O Almocreve, XI

II

O dia seguinte nasceu com novo cacarejo, desmontando qualquer mito que pudesse ter prevalecido do conto da busca da manhã. Não obstante, era um facto que Fajão adormecera e despertara novamente com a presença de um almocreve nas suas delimitações – a primeira repetição em muito tempo -, apesar de que nesta segunda noite quase ninguém o soubesse.

O explosivo encontro finalmente vivido por Brown e Ilenija estendeu-se das margens do ribeiro à cama da Quirguiz, aproveitando a curta ausência do Soviético marido, e neste primeiro emparelhado despertar entre príncipe e princesa ficou vincada a vontade que tinha Ilenija de entrever-se nos testemunhos alheios. Mais pertinaz que o canto dos galos foi o primeiro débito de palavras daquele saciado amanhecer:

«Conta-me a tua história.», dito assim, em modos de sedutora curiosidade, a meio tom sobre o mais próximo ouvido do adormecido Norte-Americano.

«Não teríamos dias para tanta palavra.»

«Porquê actor?», prosseguiu, mais desperta e ainda mais curiosa.

«Ufff. Não teríamos palavras para tanto dia.», focando o olhar no revestimento de madeira do tecto do quarto e fazendo um esforço para se recuperar ao predominante sono.

«Qual o teu filme preferido?», soltou ingénua questão, munida entre sorrisos.

«Odeio essa pergunta.», soltando suspiros para o ar, como se puxasse o lustro ao verniz do tecto.

«Não tens um filme preferido?» continuou Ilenija, como que impune ao desabafo.

«Não.»

«Mas se tivesses que escolher um?»

«Não.»

«Nem um que tantas vezes tenhas visto, que ainda hoje saibas as falas de cor?»

«Tenho muitos.»

Ilenija começa a cantar com uma tonalidade muito aguda: «Oooh, early each day to the steps of St. Paul’s, the little old bird woman comes…»

Brown fixa-a com um ar sério, confuso.

«Mary Poppins.», justifica-se Ilenija.

«Não vi.», aceitando Brown a incompreensão gerada.

«Alguma vez tiveste infância? Temos de resolver isso.», concluiu a Quirguiz, tomando uma decidida nota mental.

Brown sorriu e voltou a concentrar-se no resplandecente brilho do verniz.

«E tu? Nada?», prosseguiu Ilenija com o apelo.

Brown colocou uma expressão séria. Ela manteve-se em silêncio, aguardando a resposta. Brown levantou-se, com o mesmo corpo nu com que se deitara e sentou-se pensativo sobre a borda do colchão. Ela sentou-se na cabeceira da cama, puxando ao peito seus joelhos, e o lençol que por alguns momentos da noite os havia coberto, em gesto de curiosidade. Brown levantou-se, sempre em silêncio e com um ar cada vez mais sério, e começou a andar pelo quarto em direcções sem sentido. Encontrou um charuto numa das cómodas, possivelmente pertença do marido ausente, e colocou-o no canto da boca. Continuou a andar pelo quarto sem ganhar aparente sentido e começou a soltar palavras seguidas de palavras (com um registo interpretativo completamente distinto).

«Them clothes got laundry numbers on them. You remember your number and always wear the ones that has your number. Any man forgets his number spends a night in the box. These here spoons you keep with you. Any man loses his spoon spends a night in the box. There’s no playing grab-ass or fighting in the building. You got a grudge against another man, you fight him Saturday afternoon. Any man playing grab-ass or fighting in the building spends a night in the box. First bell’s at five minutes of eight when you will get in your bunk. Last bell is at eight. Any man not in his bunk at eight spends the night in the box. There is no smoking in the prone position in bed. To smoke you must have both legs over the side of your bunk. Any man caught smoking in the prone position in bed… spends a night in the box. You get two sheets. Every Saturday, you put the clean sheet on the top… the top sheet on the bottom… and the bottom sheet you turn in to the laundry boy. Any man turns in the wrong sheet spends a night in the box. No one’ll sit in the bunks with dirty pants on. Any man with dirty pants on sitting on the bunks spends a night in the box. Any man don’t bring back his empty pop bottle spends a night in the box. Any man loud talking spends a night in the box. You got questions, you come to me. I’m Carr, the floor walker. I’m responsible for order in here. Any man don’t keep order spends a night in…», terminou com o gesto de passar a palavra a Ilenija, antecipando natural desfecho.

«…The box?», tentou a insegura Ilenija.

«I hope you ain’t going to be a hard case», terminou Brown, em sequência e ainda em registo da personagem. Depois fez uma vénia, para o aplauso da sorridente Quirguiz, e voltou a deitar-se sobre a cama. Continuava com o charuto ao canto da boca.

«Isso é o quê?», questionou a Quirguiz.

«Cool Hand Luke.»

«Não conheço.»

«Tiveste alguma vida? Temos de resolver isso.» finalizou, categórico.

Na rua, os populares despertaram com a agressiva missão de limpar as ruas da neve que caíra durante toda a noite. O frio que se sentia entrava forte, directo ao osso, mas nem por isso os locais sentiram qualquer tipo de inibição perante o obstáculo. Falava-se que voltaria neve pela tarde e a Quirguiz desejava que se mantivesse a previsão – com isso o seu marido não regressaria. Ilenija sabia-se, com gratidão às compactuadas condições meteorológicas, isenta de ameaças numa confortável ilha de romance; perfeito exílio dos amantes, iluminados e aquecidos por uma lareira omnipresente. Não sentia qualquer tipo de remorso pelo adultério cometido e pouco abordara sobre a sua vida pessoal ou conjugal até então; limitava-se a gozar o tempo no verdadeiro sentido da palavra. O tempo, esse, parara flutuante num incondicional clímax bilateral. Tudo foram rosas, casulo emocional de um afecto em gestação, complemento circunstancial de uma química antecipada. Caiu nova nevada noite. Nasceu novo dístico dia. Pelo meio fragmentos de tórrida impressão viva, congruência alusiva. Tudo semelhante à véspera, mas com mais intenções e menos intensidades; mais conversa, menos excitação. Falaram de muita coisa e de ambos que, por taparem-se, acabaram por revelar mais de si. Falaram de Huron e de Bichkek; da América e da Eurásia. Falaram de Moscovo e de Fajão. De Portugal. Da crise e da economia. Do Rio Sena e da Patagónia. De viagens e de destinos. Da possível feliz vida conjunta, algures onde quer que fosse. Dos Beatles, de Kevin Parker e de Jim Morrison. Da liberdade e da opressão. De sociologia e de antropologia. Da história. Voltaram a falar de Portugal. Falaram do passado e do futuro. Dos sonhos e das ilusões. De bicicletas; de Mozzarella di búfala e de azeite; de pão e de vinho. Da água Portuguesa e da água Italiana e da água dos Países-Baixos e da água do Quirguistão. De restrições. De impérios: Do Persa, do Russo e do Mongol. Da União Europeia. Voltaram à América e a Portugal. Falaram do frio e do calor. Da chuva e do vento. Do Gene Kelly e do Clark Gable; da Debbie Reynolds e da Vivien Leigh. De Hitchcock e de Eisenstein. Do Spielberg. Do E.T. e do Indiana Jones. De Putin e de Mao Tsé. De Bush e de Obama. Do Iraque e do Afeganistão. Do ópio e do petróleo. De Bin Laden e do 11 de Setembro. Do populismo e dos Media. Da internet. Do Facebook, do Google e dos vídeos dos OK Go. Das flashmobs e dos London Riots. Do Children of Men e da City With No Children. Dos Radiohead e dos Nirvana e dos Metallica. Brown era mais culto. Mas ela mais positiva, e sustentava pela curiosidade. Falaram também da Adelaide, a governanta que ganhara par de dias de folga. Falaram da Madonna e do Michael Jackson. Da vida e da morte. Do sucesso. Da indústria, da arte e do comércio. De Hollywood, da Europa e da Coreia. Do colapso e do apocalipse. Da Humanidade e da reprodução. Do estágio embrionário. Da comunicação e dos idiomas. Da evolução e da regressão. De Darwin e de Isaac Newton. Da alquimia. Do calendário Maia, cujo fim de ciclo se aproximava. Do medo e da esperança. Da Terra e do Universo. Da Exxon, da Shell e da Gazprom. Do MacDonald’s e da Walmart. Falaram sobre empreendedorismo. Sobre Gates, Jobs e Zuckerberg. Falaram de Chaplin, do discurso e da representação em geral. Falaram de Stanislavski. Falaram de Barry Brown. De Szombathely e da Europa versus Hollywood. De métodos e processos. De conceitos e noções. Falaram de almocreves. Do projecto de Wilson Ramiro. Do périplo de Brown, de António, de Ofélia, de Duarte Farelos, do Pastor, de Emídio e do Monsenhor. Voltaram a falar de Portugal. Depois fizeram amor. E quando terminaram falaram de saudade. Falaram do Natal e da família de cada qual. Da dicotomia da familiar presença ausente. Da paixão e da ternura. Até que falaram de Roman. E aí a conversa mudou. Ilenija, sem descurar muito, pedia condescendência, e Brown recordou o homicídio a sangue frio que dias antes assistira. Brown tentou expor soluções – não concordava que Ilenija vivesse acorrentada a tamanha maldade; ela parecera-lhe de coração puro – e indagou sobre possíveis cenários de fuga, mas ela parecia focada numa credível incapacidade. Brown procurou convencê-la de que existiria uma chance, mas ela explicou-lhe que Roman era muito mais poderoso e temível do que se pudesse imaginar. Apesar de tudo, não quis abrir jogo sobre as verdadeiras matérias dos negócios por Roman praticados, nem esclarecer qual o tipo de relação existente entre Russos e Nipónicos no meio daquilo tudo. Nem mesmo quando Brown relatou o homicídio que testemunhara, e aí percebeu-se que delatora era coisa que ela não seria. A conversa derivou em argumentação: Pathos contra Logos, essas duas forças da retórica. Ambos tinham razão, ambos tinham sonhos, ambos tinham ambição. No entanto, ambos tinham muito medo. Era mais forte a convicção de Brown, numa apostolar vida conjunta, mas incapaz perante o perfil que a Quirguiz traçava do seu medonho marido. Ela sabia que não iriam longe, onde quer que fossem, e no seu entendimento só existia um cenário possível:

«Eras capaz de o matar?», revelou-o, a frio, em forma de questão.

O pasmo de Brown, caracterizado por um demente sorriso, contrastou com a integridade da pergunta. Ela falava a sério e num ápice a questão tornou-se uma proposta.

Depois a Quirguiz abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e de lá retirou um revólver.

O Americano sentiu-se ofendido e, num acto de fúria, levantou-se e vestiu-se.

«É dele e não seria a primeira pessoa que matava. Não é nada que ele não mereça.», desabafou ela perante o tempestivo ímpeto de Brown.

«Fuck it. A minha oferta é sairmos por aquela porta e nunca mais aqui voltarmos. Agora, já! Tenho quem nos ajude, se colaborares, a desmantelar tudo o que por aqui se possa passar. Tens a oportunidade de te soltares a ti e de arranjar forma de prendê-lo a ele. Mas não me digas, nem me mostres isso.», Brown estava furioso, e cheio de medo. Medo de si, e do que por ela aceitasse fazer.

Ilenija sorriu, de impotência. Voltou a guardar a arma.

«Não fazes ideia de quem ele é.»

Brown fixou-a, por momentos, com o olhar. Depois acabou de se vestir e de arrumar as suas coisas. Continuava enfurecido, incrédulo com o que se gerara.

«Afinal era isso, hã? Desde o primeiro olhar que me lançaste. Sempre foi isso.», acusando-a de jogada feita.

A Quirguiz respondeu com um muito calmo movimento: o de se virar na direcção oposta, envolvendo-se em lágrimas com a almofada que abraçava. Brown fez uma breve pausa, observando-a. Depois meteu a mochila às costas e lançou um último apelo.

«Eu vou. Tens agora ou nunca.»

Ela não respondeu, nem esboçou qualquer tipo de reacção. Limitou-se a chorar as lágrimas de uma vida perdida. E Brown saiu.

A neve que agora caía era mais espessa. Embora, pela escuridão que adormecia a aldeia, apenas se conseguissem descodificar as cadentes quantidades de neve na extensão dos raios de luz que dos lampiões provinham. No entanto, o solo estava já de novo coberto por um uniforme tapete branco. Fajão e Ilenija iriam acordar vítimas da inacessibilidade latente. Brown tentava caminhar o mais depressa que podia, procurando evitar os espaços onde o seu calçado ficasse retido. Algumas zonas anexas à rua principal já revelavam vários centímetros de camada branca e o afundar dos pés era agora uma plausível possibilidade. Fazer-se à estrada com aquelas condições meteorológicas, na força da noite, podia muito bem ser considerada uma opção mais insensata do que a cedência à proposta da Quirguiz. Ou talvez não. Mas a verdade é que Brown estava consumido pelo medo das consequências da paixão. Na estrada só dependeria de si; e uma difícil estrada é singular método para a reabilitação emocional que desejava. Mentalizou-se, ainda a quente com o calor que trouxera da casa da Quirguiz, que a explicação era lógica e simples: o peso da sua influência num possível cruzamento com a vida da Quirguiz chegara ao ponto do não retorno – ou matava ou morria. Soubera-o, pela vida que tivera, que existiam mais cruzamentos do que estradas. Mas moral apenas uma; e essa estava acima de tudo.

Foi por isso um abandono consciente. Fortuito, porque atempado, mas consciente desse recusado compromisso com a morte. Ainda assim custava-lhe relembrar a derradeira imagem que levava de Ilenija – a de um coração destroçado; de fugaz esperança. Não queria acreditar que fosse uma paixão forjada pelos intentos homicidas da Quirguiz. A morte de Roman envolveria grandes porções de dinheiro, era dado adquirido. Dinheiro suficiente para recompor a família Volodin nas lides das fortunas de leste, era mais do que certo. Considerou que pudesse daí advir a macabra estratégia – a de uma infiltrada noiva – e que poderia ter sido ele a marioneta da trama, aquele que mordia o isco de uma perna aberta para chegar à bala perdida. Tudo aquilo tinha contornos de film noir, não fosse a intensidade por Ilenija empregue no contacto – tudo fora demasiado real para não ser verdade, tudo fora demasiado convincente para não ser puro. Ainda assim não seria tamanha pureza a fazê-lo matar um homem. «Deixei o calor que me apoquenta, pelo frio que me atormenta.». Ia ser uma longa noite e foi mais-coisa-menos-coisa esta a frase que acompanhou o seu arrependimento quando, neve sobre neve, começou a tentar construir a sua debandada. Para trás ficara Ilenija, abandonada aos vazios pensamentos e desesperada por narrar a história que nunca conseguiria – a sua. Por mais que se quisesse assumir para contar o que faltava do périplo do almocreve, a verdade é que a redundância da sua voz e das suas ideias era de tal forma opaca que não restava opção contrária à da cedência das palavras. Por mais que ela quisesse tomar as rédeas do acto que seu seria por direito, a verdade é que não o conseguia e, assim, ainda que não nos apeteça mas pelo bem da história, também nós somos forçados a deixar o calor que nos apoquenta pelo frio que nos atormenta.

A solução de Brown foi a de abrigar-se numa pequena junção de rochedos que se assemelhava a uma desamparada caverna natural e fazer uma fogueira. Pôde, com isso, aquecer-se e sobreviver. Não conseguiu dormir, até porque a cada hora tinha de fazer colectas de menos húmidas ramagens para tentar manter aceso o sustento da sua salvação, e decidiu ler um dos exemplares de bolso que transportava. Sentiu-se um cobarde, hipócrita pregador de uma obra que impingia, mas que desconhecia. Escolhera a “Mensagem” por recomendação de Wilson Ramiro; distribuíra-a pelas poucas crianças que encontrara, feito benfeitor do património artístico e cultural lusitano; mas só naquele momento se submetera ao longitudinal retrato do Império Português. Passe a distância geracional entre o ontem e o hoje, era aquele mesmo o Portugal que conhecera – o da enraizada glória e do fugidio esplendor, esfumados pelos geográficos declives de um peculiar pedaço de pátria. Intrigou-o especialmente o verso «Falta cumprir-se Portugal». Culto, racional, sentido, honesto. Depois chegaram aquilo que deveriam ser umas 3 da manhã e o frio tornou-se insustentável. Faltava pouco para amanhecer, mas o pouco que faltava era imenso quando quadruplicado pelo frio que fazia. Perante os uivos de lobos e as mais diversas onomatopeias que naquela calamitosa noite se podiam escutar, reparou que, para seu desespero, insustentável se tornara também o combustível do humilde lume que o conservava. Começaram-se-lhe a bloquear os músculos, primeiro, depois os membros e por fim os raciocínios. Ficou em pânico, pela inércia, e temeu não sobreviver à pior noite da sua vida. Tinha andado o suficiente para o regresso a Fajão deixar de ser opção – com tanto frio e tanta neve e tanta fraqueza seria certo que vergaria algures pelo meio do caminho – e também não fazia ideia da localização de uma mais próxima terra ou local que pudessem ser sinónimos de calor ou de mantimentos. Nem sequer sabia onde se situava e, antes que a fogueira sumisse e o letal arrependimento o consumisse de vez, conseguiu ter um instintivo, mas custoso discernimento de resistência: o de começar a botar livros no fogo, um por um, como quem suspirava por milagres no atravessar do corredor da morte. Sentiu-se mercenário, homicida da arte a soldo da subserviência da sua vida, como se tivesse queimado os derradeiros exemplares da poética obra-prima e desguarnecido o cultural tesouro da Humanidade. Sabia-se, pela frieza a que o frio o obrigara, capaz de matar Roman se a situação assim o obrigasse mas, ainda assim, esforçou-se por mentalizar-se que não o faria por Ilenija. Havia que prosseguir, nascer o dia e caminhar para longe. Sobreviveu aos demónios nocturnos e assim o fez logo nos primeiros esboços de luz: caminhou, o mais rápido e forte que pôde, para o mais longe que conseguiu.

Encontrou um carreiro, junto a um pequeno riacho, que por desconhecida razão ficara impune à formação glaciar; e mais tarde chegou a um descoberto tapete de alcatrão. Pela limpeza percebeu que já por lá passara o dedicado veículo ao matinal recobro rodoviário, e por aí prosseguiu na direcção oposta à do nascer do sol. Por ele passou apenas um daqueles misteriosos camiões da frota de Roman, a uma velocidade fora do normal para as condições climatéricas que se impunham, proveniente das minas com destino ao Resto do Mundo. Tudo em Portugal parecia encaminhar-se para o mesmo sentido em que seguia: o do Oeste, do litoral, dos sonhos, das ilusões e das salvações. Seria por ali que, eventualmente, conseguiria fugir.

A caminho da Pampilhosa estavam também o Mário e o Yoannis: embalados pela chuva, pelo zombetear das esponjas do pára-brisas resgatado a um made in Ásia qualquer do Porto Alto (noutra viagem, noutra história que não vem agora ao caso) e pelo tema “Dance Away” dos Roxy Music que levemente passava na rádio. Mário intercalava a condução com uma elaborada dança de indicador e polegar sobre o volante, ao contrário de Yoannis que se limitava ao estático e silencioso apreciar da pluviosa paisagem. Ainda não tinham chegado às zonas nevadas.

«Diz-me, Yoannis, acreditas mesmo que isto vai acabar, assim, de um dia para o outro?»

Yoannis não respondeu, continuando fixo na paisagem.

«És homem de conspirações? De acreditar nisso?»

«Conspirações?», sem desgrudar o olhar da paisagem.

«Sim, tu sabes… Como a do McCartney, do “Dark Side of The Moon”, das Torres Gémeas, da viagem à Lua, dos Illuminati? Acreditas nessas coisas? Quer dizer, és da Grécia, logo…»

Yoannis olhou com um ar sério para Mário, contendo-se em silêncios. Mas, desta feita, em voluntários silêncios. Estava visivelmente aborrecido e até talvez ofendido perante o juízo de Mário.

«Sabes do que falo, certo? É arrepiante, colocar o “Dark Side” no play ao mesmo tempo que pões o “Feiticeiro de Oz” a rodar. De puro génio, tudo bate certo. Sabias disso, não? Acreditas nessas coisas? Que foi propositado e tal?», prosseguiu Mário com entusiasmo, por contraste à expressão que Yoannis pusera.

«Acredito que se estás a conduzir, te deves concentrar no que fazes.», replicou o Grego com autoridade, desprezando qualquer rumo que a conversa pudesse levar, e voltou a focar-se na paisagem exterior.

Mário sorriu.

«Acreditas em Deus, Yoannis? É de maioria católica, a Grécia?»

«Sou ateu.»

«E a Grécia?»

«Quem se importa com isso?»

«Mas tipo, continua forte por lá de… A mitologia… Como se diz? Politeísmo?»

«Sabes como Roma dominou a Grécia?», voltou Yoannis a olhar na direcção de Mário, revelando agora algum entusiasmo.

«Não.»

«Fechando escolas de filosofia. Desde então, quem quer saber no que pensa, no que acredita ou no quer a Grécia? Deixámos de ser relevantes e passámos a corruptos e corrompidos. A História ensinou-nos que a Mitologia é antagónica à evolução racional e sustentável. A Grécia está descrente e desacreditada, em ruínas, vítima de uma destruição a longo prazo que começou no fecho dessas escolas. Foi o princípio do fim. Isto acabar ou não, nada mais será do que a natural consequência daquilo que o Homem fez a si próprio e não, não sou homem de conspirações. Acredito no conhecimento, na bondade e na maldade humana, na arte e nos media como veículos dessa profusão moral decorrente e na pseudociência dos Maias. O Mundo não vai acabar tão cedo. Isto ainda não é o purgatório.»

Só ali percebeu Mário o quão bem dominava Yoannis a língua Inglesa e ficou em silêncio por uns momentos, na digestão do testamento do Grego. Este, por sua vez, voltou a focar-se na cada vez mais chuvosa paisagem.

«Bem… foi positivo.» e sorriu com amargura, perante o lacónico estado de alma de Yoannis.

De seguida pararam numa antiquada área de serviço, daquelas de estrada nacional, em busca de café e de possíveis empadas, croquetes ou rissóis de mata-bicho. Pela estrada da Sertã dava a ideia que a Pampilhosa ficava mais longe do que alguma vez estivera mas, pelo imenso frio que se sentia, sabiam que não distavam das terras nevadas.

Pela descoberta e deserta estrada do topo dos montes brancos prosseguia o solitário Barry Brown. Continuava a debater-se com o abandono de Ilenija; iria custar-lhe tempo até ao completo esquecimento. Mas o ponto de encontro com os seus salvadores já não ficava assim tão longe – e aí iniciaria um novo ciclo, o de criação e de construção da personagem, e tudo confluiria nesse processo para a formação do seu novo eu, um eu sem Ilenija na memória e com a trama de Ramiro plenificada nos seus objectivos. Tudo seria mais fácil a partir desse momento, que tão perto e tão longe estivera, e que se reaproximava agora a largos passos. Tinha uma larga curva à sua frente, que tudo parecia guiar à revelação das brancas colinas da Pampilhosa após feita, mas que surpreendeu pela inesperada denúncia por si produzida: restos de estoirado pneu levaram ao rasto de marcas de borracha riscada no alcatrão, que por sua vez espalharam milhares de minúsculos vidros e de pedaços de lona pelas conjunturas da curva, que, ao revelar-se, apontou ao brutal despiste do camuflado camião pelo monte abaixo. O calor do acidente ainda se podia respirar pelo local que, dada a sorte do desenho geográfico em que se inseria, conseguiu amparar a queda do desgovernado camião. O estrondo ficou-se pelo primeiro terço da nevada ribanceira, salvaguardando a trágica espectacularidade que acompanharia o rebolo ao longo dos dois seguintes terços. O fumo que emanava do interior do camião revelava possíveis excertos de vida e Brown apressou-se a descer o vale numa imatura tentativa de resgate. A descida fez-se mais difícil do que alguma vez imaginara, pela imensidão de neve que o estorvava, e pelo caminho foi reparando em enormes, plastificados fardos que estavam espalhados pelo vale – teriam sido catapultados da caixa do camião em plena cabriola. Transporte de droga, imaginou de pronto. Seria essa a fachada de Roman, real Barão do Oriente, protegido pelo alibi do volfrâmio e da sua genuína frota transportadora. A julgar pela dimensão dos plastificados fardos, a operação fazia-se em proporções assombrosas e pareceu-lhe de génio, a jogada do Russo: fazer de Portugal (o mais Ocidental país de uma Europa sem fronteiras) a porta de entrada de uma droga provavelmente com origens Sul-Americanas, e usar os confins das mais ostracizadas minas em actividade para armazenar toneladas de ouro branco. De génio, monopolizar o estado de graça de uma crise sem precedentes. A cocaína a Ocidente, por recurso ao eixo montado no interior de Portugal, e a heroína a Oriente, por benefício da rota criada pelos esforços burocráticos do Sr. Volodin. O mundo a seus pés, Citizen Kane dos tempos modernos. E a aliança Russo-Nipónica na linha da frente do domínio global. Incrível o engenho que por ali se proporcionara e o facto de que Ilenija teria omitido todo esse teor dramático à contundência da sua proposta. «Como é que os Estados Unidos não estavam inteirados destas movimentações? Ou será que estavam e que faziam parte do jogo?» Continuou a descer e, quando já mais próximo do camião, encontrou um desses fardos rasgados pelo impacto do espalho. Ficou deveras surpreendido quando reparou que do mesmo não vazara qualquer tipo de pó, mas sim restos de tecido. Apanhou um desses pedaços do solo e reparou na visível insígnia que marcava parte do mesmo: CHBALG – Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio. Ficou confuso. Apanhou outro dos pedaços, de tons alaranjados, que por sua vez não demonstrava qualquer marca. Depois apanhou outro, branco sujo como a neve molhada, e reparou em nova insígnia: Hôpital Duc de Tovar. Apanhou outro e outro e mais outro, todos três com insígnias de hospitais e casas de saúde, de diferentes origens. E percebeu a associação: o negócio não seria droga, mas sim o lixo. Recordou o que se passava em Itália e o que aprendera nas preparações para o “Il Deputato”, o filme que lhe introduzira a clandestinidade da máfia napolitana e a poderosa presença desta na exploração dos resíduos. Ali percebeu que em Portugal a jogada seria semelhante, menos ambiciosa que a primeira conjectura que imaginara (a de relações com o tráfico de estupefacientes), com uma difusão e um mistério sem precedentes – retalhos de tecido seleccionado, oriundo de resíduos hospitalares, para possíveis reutilizações em produção de série. Lavagem de dinheiro na reciclagem comercial. Brown temeu a confusão que se lhe gerou pelo desconhecimento da matéria operada, em termos quantitativos e em simbologias de presumível poder junto do capitalismo dominante, mas descodificou que para um Russo e uns Nipónicos se prestarem ao armazenamento e exploração de tal produto nos confins do Portugal profundo, a derivada valia teria de ser significativa. Quando se voltou na direcção do camião, para prosseguir com os seus intentos de salvamento, deparou-se com o cano de uma M16 apontado à sua cabeça. Segunda vez no périplo serrano que tinha uma arma apontada aos olhos. Novamente, o seu único instinto foi o de levantar os braços no ar.

Chegados à Pampilhosa, já depois do comum deslumbramento com as paisagens brancas que envolviam a localidade escolhida para o reencontro com o pretenso almocreve, Mário e Yoannis não tardaram a encontrar um local onde pudessem aguardar e instalaram-se no único hotel da vila – um hotel moderno, com serviços de spa e confortáveis condições. Ficara combinado que Brown telefonaria a Yoannis no momento em que desse entrada na vila e como não tinham forma de antecipar a possível localização do actor, somente lhes restava a opção de aguardar pela sua chegada. Yoannis recolheu-se quase de imediato no seu quarto, perante o argumento de necessidade de descanso, e Mário decidiu aproveitar as instalações do spa. Ao entrar no lounge zen do espaço reparou que apenas outras três pessoas utilizavam os serviços de bem-estar. Deitou-se sobre uma das camas de massagens mais afastadas das de onde as outras pessoas se encontravam e esperou que alguém dos serviços o atendesse. Reparou que eram 3 homens, nas mais afastadas camas, e tinham origens estrangeiras. Pareceram-lhe Russos, pelo dialecto. Depois uma funcionária do hotel chegou próximo de Mário e perguntou-lhe que tipo de terapia pretendia. Perante as opções apresentadas, Mário decidiu-se pela anti-age performance.

«Isto depois dos 40 é sempre a descer.», justificou-se, em dose humorística, à jovem terapeuta que, apesar de delicadamente atenciosa, não abundava em beleza.

A funcionária retirou-se por instantes, para recolher o material necessário à opção escolhida e a atenção de Mário focou-se no toque de um telefone que obrigou à concentração verbal e gestual de um desses Russos. Era Roman, com dois dos seus habituais capangas, ali retidos à espera do total desbloqueio da nevada estrada para Fajão, e Mário, que disso não fazia puto ideia, simplesmente aguardou pelo regresso da funcionária. Não pôde, no entanto, deixar de notar na apreensão que Roman denotara pelo decorrer da conversa telefónica e, apesar do indecifrável idioma que a dominara, percebeu a agitação gerada pelo conteúdo da mesma e a repetição de um descodificado termo: «Americanski». A funcionária regressou, os Russos partiram, e Mário, na sua pura inocência descontextualizada, preparou-se para o luxuoso tratamento que encomendara.

Luxuoso também foi o carro destacado à frota automobilística de Roman para propósitos do resgate de Brown e do militarizado motorista ao local do acidentado camião. Brown fez a viagem de regresso ao complexo das Minas da Panasqueira sempre consciente e nem por uma vez havia sido agredido. Percebeu que simplesmente tinha sido apanhado no local errado à hora errada e que a causa do seu sequestro, se é que realmente de um sequestro se tratava, era o perigoso conhecimento que detinha sobre o conteúdo dos plastificados fardos. A comunicação não foi fácil – ninguém fizera um mínimo esforço para responder a Brown, quer ele questionasse em Inglês, Húngaro, Italiano, Holandês ou Português – e resignou-se à aceitação de que possivelmente o seu destino, uma vez chegado ao complexo da Minas, pudesse ser igual ao do congénere Nipónico. Resignou-se à ideia de que possivelmente a sua sina o pusera à prova e de que, uma vez perante o juízo de Roman, não escolhera matar e por isso teria de morrer – era um ciclo fechado, aquele em que entrara, e tivera a possibilidade de se safar pelas mãos da proposta da Quirguiz; era um beco sem saída, sua torre de Babel, e o castigo da sua recusa era pagar com o custo da sua própria vida.

Já no complexo foi levado para uma espécie de conjunto de celas situado abaixo da superfície, por uma das muitas bocas de terra que abriam caminho aos confins da clandestinidade. Pelo trajecto cruzou-se com dezenas de mineiros, de roupas encardidas e dentes podres, que teimavam em sorrir na sua direcção. Romenos, Búlgaros e Moldavos, na sua maioria. Embora, à primeira vista, parecessem todos Russos. Dentro das celas começou a decifrar outras dezenas do que poderiam ser prisioneiros ou reclusos das intempéries do negócio – estes eram na sua maioria de índole asiática, talvez da China, do Laos, do Camboja, da Tailândia, do Bangladesh, da Índia, do Paquistão, do Afeganistão, do Tajiquistão, do Uzbequistão, do Quirguistão, do Cazaquistão e, porque não, da Mongólia. A maioria era de longe, muito longe, completamente desfasados da vida que por ali se vivia à superfície e confinados às mais bárbaras acções humanas. Talvez o negócio de Roman também se alargasse ao tráfico humano e talvez ali residisse maior parte da carne para canhão que disso se fazia o sector. Mas também por ali havia Portugueses, velhos e jovens, talvez vítimas do mesmo azarado conhecimento que também aprisionara Brown. Ao ser fechado numa dessas celas temeu ser devorado num infortunoso ápice. Fez um último apelo aos poderosos Russos que o ali haviam colocado, mas a resposta fez-se muda e insensível. Pese o termo, ficou entregue à bicharada. Pareciam zombies, cavaleiros do apocalipse, muitos deles seguramente sem ver luz do dia há já bastante tempo. Pele e osso e nefastos odores, tal como a praga que o insurgira à entrada da casa naquele estranho sonho que tivera. Mas agora era real, por mais surreal que parecesse, e só o inesperável próprio da realidade possibilitou o acto que se seguiu: os assustadores prisioneiros, indeléveis à nova companhia, baixaram guardas e ofereceram parte dos restos de água que num artesanal cantil iam amealhando. Não atacaram, nem assustaram. Receberam com respeito e caloroso afecto. Do fundo da mais próxima cela revelou-se uma espécie de ancião, com a cara tão fustigada de cicatrizes que se tornava difícil perceber se ainda detinha o seu olho direito.

«Fazem isso a todos os que aqui chegam, não te assustes. Recebem-vos assim, com esperança de que sejam vós quem os salve. Depois o tempo passa e percebem que pura e simplesmente não existe salvação. Fui o primeiro a ser aqui fechado, e já passaram 7 anos. Era o guarda das antigas Minas, antes de serem compradas pelo Russo. Falei coisas que não devia e desde então que aqui estou. Depois foram chegando, dia sim, dia não, de todos os cantos do Mundo. Ao menos eles ainda daqui vão saindo, vendidos a troco da palha. Levam-nos para África, essencialmente. Lá fora ainda duram menos. Por isso cada um que aqui chega é recebido com a fé da salvação. Aproveita, enquanto podes. Bebe a água enquanto acreditam, que em breve por ela matar-te-ão.», aconselhou o velhote.

Brown deu um gole na água, para gáudio dos prisioneiros e agradeceu o gesto. De seguida chegou próximo das grades da cela que faziam parede com a cela do velhote e procurou obter mais informações.

«Como posso sair daqui?»

O velhote sorriu.

«Eu consigo salvar-vos.»

O velhote sorriu de novo.

«Preciso que me ajudes a chegar lá acima.»

O velhote rebateu a súplica com novo sorriso. E de seguida confessou: «Todos dizem isso. Mas a verdade é que ninguém daqui sai.»

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