The Impossible

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Confirma-se. A Academia está cada vez mais imprevisível.

Pude (finalmente) ver ontem um dos mais badalados filmes da temporada pré-Óscars. Comentou-se que seria este um dos mais fortes candidatos para o arrebate de grande parte das principais categorias; filme, realizador, equipa artística, categorias técnicas. Tinha tudo para sair revestido de glórias da mais majestosa gala do mundo cinematográfico já que segundo os media (de um pouco por todo o mundo) este filme tinha tudo para vencer. Mas por vencer digo uma vitória em grande, convincente, plena. Repleta de soberba. Não pareciam restar quaisquer dúvidas.

Pois bem, pela minha maneira de ver as coisas, nunca essa media esteve tão correcta.

Quão injusto é olhar para a lista de nomeados e ver que foram escolhidos 9 filmes em 10 possíveis, e que o “The Impossible” não ocupou essa possível décima vaga. Já nem digo nas restantes categorias (a realização de JA Bayona é fabulosa), porque em termos de papéis memoráveis esteve este ano bem recheado e em termos de produção e elementos técnicos/cénicos é por norma difícil concorrer com o made in Hollywood. Ainda que esta produção integralmente Espanhola venha quebrar esta regra. Apesar de tudo, a brilhante contribuição de Naomi não pôde passar ao lado (justíssima nomeação), parecendo quase como um gesto destinado a amenizar a decepção de todos os nomes envolvidos na produção deste grande filme. Mereciam mais, muito mais.

Passo a explicar porquê.

De Hollywood saem todos os anos inúmeros Blockbusters. Poucos deles são os que têm profundidade ou qualquer tipo de dimensão humana, preferindo dedicar-se a uma espectacularidade gráfica que preencha o quadro de artefactos em vez de tentar encontrar uma peronalidade própria do filme, uma alma a que possam chamar de arte. Desde o “Jaws” que a fórmula do Cecil B. Demille foi pelo grande Spielberg canonizada e, de tudo o que tem surgido desde então (dentro desse género), poucas vezes se consegue equiparar à profundidade que o mestre Spielberg vai atribuindo à maioria dos seus filmes.

“The Impossible” marca o virar de página. Demonstra, pela primeira vez, que um filme totalmente made in Espanha pode equiparar-se (e se não agigantar-se) à fábrica da Costa Oeste Americana. Em nada deve, e mais: tem a alma e a profundidade de um filme Europeu. O que, salvaguardando o “estereotipismo” e a generalização dos termos, só pode resultar numa interessante mistura; num entusiasmante meio-termo.

Recordo a nomeação do “War Horse”, no ano passado. Um filme menor do grande mestre do género (Spielberg), que teve lugar nos 10 mais do ano (aos olhos da Academia). Não posso compreender tamanha injustiça (não a da nomeação dum, mas sim a não nomeação do outro). Para mim, o “The Impossible” é muito mais filme (com tudo de bom que daí possa advir) que o supramencionado. E havia uma vaga. O problema é mesmo este, o de que havia uma vaga, caramba.

Não vou entrar em “rodriguinhos”, a tentar vangloriar o que quer que seja do filme. Ou em extensões de justificativos, dizendo porque é que defendo esta opinião. Acho que cada qual deve ver o filme da forma que o quiser ver, e entender dele o que bem sentir, achar ou desejar.

Mas dificilmente qualquer outro Blockbuster que abordasse a temática que aborda o “The Impossible” iria focar o cerne do seu desenvolvimento num plot envolto ao “filho de ninguém”: Daniel, o miúdo que encontram no meio do caos e que serve de elo de ligação entre mãe e filho, entre coragem e esperança, entre sucesso e insucesso, entre vida e morte. Tal como quando a meio do filme nos é contado o título, numa interessante analogia com a vida das estrelas (a impossibilidade de saber quais estão vivas e quais estão mortas, tal qual o sentimento de angústia generalizada que sentiram todos aqueles intervenientes do tsunami). São pequenos detalhes como estes que procuram essa tal profundidade (e que a atingem). Mais do que o brilhantismo da realização de Bayona (fantásticas as sequências do tsunami, talvez ainda melhores as do recobro hospitalar), mais do que as excelentes representações de todos (sem excepção), mais do que todo o arrojo técnico (ao nível do que já melhor se fez em termos de cenografia e efeitos visuais), mais do que tudo isso terá de estar essa profundidade, essa sensibilidade de extrapolar a dimensão da história. E nisso, é o (surpreendentemente principal) plot de Daniel que o consegue. É Daniel (e a capacidade de sentir a importância dele na narrativa – e no Universo, em última instância) que tem a força de elevar este filme ao apogeu de um novo capítulo (a História nos dirá).

Talvez o problema (para a Academia e para os Norte-Americanos) é que JA Bayona teve essa ousadia de arrepiar caminho. O desplante de virar de página na História do cinema – de mostrar que nos tempos que correm é possível fazer um bom Blockbuster em solo Europeu, com fundos Europeus. Tal como Spielberg o fizera com “Jaws”, Bayona fê-lo agora com “The Impossible”, cada qual na sua época, cada qual no seu continente. Canonizaram o género, mostrando a forma a seguir. O tal meio-termo.

Ainda que talvez algo rebuscada, creio que JA Bayona só poderá ficar contente com esta minha conclusão:

<Juan, eres el Spielberg Europeo. Enhorabuena, tu peli esta de puta madre.>

Essa décima vaga tinha de estar preenchida.

A História nos dirá.

Estreia hoje em Portugal.

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One thought on “The Impossible

  1. Tiago Santos diz:

    Não podia concordar mais… principalmente quando olhas para essa lista e vês lá o “Les Misérables”…

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