Royal Cafe Convida: O Experimentar Na M’Incomoda

O Experimentar

Posso dizer que foi com um lapso de 2 anos que cheguei até ao projecto d’O Experimentar Na M’incomoda.

O álbum homónimo que serviu de mote ao lançamento deste projecto, a partir de uma reinvenção do espólio musical tradicional dos Açores que em 1998 Carlos Medeiros recuperou através do disco “O Cantar Na M’Incomoda”, foi uma saudável lufada de ar fresco no panorama da música Portuguesa contemporânea. Estávamos no final de 2010. Eu chegara a Londres fazia pouco tempo. E todo este “fenómeno” da folktronica Açoriana passou-me completamente ao lado.

Dois anos depois do disco de estreia, o projecto voltou à carga com “2: Sagrado e Profano”. Uma festa religiosa numa freguesia Açoriana, como eles próprios o descrevem. Este segundo acto propagou-se à velocidade da luz, numa corrente tão apartada quanto revivalista – e não tive como não ouvir falar dela.

Bastou-me uma fugaz audição para sentir que isto era coisa séria e que toda essa coisa da folktronica tinha não só pernas para andar como olhos para ver. Porque é audaz, elaborada e detalhista. Porque é moderna, mas também nostálgica; real eco das sintomáticas ideias da linha da frente. Admito que fiquei impressionado com o projecto e não tardei a pôr-me a par: “conheci” o Pedro Lucas, principal mentor do projecto, Açoriano que reside em Copenhaga, e partilhámos opiniões (tendo em vista até uma possível futura colaboração para o meu projecto do “Squatter Man”). Descobri um talento “ofuscado” pelas idiossincrasias do nosso país, inconformado e trabalhador; cheio de vontade de fazer coisas e munido de uma singular criatividade.

Durante tudo isso, houve sempre um desejo que não me abandonou (e que cada vez se reforçava mais). Tinha de trazer o Pedro (e o projecto d’O Experimentar) ao Royal Cafe; não podia passar sem o esforço de o promover ao Portugal e aos Portugueses e aos falantes da língua Portuguesa que por aí fora ainda não o conheçam. Porque a música que ele(s) faz(em) em nada deve ao que de mais fresco (no sentido criativo) se faz pelo Mundo fora. E porque é obrigatório sentirmos orgulho neste projecto.

Vejamos “Braços”, o primeiro single de “2: Sagrado e Profano”.

E passemos ao Pedro a palavra.

1. Descreve a tua música numa frase.

Música não tradicional baseada em música tradicional dos Açores.

2. Como nasceu a ideia deste teu projecto?

Fortuitamente, quando descobri o disco O Cantar Na m’Incomoda do Carlos Medeiros ouvi-o tantas vezes que um dia, sem querer, fiz uma versão de um dos temas. Daí a decidir fazer um disco inteiro foi um passo.

3. És natural do Faial. Este projecto é a forma de expressares ao mundo a tua relação com a terra que te viu nascer?

Não, acho que o mundo tem coisas mais importantes para se preocupar do que a minha relação com a terra onde nasci. A escolha dos Açores não é, no entanto, um acto fortuito. É difícil explicar porque é que se faz música, faz-se e pronto, (eu até gosto de fotografia mas nem com zoom automático consigo fazer nada de jeito). De qualquer forma este projecto em específico quer dar mundo e contemporaneidade a temas tradicionais. Na verdade é um projecto tradicionalista e anti-folclorista.

4. Portugal tem uma forte herança cultural popular, que tão bem tem sido reaproveitada no teu trabalho. Achas que hoje em dia essa cultura popular esteja algo desvirtuada? Os denominados bailes populares de hoje em dia afastam-se um pouco dessa música tradicional, em detrimento das sonoridades da “nova” música popular Portuguesa (sendo muita dela a famosa música “Pimba”). Porque achas que isto se tem observado?

Ui, isso dava um estudo sociológico. Vou arriscar uma ideia (tipo totobola). A música “pimba” é de certa forma um dos caminhos por onde evoluíram os bailes tradicionais, mas haverão muitos. Esta evolução dá-se numa altura em que o fenómeno da música pop (coisa complexa que não é nem música erudita nem música tradicional e está ligada ao aparecimento de formas de registar música) está no seu auge. De certa forma a música “pimba”, como O Experimentar, é um subproduto do casamento da música tradicional com a música pop em que essa transposição foi feita recorrendo a artifícios mais simplórios (simplicidade é uma coisa diferente). Mas nem toda a música “pimba” tem raiz Portuguesa, existem muitas gradações. Emanuel e Santa Maria não são a mesma coisa que o Quim Barreiros (em muitos sentidos). Daqui a arriscar uma teoria que explique o porquê deste fenómeno musical ter tido tanto sucesso é um passo que eu já não dou. No entanto acho que há cada vez menos fenómenos transversais de massas e caminhamos para uma pluralidade mais saudável. Há muito projecto e bom a trabalhar com música tradicional ou influenciado por esta.

5. A maior concentração desse legado pode hoje em dia ser especialmente observado nos ranchos populares e nas casas do povo de localidades mais pequenas. Achas que esse espólio corre o risco de desaparecimento? Nos Açores isto também se observa?

Eu acho que esse legado deve estar mais em bibliotecas, fonotecas e acervos que propriamente nas casas do povo. Os ranchos folclóricos são uma forma de preservação. Eu acho que não há risco de se perder enquanto houver músicos que partam desse legado para o transformar, e existem muitos: Fachada, Diabo Na Cruz, Gaiteiros de Lisboa, Galandum, Cristina Branco…. A tradição muda e resulta desta fricção entre a vontade de criar algo novo e a vontade de preservar. E enquanto assim for tudo bem.

6. O teu projecto dá novas roupagens de electrónica experimentalista ao cancioneiro popular dos Açores. Podes nomear as tuas principais influências?

Eu ouço de tudo, não gosto de música extremada (tudo o que leva “hard” ou “heavy” já começa normalmente a ser um pouco demais para mim). Para dar alguns nomes: Tropicalistas, Tom Waits, Nick Cave, Flying Lotus, Animal Collective, Zeca Afonso, The Bug, DJ Shadow, Massive Attack, Velvet Underground, Marc Ribot..

7. O teu segundo disco (“Sagrado e Profano”) tem obtido críticas muito favoráveis na imprensa nacional especializada. Achas que conseguiste chegar a territórios distintos daqueles onde chegaste com o primeiro disco?

Sim, apesar de seguir a mesma linha conceptual mas está mais consistente e houve obviamente uma exploração musical por caminhos diferentes, talvez um pouco mais orgânicos.

8. Achas que o teu projecto tem potencial de exportação?

Espero que sim.

9. Haverá um terceiro volume de O Experimentar Na M’Incomoda?

Provavelmente, noutros moldes no entanto, não gosto muito de me repetir.

10. Para além deste projecto, tens outros projectos (de outros géneros ou estilos) em desenvolvimento?

Sim, várias coisas desde a música electrónica a composições só em guitarra. Estou a construí-los paralelamente mas não sei o que vai “ver a luz do dia” primeiro…

11. Qual o artista com quem mais gostarias de colaborar?

Impossível nomear…Tom Zé?

12. Vives actualmente em Copenhaga. Fala-nos sobre isso. Porquê a mudança? O que fazes? Quais as tuas previsões para os próximos tempos?

A mudança teve a ver com um vontade pessoal de experimentar viver fora de Portugal (isto antes de um ministro se lembrar de sugerir a emigração). Trabalho num bar e estou a acabar uma licenciatura na Universidade Aberta. Previsões só como as do João Pinto.

13. Sentias-te capaz de fazer um Experimentar Na M’Incomoda operando no cancioneiro popular Dinamarquês (por exemplo)?

Poderia colaborar com uma equipa de músicos, nunca por minha iniciativa, ainda nem falo dinamarquês…

14. Achas que o projecto poderia ter um carácter multiplicador/adaptável, tal como por exemplo o Vincent Moon e os seus filmes que se foram multiplicando e adaptando a diferentes países, mediante diferentes estilos e origens musicais? Achas que o teu projecto poderia ser pensado num prisma semelhante?

Acho que há e haviam muitos projectos conceptualmente semelhantes ao Experimentar. A Sainkho Namtchylak para nomear um…

15. O teu “live-act” é famoso pela peculiaridade (reforçada por uma forte presença de recursos visuais). O novo disco trouxe ou trará novas abordagens ao teu tipo de concerto?

Sim. Sempre que os espaços possibilitam estamos a tentar ter algumas “componentes” interactivas. E em geral temos mais músicos em palco, a música ganha outra força ao vivo.

16. Muita boa música nova se tem feito em Portugal, capaz de ombrear com o que de melhor se faz pelo Mundo fora. Porque não consegue a música Portuguesa, por exemplo (e sem contar com “Desfado”, o mediático recente disco da Ana Moura), chegar à Pitchfork, à Rolling Stone ou à Stereogum?

Terá a ver com indústria e políticas de exportação, terá a ver com a língua e terá a ver com a música. Há mais coisas para além do “Desfado” e Deus nos livre de ter a Pitchfork e a Rolling Stone como únicas referências.

17. Muito provavelmente, se em 1998 perguntássemos ao Carlos Medeiros se acharia que todo esse cancioneiro popular que ele reinventou no seu álbum Cantar Na M’Incomoda poderia vir a ser re-reinventado, a resposta dele não deveria ir no sentido do que o teu projecto veio a apresentar. Partindo dessa perspectiva, quais as possíveis futuras reinvenções achas que a tua música possa vir a ter?

O Carlos Medeiros tem um trio de música improvisada cuja experimentalidade vai muitas léguas além d’O Experimentar: o Trio Fragata. Por ele aquilo ainda está muito certinho. Quanto a re-reinvenções acho que quem quiser pegar neste repertório irá sempre beber à fonte, e O Experimentar não passará de uma referência. Espero no entanto que essas novas interpretações apareçam, e desejo só que sejam honestas.

Muito obrigado, Pedro.

A pedido do Royal Cafe, o Pedro aceitou partilhar connosco um exercício de um tema que fez para uma banda-sonora de Tiago Pereira.

O Experimentar Na M’Incomoda

2: Sagrado e Profano

O Experimentar (Website)

Que o meu lapso sirva para remendar (e encurtar) os vossos.

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