A Lei Moral

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*Aviso: Este texto pode conter spoilers.

Em “Butch Cassidy and The Sundance Kid”, Butch, o personagem que Paul Newman imortalizou em 1969 a partir de um argumento de William Goldman e de um filme de George Roy Hill, decide a dada altura transitar para o lado correcto da lei.

Ao fazê-lo – já na Bolívia e como forma de escapatória à ameaça de encarceramento – Butch renega às suas actividades de bandalho e abraça um desafio honesto em prol de uma moralidade que se quer universal. Mas, também por fazê-lo, Butch acaba por se vir a confrontar com a necessidade de matar alguém em abono da ética que acabara de abraçar. Ele que nunca antes o fizera, por mais hostil que qualquer um dos seus saques pudesse em tempos ter sido.

É nesse momento chave do filme que se extrapola a reflexão a outro tipo de patamar. Butch, apesar de bandalho e crónico membro do lado infame da lei, sempre escapara ileso ao veredicto da vida – esse da suma justiça aos olhos de um supremo ser (e dos nossos, por consequência) – mas quando, atraído pelas forças dos valores correctos, Butch atira a matar, o destino do filme levanta um novo desafio. Como se fosse apenas nesse preciso momento que Butch finalmente passa para o lado incorrecto da lei. Da lei moral, diga-se.

Na cerimónia dos Oscars de 2004, quando o brilhante filme “Cidade de Deus” finalmente rompeu pelas bocas do mundo, toda a gente parece ter-se esquecido de um nome: o de Kátia Lund.

aqui tínhamos falado dela, mas nunca é demais – e ainda acrescido o facto de este ser um artigo sobre a lei moral – o esforço de voltar a mencioná-la. E digo isto porque o Mundo parece continuar a teimar em deixar este nome debaixo de um qualquer pisa-papéis colocado sobre as memórias daqueles que, por com ela (ou com o trabalho dela) tenham privado, seus frutos tenham colhido.

Que o cinema Brasileiro se tornou num fenómeno de exportação cultural ao longo dos últimos 10 anos, através de uma frenética e excitante panóplia de obras de um ficcionismo quase etnográfico, ninguém tem dúvidas. E fê-lo com todo o mérito próprio, retratando como poucos países do mundo o conseguem todas aquelas alarmantes assimetrias sociais que vibram pela extensão do país do samba.

Inadmissível é o Mundo parecer querer esquecer-se do nome de Kátia Lund. Foi à actividade dela que grande parte dessa obra contemporânea foi beber; é à obstinação dela que o novo cinema Brasileiro quase tudo deve. E agora os anos passam, com o Mundo atento como nunca, mas os olhos não a vêem.

Resta a lei. A lei moral. Essa firmeza de índole metafísica que é superior a tudo e todos e que faz valer a pena porque não se esquece e não perdoa. Meritocrática, digna e incólume, assim continuará ela a fazer da peça história.

Porque em matéria de falácias revestidas de homenagens estamos já hoje em dia conversados. São feitas em alfaiatarias e só servem bandalhos.

E que o Miguel Relvas é um bandalho, isso então já não será spoiler para ninguém.

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