Gravity is Lost

Gravity-All-Is-Lost

Ok, tenho uma teoria. E é sobre coragem.

Comecemos por Alfonso Cuarón. Tem uma carreira (quase) imaculada. É, sem qualquer margem de dúvida, um dos mais brilhantes e criativos cineastas no mercado. Tirando “Solo Con Tu Pareja” e “A Little Princess” – os seus dois primeiros filmes (que eu ainda não vi) -, coleccionou sucesso atrás de sucesso, sempre sem por isso perder o desejo de risco e de inovação a cada nova aventura cinematográfica que foi abraçando. Se em “Great Expectations” focou grande parte da sua coragem na componente estética (a vontade de dar cor à reinvenção da narrativa de Charles Dickens fez todo o sentido a partir do momento em que o simbolismo da cor verde preenche mais de 90% dos quadros do filme), em “Y Tu Mama También” concentrou-a quase toda na força do murro no estômago com que nos faz aquela revelação final que justifica todas as barreiras quebradas ao longo do filme (em nome da vida e da beleza da amizade).

Seguiu-se Harry Potter; e o primeiro dos mais “negros” capítulos da saga. Conseguiu um excelente trabalho. É, talvez, o mais memorável filme do conjunto do jovem feiticeiro (a mestria na realização dos 30 minutos finais do Prisioneiro de Azkaban é qualquer coisa de verdadeiramente assinalável) e talvez também tenha conseguido, pela primeira e única vez em toda a saga, humanizar a residência familiar do protagonista através daquela hilariante sequência inicial. Foi peça fundamental, creio eu, para ajudar a tornar a saga Harry Potter no documento cinematográfico de culto que hoje é. E isto graças à coragem e à desinibição no recurso à mais elaborada gama de linguagem cinematográfica de que a saga dispõe.

De “Children of Men” pouco mais haverá a dizer. É um dos mais brilhantes filmes da História do Cinema, muito à frente do seu tempo, e daqui por muitos anos será devidamente valorizado como o objecto de culto (e premonitório) que é. Em termos de coragem, o filme está carregado dela do princípio ao fim (não será por acaso que 2 dos seus planos – os famosos planos-sequência do carro e da guerra final – são vasculhados numa base diária por todos aqueles que pretendem vir a fazer qualquer coisa de significante em cinema). Não deixa dúvidas, é a obra-prima de Cuarón até ao momento.

“Gravity”, por sua vez, é uma união de dois mundos. O de Cuarón – de riscos e de contragolpes – e o dos estúdios – de certezas e de paninhos quentes. O filme é bravo e corajoso em 85% da sua duração. Mas quase que coloco as mãos no fogo em como os estúdios não permitiram a Cuarón ser Cuarón nos últimos 10/15 minutos do filme. O Cuarón de “Children of Men” (ainda se recordam daquele barco no nevoeiro?) não permitiria que a personagem de Sandra Bullock saísse viva do espaço (quanto mais do fundo do oceano). O Cuarón que eu conheço (agora mais moderado, mas ainda assim destemido como poucos os que por lá andam) teria concluído “Gravity” da seguinte forma: Depois de todo aquele sacrifício e capacidade de sobrevivência sobre-humana além-atmosfera, Sandra Bullock cairia no Oceano e, surpreendentemente, já de lá não sairia. Seria um Cuarón com tomates, a passar a mensagem extra-filme de que por MAIORES que queiramos ser no espaço, primeiro temos é que ser GRANDES na Terra. Ainda nem conhecemos as profundezas dos nossos oceanos e já queremos ser donos e senhores do resto do Universo. Ainda nem respeitamos a nossa Natureza, aquela que nos faz viver, e já queremos dominar tudo o que por questões físicas (e gravíticas) não nos pertence. Poucos (ou quase nenhuns) iriam gostar do filme, se fosse esse o seu final. Excepto aqueles que  não procuram apenas gastar o dinheiro do seu bilhete num expectável exercício de happy endings. Seria um final de filme frustrante (e com capacidade de aniquilar o filme à nascença), sim, sou o primeiro a reconhecê-lo, mas que se faria obrigatório à reflexão. E esse é também o papel do cinema, talvez o seu mais essencial contributo à humanidade: a urgência com que nos faz reflectir sobre determinado assunto. Tenho a certeza de que o Cuarón que eu conheço também pensa assim. Mas que os estúdios (o carcanhol tem de mandar alguma coisa) não lhe permitiram ser totalmente corajoso quanto ele poderia ser. Não deixa de ser um óptimo filme, bem pelo contrário. Tem a honra de ser o filme que até hoje melhor soube explorar as potencialidades do 3D (numa perspectiva de manuseamento de uma linguagem de autor – recordemos o plano de Bullock em forma de embrião, acabada de reentrar na cápsula, ou o não menos brilhante primeiro plano do filme), mas só isso, nos tempos que correm (em que se vê de tudo e de tão pouco), poderá não ser suficiente.

Já J.C. Chandor é outro caso. Tem uma ainda curta carreira, mas que não duvido que se fará longa. E atenção que coragem é coisa que não lhe falta.

Se em “Margin Call” teve o arrojo de colocar o dedo na ferida em todos os principais responsáveis pela crise económica de 2008 (leia-se, de forma indirecta, Goldman Sachs & afins) e a coragem de arrastar/dirigir grandes nomes do mundo da representação para a sua talentosa “bolha” crítica (não é qualquer um que consegue ter Kevin Spacey, Jeremy Irons, Stanley Tucci, Paul Bettany ou Demi Moore no seu primeiro filme), em “All is Lost” perdeu completamente as estribeiras. E ainda bem que assim o fez.

“All is Lost” não é um filme fácil. Para já, é o primeiro filme da história a contar com apenas 1 argumentista/realizador e 1 actor (Robert Redford num dos papéis da sua vastíssima carreira). Ou seja, 2 únicas pessoas a bordo do leme de todo o filme (e só 1 delas é visível). O filme não tem diálogos, apenas um breve monólogo inicial e um par de palavrões entre-dentes estremunhados lá mais para a frente. Depois, porque esse argumentista/realizador é altamente talentoso (e corajoso) e optou por dar sequência ao buzz que se gerou em torno de “Margin Call” com a criação de uma crítica ainda mais elaborada, mais poética e mais acutilante (por se fazer geral).

“All is Lost” é um filme sobre sobrevivência. 1 homem que luta contra as adversidades que se vão impondo sobre o seu barco (leia-se sua casa, seu abrigo). Um filme sobre perda. 1 homem que entra na espiral recessiva e que luta com tudo o que tem para se tentar desafogar. Em suma, um filme sobre a Humanidade. Somos tantos e tão poucos ao mesmo tempo. We don’t care, basicamente. E a maior/melhor crítica do filme é precisamente esta – a que se dirige a todos nós. Na minha cabeça, ao observar “All is Lost”, ia-se formulando um filme sobre um homem que por força da concorrência de produção a preços incomportáveis (o maldito contentor) se via a cair num jogo sem retorno. Um homem que acaba por perder a casa, flutuar nas ruas da amargura e, chegando a esse momento, nada nem ninguém consegue reparar nele. Um mendigo, portanto. Descontextualizado do mundo real, esse mundo em que nós vivemos, sem tempo e sem aparente razão para nos preocuparmos minimamente com aquilo que a nós não nos diga respeito. Por mais sinais que esse mendigo manifeste, só uma mão lhe será dada até ao fim da sua vida: a mão da morte. A luz de outro hemisfério que não os nossos.

Esse é o poema que nos conta J.C. Chandor com “All is Lost”, uma fábula intemporal sobre os tempos que correm. Um filme catástrofe, one man show, como muitos lhe chamam. Um metafórico episódio da vida real, como eu prefiro pensar nele. Tempestades há muitas; a toda a hora e a todo o momento. Mesmo que não se anunciem através de trovões ou de furacões, elas andam aí. A cada esquina, a cada decisão, uma nova tempestade pode incidir sobre a vida de outrem. Se “Margin Call” foi um filme sobre aqueles que a originam, “All is Lost” é sobre todos os que com ela sofrem.

Caso existisse uma categoria nos Óscares de “Filme Mais Corajoso”, só por muita injustiça este ano não seria J.C. Chandor a erguer a estatueta. Infelizmente não me acredito que o filme venha a ser reconhecido por muito mais do que isso (e que para alguns permaneça nas estantes como um dos mais underrated do ano).

Mas, quando daqui por muitos anos olharmos para trás, poderemos sempre recordar que o “All is Lost” (sem a tecnologia de ponta, mas com muito nervo na confecção) os teve bem no sítio e que o “Gravity” não. E isso, meus amigos, isso poderá vir a fazer toda a diferença.

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