Carta a Portugal

Que difícil és, país dum raio!

Costumo dizer que o estereótipo da mulher Portuguesa é o de uma mulher difícil de conquistar, pouco dada a conversas com o desconhecido e incrivelmente segura de si própria no que ao jogo do engate diz respeito. E também digo que não, que toda essa velha questão do bigode não passa de um mito.

Costumo dizê-lo, muitas das vezes em jeito da constante promoção à íntegra raça lusitana que além-fronteiras faço (ainda que tantas vezes, em tantos momentos, gostasse que a mulher Portuguesa até fosse mais fácil), porque no fundo sei que tal característica é uma inclassificável qualidade; no fundo, a piada do jogo está indissociavelmente relacionada com o seu grau de dificuldade. Só pode ser mais valioso o amor que se fez difícil de conquistar.

Também tu, país mais velho e mais teimoso que o Mundo tal qual o conhecemos, podias ser muito mais fácil (às vezes gostava mesmo que o fosses). Mas não o és.

Estive para te escrever esta carta na semana passada.

Nesta mesma precisa hora, há exactamente oito dias atrás, no dia em que me mandaste abaixo. Oh, se mandaste, Portugal dos meus genes e do meu coração. Foste directo, incisivo e cortaste-me parte da esperança; feriste-me o orgulho de babado filho e de eterno sonhador.

Tive para te escrever esta carta, com tons seguramente mais amargurados e mais desenfreados do que aqueles com que hoje te escrevo. Irias perdoar-me qualquer expressão que mais desleal ou imprópria pudesse ser para com o afecto que te tenho.

Sei hoje que seria uma carta triste, ainda que sempre honesta.

E sei-o porque aprendi por legado familiar, de também teus filhos, que não existe meia-honestidade. Ou se é, ou não se é. Ninguém pode ser meio honesto – nem contigo, nem com ninguém – e essa carta que há 168 horas atrás te quis escrever poderia ser tudo menos desonesta.

Desde que nasci que tenho visto afundares-te num mergulho lento,  premeditado e irremediavelmente desgovernado. Tornaste-te refém do teu próprio fado, cúmplice da tua fatídica amargura. Mas eu não te vou deixar cair assim.

Tenho ideias e tento projectar o meu futuro em concordância com o teu renascimento. Podem não ser as melhores ou as mais pertinentes, mas são laivos de força e de esperança que em ti deposito. Não as concebo para outro sítio do mundo que não sejas tu.

É em ti que quero fazer os meus filmes. É em ti que quero empreender e vir a ter a minha empresa e os meus negócios.

Tentei, não paro de tentar. Mas a verdade é que tu não deixas.

Propus-te um projecto de uma empresa que te apresenta, de forma (incrivelmente) quase inédita, uma diversificação de fontes de financiamento para a produção cinematográfica (recusando a sufocante dependência estatal para a criação e para a produção dos nossos filmes). Propus-te um compromisso de organização de eventos e de actividade cultural em linha com o que de mais diverso e prolífero se faz pelo Mundo fora. Propus-te, ainda sobre tudo isso, um esforço de potencialização dos jovens recursos e dos talentos intelectuais Portugueses. Extinguiram-se os teus mecenas, mas eu apresentei-te hipóteses de recuperares investimentos nas principais potências de que dispões: os jovens que te fogem.

Pode não ser o projecto mais inovador ou a maior garantia de sucesso para os dias que correm. Mas daria frutos, isso te garanto. A médio e a longo prazo, irias recolhê-los. Irias aumentar o espólio de investigação científica, irias aumentar o teu tesouro cultural, irias estar em sintonia com a linha da frente da criatividade global.

A Europa promove este tipo de actividade, apresentando incentivos (o Creative Europe vai arrancar já no próximo ano) mas tu dizes que não é inovadora e que não responde a necessidades de mercado. Dizes isso, e depois vês as salas de cinema fecharem pelo país fora e a oferta cultural desaparecer sem deixar rasto. Sujeitas-te à regressão.

O Passaporte para o Empreendedorismo, contudo, tem tudo para dar certo. Tem tudo para ser a alavanca de sucesso que tu (e os teus jovens) mais precisam. Mas eu dei-te o meu exemplo, propondo-te o meu compromisso, e tu negaste-o. Sou um dos teus filhos que alargou as tuas fronteiras, sempre com a ambição de regressar. De contribuir e de lutar. Mas a verdade é que tu não mo permitiste. E mais, negaste-me e deixaste-me sem resposta. Nem sequer permites que recorra da tua decisão, nem te dignas a dar justificação que seja. Tal qual as mulheres que crias.

És difícil pa caralho, Portugal. Desculpa o termo, mas sei que o Luís e o Fernando iriam ficar orgulhosos. E é a eles, sobretudo a eles, que a tua língua deves. Ainda que nem com eles tenhas sempre sido justo e que talvez tenha sido com essa tua difícil maneira de ser que melhor os exploraste.

Passou-se uma semana e pude com isso refrear o pendente desabafo que tinha em dívida para contigo.

Não desisti de ti, não penses. És difícil, mas o amor que por ti tenho faz-me facilmente habituar à opaca forma com que me tratas.

Irei continuar a tentar, não te irei deixar morrer assim.

Estive próximo de desistir de te escrever esta carta, mas sei que nunca serei capaz de desistir de ti.

Entretanto, hoje li isto e ouvi isto; quão orgulhoso me deixaste de novo. Bastou isso (que é tão pouco mas tão cheio génio ao mesmo tempo) para te querer escrever de novo. Para reacender a inesgotável paixão que por ti nutro.

Tens uns filhos fabulosos, do melhor que há. E eles querem-te tanto.

Mas tu teimas em dar-te a quem menos te merece.

Podias ser mais fácil, podias. Mas não serias a mesma coisa.

Um abraço do tamanho do mundo,

Do sempre teu,

Luis Campos

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