Para o Meu Pai

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“Random Access Memories”, à letra, aponta para qualquer coisa como memórias de acesso aleatório. O que, por pensar no termo, me trouxe à cabeça uma memória recente (em tudo contextualizada com a dedicatória deste artigo).

Há umas semanas atrás, em pleno boom radiofónico da imponente colaboração do Pharrell Williams com a dupla electrónica mais aventureira da História Francesa (e não só), encontrava-me eu em viagem de família, num carro conduzido pelo meu Pai. O rádio estava ligado e o aditivo “Get Lucky” começou a soar. O que também soou, pela identificação da música, foi o meu alarme de chico-esperto que não teimou em afirmar qualquer coisa como «esta música não sairá das rádios tão cedo». Ou «preparem-se, que este vai ser o hit do verão». Algo desse género, como se fosse eu alguma espécie de pseudo-profeta que mais não faz do que lançar clichés para a praça como quem corta baralhos de cartas.

Ao que o meu Pai perguntou: «Isto é o quê?»

– «Daft Punk, Pai. É a música nova dos Daft Punk.»

O meu Pai continuou a conduzir em silêncio. E, sem nada o fazer prever (apenas para aqueles de vós que não o conhecem), subiu ligeiramente o volume. Assim se manteve, em silêncio, dando a ideia que apenas o subira para agradar ao resto dos passageiros – o seu verdadeiro desígnio era o de garantir uma condução prudente, como por nós sempre o fizera.

Quando, do nada, como se num golpe de magia tivesse conseguido viajar ao interior da música e saído, sem que nenhum de nós disso se desse conta, soltou o seguinte comentário: «Isto é chapado do Le Freak.»

Não percebi à primeira. A minha Mãe concordou, com um silencioso, químico aceno afirmativo de cabeça. «Foi um compositor muito importante, esse.», justificou ele.

O meu chico-espertismo caiu por terra. Não fazia a mínima ideia ao quê e a quem se pudessem referir eles nessa bilateral comunicação transcendental. «O c’est Freak, c’est Chic», completou. Aí consegui perceber. Afinal, todos nós, a determinada altura da vida, esbarramos contra o c’est Freak, c’est Chic.

«Grande compositor esse. Teve uma série de sucessos… O Le Freak era um sucesso em qualquer discoteca.», prosseguiu ele na sua nostalgia, à qual apenas consegui apalpar o ínfimo sentimento que através do retrovisor pude descodificar do seu olhar (os meus Pais tiveram também eles, em tempos, uma discoteca). E depois continuou a conduzir, mantendo o seu silêncio. A música voltou a assumir o devido protagonismo.

Não menos de dois minutos depois (talvez ainda antes da música terminar), surpreendeu-nos de novo com uma memória de acesso aleatório: «Nile Rodgers».

Fiquei parvo. Mas tudo fez sentido.

«Era esse o nome dele. Nile Rodgers. Grande compositor.», concluiu.

Como vocês podem ou não saber, eu sou uma espécie de rato de laboratório no que à música contemporânea diz respeito. Visito os sites da Blitz e da Pitchfork numa base diária. Fora todo o tempo que despendo no mural do Facebook. Como tal, era naquele momento impossível para mim não saber que o mais badalado single do momento continha a participação de Nile Rodgers (ainda que, admito, estivesse longe de imaginar a sua relação com o intemporal hit do Le Freak). Mas era para mim impossível não saber que esse nome, o tal de Nile Rodgers, participara na criação do “Get Lucky”. Sabia-o, tal como sabia da (mais óbvia) participação do Pharrell.

O que não foi de todo natural foi o meu Pai acertar à primeira. Sem nunca ter ouvido a música. Sem fazer a mínima que os Daft Punk tinham um álbum novo a caminho. Arrisco a dizer, sem sequer saber o nome de três dos anteriores temas dos Daft Punk. Eu sou da geração que viu os Daft Punk darem um show do caraças no Sudoeste. Mas o meu Pai não é.

Agora, se há coisa que aprendi na vida, é a de que com um melómano não se discute. E o meu Pai, para mim, é o rei dos melómanos. Já por mais de uma vez que o disse e volto a dizer: se hoje gosto de música, é a ele que quase tudo devo. E quando o meu Pai diz «Nile Rodgers», é porque é «Nile Rodgers». Não falha. E não adianta discutir, porque em todo e qualquer tabuleiro de xadrez que possa existir, o rei é a única peça que acabará sempre por triunfar.

Hoje ouvi pela primeira vez “Random Access Memories”, o novo álbum dos Daft Punk. E não consigo deixar de pensar que é um álbum feito à medida do meu Pai.

É um álbum de reis, para reis. Uma inclassificável obra-prima, que não tem lugar no tempo e que é mais do que o próprio tempo e do que todos os tempos juntos. Bastou-me ouvi-lo apenas uma vez, para não ficar com quaisquer dúvidas: é um álbum galáctico, ao grandioso nível da valência da Humanidade. É um álbum que parte da definição dos nossos dias para a incerteza do desconhecimento, explorando toda a dimensão que a harmonia musical possa conter. E reforço a ideia a cada nova audição.

Pai: posso estar enganado ao achar que algures, daqui a muitos muitos anos e nas mais remotas esferas do Universo, este conjunto de harmonias soará como um digno registo musical do que foram, do que são e do que serão as nossas épocas. Mas sei que a ti eles não te enganam.

Por isso sinto que este álbum é para ti. Não fui eu que o fiz, mas dá-me pelo menos a honra de ser eu a mostrar-to pela primeira vez.

Porque o orgulho que nele sinto é quase tanto como se tivesse sido eu a tê-lo feito. Porque é uma celebração ao que de mais belo possa existir na vida – essa comunhão quase celestial de espírito e de harmonia musical, que tu tão bem me ensinaste a saber usufruir.

E porque sei que ao fazê-lo te poderei dar, a determinada altura e em incerto dia, o prazer de te sentares de olhos fechados no sofá e de, com a ajuda desse teu singular truque de magia, te lançares às profundezas do universo deste disco para que 75 minutos depois de lá possas deslumbrado voltar.

É um disco digno de um rei como tu.

(Não te preocupes que a versão física do disco já vai a caminho de casa).

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One thought on “Para o Meu Pai

  1. preciosa0208 diz:

    oi sobrinho, esse rei melómano é o meu irmaozinho de quem também eu sou muito orgulhosa. Tem um espolio inegualavel, e uns filhos de primeira. beijos

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