O Almocreve, X

DO COMÉRCIO

Pauta 5

Pauta 6

Pauta 7

Pauta 8

I

“Antigamente os de Fajão não sabiam quando era manhã para se poderem levantar. Então resolveram em assembleia geral, que era na Raseira, escalar cada mês um lavrador para ir à serra buscar a manhã. O que estava escalado prendia os bois ao carro, punha-lhe uns sacos em cima e abalava para a serra, ainda de noite, para ir buscar a manhã.

Aconteceu que um dia calhou pernoitar um almocreve em casa dum lavrador. Altas horas da noite ouviu um reboliço em casa e perguntou o que era aquilo. Disseram-lhe que estavam a prender os bois e a preparar o carro para ir à serra buscar a manhã, porque aquele mês tinha-lhe calhado na escala. O almocreve viu logo ali uma boa ocasião para fazer negócio e perguntou:

– Quanto dão vocês a quem vos traz um bichinho que todos os dias vos diz quando é de manhã?

– Trinta mil reis e uma carga de presuntos (era o dinheiro em Fajão).

Eles aceitaram e o almocreve, à volta, trouxe-lhes um galo. O galo cantava logo de manhã e eles assim escusariam de ter tanto trabalho de ir buscar a manhã.

Mas esqueceram-se de uma coisa: não perguntaram ao almocreve o que é que o bicho comia. Lá foi então um a correr, a ver se ainda apanhava o almocreve para lhe perguntar o que é que o bicho comia. Logo que o avistou de longe, perguntou:

– Ó senhor, o que é que o bicho come?

– Ora! Do que é que o bicho come! Come do que come a gente!

O homem entendeu que o bicho come a gente e passou ao povo que o bicho come a gente. Todos, de uma vez só, se atiraram ao bicho até darem cabo dele e assim continuaram, dia após dia, a ir buscar a manhã conforme a escala.”

«Os contos de Fajão são fantásticos. Foi com lendas como esta que o Monsenhor – termo dado pelos locais ao que acredito tratar-se de uma espécie de vernáculo para a definição de Monsieur – me ensinou o pouco que sei de Português. De indescritível carisma, constante estima, anos feitos vivendo com o desejo único de não desiludir o legado que apregoa: o dos contos e das gentes de Fajão. Foi no testemunho e especialmente na transcrição deste género de lendas, tarefas que de forma prazerosa o Monsenhor diariamente a meu pedido me delegava, que aprendi o idioma que me acolheu.

A história de como aqui vim parar não se narra através de simples versos. Sei que tenho tudo o que alguma vez desejei e que nada mais posso pedir, sei que a minha curta experiência lusitana define-se nas mais nobres loas, daquilo que tenho e daquilo que me dão, tudo e todos, sem a mínima excepção; mas no entanto não há dia que passe em que me consiga desassociar do sentimento de que nada disto é aquilo que quero. Tenho um marido com quem gostava de poder embirrar por nunca lavar ou estender uma peça de roupa que seja mas, na boa da verdade, nem eu própria o faço ou alguma vez fiz nesta vida de casada – estupidamente quase para meu infortúnio, é a Adelaide, a governanta, que trata de todas as tarefas domésticas. Também por isso nem cozinho, nem tenho fragmentos em que possa sentir falta de tempo para o encher comigo e com as minhas próprias necessidades. Tenho todo o tempo do Mundo, e nada nem ninguém com quem o partilhar. Estimado Monsenhor que desde logo se prestou à companhia, cultivada pelo interesse que cedo demonstrei; e aos ensinamentos culturais que com todo o gosto profere. Tem sido ele, e apenas ele, a única alma a revelar afecto pela minha presença nesta recente vida de cônjuge expatriada, esforçando-se por contribuir e colaborar e mostrar interesse em tudo aquilo cuja minha curiosidade revele. Por eterno agradecimento, só ele não chega. Quero mais. Longe de tudo e de todos, preciso de um homem que me olhe nos olhos e que me ame e me descubra. Quis ser princesa e ter trato condizente, mas no fundo quem me dera ser mulher rija, transversal à diplomacia feminina. Não sou mais do que uma triste puta.»

A história de Ilenija Volodin faz-se das histórias – não das suas, mas de todas aquelas que não hesita viver. Leva a vida numa intensa luta interior, em busca da sua própria voz, mas é nas experiências dos outros que a encontra; é ao mínimo sussurro de outrem que a sua entrega é total. Assim o é desde os seus tempos de criança, quando o seu pai regressava a Bichkek – capital do Quirguistão – no cumprimento de três desgastantes mandatos na embaixada Quirguiz de Moscovo, em plena recessão da União Soviética, e a pequenina Ilenija se deslumbrava com os relatos que este trazia da Moscovo sede do Kremlin, fria e distante tanto quanto o calão da popular alcunha Pedra Branca queria fazer parecer. Assim o foi também durante os intensos relatos que o seu único irmão, dúzia-de-anos-mais-velho, fazia das epopeias vividas na linha da frente da Guerra do Afeganistão dos anos 80. Talvez possa pensar-se que a origem de tal personalidade esteja directamente relacionada com Chernobyl, o desastre de 86 que coincidiu com o ano da sua nascença: Ilenija habituou-se desde sempre a viver in loco os traumas que por ondas radiofónicas diariamente lhe chegavam a casa, em relação aos países cuja propaganda paternalista assumira como seus, e cujos efeitos devastadores confluíram no colapso do ideal populista. Assim não deixou de o ser perante a assunção diária dos termos perestroika e glasnost, e consequentes reflexos de uma abstracta prosperidade vividos nos rostos e nos fascínios das pessoas que, perto de si, em ilusão se expressavam; sendo ela uma inigualável, inocente beldade, vítima das promessas e das influências económicas dominantes e dominadoras, que até seu próprio pai ficara obrigado a cedê-la como hipoteca dum negócio mal resolvido – nem nesse marcante momento da sua vida foi ela capaz de encontrar a sua voz, deixando-se diluir no mar de sonhos e de sinais de toda a ambição material que o simbolismo de um marido magnata luxuosamente a seus olhos brilhava e tristemente aos de seus familiares lacrimejava. E assim continua a sê-lo hoje, residente em Fajão, mortiço reduto da glória lusitana. Nasceu pobre e vive rica, vítima dum casamento forçado e da crónica contradição – a de saber-se pobre e de sentir falta dos tempos em que foi rica: os tempos em que vivia as histórias narradas por gente nobre e por seus vincados princípios, e não os escrúpulos das infames peripécias marginais do subterfúgio que hoje a rodeia. Valha-se a honra do Monsenhor, incansável espírito de uma afabilidade remota.

Apesar de tudo aquilo em que a sua vida se tornou, o colapso soviético não era por Ilenija visto como a origem de todos seus males. Foi graças ao fim da guerra fria, e ao levantar de alguns embargos, que por exemplo descobrira o universo de Madonna, maior que a própria vida, e foi com o regresso do irmão a Bichkek que o vinyl de “Like a Prayer” entrou por fim na sua casa. O vinyl, entre outros bens de procedências dispersas, teria sido vasculhado num refúgio militar que pertencera a tropas norte-americanas e, uma vez chegado às mãos de Ilenija, seu lado A multiplicara loops anos sobre anos até perto do final da sua adolescência. De lá só voltara a sair no dia em que Ilenija deixou o Quirguistão para uma indecente lua-de-mel em Curaçao, na meia-jornada conjugal antes de um aprisionamento de 5 anos num apartamento em Moscovo, próximo da Praça Vermelha, e da recente fixação em Fajão – a viagem dos mundos e dos fundos prometidos por Roman Alduschev, o empresário Russo que cobrou um casamento com Ilenija ao seu pobre pai encrencado. Ainda hoje, nos seus momentos mais tristes e solitários, era a esse lado A que Ilenija regressava, na vã glória de desfrutar do frágil factor emocional que albergava – nenhuma outra conjugação sonora tinha tanto poder sobre a sua alma; sonhos, lágrimas, ritmo, evanescência, perdura, tristeza, alegria, poder, incapacidade. Aquele vinyl tinha sempre sido um autêntico carrossel sentimental para o aprisionado espírito de Ilenija, um espírito viajante e inconformado mas noutras vidas satisfeito, e ainda hoje esse disco tinha o poder de cumprir e de saciar todo e qualquer tipo de fragilização emocional que a Quirguiz mais bela que os rochedos da Penalva, do Cabeço da Mata, da Serra da Rocha, da Serra da Amarela e do Picoto da Cebola alguma vez teriam visto, pudesse sentir.

Roman era um verdadeiro asco de pessoa. Fizera fortuna da clandestinidade e pela clandestinidade prosseguia. Fazia imperial uso da chantagem e trocava favores como quem troca bicudos pares de sapatos, os quais cobrava ao mais impávido abrir e fechar de olhos. Assim acontecera também com o pai de Ilenija, homem de confiança da União Soviética que cometera um erro enquanto representava o seu país na embaixada de Moscovo: o pequeno grande erro de autorizar um visto negocial além-fronteiras entre o Quirguistão e o Cazaquistão a Nikolay Alduschev, poderoso Russo que tinha todas as insígnias reconhecidas pelos czares e que fazia da sua gigante frota transportadora um internacional negócio de milhões. Nikolay era um homem de palavra, de respeito, e o favor que o pai de Ilenija lhe fizera em troca de algumas propriedades agrícolas no sul do terreno Cazaque nunca estaria sobre qualquer tipo de suspeita ou ameaça. O problema foi que passado uns anos o corpo de Nikolay apareceu submerso no Rio Moscou e o mais velho filho (Roman), um patife de inúmeros antecedentes criminais, assumiu a parte da herança que se reflectia na presidência da empresa transportadora que detinha os registos de toda a negociata feita com o pai de Ilenija. Por essa altura já o pai de Ilenija retornara a Bichkek com uma prematura reforma concedida graças aos patrióticos serviços de Moscovo e ele mesmo era visto como um dos símbolos do antigo regime soviético, opositor ao poder dominante, tendo em conta que desde a Revolução da Tulipas (com forte apoio Norte-Americano) se empossara Bakiyev do trono do Quirguistão. Sabendo da fragilidade política e económica que assolava os Volodin, Roman não perdeu tempo em pôr em prática as suas persuasivas aptidões para garantir a cedência dos terrenos Cazaques que certo dia, por direito, lhe teriam pertencido. Receando uma fuga de informação que pudesse pôr em causa a integridade da família Volodin junto da população Quirguiz, este não encontrou outra opção para além de ceder aos intentos de Roman, procurando com isso garantir alguma prosperidade para os vindouros anos dos seus descendentes. Em desespero, o irmão de Ilenija tentou solucionar a questão à revelia dos intentos de Roman, mas a tentativa de sabotagem correu mal e o espancamento que sofreu foi tão forte que precisou de 2 meses para finalmente conseguir abandonar o hospital – e fê-lo sobre cadeira de rodas. Sabe hoje Ilenija que foi apenas graças a ela que esse espancamento não foi letal.

O pior de tudo é mesmo o facto de que Roman é um asco de pessoa. Não satisfeito com a cedência dos terrenos Cazaques, e tendo plena consciência da influência que Volodin exercia sobre as forças políticas Quirguizes, Roman decidiu enveredar numa sistemática estratégia de pressão emocional sobre Volodin para conseguir atingir os seus novos objectivos: o Quirguistão é, apesar da irregularidade geográfica que as separa, uma das fronteiras com a China. Como empresário da clandestinidade em ascensão que era, Roman sabia duas coisas: tendo as portas da China abertas, a sua frota transportadora poderia atingir volumes de negócio impensáveis; Volodin seria quem as conseguiria abrir. Seguiram-se 2 anos de sujos jogos e de imensuráveis violências físicas e psicológicas para com a família Quirguiz, que vivia recôndita ao receio da explosão social que detonaria os poucos bens que ainda detinham, mas o pai de Ilenija lá conseguiu manobrar as suas influências para atingir os objectivos de Roman, através de favorecidos segredos e de favorecidas novas trocas de influências. Conseguiu, através de tais esforços, que fosse dada luz verde à construção de uma enorme via de acesso ao Passe de Torugart, posto fronteiriço situado a 2000m de altitude em Tian Shan, a cordilheira que separa a China dos Quirguizes e dos Cazaques, projecto megalómano em segredos de estado e de justiça que previa a construção de túneis e de canais cujas propriedades seriam accionadas em nome de um fundo de investimento administrado por Roman. A estratégia funcionou sem falhas e Roman engendrou um plano comercial irredutível, mas ainda não estava totalmente satisfeito com os contributos de Volodin; e o motivo prendia-se agora unicamente com Ilenija, cuja beleza era demasiada para se renegar a mínima atracção que fosse. Voltou à carga e operou a derradeira chantagem: a mão de Ilenija ou a denúncia a Bakiyev. Não restou outra solução à família Quirguiz – a denúncia torná-los-ia nos bodes expiatórios que a facção de Bakiyev procurava para reforçar o seu ideal e vitimá-los-ia a todos antes da mais próxima Lua Nova –, e tiveram de abrir mão da menina da família. Acabara ela de fazer 21 anos quando Roman expressou o seu desejo. Pelo caminho ficava um curso superior de Ciências Sociais que dois anos antes iniciara e para a frente previa-se uma vida de luxos paralelos às vis actividades do marido, período que acabou por se traduzir num aprisionado quinquénio revestido em eventos das elites sociais Moscovitas, tão frias e tão distantes como seu pai sempre lhe testemunhara. Assim o foi até ao dia em que Ilenija, de desesperante depressão e sabendo dos crescentes negócios operados por Roman no coração da Península Ibérica, decidiu puxar de si e pedir ao marido para viver uma temporada em Portugal.

Ilenija era consideravelmente alta, nos seus metro-e-setentas, e sempre se destacou das conterrâneas com auxílio dos seus belos cabelos louros. A predominância Quirguiz roça mais o paradigma Asiático do que o histórico legado Nórdico. Mas seu pai, descendente de uma linhagem Siberiana dos mais fortes vincos Soviéticos, conseguiu adornar a sua genética dada a mistura com uma paixão que lhe trouxe à vida os seus rebentos. A díspar aparência dos pais de Ilenija, sendo sua mãe de exóticas descendências Indochinas, deu origem a um produto feminino da mais rara estirpe e da mais exponencial beleza: silvestre traço em estampa física invejável, delicioso rosto em venerável sifão de fluentes seivas. Assim o era Ilenija: invulgarmente Quirguiz graças às paternais feições Nórdicas; e invulgarmente Soviética, por razão às maternais heranças orientais. Até pelas suas características físicas era ela uma alma deslocada, perdida entre os pontos cardeais da sua própria genética, resiliente incorporação do sujeito nulo e das narrações feitas na terceira pessoa. Naturalmente, assim o foi Ilenija no dia em que Barry Brown chegou a Fajão.

Nessa altura apresentava já Brown um desconfortável grau de fatigada oleosidade. Cabelo, barbas, roupas, tudo aquilo que ele demonstrava era uma repelente proporção de sujidade, marca da sua extensa travessia, sinal do tempo. A sua entrada na aldeia (proveniente de Sul, dos lados da Ponte de Fajão), e consequente primeira impressão obtida, contrastou com o impacto causado aos locais. Se para si a rotina calçava repetição, pela sucessão das semelhanças nas povoações que durante as recentes semanas refutara, para os poucos habitantes, que à sua recepção naquela pluviosa tarde acudiram, o sentimento geral foi de esmero e eram zelos que se descosiam. Deixou-se alojar na pensão local, remodelado edifício do que um dia tivera sido a cadeia da região – nessa altura em que a aldeia era sede de concelho, continha mão cheia de milhar de habitantes e tratava de ligar umas Beiras às outras – e, assaltado pela fome que o preenchia, lançou-se ao único restaurante que existia num raio de uns bons quilómetros, assim findado um revitalizante, merecido duche de água quente. Chamava-se o restaurante “Juiz de Fajão” e, de tanta fome ou não, era receio que a sua face transbordava. Pensar-se-ia, pela sua expressão e apenas por instantes, que aquele pouso gastronómico seria na verdade a real sala do magistrado e que, como tantos outros almocreves que por ali passaram nas longínquas décadas predecessoras, também ele se submeteria à justiça local. Fosse ela a que fosse. Mas não, tal pensamento não mais era do que o estigma dos tempos idos, e a realidade que em desordem desaguava na sua mesa facilmente lhe explicava que o único mandato a que ele enquanto réu responderia era apenas e só a um delicioso, frenético tribunal de sabores. Fez-lhe companhia o Monsenhor: o tal, cortês, que acolhe e integra. E com isso fizeram-se igualmente acompanhantes as inigualáveis lendas e contos de Fajão. O simpático proprietário do restaurante – descendente directo do mítico juiz que à casa dera o título – juntou-se ao entusiasmo descritivo e seguiram-se minutos de surrealísticas, burlescas narrativas cruzadas pelo legado de saberes e de adágios populares que compunham o mais prezado património das gentes de Fajão. Entre sorrisos e apanágios passou-se o serão e Brown ficou deveras impressionado com a omnipresente grandeza simplificada que emergira, em águas de aura, pelos espectros do local. Fajão, apesar do xisto que a reportava às demais do percurso, possuía um misticismo próprio, um carisma de nobreza que fazia crer que toda a História, algures em determinado momento, por ali teria passado. Os olhos do Monsenhor, preparados para bater de retirada imediatamente após as profecias lançadas por um dos populares que pelo restaurante passara, relacionadas com uma intensa alteração climatérica para as Nortadas que se aproximariam, deixaram-se ainda predispor para um sustido suspiro: o do reflexo à menção de Brown, quando abordado o estudo que fazia para a personagem de almocreve. Pela primeira vez desde que na estalagem confrontara a Quirguiz, Brown deixou-se verdadeiramente arrebatar pelo propósito que aquela jornada implicava. Recordou, talvez pela envolvente introdução da significância de Fajão nas rotas dos almocreves, a capacidade do filme que o recrutara e a exigência do desafio que aceitara. Assentiu que, algures noutras terras, o processo cinematográfico começava a ser moldado e que seria ele, Barry Brown, a catalisar a possível exuberância que o filme pudesse ter. Articulavam-se-lhe sensatos e racionais conjuntos de ideias pelos caminhos do seu organismo: azabumbadas e amalgamadas, numa rufaria de estremunhadas uniões de imagens e de sons, à descoberta da devida, madura exploração. Vasculhara cerca de vinte povoações em busca da Quirguiz perdida até dar entrada em Fajão. Pela possessiva obsessão que o cegara, não sequer se permitira à natural apreciação que as mesmas acarretavam. Nelas vira xisto, ruínas e ferrugem. Nelas não vira as cores, as caras e as vidas. Felizmente Fajão, e as gentes que de forma amável e entusiasta lha introduziu, conseguiram recuperá-lo do empertigado transe passional a que se submetera. Foram lendas como a de João Brandão – temível salteador português que das gentes de Fajão fizera vítimas e reféns pelas mais perversas hostilidades por si conduzidas – que recuperaram a incurável, amadora excitação de Brown pelo ofício que desempenhava. Foram histórias soltas, e despretensiosos contos, sobre almocreves a mando ou à revelia do poderoso juiz de referência regional, sobre lobos de mau cariz, forasteiros bispos ou torres de cortiços narradas a meio termo, ora por este, ora por aquele, constituintes de um inclassificável domínio vocabular capaz de ombrear com o mais vistoso e elaborado artefacto que alguma vez Brown conhecera, tanto que por si só se assumiram como os principais intervenientes neste processo de reabilitação sentimental por ele ali mesmo iniciado. Atribuindo os louros à dogmática companhia do serão e à excelência culinária da esposa do descendente do magistrado, efectuou o pagamento e retirou-se para dormir numa das celas que, antigamente, teriam aprisionado dissidentes e bandidos de piratarias serranas, esses que tal como João Brandão fizeram das Beiras alto mar e bravia teia de malditas conquistas. Com aplicada finura, do alto do seu quarto – situado por oposição à pensão na mesma ruela que dava acesso ao restaurante (entenda-se rua principal, por prática inexistência de outra mais vital) -, a tudo assistira a Quirguiz: como quem, do cimo do palco, manipula a marioneta principal da sua peça. O seu marido sairia de manhã, quiçá pela mesma hora em que Brown despertaria; haveria tempo para o desejado reencontro. Por sua vez Brown, na inocência da motivação e dos pensamentos cinematográficos que para o seu sono o embalavam, mentalizou-se que telefonaria no dia seguinte a Yoannis para fazer um update da sua jornada. Estava cansado e convencido: a jornada estava próxima do fim.

Amanheceu e Brown despertou, ainda que de forma lenta e teimosa. Escutavam-se, pelos arredores, sinfonias de cacarejos a ecoar pelos montes. Soube-lhe bem, muito bem: o descanso da pernoita na pensão local e o encarceramento em paredão de quiméricas ideias sobre o filme que crivaria. Acordou disposto a seguir avante, na direcção do termo da viagem, e merendou pela principal sala da pensão. Teve, de novo, uma breve companhia do Monsenhor, desta vez com o acompanhamento extra, pedido na véspera, de cinco crianças – as únicas que pelas casas de Fajão persistiam. Brown ofereceu-lhes exemplares da magna obra de Pessoa, perante sorrisos, e eles retribuíram com buchas de produtos regionais. Seriam úteis para a viagem. Brown, nessa manhã e naquela terra, preferiu não abordar qualquer temática relacionada com os Russos. Quisera esquecê-los e focar-se apenas em si e nos seus deveres. Dirigir-se-ia à Pampilhosa da Serra e telefonou ao Yoannis da recepção da pousada para comunicar as coordenadas. Seria na terra dos pampilhos que findaria a viagem e seria lá que o recolheriam. Contudo, foi durante esse breve telefonema que se sucederam os mais inesperados fenómenos: a neve começou a cair e a Quirguiz deixou-se ver. Com a euforia gerada pela folipa inicial, as crianças acorreram às ruas, gerando uma generalizada afã pela escassa população da vila; e quando se preparava Brown para desligar o telefone, trocando laivos de um agradável senso de humor com Yoannis, e lançar-se à gélida estrada que pelos montes se desenhava, eis que pôde finalmente ver, entrecortada pela porta da pousada, vestindo violeta e galochas brancas, um excerto da silhueta da Quirguiz. Gerou-se silêncio e uma sequência de apelos sem resposta do outro lado da linha telefónica. Desligou-se o telefone, sem a lógica palavra de despedida, e reacendeu-se a obsessão, sem a lógica porção da narrativa. Pegou na mochila e abandonou a pousada, no magnético sono que a paixão lhe conferia. Observou, à distância, o efeito de divertimento que a queda de neve originava pelos locais. O júbilo expresso por Ilenija, na festa feita com as crianças, foi suficiente para desmoronar o matutino castelo que Brown criara. Nevava com intensidade; e não tardou o chão a colorir-se de branco, alimentando o demarcado contraste que o pigmentado celeste corpo da Quirguiz emanava. Na brincadeira com duas dessas crianças, a Quirguiz escorregou e caiu. Nem por isso parou ela de sorrir, mas também por isso começou Brown a sorrir. Depois fitaram-se mutuamente e o silêncio ainda foi mais predominante, mais alastrado, como se de um propositado fade out sonoro se tratasse. Foram segundos que pareceram anos, de olhos nos olhos, coração com coração, em que a azáfama envolta passara ao vão. Perseguiram-se pela vila, sempre em silêncio, descobrindo caminhos pelos labirintos da brancura e desceram pelas margens do ribeiro, deixando para trás o xisto de mão humana e abraçando os verdeais do inumano campo. Tudo pincelado a branco e apontado a violeta, musicado pelo tímido folho aquático que a corrente do ribeiro rotinizava. Chegaram junto de um pequeno conjunto de rochas e deram largas aos aprisionados desejos que os atormentavam. Beijaram-se com intensidade, soltando toda a surdez que municiara a perseguição, e deixaram crescer as temperaturas internas. Brown levantou a aba inferior do vestido violeta e passou a mão pela côncava fortaleza genital de Ilenija que, sentindo a fricção, soltou um destemperado gemido. Apressaram-se à penetração, que foi tão forte, tão veemente e tão saborosa como sempre haviam sonhado e repetiram o gesto até à ejaculação conjunta, num ímpeto de prazer mútuo, famosa la petit mort do imaginário francófono. Não trocaram verbalização que fosse além da agudizada, gemida respiração de ambos, e sentiram seus mundos explodir numa desenfreada ebulição sexual, apenas ressarcida pelo som das águas que dançavam em pano de fundo. Tudo teve o seu sentido, naquele preciso instante intergaláctico.

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