O Período Azul

La-vie-dAdèle

Comecemos em 1901: Carlos Casagemas, um ilustre amigo de Picasso, tinha uma amante que era bailarina no Moulin Rouge. Certo dia, após um desaguisado amoroso que o levou a entrar numa espiral depressiva, tentou matar a amante (sem sucesso) e acabou por vir a cometer suicídio. Pablo Picasso, que ficara muito sentido pelo acontecimento, decidiu então iniciar uma série de pinturas que ficaria para sempre conhecida como o seu Período Azul. Segundo a Wikipedia, com tais pinturas Picasso «manifestava a solidão das personagens isolando-as num ambiente impreciso, com um uso quase exclusivo do azul por mais de dois anos…»

“La Vie D’Adele” é um filme imenso. Poderei dedicar horas da minha vida e páginas deste blog a falar e a escrever sobre ele. Junte-se-lhe uns copos de um bom tinto Alentejano e poderei até vir a duplicar essa contagem. No entanto, e para manter a toada, irei recuperar apenas dois elementos para o raciocínio que vos apresento. A cor. E o período.

De Picasso pouco percebo. A pintura, em geral, não é de todo o meu fraco, muito menos o meu forte. A própria história que serviu de introdução para este post foi descoberta numa breve pesquisa que fiz em busca de um título que pudesse soar catita diante dos vossos olhos. E que, de certa forma, pudesse servir para enquadrar o que aqui vos quero dizer. Acho que o consegui. Mas concluamos: de pintura pouco ou nada percebo.

No entanto, não sou daltónico.

E se há coisa que salta à vista no mais recente (e mais condecorado e mais polémico) filme do Franco-Tunisino Abdellatif Kechiche é a utilização da cor azul. Há um momento decisivo no filme: quando pela primeira vez Adele (e nós) nos cruzamos com o cabelo azul de Emma. A partir daí, sem que nos apercebamos, dá-se uma “literal” explosão de azul por todos os raios do campo de acção. Todos os quadros (isto é, todos os planos) têm um qualquer apontamento de azul. Uma parede, uma chávena, um lençol, uma peça de roupa, um placard publicitário. Como uma emoção escondida, como um ligeiro detalhe ou simplesmente como um adereço. Secundário, no plano, mas fulcral em toda a inteligibilidade com que apreendemos os conjuntos de imagens e de relações que nos vão sendo impostas (Kechiche nunca esteve tão próximo das suas personagens – a câmara é quase sempre feita em grandes planos de rostos e de expressões). É possível que não se repare nesse pormenor, numa visualização aleatória, mas por sua vez será impossível não senti-lo. O azul é omnipresente. O azul é Adele. O azul somos nós no mundo de Adele.

Tinha que realçar isto.

Depois, a questão do período. A época em que o filme chega ao mundo. Uma época de neo-liberalismo, numa França azul (é visível pelo menos uma alusão a um cartaz da France Bleu – principal cadeia radiofónica pública Francesa), conturbada pela predominância de um certo conservadorismo. Kechiche é soberbo nas contextualizações que vai fazendo ao longo do filme, tornando-o num dos mais importantes documentos sócio-políticos dos tempos recentes. É um manifesto ao amor. Uma ode à liberdade. E, por vezes, não tem problemas em transportar-nos para o cerne das manifestações populares. Sempre numa perspectiva libertária, de celebração. Sempre numa perspectiva de crescimento – só com tolerância existe progresso social -, e nunca de acusação ou de condenação. Ao mesmo tempo, é capaz de meter o dedo na ferida da crise sócio-económica com brevíssimas notas sobre a descrença no processo de educação superior como porta de entrada para o mercado de trabalho. Surge a dada altura uma frase brilhante, que deve ser tida em conta para a posteridade: qualquer coisa como, “não existe nenhum curso para as artes feias?”

Um filme obrigatório. Para ver, sentir e reflectir. Ou seja, cinema no seu esplendor.

É também o corolário de Kechiche. Um realizador tremendo, que já antes tinha presenteado o mundo cinéfilo com uma verdadeira obra-prima (“La Graine et le Mulet” – “O Segredo de um Cuscuz”). Um autor que não verga em benefício do produto final. Tal como Kubrick, um criador que não teme manobrar-se contra os direitos humanos e os limites da razão sempre que isso possa vir a influenciar a atingibilidade transcendental da obra. Não que tal facto/método/causa seja recomendável, mas é sem dúvida um deleite assistir às camadas emocionais (e racionais) que os filmes deles conseguem conquistar. Tudo em prol de algo superior, algo supremo. Com “La Vie D’Adele” Kechiche viveu o seu Período Azul. Picasso, depois disso, ainda teve mais 70 anos de génio pela frente. Quantos terá Kechiche? Esperemos que muitos.

Dallas Buyers

Sobre Dallas Buyers Club também me poderei entusiasmar. É um grande filme, totalmente dominado pelo seu período.

Foram 17 anos, o tempo que levou até se tornar numa realidade. 17 anos desde que o guião foi escrito. Ou seja, desde 1996 que este projecto estava na calha. Só recentemente conseguiu a tão desejada luz verde. Por um lado, ainda bem que assim o foi – caso contrário nunca teria imortalizado as sublimes representações de Matthew McConaughey e de Jared Leto (muito provavelmente teriam sido outros, menos talentosos, nos seus lugares). Foram 17 anos a tentar amealhar pouco mais de 5 milhões de Dólares para conseguir fazer o filme. E, tente-se contextualizar isto, só foi possível porque um consórcio Texano de 2 empresários (um petrolífero e outro imobiliário) reuniram capitais para investir no cinema. Pois bem, primeira aposta – um projecto que estava há 17 anos na gaveta – primeiro jackpot. Só nos Estados Unidos já rendeu 3 vezes mais do que aquilo que custou. Segue-se o resto do Mundo (e o impulso que leva pelas mais que merecidas nomeações aos Óscares). Um fenómeno que ilustra bem as potencialidades da indústria do (bom) cinema.

Ora, 17 anos são muito tempo. E Dallas Buyers Club, ainda assim (e correndo o risco de ter perdido os contributos de Matthew e de Jared), merecia ter estreado no período certo. O período em que realmente poderia ter tido um impacto ainda mais positivo nas vidas de inúmeras pessoas – esse período em que a SIDA surgiu de forma imprevisível pelos 4 cantos do mundo e, aliada à gritante falta de informação existente, deu azo às mais variadas (e bizarras) experiências farmacêuticas anti-virais.

Não que o filme não tenha o seu devido impacto nos dias que correm (a sequência de Ron a entrar no laboratório natural, de borboletas, na clínica Mexicana é uma urgente chamada de atenção) e não que não devamos ficar eternamente agradecidos pelas magníficas representações do cada-vez-mais-apostado-em-fazer-a-diferença Matthew McConaughey e do esporádico-mas-fulminante Jared Leto (era capaz de apostar em como as respectivas estatuetas douradas já não lhes fogem), mas 17 anos de lapso temporal acabam por lhe retirar um pouco da cor que deveria ostentar.

O filme tem um twist brilhante – e ocorre a pouco mais de meia-hora de ter começado – quando nos apercebemos que afinal não se trata de um filme sobre os últimos 30 dias de vida do protagonista. Eu, que pouco ou nada sabia sobre Dallas Buyers Club prévio à sua visualização, acabei por achá-lo mais surpreendente do que American Hustle (um excelente filme que aposta em demasia num twist que fica a léguas da força de um twist a la Usual Suspects, Psycho ou Seven – os mais perfeitos barómetros da fasquia dos twists cinematográficos) e não me admirava nada que se tornasse no principal vencedor dos Óscares que se seguem. É um filme sério, pertinente e deveras emotivo (sem cair no sensacionalismo barato).

Falta-lhe, sim, a cor das pessoas que viveram esse período e que, inequivocamente, este filme teria de representar.

Não tenho dúvidas de que o faz.

O problema é fazê-lo fora do seu Período Azul.

Como nota de rodapé, é com muito orgulho que comunico que este é o post número 200 do Royal Cafe – uma aventura que abracei há quase 6 anos e meio e que ainda hoje não consigo explicar em palavras o porquê de tal génese.

Acredito que este espaço é uma espécie de colectânea dos meus pensamentos, que de certa forma me ajudam a organizar (e a expressar) os meus raciocínios em torno de marcas que vou adquirindo ao longo da vida.

Sei, isso sim, que me deu sempre um prazer imenso escrever qualquer uma das milhares de palavras que por aqui fui partilhando. E que, por muitos mais posts que se possam seguir, esse prazer viverá.

Obrigado a todos. 200 é um número fofinho.

Talvez tenha também sido este o meu Período Azul.

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