Royal Cafe Convida: Olga Bell

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A segunda artista que aceitou o repto lançado pelo Royal Cafe tendo em vista a rubrica de “Abril, Mulheres Mil” (que acabou por nunca se concretizar) foi Olga Bell.

Nascida em Moscovo e crescida no Alaska, Olga Bell é uma autêntica predestinada para as lides da composição musical. Actualmente radicada em Brooklyn (NY), tem encetado colaborações diversas com nomes como Philip Glass ou Osvaldo Golijov e tornou-se também recentemente parte integrante dos Dirty Projectors (esse fantástico projecto musical de David Longstreth).

A título próprio editou um EP em 2008 e também o álbum “Diamonite” (2011), que pode ser escutado na íntegra (e adquirido) aqui.

É com um enorme prazer que o Royal Cafe aqui hoje recebe a sua visita, na certeza de que o tempo levará o seu nome para palcos bem mais condizentes com a grandeza da sua música.

Descreve a tua música numa frase.

Eu faço música pop experimental incansável, omnívora e de metamorfoses.

Nascida em Moscovo, crescida no Alaska, ícone artístico em Brooklyn. Para além de toda a formação clássica musical que tiveste e do abandono escolar (que te fez rumar a NY em busca da tua carreira musical), quão difícil foi encontrar o teu espaço na super competitiva cena musical Nova-Iorquina?

Para esclarecer, eu não abandonei a escola. Segui uma rigorosa formação de piano clássico até ao Verão de 2005, quando decidi tirar algum tempo depois de concluir o conservatório. Estou muito grata que através de uma série de coincidências tenha dado por mim a fazer um circuito de “open mics” no Lower East Side de Manhattan e em Brooklyn. Era uma comunidade fantástica, muito encorajadora e afável.

Com que idade mudaste para NY? Fala-nos sobre essa experiência. Como chegaste até “Diamonite”, o teu álbum de estreia? Como chegaste aos Dirty Projectors?

Mudei-me para NY com 21 anos. Partilhei um pequeno T1 em Chelsea com o meu meio-irmão e irmã e enquanto ele estava na escola e ela no trabalho (eu dou aulas de piano para me financiar, então o meu dia de trabalho não começa antes das 15:00), comecei a fazer experiências no Garage Band e a gravar as minhas próprias coisas. Cantava para o microfone do laptop, explorava os loops do programa e gradualmente descobri como gravar canções apenas com o uso do computador. Na altura em que estava a trabalhar no “Diamonite”, por finais de 2010 e inícios de 2011, já tinha tocado com o Jason e o Gunnar por vários anos, todos usávamos Ableton e eu sabia que eles seriam parte integral do disco.

Juntei-me aos Dirty Projectors há menos de um ano, para o ciclo do “Swing Lo Magellan”. Bryce Dessner escreveu-me a dizer que uns amigos dele estavam à procura de uma voz/teclista para a banda deles e que eu saberia quem eles eram quando me contactassem. Cerca de uma semana depois estava a tomar pequeno almoço com o Dave e a Amber e após algumas intensas semanas de ensaios toquei o primeiro show na digressão deles no Canadá. Foi incrivelmente excitante, uma vez que sou fã do trabalho deles desde o “The Getty Address”.

Há muitos jovens Portugueses talentosos que emigram em busca de uma carreira de sucesso. Alguns deles mudam-se para Paris, Londres, NY, LA, algo do género do que fizeste quando terminaste o conservatório. Pegando no teu bem sucedido caso, existe algum conselho que gostarias de dar sobre este tipo de aventura?

Ser activo e prolífico. Debato-me com esses objectivos a toda a hora, mas são conselhos que eu própria recebi inúmeras vezes desde que mudei para NY. Mesmo que pensem que não estão a conseguir, quando acham que ninguém vos está a ouvir, têm que continuar com o vosso trabalho. É impossível de saber o que vai descolar ou construir a vossa reputação, então o melhor que há a fazer é produzir o máximo de trabalho que se conseguir, praticar e melhorar.

Como entraste no círculo do Bryce Dessner? E como chegaste à colaboração com o Philip Glass? Eles fazem parte desse tipo de conto de fadas que apenas em Brooklyn se torna real?

Conheci o Bryce Dessner através do Judd Greenstein, que conheci durante um workshop no Carnegie Hall sobre composição musical. A introdução ao Philip Glass aconteceu através do Patrick Wimberly dos Chairlift, que me pôs em contacto com a malta dos Das Racist. Eles precisavam de arranjos de orquestra para duas canções que estavam a fazer em benefício da Tibet House do Philip Glass, também no Carnegie Hall, e eu apareci durante um ensaio de cordas e conduzi os arranjos, acabando por conhecer o Philip Glass e a Laurie Anderson!

O teu trabalho abrange vários tipos de influências. De elementos clássicos, à electrónica vanguardista. Consegues nomear as tuas maiores influências?

Ubíquos como agora estão, tenho de dizer Radiohead e Bjork! Descobri a música deles na mesma altura, quando eu tinha cerca de 12 anos, e virou-me a cabeça do avesso. Continuo a maravilhar-me como os álbuns deles se continuam a aguentar tão bem ao tempo, quanta complexidade e emoção crua coexiste tão perfeitamente na música deles. No conservatório descobri a editora Warp e consumi obsessivamente os lançamentos deles, especialmente Aphex Twin e Boards of Canada. E sempre adorei hip-hop (os maneirismos e os beats); muitas noites de piano remexendo beats dos A Tribe Called Quest em vez de praticar Beethoven.

Acho que “Diamonite” é um dos segredos musicais mais bem guardados dos últimos anos. Alguma sequela planeada? De que forma poderá a colaboração com os Dirty Projectors moldar o teu trabalho futuro?

Obrigado! Terminei agora um EP com novo material que espero lançar no Outono. Estou também a trabalhar num dueto com o artista Britânico Tom Vek – iremos anunciar o lançamento nos próximos dias! O ano com os Dirty Projectors tem sido incrível – tornei-me definitivamente melhor cantora, e estou certa que apenas coisas positivas virão do facto de de repente me ter encontrado dentro da música que adorei durante anos enquanto fã.

Alguma vez estiveste em Portugal? Algum artista Português que admires?

Sim! Toquei no Optimus Primavera Sound do Porto com os Chairlift em 2012. Foi incrível, demasiado curta a viagem! Infelizmente não conheço nada de artistas Portugueses! Por onde devo começar?

Quem é a tua maior heroína musical? E porquê?

Bjork! Ela é corajosa, dentro de tudo e sempre, sempre, sempre a trabalhar!

De que forma os filmes podem influenciar o teu trabalho? Algum cineasta que consideres um tipo de alma gémea do teu trabalho, mas em linguagem cinematográfica?

Não sou uma cinéfila, mas das aulas mais interessantes que tive no conservatório foi a analisar Sonatas de Mozart em conjunto com filmes do Godard e do Eisenstein. É um esticão, claro, mas obrigado!

Os festivais de música florescem por todo o lado. Preferes um palco de festival ou uma sala mais escura?

Se o som e a munição forem bons, estou feliz em qualquer lado.

Revela um pouco do teu processo criativo. Como e quando e onde chegas a uma determinada melodia, que eventualmente dará num determinado tema? E como lhe dás forma?

É muito arbitrário e fruto do acaso no início. Há inúmeras coisas que já cantarolei para o meu telefone, que por vezes servem como ponto de partida. Ando sempre com um Moleskine para letras e ideias de piano, muitos esboços de Ableton que começam com um sample ou uma progressão de cordas… Tento não pensar muito enquanto trabalho na forma da canção, dado que a música pop é por definição familiar e intuitiva.

O que achas sobre o futuro das mulheres na música? E sobre o futuro da música em geral?

As pessoas falam sobre quão catastrófica tem sido a internet para a música, mas ao mesmo tempo também tem sido esta incrível força de nivelamento, permitindo às pessoas que se ensinem a elas próprias o que quer que seja e providenciando incontáveis meios de livre expressão, independentemente do género, raça ou classe económica. Sinto-me sortuda por estar viva agora!

E nós por te ter connosco!

Muito obrigado pela visita! Foi uma honra!

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