O Almocreve, IX

VI

Ao confrontar-se com o vale das Minas da Panasqueira – das maiores bicas de volfrâmio da Europa, desde a Segunda Grande Guerra maioritariamente explorada pela e para a indústria belígera global –, uma vez visto do topo da entrada Norte da Barroca Grande e apesar do predominante cinzento invernoso que demarcava o talvegue, Brown recuperou memórias indissimuláveis do seu imaginário: os legados visuais das obras de Steinbeck e do Chinatown de Polanski. Projectaram-se na sua mente imagens soltas das “Vinhas da Ira” e do “Inverno do Nosso Descontentamento”, e também do majestoso apontamento noir que imortalizou o exilado cineasta polaco; arremessaram-se-lhe as ideias de um sôfrego western perdido entre áridas planícies, de adversas diásporas e de desumanos recônditos. A seca, a precariedade e a servidão da maioria em abono da abundância, da prosperidade e do domínio da minoria. Tudo aquilo que se descura sob superficiais tons amarelados, do ouro e da estiagem, mas que na verdade não passa de um neutro cinzento, da fome e da pobre destreza. A história da Humanidade, no fundo, mas que tão bem retratada fora pelas letras de Steinbeck e pela mestria de Polanski que tal léxico visual não poderia passar impune ao pensamento de Brown naquele preciso momento. Ali, confrontando-se com aquele extenso areal cinza que confluía num moribundo riacho incolor, Brown vislumbrou parte das minguadas experiências que Steinbeck narrava na primeira pessoa e parte das destemidas missivas que Mr. Gittes estruturava para desmantelar a rede dos chacais de Albacore. Ressentiu a sobrevivente superação da família Joad desde o forçado êxodo até à cruel subjugação ao mais vil dos males e revestiu as espirais tramas que o personagem de Jack Nicholson investigou nos prolíferos intentos de uma Califórnia desavergonhadamente atroz.

Observou, lá do alto, a rotina das centenas de trabalhadores que se movimentavam pelas arestas do complexo como se de formigas se camuflassem. Ao aproximar-se pisou um pequeno charco, decomposto, que preconizou ao Inverno apetecido. Apesar do exânime cenário, descortinou ali naquele vale mais vida do que na totalidade da serra que atravessara. Ainda que mais não fosse do que uma vida desfalecida, suja e decadente. Compreendeu, mesmo sem se inteirar da presença da Quirguiz, que era esta vitalidade que a atormentava.

Decidiu descer o monte e chegar mais próximo do complexo, numa tentativa de sentir o pulso ao convalescente corpo dos mineiros. Reparou na presença de uns quantos camiões, como aqueles que vira passar em longa fila na estrada perto de Trigais, e na coordenação humana que tal empreitada gerara pelo vaivém do entra e sai das diversas tocas que compunham o espaço; pôde notar que, na sua grande maioria, o idioma operante não era o Português. Quis acreditar que era o Russo; nas faces dos intervenientes não descodificou mais do que um inegável sofrimento – e essa expressão é universal. Preparou-se para atravessar um pequeno carreiro de terra batida e chegar junto da vedação de arame cortado que cobria todo o complexo quando foi surpreendido por um carro de alta cilindrada que se aproximava a grande velocidade: tinha tudo para ser o carro para o qual a Quirguiz entrara depois de abandonar a estalagem. Por receio de qualquer coisa, Brown inverteu a marcha e escondeu-se atrás de um rochedo. O carro passou, deixando um enorme rasto de poeira espalhado pela atmosfera e dando entrada no complexo mineiro através de um portão vigiado por cinco corpulentos seguranças, certamente armados até ao pescoço. Brown, acompanhando a travessia do carro pelas chanfraduras da nuvem que se erguera, deduziu que seria praticamente impossível conseguir entrar naquele local de livre vontade e limitou-se a espiar a trajectória do carro, do amparo do robusto rochedo que o protegia. Já dentro do espaço, o carro estacionou junto a outro par de carros de alta cilindrada, por sua vez próximos de um conjunto de pré-fabricados que deveriam ser os improvisados escritórios dos magistrados ou somente os rudimentares balneários de apoio – era impossível defini-lo do local onde se encontrava Brown. Perante a chegada do carro, um grupo de engravatados Nipónicos saiu do interior das instalações e não tardou em cortejar os três homens que saíram do carro. Brown conseguiu identificar um destes, o único que saiu pela porta traseira. Apesar da relativa distância a que se encontrava, conseguiu claramente reconhecer o homem que acompanhara a Quirguiz à churrasqueira de Unhais da Serra – aquele que tudo indicava ser o esposo da sua amada; pela circunstância, o poderoso esposo da sua amada. Um dos Nipónicos cumprimentou-o com um submisso aperto de mão e, pelo teor da gesticulada conversa, algo aparentava estar errado. O Nipónico esforçava-se para convencer o visitante de algo que, dada a distância, se enigmava a galope perante os olhos de Brown. O poderoso esposo da Quirguiz reagiu com o acender de um desinteressado cigarro, ao qual o Nipónico respondeu com um avolumar de gestos e de voz. Apesar da incompreensão que Brown expressava pela marginal situação que observava e do clima de enorme tensão que se respirava pelas delimitações do complexo, a certeza da presença da Quirguiz pela região era factor suficiente para se fazer produzir no seu coração um laivo de esperança. Depois disso o soberano Russo sorriu com uma forte gargalhada na direcção do Nipónico, que pareceu relaxar com a reacção deste, e esboçou uma espécie de abraço consentido. Toda a gente, inclusive alguns mineiros que de longe e de forma discreta acompanhavam o confronto, pareceu acalmar os ânimos com o gesto do Russo. Em sequência, sem desfeitear o abraço, o Russo puxou o Nipónico para uma breve caminhada, como despreocupada tentativa de uma qualquer confidência ou explicação. Com o serenar da animosidade, Brown olhou em redor, procurando uma qualquer brecha na segurança que lhe permitisse dar entrada no reduto dos mineiros. Nada lhe saltou à vista, senão a curiosidade de tamanha presença internacional naquele baluarte serrano e a certeza de que graduadas tramóias se desenrolavam para além daquele cerne da estirpe lusitana. Precisava de investigar o local e de descodificar as ramagens dos locais; precisava de encontrar a sua amada e de conquistá-la àquele desumano refúgio. A pútrida convivência naquela imerecida realidade iria corroer todos os tecidos da sua alma até mais não restar do que um exasperante rasto de iniquidade na sua pessoa. Não podia deixá-la correr tamanho risco.

Foi surpreendido pelo som de um tiro que ecoou pelo vale, seco e rompante, ao qual se seguiu um estrídulo silêncio, ainda mais seco e mais cortante. Voltou com o olhar ao local que momentos antes abandonara e encontrou o Nipónico estatelado no solo, jazendo sobre o seu próprio sangue. De pé, imediatamente junto ao cadáver, encontrava-se o Russo com um ar tranquilo. Na sua mão não tinha agora o cigarro, mas sim uma pistola. O trépido Brown percebeu que este local era ainda mais venenoso do que alguma vez imaginara.

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