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Mas que preciosidade de filme.

Sinto-me na obrigação, a poucas horas do início da mais mediática gala cinematográfica do Mundo e ainda na ressaca do turbilhão que reflexões que a visualização de “NO” me provocou, de vir aqui destacar esta pequena jóia do cinema contemporâneo.

Parti para o cinema com total desconhecimento da obra de Pablo Larraín (ainda que não fosse um completo estranho ao burburinho que “Tony Manero”, a sua segunda longa-metragem, causara aquando o seu período de estreia), e tenho de admitir que foi um saudável conjunto de factores que me fez decidir e ter curiosidade por este filme. Munido de um trailer que me pareceu desde logo pertinente (e um tanto ou quanto original pela estética distinta que revelava), reforçado pelo nome de Gael García Bernal (cuja escolha por bons projectos já é um dado adquirido) e, acima de tudo, porque a hora de exibição coincidiu com a minha decisão de ir ver um filme. Digo isso acima de tudo porque calhasse a estar o “Django” ou o “The Master” ou o “Lincoln” a começar por essa hora e não teria conseguido resistir às tentações. Ainda bem que assim não aconteceu.

Juro que quando na sala entrei para ver “NO”, era também total o meu desconhecimento pela nomeação ao Óscar de melhor filme estrangeiro que o filme recebeu. Vim a sabê-lo a posteriori, em pleno arrebate de todas as alvíssaras e emoções que o filme me fizera querer comunicar ao Mundo, ainda que saber de tal nomeação me tenha feito sentir uma certa injustiça pelo (de certa forma desprestigiante) arrumo nessa prateleira dos filmes “estrangeiros”. Isto porque, sabemos nós, quando a Academia reconhece mérito a um determinado filme faz questão de o elevar ao quase olímpico estatuto dos melhores dos melhores, seja e venha ele de onde vier. Temos, em sintonia com esta teoria, o exemplo de “Amour” este ano a comprová-la. E, caramba, “NO” é um desses filmes.

Decidi vê-lo ainda em efeitos de pré-digestão de uma outra preciosidade (amigos de Amesterdão, se querem pizzas boas vão a este sítio; não estou a brincar, foi-me mesmo recomendado por Italianos que não brincam em serviço e à primeira visita torna-se garantido que não será a última), mas no final do filme soube que ainda a verdadeira digestão estava então prestes a começar. A pizza já lá ia, curtindo montanhas russas pelos quilómetros de intestinos, mas, meus amigos, quando um filme é bom a maturação não se faz do pé para a mão.

Sinto-me na obrigação, hoje, ainda muito fresquinho (e talvez por isso ainda não devidamente imparcial) nesta digestiva epopeia, de vos chamar a atenção para “NO” precisamente porque de uma coisa tenho certeza: o filme, em última instância, é um brilhante, obrigatório paradoxo sobre a liberdade de expressão (e/ou a falta dela). Isso nada nem ninguém lhe tira. Nem hoje, nem nunca; tenho essa certeza.

Direi mais: nos tempos que correm, obrigatório e pertinente. Porque o filme retrata um 1988 ainda tão actual (e assustadoramente opressor) que facilmente se adapta às imagens que de uma forma diária nos invadem o pequeno ecrã. O filme reporta ao período ditatorial de Pinochet, num Chile em desuso e um tanto ou quanto conformado, mas é impossível dissociar tais imagens e tal estado de espírito à críptica sociedade actual.

Não vos vou falar da história do filme (porque para isso existe o IMDB e a imprensa especializada, basta googlar ou ver o trailer), mas gostava de enumerar dez pormenores do filme que me fazem crer estarmos perante uma obra que deveria constar dos Planos Pedagógicos de Cinema em qualquer país ou sociedade que se preze (atenção aos spoilers):

1. Toda a estética “caseira” que o recurso ao suporte U-Matic 3:4 confere ao filme. Desde que começa que nos sentimos nos 80’s, em pleno cerne da acção e com carácter até algo documental, imprescindíveis para a correcta transmissão do retrato que pretende fazer (à qual a exímia direcção artística não pode passar alheia);

2. A frenética edição (desde logo inerente ao guião), repleta de momentâneas elipses que auxiliam ao propagar de ideologias e de argumentos – as decisões não se tomam à primeira conversa, o desenvolvimento do plot não se faz num único local;

3. A mestria na linguagem cinematográfica de Larraín (e as majestosas representações dos actores) – a prova de como um simples plano, quando em domínio das funções fáticas do cinema, pode dizer tanta coisa (sem pronunciar palavra) e até incluir um surpreendente mini-twist (lembro-me, assim de repente, do genial plano de Bernal de cabeça deitada sobre a linha do comboio de brincar);

4. A desenvoltura narrativa de operação em distintas e delicadas ideologias (e a dimensão humana dos principais personagens), sem correr pretensões de apontar o dedo a quaisquer tipo de moralismos – não subjuga, retrata;

5. O peculiar (e inteligente) humor conferido ao longo de uma das mais épicas “batalhas” humanitárias da História Latina, que não deixa o filme enveredar por recursos do sensacionalismo;

6. A importância da criatividade (e da força do intelecto) no desenvolvimento do contexto sócio-económico;

7. A preponderância do Marketing (e da publicidade e dos recursos audiovisuais) na elaboração de um pensamento popular (as forças da ética, da semiótica e da retórica nos moldes de um conceito ideal);

8. O uso de adereços (e da conotação) em primor da comunicação artística – não é por acaso que o Ministro deita a casca da laranja para dentro do canhão, nem o menos é o facto do genérico final recorrer a imagens do grupo “vencedor” a partilhar e a desfrutar laranjas de uma forma prazerosa; também a extrapolação do micro-ondas (e o seu uso enquanto figura de estilo para as sociedades contemporâneas) e do skate enquanto veículo do personagem principal (caracterização de um anónimo que “desliza” pelas ruas);

9. A ilustração (e o desmontar) da força do poder e em como por vezes o afecto emocional (importância da família) se transpõe às regras de uma determinada ideologia – apesar de tudo Saavedra faz uma espécie de mea culpa quando recorre ao patrão (rival, de distinta ideologia e principal rosto físico da sua luta pessoal) para auxílio na libertação da revolucionária mãe do seu filho;

10. A mensagem final de que as principais forças da luta (e consequentes glórias ou desonras) estão dissimuladas na sociedade: os puros génios que recusam as câmaras e o mediatismo e que na hora da vitória suprimem na alegria do povo pelo qual lutam.

Que preciosidade de filme. Que obra-prima. Que mestre, Larraín.

Ainda assim não posso negar que até me conforta a ideia de que, logo à noite, na maior gala cinematográfica de 2013, a glória deste filme (e dos seus autores) poderá passar incólume ao brilho dos holofotes. Será sinal que, tal como Saavedra, o imortal esplendor do filme sobreviverá junto da alegria do povo pelo qual luta.

E, meus amigos, “o povo é quem mais ordena”.

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