A Odisseia das Notícias de uma Guerra Particular

Domingo é Domingo. Sempre bom, ainda que ultimamente o Sporting não tenha ajudado. Mas Domingo é Domingo. Dia do Sol, dia do Senhor, dia do descanso e do nada a fazer.

O serão do de ontem, 27 de Janeiro de 2013, foi no entanto uma miríade de sensações televisivas. Abençoada e amaldiçoada internet, que a nós, emigrantes, nos faz chegar a televisão Portuguesa. Carrossel do bom e do mau. E o Sporting, de novo (apesar de ter dado sinais de melhoria), não ajudou.

Mas o que se seguiu foi muito bom.

Foi uma confirmação; um regozijo. Aconteceu algo que há muito tempo não me acontecia: sentir fascínio por um conteúdo de ficção Portuguesa.

O segundo episódio de “Odisseia”, brilhante desvario de Gonçalo Waddington, Bruno Nogueira e Tiago Guedes (a partir de agora ainda mais abrilhantado pelo génio de Nuno Lopes, assim o espero), constituiu-se num fortíssimo sinal de esperança pelos conteúdos televisivos (e não só) que são made in Portugal. Da série poder-se-á dizer tudo, desde o maior elogio à mais destemperada crítica; a cada qual o seu gosto, a cada qual a sua justiça, embora, para mim, seja inegável estarmos perante um produto muito, mas muito bem feito. Ressalvo apenas a difícil tarefa que é a de conseguir criar um universo próprio, com uma personalidade própria, dentro de uma específica narrativa, à qual nos apetece (enquanto espectadores) regressar e regressar. A “Odisseia”, tal como as grandes séries televisivas de que me recordo, consegue-o. Consegue-o bem. Deixa-nos saudosos e ansiosos e excitados e fascinados pelo próximo episódio e pela possibilidade de voltar àquele singular universo por eles criado e vivido, que podia facilmente cair no ridículo ou no exagero ou no descrédito, mas que não o faz. Ou que não o fez, ao longo dos dois episódios até agora exibidos.

Nota: não há memória de uma sequência tão bem executada, tão bem representada, tão bem filmada, tão bem montada na ficção Portuguesa como a que vai desde o início do stand up do Bruno Nogueira até ao fim do plano sequência (da câmara do suposto making of) do monólogo do Nuno Lopes em frente à caravana. Tudo exímio. Tudo perfeito. Tudo brilhante. Venha o terceiro, que os dois primeiros já fizeram História.

Mas o que se seguiu foi muito mau.

O Prós & Contras, que por sinal até é das melhores coisas que alguma vez se fez no (e pelo) serviço público televisivo de Portugal, teve no dia de ontem (a meu ver) uma actuação totalmente desastrosa.

Se por inúmeras vezes o programa tenha sido incansável no esforço de tentar mexer e remexer com as consciências do povo (e dos poderes decisórios), a estranha direcção ontem tomada foi, para mim, Português que sou, a quase todos os níveis incompreensível. Pareceu-me quase um exercício de propaganda. Como se todo o programa servisse um propósito único de incentivo à emigração; como se a ideia fosse apenas a de transmitir ou de promover a célebre profecia do nosso primeiro-ministro (qualquer coisa como «a solução dos jovens é emigrar»).

Eu já ando no vaivém entre o cá e o lá há cerca de 5 anos, já coleccionei experiências em 3 distintos países para além do nosso amado Portugal e já conheci muitos jovens emigrantes Portugueses. Alguns, sim, jovens com formação superior, com bons trabalhos e autênticos casos de sucesso (como todos os convidados que contribuíram para o programa de ontem). Mas a larga maioria dos que conheci (e aqueles que mais motivo de orgulho me deram e continuam a dar) cantam de outra forma. São jovens sofridos, muitos deles sem qualquer tipo de formação superior, que trabalham no duro em perseguição de vidas melhores. Jovens que tiveram que sair porque não tinham outra opção (e não porque gostam de viajar, como ontem quiseram fazer querer parecer), jovens que transpiram para pagar as contas (e não para almejar os luxos que ontem publicitaram). Ontem vi humildade, não digo o contrário, contributos de gente que felizmente conseguiu o que queria em termos pessoais e profissionais. São grandes e elevam o nome do nosso país além-fronteiras. Infelizmente o que não vi foi o outro lado da balança. Não vi um debate sobre a emigração. Vi uma promoção, um enumerar de benefícios e de uma minoria de casos de sucesso, descabida do verdadeiro diálogo e da pertinente reflexão que a temática merece. Vi um «ir para fora é que é bom», que pode ser perigosíssimo para a desorientada juventude nacional. A realidade ontem debatida é completamente adulterada daquela que encontramos nos quotidianos cá de fora. Portugal, no comércio dessa realidade (ou desta ideia de realidade), não tem futuro. Pelo que acho muito estranho (e curioso até) aquele que tenha sido o processo de selecção dos casos abordados. O tema é muito mais urgente (e abrangente) do que o que ontem aos Portugueses quis ser mostrado.

E por fim, para acabar o Domingo em grande, lembrei-me de rever no youtube o que a seguir vos passo:

“Notícias de uma Guerra Particular” é um documentário de antologia. Kátia Lund (que o realizou em parceria com João Moreira Salles, irmão de Walter Salles) é um dos mais subvalorizados nomes do cinema mundial. O cinema Brasileiro muito a ela deve e basta ver os primeiros 5 minutos desta obra-prima para percebermos o quanto lhe vão beber os mais populares filmes da História recente do cinema Brasileiro. Pela pesquisa, pelo arrojo, pela profundidade que atingiu nos seus trabalhos de campo. Pela verdade, essencialmente pela verdade, Kátia Lund é, para mim, uma incontornável referência na arte cinematográfica.

Perdoem-me a analogia, mas não a podia deixar passar em vão. Também nós, em Portugal, vivemos uma guerra particular. A dos que vão e a dos que ficam. Ilustre enigma, o de ir ou ficar. A nossa guerra (ainda) não mata, mas mói. Vivemos sobre o insustentável peso de uma emigração crónica, de um incomparável prejuízo. Criamos grandes jovens homens e grandes jovens mulheres para benefícios de outros povos e de outros países. Tantos casos exemplares tenho eu conhecido nestas minhas “travessias” – como pode Portugal desaproveitar isto? E não são só os de sucesso, são os de todos, desta maravilhosa estirpe que trabalha e encara o fado como poucos. Como poderia Portugal apresentar um conteúdo tão interessante (e tão categórico) como o “Odisseia” se os génios dos seus criadores não estivessem a ser aproveitados dentro do nosso pequeno rectângulo? Temos tantas coisas boas, demasiado boas. E, como prova a “Odisseia”, há tanto espaço para melhorá-las.

Não podemos correr o risco de incentivar os jovens a partir só porque, aparentemente, lá fora é que é bom, só porque lá fora é que há perspectivas.

Não, Portugal. Assim não temos futuro. Há outro peso na balança, os jovens têm de ver e entender isso. Tem que se promover o orgulho e as oportunidades que podem surgir do ficar.

Porque Domingo é Domingo. Sempre bom, ainda melhor se o Sporting ajudar. Mas Domingo é Domingo. Dia do Sol, dia do Senhor, dia do descanso e do nada a fazer. Domingo é, agora, também o dia da “Odisseia”.

Porque quem está desse lado olha para cá. Mas nós, deste lado, olhamos a toda a hora para aí.

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One thought on “A Odisseia das Notícias de uma Guerra Particular

  1. […] aqui tínhamos falado dela, mas nunca é demais – e ainda acrescido o facto de este ser um artigo […]

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