Guerra Civil na véspera do 25 de Abril

Guerra Civil, Pedro Caldas

Um dos reminiscentes luxos (ou direi, pequenos grandes prazeres) de nos tempos que correm poder passar uns dias de férias em Portugal está directamente relacionado com a possibilidade de usar e abusar da tão gabada Iris, a tecnologia de ponta da ZON.

É de facto um produto interessante (e libertário) que potencializa a vastidão de recursos e de conteúdos televisivos como nunca havia sido feito na história do pequeno ecrã. Não duvido que seja meritória a atribuição do prémio de Produto do Ano, apenas lamento que a Assistência ao Cliente que a mesma empresa fornece não respeite ou acompanhe o nível qualitativo dos produtos que oferece. É uma pena que as empresas Portuguesas de nomeada continuem a descurar essa fundamental quota do processo comercial – vital para a tão desejada relação de confiança com o mercado.

Voltemos à Iris.

A televisão do futuro será num regime de all in. Nós, enquanto espectadores, chegaremos ao dia do ter acesso a tudo, sempre. A Iris já nos dá uma semana de conteúdos, a qualquer hora, de mais de uma centena de canais. Filmes, séries, noticiários, travel channel, RTP2. Tudo com uma semana de timeframe. Vir a Portugal por uns dias passou também hoje a ser, com a Iris, ter Cinco Noites, Cinco Filmes a qualquer hora do dia.

E agora passemos ao que realmente interessa.

Amanhã será o 39º aniversário do 25 de Abril. Data ímpar na História de Portugal, de celebração eterna, a quem este blog/espaço tudo deve. A liberdade de expressão não tem preço, diga-se de Salazar e do antigo regime o que se queira ou se ache por bem dizer. A liberdade de expressão não tem preço e vale mais do que tudo. Tudo. Ponto.

Não deixa de ser icónico (e irónico) que tenha também sido na véspera de tão célebre data que eu tenha tido a sorte de finalmente ver o “Guerra Civil” de Pedro Caldas. Obrigado Iris, que me permitiste voltar atrás na cronologia televisiva e ter o prazer de assistir a esta pérola cinematográfica – a mais reclusa das películas Portuguesas de todos os tempos.

Não passou despercebido o burburinho que a vencedora estreia do filme no Indie Lisboa 2010 gerou. Posto isso, devo também dizer que não fiquei indiferente perante a não estreia comercial do filme pelo circuito de salas Portuguesas.

Por força de burocracias às quais estou alheio (li algures que a não difusão comercial do filme se prende com uma espécie de bloqueio promovido pela SPA em função de um par de temas da banda-sonora que ainda não conseguiram a devida autorização – não sei se será efectivamente o caso ou não), a brilhante longa-metragem de estreia de Pedro Caldas – ex-director de som que fez carreira de um par de décadas a acompanhar trabalhos dos mais sonantes nomes da cinematografia nacional – ainda não pôde chegar às salas e às pessoas de Portugal.

Venceu alguns festivais, teve uma exuberante (e super concorrida) estreia na Cinemateca e agora já vai na segunda exibição na RTP2 em pouco mais de 4 meses. Por aí se ficou o seu circuito exibicional até à presente data.

Ou seja, o filme está impedido de chegar ao público que o merece. É um filme perdido nos meandros do excesso de zelo, ansioso por fomentar os desejos de toda essa nação que procura de forma incessante um produto cinematográfico capaz de embandeirar em arco a totalidade do nosso génio. “Guerra Civil” pode muito bem ser esse filme. E não o deixamos ver.

Consistente, singular, inteligente, sólido, engenhoso e muito muito bem feitinho, assim o é este paradigmático caso da nossa problemática cinematografia. Numa palavra, exemplar. Ou em três delas, Cinema do Bom.

Encheu-me de orgulho e não tenho dúvidas que me servirá de referência e de forte influência para qualquer coisa (em termos criativos) que venha a fazer de futuro. “Guerra Civil” ocupou e ocupará um espaço ímpar na minha relação com o cinema Português. Um espaço de culto, talvez. Uma relação de afecto, sem dúvida.

Que a memória do amanhã venha permitir a devida difusão deste tesouro e que as pessoas que o merecem o descubram. É demasiado genuíno para se desperdiçar no seu escondimento, correndo o risco de se perder num trágico esquecimento.

25 de Abril, sempre!

“Guerra Civil”, já!

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