A Engenhosa Arte do Artístico Engenho

Estar de férias significa ter tempo.

Significa ter essencialmente tempo para deslumbramentos, sejam eles de índole social, factual, empírica ou cultural. E ter tempo é a maior bênção que a vida nos dá, disso que não restem dúvidas, porque é apenas e só através dessa via que ela nos permite ao seu usufruto.

Por inerência, a acção de ter tempo significa ter em si mesma a existência de uma possibilidade de vislumbre do artístico engenho e de fascínio por seu modus operandi, sua estética e seu contexto. Ter tempo (e dá-lo ao mesmo tempo) é, por consequência, tudo (na sua máxima universalidade) quando perante arte nos debruçamos. Só dessa forma o artístico engenho pode atingir o seu propósito.

Confrontei-me ao longo dos últimos dias com várias obras de distintas propensões temáticas e de incomparáveis concepções criativas. Um livro, cinco filmes e um disco. Todos mestres (e simultaneamente reféns) da engenhosa arte do artístico engenho. Isto é, todos mestres (e simultaneamente reféns) do tempo.

Digo isto porque é ao tempo que o engenho se dá. E é também ao tempo que o engenho se expõe (para o bem e para o mal). Cabe a nós, meros transeuntes desta condição genética, marcar um encontro cronológico com esse vislumbre para conseguir almejar o seu deslumbre. E para isso só precisamos de tempo.

O engenho é, portanto, engenhoso. Pode ser autónomo e inteligível. Logo, de imediata apreensão. Pode ser faseado, decifrável a espaços e entre linhas. E pode ser omissamente promíscuo, “embotelhado” no seu próprio código imagético ou linguístico à espera de uma qualquer revelação ulterior. Aí, já será vintage (e então, muito mais prazeroso).

O Som e a Fúria

“O Som e a Fúria”, de William Faulkner, não é um livro fácil. Mas engenho não lhe falta. Levamos, de facto, as primeiras 155 páginas a pensar o que terá feito tamanha descoordenação narrativa para merecer destaque num dos mais unanimemente considerados enquanto um dos melhores romances de sempre. Teimamos e não desistimos, procurando formular explicações e sentidos que aparentemente não querem existir. Não é difícil considerar, por essa altura, que Steinbeck é muito mais ao nosso gosto. E então entramos no 3º acto (de 4) e tudo começa a fazer sentido. Aí as palavras começam a querer ser lidas com um ritmo e com um entusiasmo invulgar e a natural submersão na agora já emparelhada narrativa começa a não deixar qualquer margem para dúvidas. A experiência de ler “O Som e a Fúria” é ímpar. Se ao início rejeitamos, por confusão, a dimensão das suas personagens, ao final jamais as esqueceremos. E essas 155 páginas iniciais ganham outro relevo, um novo interesse e um totalmente novo sentido de redescoberta.

lincoln

De “Lincoln”, de Steven Spielberg, recupero uma ideia que não me larga. Spielberg é um realizador de géneros. É brilhante (e exímio) quando opera com as convenções de géneros cinematográficos. Dificilmente existirá algum outro realizador na História do Cinema com a sua habilidade multi-géneros. Mas “Lincoln” não é um filme de género. É, poderei arriscar, um experimento na cinematografia de Spielberg. De enorme dimensão histórica, de cuidada seriedade, é um filme de detalhes (e aí Daniel Day-Lewis não tem rival) ao longo de dois terços do filme. Depois torna-se uma espécie de filme de “tribunal” e aí (por entrar num específico género) fica subjugado à mestria de Spielberg. Não será por acaso que a maioria das pessoas digam que o filme só tem piada a partir dessa parte. Eu não partilho dessa opinião. E acho que Spielberg continua a querer inovar, explorando terrenos que dos lados de Hollywood a maioria continua a evitar pisar. Deste filme deixo ao tempo duas notas de rodapé: a revelação final da personagem de Tommy Lee Jones e o pormenor das luvas de Abraham Lincoln.

kingsoftheroad

“Kings of The Road”, de Wim Wenders, é um road movie germânico dos anos 70. Interessante exercício de um então jovem realizador em início de carreira, com reminiscências de Bresson (aquela sequência inicial do acelerado carro até entrar a todo o gás para dentro de água só pode ter sido criada por alguém que admire o cinema de Bresson) e uma forte abordagem à influência Ocidental. De amantes de cinema para amantes de cinema, 175 minutos de puro regozijo estético e temático (um dos personagens centrais é um projector de cinema ambulante), num filme que não respeita barreiras nem fronteiras (a sequência final, na casa de guarda da fronteira é paradigmática) e que explora a semiótica de algumas imagens com irreverência.

the-imposter

“The Imposter”, de Bart Layton, é um engenhoso documentário. Desde a história que conta à estrutura como o faz, é de todo original (e surpreendente) e não é de estranhar que esteja a ser um sucesso comercial (para um documentário) por esse Mundo fora. É pesado, obscuro e pertinente (apesar da situação que aborda tocar por vezes nos limites do doentio) e trouxe-me à memória alguma da densidade emocional que obtive na primeira visualização do “Seven” de David Fincher, à qual o papel de Andrew Hulme (o editor, habituado a ficção) não poderá ter passado alheio. Aproveito para anunciar que teremos em breve um artigo especial com entrevista/retrospectiva de Andrew Hulme aqui no Royal Cafe. Fiquem atentos.

ladri

“Ladri di Biciclette”, de Vittorio de Sica, é um dos expoentes máximos do neo-realismo no cinema. Definição de filme belo, cujo storytelling não tem reservas na manipulação de imagens e de ideias do pós-guerra para nos acalentar em torno da busca do personagem. Brilhante será dizer pouco em relação a este filme, embora por inevitável comparação tenha de recordar que o magistral “Aniki Bóbó” de Manoel de Oliveira foi feito 6 anos antes e ainda consegue preencher uma fatia maior do meu coração para os efeitos do neo-realismo (talvez pela ingenuidade e pela humildade que conecta o filme à minha própria identidade, pelas quais sou obrigado a reconhecer alguma imparcialidade da minha parte). Mas que esta comparação não vos desmotive, estou certo que “Ladri di Biciclette” tem tudo para ocupar uma larga parte do vosso coração. Ternura e humanidade são atributos que não lhe faltam. Para o tempo deixo o plano da troca dos lençóis na “pawn shop” (o da montanha de lençóis armazenados, simbolismo da pobreza que dá mote e que caracteriza o contexto de toda a trama). Genial.

Lake-Tahoe

“Lake Tahoe”, de Fernando Eimbcke, é porventura o mais minimalista de todos os filmes que até hoje vi. Já com “Temporada de Patos”, sua primeira longa-metragem, este Cineasta (com C grande) Mexicano me tinha maravilhado (e desde logo me deu vontade de elaborar um artigo de retrospectiva aqui no blog). Neste segundo registo o criativo realizador decidiu trazer o seu cinema para a rua, mantendo os traços minimalistas que caracterizaram a sua primeira obra (essa toda passada dentro de um apartamento com apenas 3 ou 4 jovens personagens) e procurou inovar em termos de estrutura/linguagem cinematográfica utilizada. As sequências são exibidas numa maioria de planos fixos, cuidadosamente compostos, com variadas elipses intercaladas por cortes para fundo negro. É uma espécie de road movie invertido, visto através de slides de imagens com movimento, em que a avaria do carro dá o mote a toda a trama. De personagens (e dimensão narrativa) valiosas, ritmo lento e perfeito domínio do filme que nas entrelinhas nos é revelado, Fernando Eimbcke prova ser uma certeza do novo cinema. De um novo cinema puro, intocável e talentoso, tridimensional pela ausência de artefactos que não sejam o da câmara (ou do olho que vê) e o da elaborada mecânica entre a estética e a mise-en-scene que determinada imagem em movimento possa querer retratar.

Arcade_Fire_-_The_Suburbs

“The Suburbs” dos Arcade Fire é um disco à Arcade Fire. Que vai e vem, consoante o tempo. Ora está, ora não está. Mas cada vez que o recupero, novos desígnios se levantam. É música de camadas, pensada numa textura acoplada, é uma junção de elementos que confere um conjunto de grandes canções. Jamais me cansarei, passe o tempo que passe. Ora está, ora não está. Mas vai e vem, consoante o tempo.

Só precisamos de tempo.

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