Sobre Hambúrgueres (e Jacques Audiard)

Vocês que já foram ao The Butcher (ou que já viram os filmes de Audiard) provavelmente sabem do que falo.

Para os que ainda não, permitam-me que vos diga: Amesterdão é uma cidade boa para comer hambúrgueres.

Não só por isso (mau seria), mas também. Digo isto porque tem-nos por todo o lado. E é cheio de intenção que uso o termo “todo o lado”, porque pretendo com isso significar de uma forma clara que não me refiro apenas às multinacionais cadeias-símbolos-maiores-do-capitalismo-selvagem (McDonalds, Burger Kings e afins). Cá até há o Febo – o Robocop dos fast foods; mas Amesterdão só se torna numa cidade boa para comer hambúrgueres a partir do momento em que, para além desses que já conhecemos de cor (e em vários idiomas), descobrimos que ainda existem todos os outros. Qualquer porta que venda cerveja venderá também ela hambúrgueres, conferindo segurança a qualquer estômago que com Amesterdão se cruze – é gezellig saber que mais passo menos passo existirá uma porta aberta com suculentos pedaços de carne no pão capazes de saciar os nossos mais carnívoros instintos. São geralmente hambúrgueres bons, feitos quase sempre com primor e cheios de sabor. Carnes de origem biológica, outras nem tanto. Pickles avinagrados como manda a lei. As tradicionais batatas fritas com o ainda mais tradicional fritessaus (uma espécie de mayonnaise de texturas ainda mais gulosas). Há-os por todo o lado; e regra geral nunca desiludem.

Depois ainda existem os especialistas. Que, diga-se em abono da verdade, nos obrigam a concordar com o distintivo termo. Os do Burgermeester são muito bons, mas não têm nem cerveja nem batatas fritas (o que é saudável, mas desvirtua a tradição), os do Burger Bar são práticos e eficazes, os do Lust são frescos e cozinhados no ponto certo, os do Gasthuys são grandes e refrescantes, os do Krasnapolsky têm fama mas não são para o meu bolso.

Nenhum desses se equipara com os do The Butcher. Enquanto que em todos os outros encontramos o tipo de hambúrguer que esperamos encontrar, no The Butcher encontramos o tipo de hambúrguer que sonhamos encontrar. E esse pequeno pormenor faz toda a diferença. É comer para crer – quem já o fez seguramente sabe do que falo.

Com os filmes de Audiard passa-se o mesmo. Vi hoje o “De Rouille et D’os” que, embora não sendo tão genial como o fora “Un Prophète” (já aqui falámos dele), consegue novamente ser um grande filme.

Violência, melancolia, ritmo, dimensão dos personagens (e dos subplots), linguagem e estética – tudo nas doses certas. Audiard, retratando histórias de desequilíbrios, consegue ser dos mais equilibrados autores cinematográficos contemporâneos. É cool, inteligente, virtuoso, arrojado e, acima de tudo, um exímio storyteller. Não será o número um (ninguém o é, na verdade); e provavelmente não constará nos vindouros livros do cinema. Mas é um cineasta capaz de nos entregar o tipo de filmes que sonhamos ver (e até fazer, criativamente falando).

Os filmes de Audiard serão sempre, para mim e tal como os hambúrgueres do The Butcher, uma enorme referência. E o porquê disso é muito simples: ambos conseguem ser o tipo de coisa que fazemos questão de mostrar às pessoas de quem mais gostamos – para que também elas encontrem neles aquilo que sonham encontrar.

E nós sabemos que o farão.

De rouille et d'os

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