A Sequência das Girafas

***************************Spoiler Alert!***************************

Girafas_Last of Us

Nada melhor do que uma breve premonição do futuro. Estou seguro que não serei o único a pensar nisto.

A História da Indústria do Entretenimento vai-se construindo e renovando por total mérito dos corajosos e destemidos pensadores que apostam em fazer a diferença. Não é novidade nenhuma isto que vos digo.

Minimizemos essa Indústria aos 2 pólos que me interessam para esta reflexão: o do Cinema e o dos Videojogos.

Méliès, Griffith, Murnau, Ford, Lang, Welles, Barros, Capra, Mizoguchi, Rocha, Kubrick, Leone, Coppola, Spielberg, Tarantino, Anderson, Gray, Cuarón, McQueen…

…Higinbotham, Russell, Bushnell, Arakawa, Miyamoto, Iwatani, Pajitnov, Kojima, Baglow, Desilets, Chen, Druckmann & Straley.

Tantos outros. Mas vamos assumir que estes já chegam para contextualizar aquilo que convosco quero discutir.

Atentem em Neil Druckmann & Bruce Straley, os últimos dessa mini-lista. Porventura, uns dos mais importantes.

E porquê?

Ora bem, Druckmann & Straley são respectivamente director criativo e director de jogo da incomparável Naughty Dog – talvez a mais meritória produtora de videojogos do Mundo.

Do currículo da Naughty Dog contam-se sucessos como os das franquias de Crash Bandicoot, Jak & Daxter, Uncharted e, a que agora começou, The Last of Us.

Recordo-me das horas que passei a jogar Crash Bandicoot. A dinâmica do jogo era viciante e deixou saudades!

Nunca joguei Jak & Daxter. Talvez ainda vá a tempo.

Mas deliciei-me com a saga do Uncharted. E fiquei agora abismado com a primeira incursão no universo do The Last of Us.

Druckmann & Straley foram os criativos responsáveis por grande parte dessas 3 últimas.

Considerei Uncharted II e III como aqueles que provavelmente teriam sido os mais perfeitos jogos nos quais tinha colocado as minhas mãos.

Mas The Last of Us consegue ser bem mais do que isso. É um virar de página; um arrojo na definição do futuro da Indústria do Entretenimento.

Gabe-se a coragem da Naughty Dog pela aposta no storytelling. É esse elemento que, mais tarde ou mais cedo, tratará de fundir os dois pólos que aqui abordamos.

The Last of Us indica o caminho a seguir. Deixa de ser um videojogo a tentar parecer-se com um filme para passar a ser um filme a tentar parecer-se com um videojogo. Principais influências de “Children of Men” (Cuarón) e “No Country for Old Men” (Coen), segundo os criadores. Música de Gustavo Santaolalla. Argumento, Realização e Corpo Artístico de fazer inveja a muitos dos filmes (e dos principais filmmakers) que saem de Hollywood. Domínio perfeito dos tempos e do envolvimento do jogador/espectador na desconstrução da narrativa.

Essa premonição de um futuro conjunto, híbrido entre os dois formatos, deixa-me radiante e, admito, trocou-me as voltas. Fez-me ficar mais atraído pela ínfima possibilidade do storytelling em videojogo do que da de “meramente” em cinema. Acredito que, da fusão entre ambos, nascerá um novo género, um novo formato ou, porque não, uma nova arte.

As minhas estórias, aquelas que desejo contar ao mundo, deixam de fazer sentido no delimitado vazio de um formato único. A ideia de dirigir a envolvência do jogador/espectador no desenvolvimento de uma narrativa é demais aliciante para ser renegada neste preciso momento. Ainda que esta reflexão seja feita a quente e na ilusão do sonho pós-The Last of Us.

Mas é precisamente porque este acontecimento nos demonstra ser possível atingir um estado de imersão sem precedentes na História dos Videojogos que assim o sinto e penso: A arte cinematográfica consegue ser extrapolada no formato de videojogo. Não fico com dúvidas sobre isso.

E sei-o especialmente graças à sequência das girafas. Uma brilhante sequência de 5 ou 6 minutos, jogável (e não apenas cinematográfica), que nos faz sentir, prever, reagir, contemplar e desfrutar do momento como nunca antes algum videojogo que eu tenha jogado tivesse conseguido atingir.

Primeiro as girafas, depois a vista da paisagem. Ellie como ponto principal do trecho. E nós, enquanto jogadores (a comandar Joel), que podemos continuar o percurso mas que não desejamos abandonar o momento.

E este pequeno pormenor é uma conquista singular na História da Indústria do Entretenimento. Pela primeira vez um jogo é capaz de elevar o melhor dos 2 pólos que aqui discutimos a um nível transcendental sem precedentes.

Pela primeira vez senti que o futuro (o meu, o das coisas que eu faça ou tencione vir a fazer) terá de passar por aqui. Pela junção destes dois mundos que, quando em harmonia, são capazes de criar algo novo e nunca antes visto/sentido/jogado.

Vou arregaçar as mangas e apontar para a minha incursão na Indústria do Videojogo Arthouse Europeu. Terá de haver espaço para isso, não?

Como bónus pela paciência na leitura e na partilha desta reflexão (se chegaram a estas linhas é porque jogaram The Last of Us até ao seu épico final minimalista e porque são pelo menos tanto ou mais admiradores do jogo quanto eu), deixo-vos 2 fan made films em imagem real que considero tratarem-se de uma bonita e fiel homenagem ao imaginário que perdurará através de ecos visuais e sensoriais nas nossas mentes até ao derradeiro dos nossos dias.

Abram alas para o Noddy! Daqui por uns tempos conto-vos como correu.

 

 

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