tenacidade com que expelem sorrisos dos mesmos rostos. Nenhum outro termo assentava tão bem na caracterização daquelas terras e daquelas gentes: bipolares. Extremamente frágeis e incansavelmente resistentes. Vinhetas que sobreviviam da agricultura de subsistência, da pastorícia, da apicultura e da silvicultura, todas à beira de uma fulminante extinção. Os revoltosos do sonho daquela mesma manhã eram os que agora sorriam – ambos findavam o mundo nas suas próprias maneiras; com exultes e exalto. Brown agradeceu a hospitalidade e prosseguiu caminho, com as imagens da felicidade das crianças perante a alaranjada capa da “Mensagem” e com a satisfação dos habitantes que se tardaram em despedidas à porta do café do Jójó, traduzindo-se o imprevisto contributo do almocreve, viajante de matérias e de espírito, para com a terra e com as gentes de Trigais. Seguia-se nova travessia de cerca de 20 quilómetros sobre montes até ao Piódão, e a segunda noite ao relento. Trouxera com ele um pouco de pão, para o jantar, e a barriga cheia de cerveja e de calor para a gélida noite que caíra. Naquele dia sentia-se capaz de tudo.

A segunda noite dormida na rua foi bem mais dura que a primeira, independentemente do surreal sonho que na véspera o apoquentara. O frio instalara-se até no mais recôndito dos ossos de Brown e adormecer tornou-se na mais árdua das suas tarefas. Tornou-se tão constante a friorenta tremida que a dúzia de cervejas que bebera durante a tarde no café do Jójó ameaçou cair no limiar da indigestão nervosa. Saíra de Trigais na direcção oposta à de onde entrara, por um caminho de terra que o velho Manel lhe indicara para intuitos de atalho e havia já caminhado alguns quilómetros quando, debaixo de um castanheiro algures no meio da Serra do Açor, decidira rebater o seu nomadismo. Felizmente não chovera e as negativas previsões do pastor ficaram-se pelo topo da montanha; foi bom Brown tê-las evitado. Decidira-se por caminhos do antigamente, sem quaisquer tipos de sinalização outra que não fosse a dos ensinamentos do velho Manel – de noite, seguir sempre com a estrela polar no alinhamento do ombro direito; de dia, na orla da linha do percurso solar. Pareceu fácil, quando dito pelo Manel, com todo o peso de tanta cerveja. Mas uma vez no meio da escuridão e do mato selvagem, tudo se complicou. Por todas essas razões (as de desnorte, as de receio e as de reacções climatéricas), a segunda noite foi uma infernal experiência de frigoríficas propensões. Sentiu ali, no mais improvável dos meios, a sua maior devoção espiritual – a sua fé tinha um rosto feminino, imensamente belo, relutantemente familiar. Alguns ruídos do microcosmos que o rodeavam levaram-no a optar por medidas defensivas e, rendido à incapacidade de dormência, ateou uma fogueira. Conseguidas as chamas, sentiu novamente o calor da Quirguiz na imanência do conforto. Apaixonara-se com a força de um relâmpago. Comeu parte do pão caseiro que consigo trouxera e, aconchegando as artérias, as energias e o estômago, encostou-se e descansou. Quando passadas umas horas se levantou, ainda de noite mas já perto do nascimento solar, percebeu que nada dormira. Precisava de seguir viagem e de alcançar o devido repouso em Piódão. Soube-se fraco, perante o legado dos almocreves. Sucumbira na primeira adversidade séria. Depois nasceu o sol e subiu e desceu montes. Entrava na tipologia serrana da interminável travessia, cujas paisagens não declaram mais do que acervos e declives. Sem sinal de povoações, ou qualquer outro tipo de progresso civilizacional. Percebeu que atravessava alguns dos mais intocáveis e intocados sítios do testemunho humano e ora se alegrava pela especialidade de tal impressão, ora desanimava pela ausência de todas as outras impressões. Ele, que tanto criticava a pegada ambiental humana, ali desesperou por viver outros impactos. Seguiu a trilha do sol, deixando para trás a sua sombra e quando finalmente chegou a Chãs de Égua, descendo a encosta por uma ziguezagueada estrada – a primeira alcatroada que encontrara desde que para trás deixara Trigais – pôde por momentos conviver e abastecer-se com os locais. Saciou o organismo e o espírito. Chãs de Égua era um cenário peculiar, pontificado por artesanais pontes sobre os ribeiros que atravessavam o aglomerado de casas. Uma dessas pontes era uma autêntica construção ao melhor estilo de um set das aventuras e desventuras do Indiana Jones. O resto parecia o Shire, o refúgio dos Hobbits na incrível obra do Tolkien, magistralmente reproduzida nos ensaios visuais da trilogia de Peter Jackson. Mas um Shire de xisto. Tal ensaio visual fê-lo acreditar na existência de crianças naquela que era a localidade mais pequena e mais bonita que encontrara desde que iniciara o seu périplo. O que se veio a comprovar quando conheceu o Emídio, o único habitante de Chãs de Égua abaixo da faixa etária dos 18 anos. Tinha 12 e o segundo membro mais novo da tribo local era o seu irmão, o Xico, com 18 feitos recentemente. Depois do Xico só havia o Rui, seu tio, com 29. Todo o resto da parca população tinha acima dos 35. Os pais de Emídio decidiram que seus filhos não iriam fazer 30 quilómetros diários, entre serras, para frequentar uma escola – fosse ela qual fosse. Ainda que tal fosse ilegal. Mas precisamente por isso, o Xico e o Emídio tiveram uma aldeia inteira a conspirar em seus abonos desde que nasceram, e a educação obtida era, na falta de melhores palavras, concentrada. Brown quis crer que daí adviesse o fantástico cenário que caracterizava a localidade. Parecia um pedaço de terra e de confluências naturais em função de uma construção idílica, corajosa e sonhadora. Não seria difícil para os miúdos, com tal quadro, imaginarem-se no protagonismo das mais sensacionais aventuras que possam existir num longínquo mundo literário. Tudo ali parecia propositado, em função da irreverência juvenil. O próprio Brown pôde sentir-se parte de algo. E não era pela ausência de escolaridade que os rapazes tinham menos faculdades. Liam e escreviam melhor que muitos. Autênticos comerciantes quando tocava a contabilidades. Orgulhoso, Brown ofereceu um exemplar a cada um dos miúdos e despediu-se daquelas gentes com o coração cheio. Ganhou embalagem para o resto da caminhada até ao Piódão e sentiu vontade de voltar ainda antes de partir. Já faltava pouco, apenas um par de quilómetros que se traduziam num derradeiro monte por atravessar. Tinha sido um bom dia, principalmente desde que convivera com o Xico e com o Emídio: ali encontrara, provavelmente, os dois rapazes mais puramente felizes que alguma vez conhecera.

Quando entrou no Piódão já a noite estava cerrada. Não pensou duas vezes quando um velho merceeiro lhe falou sobre a estalagem do Inatel. Caía uma cacimba terrível e o nevoeiro que se impusera nem lhe permitia descodificar a quantidade de xisto que, popularmente, fazia o ADN da aldeia. Deixou-se cair numa larga e confortável cama de um dos agradáveis e espaçosos quartos da estalagem, assim que lá chegou. Teria direito a pequeno-almoço tradicional, logo pela manhã e ao uso de uma piscina de águas aquecidas. Luxos necessários, considerou. Mentalizou-se que nunca serviria para a encarnação de um almocreve à moda antiga, mas «os tempos mudam». Foi nesse termo que se focou, enquanto aceitava a luxúria e acalmava com isso o seu enfraquecido ego. Desta feita não adormeceu a pensar no rosto da Quirguiz. Nem sequer a recordou naquela noite, por uma vez que fosse. Dirigiu-se ao sono com a transparência dos espíritos do Xico e do Emídio em mente. Sabia que jamais os esqueceria. Não teria espaço para sonhar naquela noite, de tão cansado que estava. Limitou-se a debitar para consigo próprio a expressão «No fim do mundo encontrei a pura felicidade…», como quem conta carneiros antes de partir pedra. «No fim do mundo… A pura felicidade…» Conseguiu reflecti-la uma dezena de vezes mais, de forma ordenada e harmoniosa, serenamente comendo palavras à medida que a sua mente as repetia. Por fim, exausto e quando já não restavam palavras, adormeceu.

No dia seguinte acordou cedo e tomou um bom, prolongado banho. Vestiu-se, sem pressas, e deslocou-se na direcção do salão de refeições para desfrutar do elogiado pequeno-almoço tradicional. Foi a meio desse pequeno trajecto que tudo mudou aos seus olhos: à sua frente atravessou-se, de robe azul e loiros cabelos soltos, a totalidade do esplendor da Quirguiz. Ali estava ela, a misteriosa paixão que o guiara nos últimos dias e que inclusive lhe servira para actos de fé em momentos de desespero. Ela mesmo, na essência da beleza que até hoje nunca lhe pudera sorver. O cruzamento foi rápido, mas intenso. Ela sorriu, Brown não conseguiu. Ele reconhecera-a de imediato, ela não demonstrou qualquer tipo de afecção que não a de sua simpatia natural. Ambos seguiram seus caminhos, em direcções contrárias: ela para a piscina, ele para o ontbijt que apressadamente lhe surgiu no léxico como se o holandês fosse agora a sua língua nativa. Foi um pico de batimentos cardíacos com o mesmo recorte das montanhas que na véspera atravessara: íngremes subidas e tremendas descidas. Implodiram-se-lhe os mais inquietantes sentimentos sexuais, na observação do tentador movimento corporal da Quirguiz à medida que esta se afastava, e no olfacto a que tão doce perfume obrigou. Teve Brown vontade de a perseguir pelos corredores de acesso à piscina e de forçá-la à mais animalesca experiência sexual das suas vidas, algures dentro de um daqueles seguramente vazios balneários ou de uma das salas de banho turco que por lá existisse. Sentiu os vapores turcos originarem formigueiros pelo comprimento de todo o seu corpo e assim que a altivez do corpo dela saiu de cena, esforçou-se por recuperar o outro tipo de apetite e prosseguiu na direcção do salão, concentrando-se naquela que seria a primeira refeição do seu dia. Sabia que as seguintes não tardariam.

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