Os Lobos Não Usam Coleira (em 3 Actos)

leowolf

Acto I

Falemos de lobos.

Sabemos que sobreviveram de uma forma estóica à Idade do Gelo, que têm uma singular capacidade de adaptação a vários tipos de ambientes – sejam florestas, desertos, montanhas ou até espaços urbanos – e, quiçá o dado mais pertinente, que os lobos não abundam.

Não confundamos, porém, lobos com velhas raposas.

Os lobos nunca tiveram problemas em mostrar os dentes, quando a situação assim o exige, ao invés que a velha raposa predomina pela matreirice. A velha raposa é mais fugaz do que extemporânea. Se alguma vez tivermos o azar (ou a sorte, dependendo da perspectiva) de nos cruzarmos com um lobo, porventura talvez venhamos a desejar que ele se assemelhe mais com uma velha raposa – afinal, a nossa vida poderá depender disso.

Ora, eu nunca conheci nenhum lobo que fosse domesticado (acredito que os haja, mas eu nunca vi nenhum). Já em relação à raposa, tenho conhecimento de pelo menos um vídeo do youtube que revela tal proeza. Isto poderá não querer dizer rigorosamente nada. Mas também poderá querer dizer muito.

Martin Scorsese é um lobo.

Indomável, aguerrido, inconformado, experiente e, acima de tudo, um lobo sagaz.

Vai a caminho dos 72 anos, mas não tenho quaisquer dúvidas: é mais jovem e mais bravo e mais radical e mais rebelde (tudo pela positiva) do que eu alguma vez tive o prazer de ser. E atenção que eu nunca fui uma pessoa muito conservadora e até me considero bastante liberal em inúmeros e determinados aspectos. Mas acho (ou não duvido) que caso tivesse a oportunidade de sair uma noite com o tio Marty, que “o velho” me arrumava em dois tempos.

Não porque ele, tal como as velhas raposas que se recorrem da noite para pôr em prática as suas artimanhas, me passasse a perna num dado momento da rambóia que pudesse virar o jogo a seu favor, mas sim e simplesmente porque ele é um lobo. Digo um lobo, na verdadeira acepção da palavra. Basta-nos vê-lo falar, para tal percebermos. 3 de mim não seriam capazes de atingir a velocidade de pensamento e de raciocínio que os níveis de astúcia dele conseguem almejar. É, numa única palavra, impressionante.

“Wolf of Wall Street”, o seu mais recente filme, é a perfeita confirmação disto que aqui vos digo. É Scorsese a ser Scorsese. É um filme com resquícios de uma pessoa que andava de câmara ao ombro no mítico festival de Woodstock, que levou Harvey Keitel para as ruas de Nova Iorque sob o pretexto de amotinar o cinema dos anos 70, que dançou a última valsa com os The Band, que meteu a máfia Italiana nos radares da violência Norte-Americana, que fez brilhar estrelas com Mick Jagger & cª, que elevou ao Olimpo da 7ª arte actores como Robert de Niro, primeiro, e Leonardo di Caprio depois, que indagou sobre os legados de George Harrison e de Jesus Cristo (a de Sinatra vem a caminho), que documenta a história do cinema como ninguém mais o consegue fazer, que empreende todos os esforços (e as suas fortunas) na preservação dos arquivos cinematográficos, que não tem problemas em refazer filmes que admira e que prestou a mais bonita homenagem que alguma vez poderia ser prestada a George Meliès. Scorsese é a perfeita personificação do cinema. E “Wolf of Wall Street” é a perfeita personificação daquilo que Scorsese aos meus olhos representa. Hoje, em 2014. Aquilo que Scorsese representa.

É um filme com um ritmo avassalador (qual The Social Network), com 3 horas que parecem uma, com uma juventude de espírito e com um apurado sentido crítico e com uma irreverência e aprazíveis doses de loucura, esteticamente cuidada e classicista (como lhe reconhecemos em muitos dos seus trabalhos), mas com muito nervo e com muita dinâmica. É Scorsese na sua melhor forma, confirmando o seu excelente momento neste novo milénio, e é um filme plenamente capaz de ombrear com os melhores da sua maravilhosa (e vasta) cinematografia.

Scorsese nunca teve receio de mostrar os dentes, quando a situação assim o exigiu. A técnica da “venda da caneta” nunca foi tão pertinente como nos dias que correm (o último plano do filme obriga a essa mesma reflexão), o Wall Street que nós sempre quisemos conhecer foi este que ele nos apresenta (todos sabemos, de forma mais ou menos consciente, os níveis de deboche e de insanidade mental que manipulam os gestores da massa económica global) e inclusive há espaço para uma subtil (mas feroz) crítica dirigida aos impulsionadores do seu próprio filme – a determinado momento há uma afirmação de que poucas acções serão tão seguras como as da Kodak (o filme é passado nos anos 80/90) e é público que “Wolf of Wall Street” marca o início de uma aposta total na distribuição digital pela Paramount (a distribuidora do filme).

O habitat natural do lobo Scorsese é o mundo da 7ª arte. O tio Marty vive, sonha, come, bebe e respira filmes desde que o momento em que nasceu. E isso facilmente transparece em qualquer uma das suas criações. “Wolf of Wall Street” não só é mais um exemplo disso, mas talvez a natural sequência daquele momento na sua carreira em que melhor o consegue exprimir.

É um filme para todos. Sem excepção. E os velhos do restelo que se “f***m”. Abram a mente e permitam-se ser jovens por 3 horas da vossa vida que seja. Mas é, acima de tudo, um filme feito para aqueles que, tal como o tio Marty, idolatram o cinema como se pouco mais para além disso existisse na vida. É uma trip de um qualquer ácido perdido (ou encontrado) em Woodstock, com a duração de 180 minutos tão bons e tão porreiros e tão entusiasmantes e tão atractivos e tão excitantes e tão loucamente apaixonantes que, por vezes, até dei por mim a sentir vontade de chorar. Cinema, meus senhores, é isto.

E isso o lobo Martin Scorsese sabe-o como ninguém.

her

Acto II

Spike Jonze é um lobinho.

Vai mostrando os dentes, que são afiados, e não teme reflectir sobre a sociedade em que nos movemos. Mas parece-me que se faz feroz apenas para a alcateia que o acompanha.

“Her” é um filme especial, muito interessante e profundamente inquietante. Diria até que tem traços de filme de terror. É realmente assustadora a realidade que Jonze nos apresenta (e que não estará assim tão distante e/ou desfasada dos anos que se seguem).

Torna-se, portanto, num filme importante. Que é importante que se veja, para que dessa forma se questionem as nossas ambições, os nossos hábitos e as nossas motivações.

Tem, para mim, um pequeno (grande) problema, que joga contra essa pertinência implícita à visualização do filme. É, de certa forma, um filme de nicho. Ou seja, com o seu condão autoral um tanto ou quanto elitista, que não o torna acessível a todos os gostos (ou, pelo menos, à maioria).

É um Lost in Translation do futuro, em que a Scarlett se torna num robô. E, tal como o antecessor, não se permite propagar a grandes massas (é pena, mas assim é a realidade).

É um óptimo filme, não me interpretem mal. A única coisa que não é óptima neste filme é não estar capaz de comunicar a sua pertinência à escala de que o assunto o mereceria. Senti exactamente o mesmo com “Where The Wild Things Are”.

E se o cinema de Spike Jonze flutua um pouco quando, sem o tentar (não é de todo essa a sua intenção, mas sim a dos temas que os filmes apresentam), sai da sua “alcateia”, prefiro que ele volte a focar as suas atenções em assuntos menos pertinentes e menos globais. Mais loucos e, portanto, mais saudáveis. Tais como viajar à cabeça de John Malkovich. Ou ser o alter ego de Nicholas Cage em “Adaptation”. Isso sim, é Jonze (a meias com o génio criativo de Kaufman) a mostrar os dentes do lobo que pode ser.

Cá fora, no mundo real, tem dificuldades em deixar de ser esse lobinho. É pena. Mas pode ser que entretanto as coisas mudem.

E que a Scarlett nunca chegue a ser um robô.

captain phillips

Acto III

Paul Greengrass, por sua vez, é uma velha raposa com tiques de lobo.

É exímio, ninguém terá dúvidas disso, na manipulação da tensão cinematográfica (muita base de linguagem de documentário, outro efeito não seria de esperar), e um brilhante compositor de ambientes frenéticos e trepidantes.

A “Captain Phillips” faltam-lhe as densidades de camadas emocionais que poderiam elevar o filme para outro patamar. É um bom filme de acção, exemplarmente conseguido (para o propósito a que se sujeitava), mas que deixa a estranha sensação de que o Capitão Phillips (Tom Hanks) só consegue ser devidamente humanizado nos 5 minutos finais do filme. Nesses 5 minutos sim, a coisa transporta-se a outro nível e Greengrass mostra finalmente um vislumbre dos seus tiques de lobo. O problema é que o filme, no seu todo, nunca nos permite desagregar completamente da sensação de estarmos perante as artimanhas de uma velha raposa com potencial para, a espaços, se ir revestindo na pele de um lobo (recordo, por exemplo, “World Trade Center” em que Oliver Stone, e bem, nos consegue transportar para o sentimento das pessoas que estão nos escombros graças ao retrato das inconsoláveis famílias que “ficam” para trás – é esse outro lado do pano que nos faz “viver” aquilo que os personagens soterrados, que estão no centro da acção, vão sentindo ao longo do filme).

No entanto, como acima referi, é um filme de acção extremamente competente e talvez mereça mesmo a nomeação (e o destaque que tem tido). Mas se formos por aí, teremos sempre de concordar na injustiça de Michael Bay nunca ter sido nomeado. Sim, Michael Bay, o campeão dos Razzies. Ele mesmo. Lembram-se de “The Rock”? A fasquia de um bom filme de acção, para mim, está aí. E, infelizmente, “Captain Phillips” não consegue chegar lá.

Já agora, não poderiam ter nomeado o/a Director/a de Casting no lugar de Barkhad Abdi? Acho que ele cumpre e empresta muito ao filme, mas sendo assim Steve Buscemi teria de ser nomeado em todos os anos. O casting foi excelente. A performance nem tanto. Tal como, talvez, o próprio filme.

Falemos de lobos.

Scorsese is out there.

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