Questionário de Satisfação ICA

Acabei de receber o convite, via e-mail.

Como já é hábito (este questionário tem cariz anual), não pude deixar de classificar as devidas alíneas (este ano estranhamente mais remetidas à questão de atendimento ao cliente – o ICA tem mesmo atendimento ao cliente? – renegando qualquer tópico de avaliação ao método de funcionamento do organismo). No entanto, na já habitual caixinha de sugestões só não opina quem não quer.

Não sou do tipo de cidadão radical, altamente opressivo perante o funcionamento do organismo de apoio ao Cinema e ao Audiovisual Português, mas aqui ficam algumas das minhas sugestões para aquilo que eu gostaria que fossem os anos que se seguem ao renascimento do mais moribundo organismo nacional:

– Reformulação dos regulamentos/métodos de avaliação de projectos (o potencial narrativo/conceptual/estético do projecto deveria ser mais preponderante na avaliação do mesmo do que os currículos dos proponentes);

– Reformulação dos tipos e níveis de apoio (montante a apoio pré-definido por formato do projecto é ridículo – nem todas as longas-metragens têm orçamentos de 500 mil euros, nem todas as curtas-metragens têm orçamentos de 50 mil euros). O tipo de apoio a conceder tem de ser analisado à medida de cada projecto!

– Reforço dos concursos às primeiras obras cinematográficas (é urgente potenciar novos autores/criadores Portugueses);

– Diversificação dos concursos de forma a não potenciar apenas o financiamento (e consequente execução) dos projectos que apresentem claras estratégias de receitas de bilheteiras ou de sucessos em festivais de nicho (o meio termo tem de ser obrigatoriamente mais promovido, de forma a incentivar um reconcílio da maioria do público Português com o cinema Português e um claro aumento do consumo de cinema Português – a já mencionada reformulação dos métodos de avaliação dos projectos permitiria identificar e apoiar cinema com potencial narrativo/conceptual/estético, ainda que situado no meio dessas duas nuances estratégicas);

– Incutir uma dinâmica activa de divulgação, informação e promoção de toda a actividade cinematográfica de origem Portuguesa. Pontuais notícias de filmes apoiados pela agência da curta-metragem Portuguesa (leia-se decisores do ICA) seleccionados em pontuais festivais internacionais não é suficiente. Há muito mais cinema em Portugal do que esses casos pontuais (ainda que não o queiram fazer parecer);

– Reforço da actividade do ICA nas escolas Portuguesas – o ICA tem de ser uma plataforma promocional/dinamizadora do futuro cinematográfico Português (e não um inacessível organismo aos criadores e consumidores sem qualquer tipo de CV, de experiência profissional ou quaisquer tipos de interesses na área). E quando digo escolas não digo apenas universidades ou cursos superiores de cinema/audiovisual.

– Reformulação do conceito do ICA enquanto organismo. Tem de ser um portal activo, dinâmico, promotor, divulgador do cinema Português junto da sociedade Portuguesa (e isso não passa apenas pelo papel de financiar a criação, produção, exibição e distribuição de filmes ou festivais de cinema). O ICA será fundamental no processo de recuperação do orgulho pelo cinema feito por Portugueses – só mediante o sucesso de tal processo se conseguirá reaproximar o público Português do cinema nacional.

– Aumento das verbas para os programas de apoio à co-produção cinematográfica (incentivar não só a co-produção cinematográfica internacional, como, e de forma igualmente pertinente, a co-produção nacional). O recurso à co-produção é cada vez mais decisivo e recorrente nos tempos actuais – pelo que o correspondente incentivo e suporte por parte do ICA deveria ser condição sinequanone ao seu exercício anual.

– Abandono do conceito faseado de calendário de concursos à criação e produção cinematográfica. Existe uma verba anual, que exista também um período anual de submissão de projectos (para todo e qualquer projecto de criação ou produção cinematográfica), que será depois catalogado por tipo de formato e encaminhado para a devida avaliação (cujo posterior apoio corresponderia ao tipo de orçamento proposto pelo projecto). Esse período aconteceria inequivocamente durante os primeiros 3 meses do ano e permitiria a qualquer produtora ou proponente planear com maior exactidão e equilíbrio financeiro o tipo de actividades anuais.

– Instituir categorias de modelos de financiamento automático (que não precisa de ser no valor de 500 mil euros), como conceito de prémio para reforço à actividade industrial, para proponentes com grandes conquistas ao longo dos 2 anos precedentes à execução do programa: produtoras que conquistem prémios em festivais de renome (a definir antecipadamente) ou que superem a barreira de um x número de espectadores deverão continuar a produzir para dessa forma tentarem encontrar a sua própria indústria e nichos de mercado de forma autónoma.

– Reforço do papel de promoção internacional ao cinema Português – compete ao ICA representar (e até estruturar, pela organização e partilha de contactos) os projectos de cinema Português nos principais mercados e festivais de cinema internacionais. O ICA terá de ser sempre o principal interessado na venda de um produto de origem Portuguesa a festivais estrangeiros – só assim se dinamiza a produção cinematográfica nacional. Se o México o conseguiu e a Roménia também, porque não havemos nós de o conseguir também? Talento não nos falta.

Obviamente que o ICA será muito mais do que isto. No fundo, não sugeri mais do que algumas medidas de revisão do funcionamento que corresponde essencialmente ao incentivo à criação e à produção (e algumas destas medidas estão já previstas na mais recente lei do cinema, aprovada no ano passado). A execução do ICA terá que obrigatoriamente tocar em muitos mais pontos do que estes. Mas eu acho que sem uma correcta política de incentivo à criação e à produção, dificilmente todos os outros pontos virão a ter sucesso.

E as revisões de promoção (e de um papel mais activo do ICA na dinamização cultural do cinema Português), essas considero-as inegáveis. O ICA tem falhado redondamente nesse capítulo, dando uma imagem de instituto público gasto, cansado, passivo. É preciso renovar essa imagem. É muito mais preciso melhorar nesse capítulo do que a aparente preocupação no serviço de atendimento ao cliente – não é simpatia que esperamos do ICA, mas sim acção.

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2 thoughts on “Questionário de Satisfação ICA

  1. Daisy diz:

    It’s great to find an expert who can exilapn things so well

  2. […] Já em 2013 repliquei aqui neste mesmo espaço algumas das ideias e considerações que submeti na a… (é importante contextualizar que esse foi o 1º ano de abertura de concursos após o malfadado estrangulamento total de 2012) e agora, 4 anos volvidos, várias questões fundamentais que então apontei não só não foram ainda resolvidas como continuam a ecoar na minha cabeça. […]

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