O Almocreve, VIII

V

O pequeno-almoço fez-se rápido e inconsequente. O pensamento de Brown convergia de forma integral na direcção das calmas águas mornas que rejubilavam, em simultâneo, por cálidos contactos com a pele da Quirguiz, de tons afáveis e sedosos. Nem as típicas insígnias gastronómicas regionais assumiram o expectável destaque no lançar do dia de Brown – a refeição foi uma descarada tragaria de sabores pulsada por toda a paisagem do vale do Piódão, capaz de cortar fôlegos e aromas -, nem os arrabaldes de xisto, apesar de descortinados, se conseguiram impor naquela cegueira matinal; agora de dia o nevoeiro era outro, invisível e feminal. Quando abandonou o salão dos manjares ainda limava ele com a língua todos os resquícios de queijo de cabra e de compota de figo que se haviam anexado entre os intervalos da sua dentição e ainda toda aquela enxurrada mista de comida caminhava na direcção do seu esófago, num alforge de porções (as dos líquidos e as dos sólidos), que ainda nem possibilidades tivera para a devida fundição. Numa rápida sequência, correu ao quarto para vestir os boxers mais parecidos com calções de banho que tivesse e, depois de experimentar três ou quatro, decidiu-se por uns de xadrez avermelhado; tão gastos quanto largos. Sem recear qualquer tipo de vergonha ou de congestão, menos de 5 minutos depois já se encontrava a atravessar o corredor de acesso à piscina e nesse percurso começou a sentir os vapores e os calores que as águas emanavam pela densidade dos azulejos, reagindo com um natural avolumar do seu ritmo cardíaco. Quando abriu a portada da piscina reparou que a Quirguiz se encontrava sozinha, deitada sobre uma das poucas espreguiçadeiras que revestiam o local e que as categóricas formas femininas ainda assumiam maior relevo, agora que desbloqueara todo aquele azul-turquesa do robe que a cobria. Brown mostrou-se inquieto e, num descoordenado acto, pousou a toalha que o acompanhara na breve peregrinação até às águas da vida, colocou a medo o pé direito no interior das águas e, dado o confortável aquecimento que presenciou, facilmente ganhou coragem para se lançar num efémero e tímido mergulho. A Quirguiz apenas reparou na presença de terceiros pelo escoar sonoro da rompida aquática e, por consequência, lançou um olhar na direcção de Brown no preciso momento em que a cabeça deste subiu à tona. Ambos sorriram: ela com confiança, do alto do seu paradeiro; ele com insegurança, no desafio da fugaz secagem da sua face. Depois disso, sentiu o seu instinto masculino assumir um desejo de demonstração atlética e fez um par de piscinas com inegável destreza. Apesar da aparente capacidade muscular, a falta de prática e o acumulado cansaço dos últimos dias obrigaram-no à experiência de uma solta cãibra no antebraço e de uma irrigada manifestação de dores pela extensidade das fibras corporais. Sentiu novamente o aroma do queijo de cabra granjear o seu hálito e encostou-se junto à margem oposta da localização da Quirguiz, para se recompor do intenso e instantâneo desgaste. Respirou fundo um par de vezes e concentrou o olhar novamente no esplendor da Quirguiz. Ficou surpreendido com a atenção que esta continuava a demonstrar na sua pessoa, como se de si não tivesse desviado o olhar desde que ali o percebera. Em condições normais, tal devoção seria o suficiente para o deixar envergonhado e para o obrigar a arredar o olhar; mas a beleza dela era de tal forma rara que não restava senão a única opção de proibir qualquer outro tipo de visão. Limitaram-se ambos à curiosa, atraente observação mútua. Mais o surpreendeu o momento seguinte, ao levantar-se e sentar-se ela na margem da piscina, enquanto escorria os húmidos cabelos loiros para trás do seu ombro direito num movimento contínuo, sem desviar a fixação em Brown por meio segundo que fosse. O foco no assertivo olhar da Quirguiz nem permitiu ao Americano proceder à desejada e conveniente observação das formas corporais da vénus no momento em que ela se levantou e ali ficaram, frente a frente por uns instantes, com o obstáculo de toda a piscina em diante: distância suficientemente grande para se saberem inalcançáveis e suficientemente pequena para se temerem incontroláveis.

«Lembro-me de ti.» disse ela, envolta em sorrisos, num Português arcaico.

«Eu ainda não te esqueci.» respondeu Brown, num inesperado charme verbal, com tanto de senhorio como de velhaco.

As águas pareceram entrar num turbilhão.

«Que fazes aqui?» perguntou ela, com curiosidade.

«Ando por aqui.» respondeu ele, sem grande animosidade. «E tu?»

«Vivo aqui.», retorquiu ela, baixando o olhar pela primeira vez, na direcção das águas que pareceram agora acalmar.

«Aqui?»

«Não aqui, aqui. Aqui perto.» sorriu ela, perante a ingénua conclusão de Brown.

«Como perto?»

«Perto. Muito perto.»

Ambos deram azo a um breve, reflectido silêncio. A distância que os separava pareceu aumentar. Brown sentou-se sobre a margem da piscina que se situava imediatamente atrás de si. Mantiveram-se assim, por alguns segundos, observando-se à distância.

«Estás aqui por mim?», soltou ela num tom ainda mais ingénuo do que aquele que Brown momentos antes revelara.

«Não sabia que estavas aqui.», embora gostasse de dizer que sim.

«E se sabes, vinhas?», num Português mal formulado.

O tom das questões inquietou o espírito de Brown, que se sentiu num só ímpeto desejado e desejoso.

«Creio que sim.», concluiu o almocreve, perante o compromisso de um inesperado objectivo.

A Quirguiz sorriu e levantou-se. Desta vez Brown pôde concentrar-se nas perfeitas formas que o corpo dela traduzia.

Depois de ajeitar ligeiramente o seu reduzido bikini, a Quirguiz lançou-se num premeditado mergulho. Atravessou a totalidade da piscina debaixo de água, em perfeitos movimentos corporais ondulantes de deslocação aquática, e trouxe a face à superfície escassos centímetros diante da posição de Brown. A emersão da Quirguiz, à mera distância de um abraço, congelou a totalidade dos processos arteriais de Brown, que sentiu vontade de beijar todos os milímetros do esbranquiçado e aveludado rosto dela. Os cabelos húmidos, colados à forma do seu rosto, atingiram dourados de carácter irresistível e Brown teve de se concentrar para conseguir contrariar a soma dos seus impulsos. Assim se mantiveram, em observações mútuas com implícitos tons de desejo, por nova sequência de segundos. Quando Brown se mentalizava que nunca em toda a sua vida vira uma pessoa tão bonita, ela surpreendeu-o com uma cortante questão:

«Amas-me?»

Brown soube que sim, que quis amá-la de todas as formas e feitios possíveis. Mas conteve-se e não conseguiu expressar tudo aquilo que sentia.

«Queres que te ame?»

«Eu perguntei primeiro.», manteve a posição, numa sedutora inocência e num cândido sorriso.

Cada palavra que saía da boca da Quirguiz apimentava o clima de tentação.

«Amo-te desde a primeira vez que te vi.», Brown sentiu-se ridículo, por oferecer tão honesta expressão.

A Quirguiz sorriu. E prosseguiu no desmame.

«Queres-me?»

Brown deixou-se descair para dentro de água, como reflexo, e tentou beijá-la. Ela afastou-se, com um rápido, fugidio movimento. Brown ficou atónito, perante a rejeição.

«Não. Aqui não.», justificou-se a Quirguiz, enquanto olhou em redor.

Brown entendeu os possíveis jogos de bastidores. Veio-lhe à memória o anel. A presa não era livre, nem muito menos prenda de mão beijada.

Depois disso a Quirguiz saiu da piscina, subindo a margem lateral com o desfeitear de uma provocatória posição. Brown ficou hipnotizado com o erotismo gerado pela forma do seu rabo. Ainda sem desfazer a posição, dobrada sobre a margem da piscina pelo apoio dos seus joelhos e da palma das suas mãos, lançou um submisso olhar na direcção do seu predador. Demonstrou que sabia perfeitamente manipular a psicologia masculina e que era uma mestre no desporto de gerar tesão. A resposta de Brown fez-se óbvia, pelo esboçar de uma intensa e submersa erecção, deixando-se flutuar nas águas da piscina numa desesperada tentativa de espairecimento, sem nunca desarmar a perseguição visual que produzia sobre a movimentação da Quirguiz. Esta, por sua vez, numa deslocação contínua, recolheu os seus pertences e preparou-se para abandonar o local.

«Vemo-nos por aí.» disse ela, em jeito de despedida.

«Define-me perto.» pediu ele, em suplício.

«Muito perto.»

«Qual o número do teu quarto?», pediu novamente, em desespero.

A Quirguiz sorriu.

«Não assim tão perto.», concluiu e retirou-se.

Brown ficou abandonado à voltagem dos seus impulsos sexuais. Apeteceu-lhe sair da piscina em movimentos felinos e acossar a sua vítima pelos confins do universo. A estalagem era demasiado pequena para tamanha tensão hormonal. Sentiu também, na derrota do afastamento, um enorme desejo de masturbação e fantasiou uma hipotética reciprocidade da Quirguiz: confortou-o imaginar que tal desejo se estenderia aos intentos cabais da fêmea, no próximo momento solitário de que a mesma auferisse – um banho de água quente, um pós-banho ou um qualquer momento de nudação que o permitisse. Teria que haver um toque de seguimento a tamanho estímulo; o enlace teria que despoletar uma qualquer erosão de prazer. Calçando o fosso da distância que de novo os guiava, o de dois corpos errantes em desgovernada deriva, ali entendeu a maior problemática das civilizações remotas: tanto desejo e tão pouco conhecimento. Foi no entanto consciente do enguiço gerado pelo equívoco do sumiço que deixou a piscina numa correria desenfreada, dado o desespero pelo resgate da hegemonia numa relação que tinha tudo para acontecer mas que não chegara a existir. Ao chegar à recepção, deixando cálidas pingas escorrer pelos improvisados boxers que cobriam a sua clorofila, pôde perceber que a sua luz não se deslocara na direcção dos quartos mas que, pelo contrário, entrara num carro de cores negras, de vidros fumados e de altas cilindradas que a aguardava junto à porta principal da estalagem. Foi com enorme desalento que o Americano avistou o afastar do veículo e foi com profunda tristeza que rumou ao quarto para conter a sua ira em privado.

A quantidade de questões que ocupavam o seu pensamento facilmente se difundiu pela imensidão de espaço que preenchia todo aquele quarto, batendo-se em ricochetes de inconstantes ecos, com vivas e alarmantes intensidades. «Que faria ela naquela estalagem?», «Quem teria vindo buscá-la?», «Perto, quão perto seria?», «Porque perguntou se a amava?», «E pior, porque quis tanto saber a resposta?». Às quais se seguiu nova infindável variedade de deduções e de suposições: «Não deveria viver longe, para se permitir usar a piscina daquela estalagem.», «Teria sido o marido a vir buscá-la, o mesmo que a levara à churrasqueira.». «Teria de voltar a encontrá-la.», findando na reverberação de «Queria amá-la, definitivamente.». Fervilhou de emoções e de desejos. Regurgitou de novas motivações. Teria de seguir o seu rasto, calcorreando a serra até onde o motivo o obrigasse. «Também havia espaço para paixões nas vidas dos almocreves». Esqueceu as crianças e o sentido missionário que camuflado em Pessoa abraçara. Entrara num mundo adulterado, fértil território de caça, e mentalizou-se que os propósitos do propósito se alteraram de uma só assentada. Pensou em, pela primeira vez durante toda a jornada, telefonar ao Yoannis para confirmar o abandono do barco em abono de uma nova caranguejola. Lembrou-se inclusive de um par de nomes de colegas actores que poderia sugerir à determinada equipa que o envolvera no projecto, para efeitos de substituição, tudo isso porque iria conquistar a sua amada e levá-la para um novo mundo. Um mundo distante, inteiramente possuído por apenas eles dois. «Que se lixe o filme.». Depois foi razoável consigo próprio e recuou nos impulsos do telefonema, da caranguejola e do radicalismo. Mas não desvirtuou o seu novo objectivo, que considerou enquanto uma moldagem da missão do almocreve. Continuaria o périplo, agora um de reconhecimento, feito batedor de escutas pelas aldeias anexas, e tentaria conjugar todos os desafios de almocreve que obtivesse pela caminhada. Continuaria a distribuir livros pelas escassas crianças que encontrasse, mas teria agora um foco preciso e um rumo detalhado. Seria isso a determinar tudo o resto. Iria amá-la, estava certo disso.

Desenhou uma pequena circunferência no mapa, que englobava algumas das aldeias em volta, e definiu que perto teria de ser por ali algures. Recordou o que o Jójó lhe dissera, sobre a presença dos Russos por aquela região, associou os factores e demarcou no mapa os nomes de Fajão, da Pampilhosa e das Minas, todos esses sítios que soubera estarem sob fortes influências de leste. Depois lembrou-se que o nevoeiro da véspera não permitira refutar a vila do Piódão com a minuciosidade que a situação agora exigia e idealizou que a localidade mais próxima poderia bem ser a verdadeira definição que procurava para o conceito de perto: poderia ser por ali o habitáculo da Quirguiz, num dos mais sofisticados casebres de xisto, e o poderio financeiro do marido permiti-la-ia ao uso da piscina da estalagem como uma espécie de ginásio particular. Antes de iniciar a curta descida que o levaria até à rainha das aldeias do xisto, decidiu tentar sacar mais algumas informações ao simpático recepcionista, que seguramente testemunhara um possível quotidiano da Quirguiz. Perguntou pela presença dos Russos na região e ficou a saber que a maioria vivia na área das Minas da Panasqueira, por ofícios no local. Mas soube também que existiriam alguns espalhados pelas terras envoltas: Fórnea, Fajão, Vidual, São Jorge da Beira, Meãs. Todas essas, entre umas outras de nomes mais e menos esquisitos, e assinalou-as todas no mapa; notou que a maioria delas estavam delimitadas à circunferência que desenhara. Pela conversa do recepcionista, soube que não haveria presença Russa no Piódão. Em termos de habitação, concluiu, dada a frequência de visitas a restaurantes locais e, de forma esporádica, aos componentes da estalagem. «Tal como a Quirguiz.», assumiu Brown. Depois centrou-se nela e questionou o recepcionista sobre a frequência com que a mesma costumava frequentar aquela piscina. O recepcionista sorriu e admitiu que não passaria de umas soltas 2 vezes ao mês, sem prenúncios de datas. Terminou com um enigmático «Cuidado.». Brown agradeceu e afastou-se a pensar nessa derradeira expressão. Temeu ter-se apaixonado por uma espécie de meretriz isolada, caçadora de almas solitárias a mando de um qualquer proxeneta Russo decidido a fazer fortuna no interior das feridas lusitanas. Quis convencer-se que tamanha beleza não poderia estar destinada ao comércio de impropérios serviços. Teria que ser um tesouro, inacessível no seu esplendor. E não uma via de fáceis acessos, à mercê de qualquer apelo. Brown quis, convictamente, que os perigos do aviso do empregado fossem unicamente associados ao facto da Quirguiz ser pessoa de um homem só. E não o oposto. Estava habituado a putas, e ao modo de funcionamento delas e reconheceu que todas elas queriam ser amadas do mesmo jeito que a Quirguiz demonstrara. Apesar de tudo, Brown reconhecia também as suas próprias fraquezas, de vagabundo coração espinhado; esponja de fáceis moldes e de sombrias carícias. Sabia quão fraco tinha sido, na ressaca da relação com a Holandesa que o encaminhara para Amesterdão, quando se deixou envolver sentimentalmente com uma das arrendatárias de um dos quartos vitrine da 123 Ruysdaelkade, na Oude Pijp, a mais minúscula e mais turisticamente desconhecida amostra do estilo Red Light District na cidade postal dos canais e das bicicletas. Na altura desculpara-se com as abundantes quantidades de Jenever que diariamente absorvia, mas no recôndito das suas amarguras nunca encontrara uma explicação capaz de justificar o hábito que gerou durante os 3 meses em que, de forma voluntária, terminava todas as noites a bater à porta da Jeanine – uma eslovena de 25 anos que adorava fumar coca na garrafa e que 10 anos antes trocara uma vida de modelo juvenil em Ljubljana por uma tórrida paixoneta com um jovem Italiano de Trieste que, por sua vez, a ludibriou com promessas de fortunas e de avenças alheias e que não foi mais do que o seu primeiro real proxeneta, envolvendo-a numa rede de prostituição de luxo com ligações a grupos de apostadores do Calciocaos e com exagerados consumos de drogas sintéticas que não tardou a derivar em outras redes de mais complexas teias de tráfegos bélicos e de outros tipos de consumos, levando-a a um estado de preocupante adição que só conseguiu almejar um novo rumo quando um chulo Holandês gozou forte sobre as suas costas a bordo de um cruzeiro na costa Adriática, uma e outra e mais uma vez, tantas que ganhou mesmo gosto e que decidiu empregá-la num bordel que possuía em Roterdão. Uns anos depois ela lá se conseguiu emancipar da adição que a governava e decidiu fazer as malas rumo a uma vida nova, exemplar, mais a norte em Amesterdão, a cidade do pecado. Assentou nos consumos e apaixonou-se por um Equatoriano, segurança nocturno de uma discoteca, que a tratou com o máximo de carinho que pôde. A boa da Jeanine ainda conseguiu um trabalho como caixeira num dos múltiplos espaços do Albert Heijn, a maior cadeia de supermercados da Holanda, mas passado um par de meses já estava a caprichar nos consumos alcoólicos com os jovens colegas de trabalho que a rodeavam, na sua maioria adolescentes. Certa noite Jeanine decidiu sair com a malta do trabalho e, após um exagero de rodadas de shots de Jagermeister, resistiu na festa por altas horas até já só restarem ela e mais dois desses jovens colegas, de origens Turcas, que, igualmente bem bebidos, combinaram apertar com ela a cada passo de dança para se lançarem numa odisseia sexual sem precedentes. A Jeanine, cujas hormonas não se intimidavam perante a mínima deixa, acabou por oferecer-se, a si e à cama que em noites normais partilhava com o Equatoriano, aos jovens Turcos para uma experiência bem gozada a três partes, de sexo tão bom, tão forte e tão tresloucado que quando o dono da casa no quarto deu entrada, por indícios da sinusite crónica que o assolava o terem obrigado a terminar o trabalho horas antes do esperado, estava ela com a boca agarrada ao instrumento de um e com o rabo encaixado na verga do outro. A reacção não pôde ser a melhor. Terminaram os três no hospital, com contusões graves e intubações diversas. Os Turcos tiveram alta após 2 dias. A Jeanine precisou de quase 1 semana e quando de lá saiu estava entregue à rua. Pernoitou numa pensão por 6 dias, o tempo suficiente para conhecer um Romeno que lhe apresentou uma velha nova perspectiva: muita coca para aliviar a angústia e muito dinheiro para saldar a mágoa.

Foi assim que Brown deu com a história de vida da Jeanine, novela suficientemente forte para o deixar de estômago ferido logo naquela primeira noite em que visitou o seu antro na casa-vitrine da Oude Pijp. Entrou lá com a melhor das intenções, numa tentativa de desesperado gozo rápido e acabou por ser induzido numa partilha de emoções e de sentimentos que durou três vezes mais tempo do que alguma vez supusera. No dia seguinte repetiu a dose, e ainda ficou por mais tempo. Ela não cobrava pelo tempo em excesso e fodiam e falavam e falavam e fodiam. Foi assim por três meses e Brown chegou mesmo a pensar que uma relação especial começava a nascer daquele mútuo abismo. Um dia chegou lá, à hora do costume, e do lado de dentro da vitrina estava já uma outra rapariga, mais velha, que lhe contou que a Jeanine se retirara para a Noruega com um novo chulo. Brown ficou transtornado com a inesperada traição, resistiu sem grande luta ao apelo da nova ocupante e nunca mais voltou ao local. Depois disso enveredou por uma rotina diária de recuperação anímica e não tardaram outros 3 meses até receber a proposta para o filme do remake do Le Mans. Por tudo isso, todo aquele vocabulário de puta e de comiseração sexual ainda estava muito activo na sua memória. Demasiado activo, até, e foi com esse esbatimento mental que Brown se fez à estrada em busca da Quirguiz perdida.

Na memória da total circunspecção do Piódão ficam as volumosas proporções de xisto, os distintivos licores da região que de forma hábil, chistosa e recorrente são expostos a todas as chegadas e saídas, a lata benevolência dos locais, e o frio. Um enorme frio. Por infelicidade, e não por falta de empenho ou de esperança, dessa mesma memória não resta qualquer indício ou sinal da desejada Quirguiz. A misteriosa vaga de leste não exercera quaisquer tipos de posses no Piódão e, apesar dos poucos pareceres positivos que se conseguiram amealhar pelas íngremes ruelas que separam a curta distância da zona baixa da zona alta do Piódão, a verdade é que ninguém foi suficientemente ágil na identificação dos possíveis paradeiros dessa estirpe. Foi, portanto, com o mesmo grau de incógnita que Brown abandonou o mais famoso capítulo da rede de aldeias do xisto, porventura aquele que se mantém mais protegido e mais bem conservado de todos os que restam dessa espécie em extinção. Um belíssimo exemplar, que não consegue deixar margem para dúvidas no que à sua beleza diz respeito. Brown sentiu uma triste dor no pensamento quando, por riscar o ponto geográfico do Piódão no mapa da caça à Quirguiz, se confrontou com a génese dessa memória – apurou-se melancólica, a certeza daquele derradeiro vislumbre, e desfez-se intrépida, essa decisão de virar costas a um dos mais belos remanescentes da história contemporânea Portuguesa, real bastião da tradicional beleza lusitana, pelos orientais relances das alvíssaras proibitivas.

Fez-se marcha, cortando frio e atravessando serra. Sem saber precisar porquê, ali no topo de um dos montes, Brown recordou a semana que passou em Castelnuovo Di Garfagnana, aldeia de sopé de montanha na zona Oeste da Toscânia, no imediato rescaldo da rodagem do thriller político que rodou em Itália, Il Deputato. Foram dias de uma fabulosa intensidade que passaram de forma breve, numa propriedade alugada por um dos produtores do filme, e que fizeram do relaxamento na piscina de água salgada o sinequanone do quotidiano. Partilhou essas férias com o director de fotografia do filme, Vincenzo, um Napolitano de 40 anos que fizera escola em Praga – das mais prestigiadas academias do cinema europeu; com Dino, um jovem actor de 20 e poucos anos, muito famoso no circuito televisivo Italiano; com Rafaela, a co-protagonista do filme que durante as filmagens desenvolveu um grande afecto por Barry Brown e que durante a estância na Toscânia tornou tal sentimento em perfeito repúdio; com Melissa, uma jovem modelo, figurante no filme, que partilhou excessos com Dino por um par de noites em Roma e que acabou por receber um convite para partilhar outros tantos com a improvisada comitiva do rescaldo da rodagem; com Maria, uma trintona Andaluz de escultural corpo, amiga de Rafaela e convidada tendo em vista a satisfação das exigências sexuais de Vincenzo; e com Pietro, um estagiário de produção que assumiu as tarefas de catering a troco de uns trocos e de umas horas na piscina a agraciar as vistas. Outros tantos por lá apareceram e outros ainda por lá passaram, mas foram basicamente estes os que lá permaneceram a regime full time. Todos tinham relação directa ou ao projecto do filme ou a alguém que tenha colaborado com o mesmo e assim, do boca-a-boca, se foi preenchendo o espaço pelos dias que se seguiram à rodagem. Tudo começara com um pedido de Vincenzo, que viu na hipótese um escape psicológico de rotinas sexuais, e a excentricidade do produtor que alugou a propriedade e a das pessoas que aderiram à ideia tratou de cumprir o resto da promessa. Brown foi o primeiro a dar o aval à prematura euforia de Vincenzo, perante as interlocuções de Rafaela, e aquilo que se assumiu como uma estância idílica para uns acabou por virar um ardil para outros. Rafaela apostou todos os seus trunfos na tentativa de conquista de Brown, dado que todo o enredo da ideia de Vincenzo apontara nesse sentido, mas nunca Brown chegou a demonstrar verdadeiro interesse na sua pessoa. Nem durante a rodagem, nem durante o descaramento dos ataques proferidos em Castelnuovo Di Garfagnana. Brown tinha conhecido Sheenaz em Milão havia pouco tempo, numa das saídas da equipa de rodagem à Spazio Tadini, uma das mais interessantes galerias de arte milanesas, e ficara entusiasmado com a perspectiva intelectual que esta introduzira numa fugaz conversa de ocasião. Sheenaz, Holandesa de descendências Caribenhas, era uma curadora artística de sucesso, responsável pela principal exposição que figurava na Spazio Tadini por aquela altura e que revelava uma inacreditável actividade pelos quatro cantos do globo. Tudo isso impressionara Brown, não obstante o reconhecimento desta ao conteúdo da obra de Brown, numa perspectiva puramente lírica e artística, ter sido o mais forte motivo para o desenvolvimento de tal fascínio. Perante entusiasmados sorrisos, Brown conseguiu fornecer o seu contacto. Depois Sheenaz abraçou um novo diálogo, com demais ilustres convidados e, por força das circunstâncias que entretanto se geraram, Brown acabou por se retirar do local sem conseguir obter o tão desejado retorno de Sheenaz: a mais brilhante mente que conhecera até ao momento. Terminou as rodagens sem voltar a pensar muito nela, focado que estava no exigente cargo que assumira, mas assim que se iniciou o retiro espiritual pós-rodagem na localidade Toscana a figura de Sheenaz voltou a preencher o seu imaginário e, para total desespero de Rafaela, foi um Barry Brown assexuado que se apresentou na improvisada estância. Causando estranheza nos demais, que se divertiam em almudes de felicidade, Brown ocupava o seu quotidiano com uma espécie de autismo governado, oscilando entre purificações aquáticas matinais, degustações gastronómicas bidiárias e profusões musicais pontuais, preenchendo todo o resto do seu tempo com um compulsivo estado de introspecção criativa, ora devorando livros que facultava da pequena biblioteca local (na sua maioria relacionados com o histórico legado da arte renascentista), ora regurgitando sequências de palavras numa máquina de escrever que comprara na única amostra de loja de antiguidades existente em toda a região. O desprezo pelas iniciativas de Rafaela foi total, chegando inclusive a servir-se da pessoa dela para confidências estruturais que tinham como único propósito visar o seu fascínio pela personalidade de Sheenaz e Rafaela começou a sentir a sua auto-estima afundar-se para níveis inapropriados, acabando por centrar a soma da sua líbido na juvenil força de Pietro, o afortunado e insuspeito espectador que lá acabou por molhar o bico numa ardente maresia de comoções. Foi sob uma enorme intensidade que Brown atravessou aqueles dias: a plenitude da intensidade da paixão. Dista, incerta e desconhecida. Mas viva, bem viva, desejada e empolgante. Ao sexto dia da estância Toscana recebeu um telefonema de Sheenaz, que por sua vez acabara de regressar de uma prolífera viagem a Seoul. Empacotou tudo de imediato e rumou a Milão sem praticamente se despedir do ninho de cucos, rotineiros das trepadas crónicas. Nunca a cidade Milanesa foi tão bela, aos seus olhos, como naquela visita. Seguiram-se dois meses de tórrido romance em variados pontos do solo italiano, um ano de pura sintonia em Amesterdão e mais um ano de vertigem conjugal. Sheenaz continua a ser a mais brilhante mente que Brown conheceu até à presente data, acarretando isso o bem e o mal que se possa imaginar aplicar. A relação deu certo enquanto dentro do seu prazo de validade mas logo terminou, e com isso todo o mundo desabou. Não todo o mundo, no seu sentido lato, mas todo esse mundo que Brown criara em Castelnuovo Di Garfagnana, de poéticas fantasias e de maviosos cognomes. Era um mundo desse género que Brown avistava, no relance do virar da página do Piódão, e ele reconhecia esse modo em que entrara, o tal de autismo governado, da intensidade passional. A máquina de escrever era agora outra, de caracteres simples e de patentes no delinear do mapa; sem palavras, mas com igual significado. No revestimento da sua pessoa incorporavam-se outros contextos, outros objectivos e outras glórias. Mas na cúpula do seu ser apenas sobrava espaço para a simbiose desejada: com ela, só ela.

Duas horas depois passou pela pequena localidade da Fórnea e, de novo, não encontrou nenhum sinal de influências orientais. Nem por isso esmoreceu o seu interesse. Subiu novo monte e na lonjura do horizonte começou a avistar-se o negrume da cal que caracteriza a paisagem das Minas da Panasqueira. Ali, soubera-o ele, pairavam Russos de certeza.

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